Hildegard Angel – Carlota feminista?

CARLOTA FEMINISTA?!

Eis a Imperatriz do Brasil, em quadro do acervo do Palácio da Ajuda, em Portugal, D. Carlota Joaquina, que no filme de Carla Camuratti foi vivida por Marieta Severo, num desempenho memorável.

O Instituto Cultural D. Isabel a Redentora, que fará 20 anos no dia 13 de maio, acaba de descobrir o nome completo da célebre rainha portuguesa, que entrou para a história brasileira com outros múltiplos nomes, como “horrorosa”, “megera”, “ambiciosa”, “fogosa”, “detestável”, entre outros ‘carinhos’ mais.

O mérito da descoberta do nome gigantesco é dos historiadores Juliana Bezerra de Menezes e Bruno Antunes de Cerqueira, em pesquisa nos arquivos da Casa Real da Espanha, em Madrid.

Está lá, na certidão de batismo da infanta espanhola: D. Carlota Joaquina Theresa Marcos Cayetana Coleta Francisca de Sales Rafaela Vizenta Ferrer Juana Nepomucena Fernanda Josepha Luisa Sinforosa Antonia Francisca Bibiana Maria Casilda Rita Genara y Pasquala.

Nenhuma obra histórica ou genealógica jamais havia exposto o nome completo da soberana, nascida às 8 horas da manhã do dia 25 de abril de 1775 no palácio de Aranjuez.

A informação inédita estará no livro “Mulheres e poder: a face feminina do Estado no Brasil oitocentista”, organizado por Bruno Antunes, Fátima Argon e Malcov Terena – o filho do líder indígena Marcos Terena, que hoje cursa mestrado em História Antiga na Sorbonne.

Mais importante do que o nome de Carlota é o papel político que exerceu: o de uma rainha muito católica, mesmo que vacilante e imperfeita. Outro achado dos pesquisadores é que ela acolheu em seu palácio em Botafogo uma moça que sofria violência doméstica do marido. Além de custear a educação das filhas dessa moça, ela “ordenou” ao bispo do Rio de Janeiro que dissolvesse o matrimônio!

Esse episódio, do ponto de vista da história dos direitos das mulheres, diz o historiador Bruno Antunes, “trata-se de uma intervenção pública nas relações conjugais muito afrontosa para o tempo”.

Faltou chamá-la também de “corajosa”.

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GAZETA DO POVO – A esquerda negra, ou: nigga, please (artigo)

I love niggas, I love niggas, I love niggas
Because niggas are me
And I should only love that which is me
I love that you niggas […]

It’s plain to see, you can’t change me
’Cause I’mma be a nigga for life.

(N.W.A., Niggaz4Life)

Paulo Cruz*

Não foi sem espanto que li a recente matéria da revista Piauí “A direita negra”, escrita pelos professores – ou seria jornalistas sem influência? – Flávio Thales Francisco e Márcio Macedo. Não porque esperasse mais de quem se propõe a rotular, já no título, o objeto a ser analisado; nem porque são professores universitários, pois a mera “capacidade para apreensão e manipulação de ideias complexas”, que é característica do intelecto, é diferente da inteligência, “cuja realidade envolve a combinação do intelecto com capacidade de julgamento e acuidade na seleção de fatores explicativos relevantes”. Isso é o que nos ensina um dos maiores intelectuais vivos, Thomas Sowell, citado com menosprezo no artigo – o que seria o suficiente para duvidar da capacidade de julgamento dos autores.

Meu espanto veio da absoluta falta de apreensão, no sentido filosófico do termo, do fenômeno que pretenderam criticar. Os autores reuniram a maior quantidade de pessoas que pudessem rotular sem qualquer constrangimento, fizeram associações palavrosas bem ao gosto dos leitores da revista – “fascismo”, “extrema-direita”, “ultraliberal” – e, no fim, somente fortaleceram a impressão errônea de que a disposição conservadora, a doutrina moral das pessoas absolutamente comuns, é incompatível com o antirracismo – tema já tratado por mim nesta Gazeta do Povo.

O ataque dos autores inicia com uma filigrana absolutamente estúpida: a discussão americana em torno da controversa palavra nigga, a fim de atacar um salão de cabeleireiros de nome Niggaz Place, na Galeria Presidente, situada à Rua 24 de Maio, no Centro de São Paulo, cujos proprietários votaram em Jair Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais. A galeria é um lendário espaço de cultura negra da cidade, com lojas de discos, de roupas e de tênis, e salões de beleza onde cortes étnicos e tranças são realizados com maestria artística. Segundo os autores do artigo, é um desses centros culturais “onde se discute a respeito de tudo: conflitos pessoais, planos de futuro, relacionamentos amorosos, problemas econômicos, futebol, religião e política”; e afirmam ser essa também a realidade do Niggaz Place. Ou seja, é um lugar onde se discute de tudo, menos o próprio nome do local, que eles precisaram denunciar como “ofensivo”.

O termo nigga foi ressignificado pela própria cultura – apesar de ainda ser ofensivo quando dito por brancos ou mesmo fora da cultura hip hop

O problema é que nigga é um termo que, apesar de ser, sim, ofensivo de maneira geral, tornou-se comum dentro da cultura negra americana e é utilizado aos montes em músicas, filmes etc. Como diz o professor de Antropologia H. Samy Alim, da UCLA, em seu Roc the mic right: The language of hip hop culture: “Um dos usos mais controversos da linguagem na cultura hip hop é o termo ‘nigga’. O HHN [Hip Hop National Language, Linguagem Nacional do Hip Hop] percebeu que esta palavra tinha vários significados positivos dentro do grupo, e significados pejorativos fora do grupo, e assim sentiu a necessidade de refletir os significados culturalmente específicos com uma nova grafia (‘nigger’ torna-se ‘nigga’). Um ‘nigga’ é seu chegado, ou um de seus companheiros próximos, seu mano”. Ou seja, o termo foi ressignificado pela própria cultura – apesar de ainda ser ofensivo quando dito por brancos ou mesmo fora da cultura hip hop –, o que, de certo modo, ocorreu aqui também com o termo negro (explico aqui).

Caríssimo leitor, se os autores do referido artigo não tiveram o cuidado de informar seus próprios leitores disso, o resto é ainda mais assombroso. Sigamos.

Em seguida, declaram ter havido uma “guinada para a direita (sic) de mais da metade dos eleitores brasileiros nas eleições de 2018”, e que esta incluiu negros, e que também viabilizou o surgimento de pessoas como o vereador Fernando Holiday; o atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo; e este que vos escreve, alcunhado como “jornalista e influenciador digital” – talvez porque um professor de Filosofia do ensino básico não signifique muita coisa para os nobres acadêmicos. Não que me ofenda ser chamado de jornalista ou mesmo influenciador digital, mas, de fato, não sou jornalista; e, se tenho alguma influência, é por ser o que sou: professor.

Para começar, tal guinada à direita não foi de mais da metade dos eleitores, pois, somando votos brancos e nulos, mais as abstenções, o porcentual passou de 30%. Isso é um reflexo do descontentamento dos eleitores brasileiros com a política e, mais especificamente, com o ocaso da era PT, cujos governos Lula e Dilma se notabilizaram por serem aliados dos pobres, mas que se mostraram, na verdade, mais amigos dos – como chama mesmo? Ah! – rentistas e das empreiteirasJair Bolsonaro não era o candidato da direita, era o candidato anti-PT, e muita gente que votou nele – provavelmente a maioria – nem sequer reconhece tais definições. Sem contar que a polarização que se formou no segundo turno das eleições deixou muitas pessoas que não queriam votar no PT sem opção a não ser o candidato do PSL.

Portanto, o que possibilitou o ressurgimento de um conservadorismo, ainda que incipientíssimo no Brasil – como analiso aqui –, foram os escândalos de corrupção dos governos petistas e a reação à hegemonia cultural da esquerda, que ameaçava (ainda ameaça) valores tradicionais das pessoas mais simples, tais como a família e a religião. Eu mesmo escrevo nesta Gazeta do Povo desde 2015, muito antes de Bolsonaro – que, aliás, foi quem se aproveitou do surgimento de uma direita que, havia pelo menos dez anos, vinha vagarosamente se articulando no país – se tornar o fenômeno político que se tornou. A associação que os autores fazem, no parágrafo seguinte de seu artigo, do falecido ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, que era negro, à direita é algo que não merece sequer atenção, pois não há absolutamente nada que a justifique.

Em seguida, cometem o erro comum daqueles que desconhecem completamente o conservadorismo: a associação política antes da cultural. O conservadorismo brasileiro existe e resiste na cultura popular, e quase nunca se viu representado na política. Dizer que a direita foi “incapaz de formular um discurso sólido que levasse em conta as demandas antirracistas e de inserção social” em “seus partidos” é só usar da famigerada falácia do espantalho, pois o que a esquerda chama de direita é, precisamente, os partidos e políticos patrimonialistas de sempre – os de esquerda inclusos. Se conhecessem ao menos os dez princípios conservadores elencados por Russell Kirk em seu inescapável A política da prudência, ou mesmo o best-seller nacional Pare de acreditar no governo, de Bruno Garschagen, saberiam que essa associação é indevida. Mas é óbvio que o interesse não é informar. O mesmo vale para a ideia de que a direita prega o mito da democracia racial – ou o mito do mito, como diz o antropólogo Hermano Vianna.

O conservadorismo brasileiro existe e resiste na cultura popular, e quase nunca se viu representado na política

Daqui para a frente, os nobres acadêmicos tentam enquadrar o conservadorismo brasileiro em “dois tipos ideais”, um radical e outro moderado. No primeiro, investem pesadamente contra a memória de um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20, Arlindo Veiga dos Santos, professor universitário, ativista e fundador da Frente Negra Brasileira, provavelmente a maior organização de movimento negro do país, e da Ação Imperial Patrianovista Brasileira (ou Patrianovismo), movimento de bases monarquistas e profundamente católicas. O que dizem tratar-se do “fascismo negro dos anos 1930” nada mais é – como diz a maior especialista na vida e obra de Arlindo Veiga, Teresa Malatian, autora do livro O cavaleiro negro: Arlindo Veiga dos Santos e a Frente Negra Brasileira e completamente ignorada pelos autores – que “o profundo descrédito em relação à República oligárquica, a percepção crítica do momento que viviam, sobretudo do ponto de vista político”. A intenção do movimento criado por Arlindo Veiga era uma reação “à ‘desordem’ identificada nas rebeliões tenentistas, no movimento operário, na fundação do Partido Comunista, no Modernismo e no domínio oligárquico, com a proposta de um governo forte, capaz de impedir ‘excessiva’ liberdade. Inspirada pelas encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo Anno, propôs a recatolicização da sociedade mediante a defesa da ‘ordem’ e da ‘justiça social’, numa tentativa de neutralizar as esquerdas e seu avanço no país”.

Ou seja, Arlindo Veiga dos Santos, um homem de família muito humilde que teve oportunidade de estudar, em sua cidade natal, Itu (SP), em colégios católicos de altíssimo nível, se tornou um católico fervoroso e um anticomunista ferrenho. Isso, para desavisados e desonestos, é ser “católico sectário”, “fascista, antissemita e monarquista”, cujas ideias são “descaradamente fascistas”. Teresa Malatian, que não se rende à rotulação apressada de seu biografado, diz que Arlindo Veiga, “em sua própria interpretação errática do fascismo, reteve dele o que lhe parecia adequado ao Brasil, sem distanciar-se da Igreja. Adotou alguns pontos do fascismo, estruturados da AIPB e na FNB, movimentos que correram paralelos durante algum tempo e apresentavam como pontos convergentes o objetivo de deter o avanço do comunismo no Brasil. Sua proposta nunca chegou a admitir o totalitarismo que caracterizou o nazifascismo com a mobilização pelo partido único, pois recusava toda organização político-partidária”.

Malatian ainda diz que a interpretação do sociólogo marxista Clovis Moura, citado pelos autores do artigo, de que Arlindo Veiga era uma “personalidade dividida, porque, se de um lado protesta com ela, de outro é um dominado subliminarmente pela cultura do dominador”, não dá conta da complexidade de um personagem como Arlindo Veiga; Malatian afirma que “a questão é mais complexa do que essa análise sugere”, pois mesmo adversários ideológicos, como o militante de esquerda Hardy Silva, confiavam em sua liderança.

Os grandes feitos de Arlindo Veiga e da Frente Negra são ignorados pelos autores, pois não lhes interessa o resultado de tão grande esforço empreendido por ele e por seus pares na defesa da elevação moral e educacional da população negra, por meio da ética de superação, que era marca de todos os movimentos até a ascensão da esquerda negra e sua ética da reivindicação e da concentração na luta de classes marxista. A Frente Negra era uma organização com grande atuação de mulheres, que valorizava a educação de crianças e imprimia-lhes autoestima elevada. E mais: dizer que “Santos manifesta uma forte xenofobia contra os recém-chegados ao Brasil, que passaram a gozar da preferência dos empregadores, em detrimento dos negros” é pura canalhice, pois a rejeição dele à imigração não é maior que a própria reclamação dos movimentos negros atuais em relação à mesma imigração, que deixou os ex-escravizados sem perspectiva no pós-abolição. O seu panfleto radical, usado e abusado por seus caluniadores, no qual diz “Somos Pátria-Nova, extrema-direita radical e violenta, afirmadores de Deus e sua Igreja, afirmadores da Pátria Imperial e Católica, inimigos irreconciliáveis e intolerantes do burguesismo, plutocratismo e capitalismo materialista, ateu, gozador, explorador, internacionalista, judaizante e maçonizante”, não pode ser utilizado sem contexto e sem relacionar a retórica inflamada do grande orador com suas ações concretas, de alguém que jamais foi violento. Malcolm X fez o mesmo. Ou não?

Agora vem o absurdo dos absurdos: a associação de Arlindo Veiga dos Santos a Sérgio Camargo, chamado de “seu discípulo fortuito”, é surreal, pois este não tem absolutamente nenhuma contribuição à luta antirracista no Brasil, enquanto aquele é um de nossos maiores expoentes. A ligação se dá porque Camargo estaria movido “por um autoritarismo similar, [que] faz tábula rasa de toda a trajetória da militância negra ao longo do século 20 para voltar ao ponto zero, ao isabelismo, exaltando os próceres abolicionistas negros, como André Rebouças”, e cuja “maior pedra no sapato […] é a figura de Zumbi”. Entretanto, Zumbi era uma referência para Arlindo Veiga e para toda a militância negra de sua época, pois, como diz Malatian, “o personagem representava a capacidade de resistência dos cativos ao sistema, sem anular o protagonismo dos próceres da monarquia que fizeram as leis abolicionistas”. Arlindo Veiga chegou a escrever um soneto exaltando Palmares. Sobre Sérgio Camargo, eu mesmo já escrevi, por pura necessidade de me distinguir desse sujeito, que para mim representa nada mais que fina-flor do reacionarismo bolsonarista, um mero escravo ideológico desse governo de ineptos. Camargo jamais receberá, como Arlindo recebeu, um elogio como esse, do supracitado Hardy Silva – que, como dito, era de esquerda:

Veiga Santos! Ainda uma vez, meus abraços! Tu, assim jovem e forte, poderoso e saudável de espírito e grande e imenso nesse teu coração cheio de amor idealístico, serás, um dia que já vem próximo, o Magnânimo Redentor da opressão da raça negra, filha da nossa grande Pátria!

ética de superação era marca de todos os movimentos até a ascensão da esquerda negra e sua ética da reivindicação e da concentração na luta de classes marxista

Entretanto, as acusações contra Arlindo Veiga são antigas, datam de sua própria época. Outro grande expoente do movimento negro brasileiro e também fundador da Frente Negra, José Correia Leite – que deixou a organização por desavenças políticas com o Arlindo –, também o acusava de fascismo. Trato dessa disputa em meu curso O Brasil é um país racista?

Curiosamente, Arlindo Veiga dos Santos não foi o único a simpatizar com ideias politicamente controversas de sua época. W.E.B. Du Bois, o maior intelectual negro americano do século 20, viajou para a União Soviética e para a China em 1926 e 1958, e para a Alemanha nazista em 1936, e suas opiniões acerca dos regimes ditatoriais desses lugares são motivos de crítica até hoje. Apesar de condenar o tratamento dado aos judeus, louvou o desenvolvimento econômico do nacional-socialismo e o fascismo hitleriano como a “visão mais surpreendente da história moderna”. Isso é o que nos diz seu maior biógrafo, David Levering Lewis, em W.E.B. Du Bois The Fight for Equality and the American Century, 1919-1963. Sobre a China, tirou fotos sorridentes ao lado de Mao Tsé-tung e, num discurso na Universidade de Pequim, disse que “a União Soviética está superando o mundo em educação popular e superior, porque desde o início iniciou seu próprio sistema educacional completo. A essência da revolução na União Soviética e na China, e em todas as nações da ‘cortina de ferro’, não é a violência que acompanhou a mudança; não mais do que a foi a fome em Valley Forge a essência da revolução americana contra a Grã-Bretanha. A verdadeira revolução é a aceitação por parte da nação do fato de que doravante o objetivo principal da nação é o bem-estar da massa do povo e não de uns poucos sortudos”. Também admirou-se do colonialismo japonês na Manchúria e louvou Stalin, em sua morte, com um artigo em sua homenagem, chamando-o de “um grande homem […] simples, calmo e corajoso”. Tudo isso enche os olhos de militantes socialistas e comunistas – certamente a filiação ideológica dos próprios autores do artigo em questão –, mas, diante dos horrores de tais regimes – os 45 milhões que morreram de fome na China e o horror do Holodomor são exemplos –, isso está muito longe de ser unanimidade.

Du Bois foi adversário de ideias daquele que é associado ao segundo “tipo ideal”, o moderado, da chamada direita negra, Booker T. Washington. Sobre este pouco direi, pois já escrevi um artigo sobre ele e trato em detalhes dessa rivalidade – que, para mim, nada mais é que complementariedade –, entre os dois maiores expoentes negros americanos de todos os tempos, em meu curso, citado acima. Para os autores, tanto Booker T. Washington quando Thomas Sowell são “partidários de uma orientação liberal da política e da economia, eles questionaram o papel do Estado no combate ao racismo, defendendo a ação individual e o empoderamento econômico dos negros como formas de superar as desigualdades raciais”. E dizem isso com, digamos, nojinho. O maior empreendimento de Booker T. Washington, a Tuskegee University, nem sequer é mencionado.

Para os autores do artigo da Piauí, se você é negro e não milita nos movimentos de esquerda, na turba permitida pelos acadêmicos viúvas de Karl Marx, sofre de “subalternidade consentida”

Washington, que nasceu escravo na Virginia, no sul dos Estados Unidos – diferente de Du Bois, que nasceu no norte, de uma família de classe média negra com ascendência holandesa –, sete anos após a abolição, aos 16 anos, parte para a cidade de Hampton, onde “os estudantes pobres aprendiam um ofício e podiam pagar com trabalho uma parte da pensão”, como diz em sua autobiografia Memórias de um negro americano. Hampton ficava a mais de 700 quilômetros de distância de sua casa. Suportou fome e frio, e chegou a dormir na rua. Não é para menos a ênfase de Washington na ética de superação, dizendo que “não devemos permitir que nossas queixas ofusquem nossas oportunidades”. Seus “esforços não eram utópicos, muito menos revolucionários. Ele sabia que o tempo, a liberdade econômica e o empreendedorismo eram aliados nesse processo; que qualquer tentativa de exigir, por meios políticos, direitos iguais, poderia resultar em mais segregação”. Os articulistas ainda citam Marcus Garvey, Martin Luther King Jr., George Shyuler, Thomas Sowell e o recém-falecido – e homenageado por este humilde escriba – Walter Williams, fazendo uma associação desses autores com o vereador Fernando Holiday, recentemente reeleito com ainda mais votos, somente para dizer que:

O percurso histórico a respeito dessas correntes de pensamento explicita que nem o conservadorismo é um privilégio de brancos nem a direita negra forma um bloco coeso e unitário, podendo ter variantes e mesmo rivalidades. Debates antigos ganham formas novas, reatualizados num contexto em que o racismo e a inserção social do negro são questões ainda muito longe de serem solucionadas.

Como se isso não fosse uma realidade também nas esquerdas e no próprio movimento negro. Agora pergunto: é a isso que se reduziu os pensadores negros de esquerda no Brasil? Que saudades de Alberto Guerreiro Ramos!

Para encerrar sua diatribe, os diletos militantes dão um salto, como não poderia deixar de ser, para a América de Trump; e voltam para o Brasil para cometerem outra rotulação ofensiva:

No Brasil, os negros são convidados a figurar na órbita do governo Bolsonaro em geral para se oporem aos movimentos antirracistas ou para ocuparem papéis político-institucionais subalternos em que sua cor é utilizada estrategicamente para esvaziar ou negar a questão da desigualdade racial. A “subalternidade consentida” engendra da parte dessas personalidades negras uma adesão aos princípios da dominação, que varia da verborragia reacionária de Sérgio Camargo ao silêncio quanto à questão racial do deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ), mais conhecido pelas alcunhas que adotou durante a campanha eleitoral: “Hélio Bolsonaro”, “Negão de Bolsonaro” ou “Hélio Negão”.

Pois é, entraram ainda na roda, alvos dessa metralhadora giratória de adjetivações dos articulistas da revista que desistiu de “contar bem uma história” – o que aconteceu, João Moreira Salles?! –, o deputado Hélio Lopes (sobre quem também já falei) e Carlos Decotelli, ex-ministro relâmpago da Educação. É inacreditável.

Não há uma direita negra no Brasil, pois nem sequer há a preocupação para que ela se articule. O que há são indivíduos

Ou seja, se você é negro e não milita nos movimentos de esquerda, na turba permitida pelos acadêmicos viúvas de Karl Marx, sofre de “subalternidade consentida”, como se a adoração pelo PT, por Lula e por toda verborragia acadêmica europeia que alimenta as teses identitárias negras atuais fosse sinal de absoluta independência. Como se negros não pudessem simplesmente ter um pensamento autônomo. E terminam em tom falsamente profético – posto ser ilusório:

Esse movimento, porém, terá muito trabalho para se constituir, pois o que existe até agora, como vimos, são lideranças negras de direita que atribuem a si mesmas um papel subalterno, negam o caráter sistêmico do racismo e não oferecem propostas para a construção de subjetividades negras que sirvam de alternativa às da esquerda. Além disso, essas lideranças vivem desconectadas da população negra, estão pouco atentas às transformações sociais que ocorrem atualmente nas periferias do país e do mundo […]. Sua pregação liberal primária, ademais, é incapaz de pensar um empreendedorismo negro e periférico.

É ilusório porque simplesmente não há uma direita negra no Brasil, pois nem sequer há a preocupação para que ela se articule. O que há são indivíduos. Aqui e ali, alinhados ou não a esse governo catastrófico, cuja militância negra só existe para fins de polarização política nefasta. O alinhamento episódico em algumas pautas não deve ser tratado como movimento político – uma vez que nem sequer há, como diz Norberto Bobbio, “ligames profundos com os grupos sociais e o enraizamento neles”, e nem uma liderança. Tampouco é um movimento social, pois não tem “o acento sobre a existência de tensões na sociedade, a identificação de uma mudança, a comprovação da passagem de um estádio de integração a outro através de transformações de algum modo induzidas pelos comportamentos coletivos”. Não estão desconectadas da população negra, são a população negra. Não há “pregação liberal primária” (Walter Williams dando piruetas no túmulo); o que há nas periferias é a mais profunda aplicação intuitiva da lógica do liberalismo econômico e do espírito de associação.

Se há uma direita negra, ela não está no governo Bolsonaro nem mesmo na política, mas na tradição e na resistência cultural das periferias

Os conservadores negros são milhares – quando não milhões – de indivíduos que não se curvaram às doutrinas marxistas e estruturalistas porque não têm tempo a perder com academicismo de quem vive de bolsa de estudos. Se há uma direita negra, ela não está no governo Bolsonaro nem mesmo na política, mas na tradição e na resistência cultural das periferias; nos ônibus, trens e metrôs dos grandes centros; nos bailes Nostalgia que – graças a Deus! – ainda teimam em ocorrer; na caneta do rapper que, ao fazer uma crônica de sua quebrada, deseja apontar um caminho a seus irmãos; naquele pretinho e naquela pretinha que aprenderam que “o reino de Deus se conquista à força”, que depositam seus esforços, como todo aquele que deseja vencer as adversidades, naquilo que André Rebouças – para mim o maior intelectual negro brasileiro de todos os tempos e personagem da maior aula de meu curso – chama de iniciativa individual, definida por ele num artigo escrito em 1877:

A iniciativa individual […] é a faculdade ou a capacidade, própria de cada pessoa, para encetar ideias ou ações novas. A iniciativa individual pressupõe vários elementos intelectuais e morais; enumeremos dentre eles os mais notáveis: consciência de si, a fé nos recursos intelectuais dados pelo Criador e aperfeiçoados por esforço próprio; a independência de caráter; a inata aversão a qualquer tutela; a sublime aspiração de ser o que os yankees denominam self made man, um homem feito por si mesmo, sem padrinho nem protetores; o espírito ou talento inventivo; o saber tirar recursos ainda dos casos extremos; o tato da ocasião […]; a força de vontade – o self-help; o saber lutar – jamais desesperar; a coragem contra o ridículo – arma predileta da rotina contra a iniciativa individual, principalmente nos países latinos e neolatinos; enfim, principalmente e acima de tudo, a fé em Deus e na imortalidade da alma. É indispensável que nos dias de agonia extrema, quando o próprio céu oculta seu azul e elimina suas estrelas, se possa dizer: “Acima dessa abóbada de chumbo está o Deus de Colombo, de Franklin e de Fulton”.

Diante disso, fortalecendo nossa vocação e dando o primeiro passo, como dizia o meu saudoso pai: “forças extraordinárias virão em teu auxílio”. Foi assim com todos os luminares negros acima citados, tem sido assim comigo, e continua sendo assim com milhões e milhões de pessoas. Não é exceção, é história, é cultura, é vida negra em movimento – e esse é o verdadeiro esforço conjunto. Não é “subalternidade consentida”, é estratégia de sobrevivência.

Mas isso a esquerda negra, que só crê no coletivo abstrato, jamais compreenderá.

*Paulo Cruz é professor de Filosofia da Rede Pública do Estado de São Paulo e fundador dos Cursos Paulo Cruz, em que trabalha a temática racial e abolicionista da História do Brasil.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/paulo-cruz/esquerda-negra-piaui/

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O GLOBO – Educação e cultura na reconstrução pós-pandemia (artigo)

Educação e cultura na reconstrução pós-pandemia

O que será do novo tempo quando o risco à vida for controlado?

Paulo Knauss*

16/12/2020 – 01:00

Não há dúvida de que as vacinas contra a Covid-19 se aproximam. O avanço da ciência enche o mundo de esperança. Os resultados recentes das eleições brasileiras indicam que os novos prefeitos terão como tarefa imediata se dedicar à saúde pública. A ciência e a cidadania demonstram que são instrumentos de defesa da vida. Nada mais atual.

Aos poucos se impõe outra interrogação: se o momento é de sobrevivência, o que será do novo tempo quando o risco à vida for controlado? O senso de responsabilidade em relação ao presente exige que se coloque em perspectiva o que virá depois. Então, a esperança de vencer a batalha pela saúde deve mirar um futuro não tão distante. É preciso uma resposta pragmática antecipadora.

Fala-se muito de um novo normal, que melhor seria traduzido por uma agenda pública renovada. Não há como negar que a pandemia trouxe novos comportamentos, mas também carrega consequências econômicas evidentes, sublinha as injustiças sociais e mexe com corações e mentes. Portanto, se há vida depois da pandemia, certamente isso depende da criação de oportunidades para toda gente e do fortalecimento de laços sociais.

Está na hora de lembrar que, depois da Segunda Guerra Mundial, a educação e a cultura tiveram papel importante na reconstrução social. A diplomacia da paz, comprometida com a cooperação internacional, resultou na criação da ONU, e, na sequência quase imediata, foi instalada a Unesco como agência dedicada à educação e à cultura, antes da OMS e da OMC.

Em vários países atingidos profundamente pela guerra, a valorização da educação pública universal e a implementação de políticas culturais foram decisivas para superar a tragédia e a miséria. Na França, a liderança do escritor André Malraux na criação do Ministério de Assuntos Culturais marcou época, tornando os centros culturais focos da vida social. Especialmente onde as memórias da dor e da violência eram incontornáveis, a educação e a cultura restabeleceram o gosto pela convivência humana e pela criação coletiva, traduzindo a capacidade de resiliência dos povos.

Noutra época, a história contemporânea da Coreia do Sul também atesta que educação e cultura são vias essenciais para o desenvolvimento social.

No Brasil de hoje, os exemplos históricos indicam a necessidade de rever o ponto de vista que relega a educação e a cultura ao segundo plano, o que foi estabelecido por uma ideia torta de democracia contra a pluralidade, e que busca, nos impasses da pandemia, sua justificativa. Se no presente isso é incongruente, não dar o devido peso à educação e à cultura significa negar as oportunidades do futuro.

Na contramão do que estamos vivendo, é preciso reinstalar a educação e a cultura como função de Estado e direito de cidadania. Os governos não podem escapar a seu dever de inovar práticas e mudar conceitos. A rede educacional e a economia criativa servem para enfatizar que a educação e a cultura são plataformas de produção de riquezas e garantia do sustento de muitos trabalhadores, definem graus de qualidade de vida. No mundo da concentração urbana, as cidades são a arena possível de reconciliação, e valorizar a rua como espaço público significa respeitar o próximo. Por meio da educação e da cultura, a sociedade se encontra e se reconhece, ganha força no plano simbólico fazendo uso das tecnologias e do conhecimento, do patrimônio cultural e da imaginação.

Foi o poeta Ferreira Gullar que cunhou a máxima de que “a arte existe porque a vida não basta”. Assim, o poeta serve de guia para afirmar a condição humana. A vacina da vida será uma conquista do presente, mas, sem educação e cultura, não haverá como encontrar a vitalidade essencial do novo tempo. Isso vale para o país do futuro não desistir do projeto nacional! Mas a atualização é necessária. Agora, o futuro é pra já com educação e cultura.

*Paulo Knauss é professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e foi diretor do Museu Histórico Nacional.

Fonte: https://oglobo.globo.com/opiniao/educacao-cultura-na-reconstrucao-pos-pandemia-24798491

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FBN – Convite para evento virtual sobre a Casa de Bragança

O Brasil que conhecemos do ponto de vista territorial só é possível porque, com a vinda da corte em 1807/08, executava-se uma política de Estado prevista mais de um século antes: a de mudar o epicentro do império ultramarino lusitano, de Lisboa para o Rio de Janeiro. De D. Maria I e seu filho, o Regente D. João, depois aclamado e sagrado em terras brasílicas, até a prole da Regente D. Isabel, a última Bragança a reinar no País, o Brasil viu nascer e crescer inumeráveis príncipes e princesas, aos quais se devotou. A maior parte dessa realeza que se tornou “nacional” dos anos 1820 em diante era feminina. Do ponto de vista das Relações Internacionais, as uniões dinásticas celebradas no Brasil trouxeram novos engajamentos e arranjos institucionais.

A Fundação Biblioteca Nacional convida para um episódio da série “200 da Independência”

Quinta-feira, 03 de dezembro de 2020 às 17h

“A FAMÍLIA REAL PORTUGUESA E IMPERIAL BRASILEIRA”

Bruno Antunes de Cerqueira (Historiador, Advogado e Indigenista (Funai))

Luciano Cavalcanti de Albuquerque (Arquiteto e Historiador)

Moderadores:
João Carlos Nara Jr. (CCD-FBN)

Luiz Ramiro (CPE-FBN)

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira é historiador com formação na PUC-Rio, especialista em Relações Internacionais pelo Iuperj-Ucam, advogado com formação na PUC-Rio e no UniCEUB, membro das Comissões de Direitos Humanos, Memória e Verdade e Direitos dos Povos Indígenas da OAB. Foi assessor de Cerimonial na Alerj e assessor parlamentar na CMRJ, antes de assumir o cargo de indigenista especializado da Funai, em Brasília. Na Funai atuou na Presidência e em todas as diretorias, tendo encetado o manual de Redação Oficial da autarquia e trabalhado no Serviço de Análise de Contestações aos Procedimentos de Identificação de Terras Indígenas etc. Idealizou e fundou, com Otto de Alencar de Sá Pereira, em 2001, o Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora e tem diversos artigos e livros publicados sobre a história da Monarquia e da realeza do Brasil.

Luciano Cavalcanti de Albuquerque,  Arquiteto e Historiador da Arte e Arquitetura é restaurador de monumentos pelo Instituto Ítalo Latino Americano de Roma, emérito do IPHAN Instituto Histórico e Artístico Nacional e do IBRAM Instituto Brasileiro de Museus. Membro do Polo Novo Rio Antigo, da Comissão do Patrimônio Histórico do IAB Instituto dos Arquitetos do Brasil, do Conselho Estadual de Tombamento do Rio de Janeiro, do IHP Instituto Histórico de Petrópolis e Diretor o Ateliê Belmonte, escritório de arquitetura, decoração e restauração. Coordenador do curso de pós-graduação em Restauração e Arqueologia do INBEC – Instituto Brasileiro de Educação Continuada. Presidente da SATHE Sociedade de Amigos do Theatro D. Pedro em Petrópolis. Com artigos e trabalhos publicados em vários jornais e revistas especializadas.

 

Fundação Biblioteca Nacional

Secretaria Especial da Cultura

Ministério do Turismo

Governo Federal

Acesse o canal do Youtube da FBN para acompanhar esse e outros eventos:

www.youtube.com/c/FundacaoBibliotecaNacional

Para ir direto ao episódio da próxima quinta-feira às 17h acesse:

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Estadão – O autorretrato de D. Pedro II (artigo)

Maria de Fátima Moraes Argon e Bruno da Silva Antunes de Cerqueira*
29 de novembro de 2020 | 07h30

Maria de Fátima Moraes Argon e Bruno da Silva Antunes de Cerqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

As fontes primárias ora se revelam, ora se escondem e, ainda assim, com exame rigoroso, podem criar armadilhas, provocando enganos, falhas e, até mesmo, nos levando a erros de interpretação. Parece precipitado afirmar que a autoria do conhecido “autorretrato” de D. Pedro II seja de D. Isabel, tendo por base exclusivamente a caligrafia, uma vez que esta apresenta características da letra do imperador. A imagem está conservada no acervo particular da família.

Esse “autorretrato” foi exposto em 2013, na mostra “De volta à luz”, organizada pelo Instituto Cultural Banco Santos, em São Paulo, estando reproduzido tanto o anverso como o verso na página 57 do belíssimo catálogo da exposição, que traz textos de Pedro Corrêa do Lago, Leandro Karnal, Sylvie Aubenas, Marcus Venicio Toledo Ribeiro, Marcello Dantas e dos curadores Joaquim Marçal Ferreira de Andrade e Rubens Fernandes Junior.

Na vasta correspondência da família imperial conservada no Arquivo Histórico do Museu Imperial, encontramos vestígios de que tanto o pai como a filha se aventuraram na arte de fotografar. Conforme Bia e Pedro Corrêa do Lago apontam, na obra “Os fotógrafos do Império” (2005, p. XIV), “O próprio imperador dedicava-se à fotografia em papel nos anos 1850”. Isto levanta a possibilidade de o imperador ser o autor do conhecido daguerreótipo da Princesa D. Leopoldina e do ambrótipo das duas irmãs, ambos da década de 50, que se encontram no acervo do Museu Imperial.

Dois meses depois de assistir, em companhia das irmãs D. Januaria e D. Francisca, no Rio de Janeiro, em 17 de janeiro de 1840, à primeira demonstração da daguerreotipia feita pelo francês Louis Comte, o imperador adquiriu um aparelho, provavelmente entusiasmado com a invenção e com a possibilidade de usá-lo. Outro fato importante a ser destacado é que, segundo os descendentes do fotógrafo Peter Hees (1811-1881), D. Pedro II solicitava a sua “companhia para ir captar paisagens de Petrópolis dos seus pontos mais elevados”. Outro exemplo do “imperador fotógrafo” é o registro de D. Thereza Christina em seu diário, na manhã de Natal de 1863, no qual menciona que durante a cerimônia de crisma das filhas por D. Frei Pedro de Santa Marianna e Souza, “o Imperador tirou o retrato [da missa] e também de todo o grupo”.

Quanto a D. Isabel, parece pouco provável que, entre 1855 e 1860, tivesse conhecimento e habilidade suficientes para produzir o “autorretrato” do pai, sobretudo, levando em consideração que começou a estudar fotografia com Revert Henri Klumb somente no segundo semestre de 1861. Em bilhete escrito entre 1861 e 1864, D. Isabel solicita ao pai reagentes químicos para “tirar vistas” do palácio: “Se nós podermos [pudermos]. O que acho que sim. Não se ria de mim. I. C. [Isabel Christina]”.

Outro ponto de reflexão é que ainda não são conhecidas fotografias da lavra de D. Isabel nos acervos de seus descendentes, oriundos da coleção da família iniciada por D. Pedro II com a aquisição dos daguerreótipos produzidos por Louis Comte, em 1840. Como se sabe, poucos meses antes de morrer, no exílio, D. Pedro doou à Biblioteca Nacional a Colecção D. Thereza Christina Maria — composta de aproximadamente 25 mil fotografias reunidas ao longo do tempo por ele, pela imperatriz e pelos Condes d’Eu. O restante do arquivo fotográfico era composto, sobretudo, de retratos da intimidade familiar e permaneceu com D. Isabel.

Com a morte de D. Isabel em 1921 e, sobretudo, com a do Conde d’Eu, em 1922, o acervo se dispersa. A maior parte ficou sob a guarda do primogênito, D. Pedro de Alcantara, e outra com D. Maria Pia, viúva de seu irmão, D. Luiz.

Em 1940, morre, em Petrópolis, D. Pedro de Alcantara e, em 1951, sua viúva, D. Elisabeth, sendo o arquivo novamente desmembrado entre os filhos do casal. D. Pedro Gastão compôs a Coleção D. Pedro de Orleans e Bragança, com mais de 1.000 fotografias; D. João Maria, a Coleção D. João de Orleans e Bragança, com 781 imagens, hoje depositada no Instituto Moreira Salles, em regime de comodato, pelo seu filho D. João Henrique. Mais recentemente, em 2008, deu-se publicidade ao conjunto de fotografias que estava com a filha caçula, D. Thereza Maria Theodora de Orleans e Bragança e Dobrzensky. É de se supor que as outras duas filhas, D. Isabel (Condessa de Paris) e D. Francisca (Duquesa de Bragança) tenham herdado parte do acervo dos pais, mesmo que em menor monta.

Conforme ressaltamos no livro Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil (2019), a rigor, não pode existir uma coleção com o nome de D. Isabel, uma vez que a mudança de titularidade nos arquivos de família geralmente é um impeditivo para identificar a quem pertenceu um determinado conjunto de documentos, não sendo possível, portanto, distinguir o que era próprio do pai e o que era da filha.

Na hipótese de haver uma “Coleção Princesa Isabel” forçosamente teriam de ser reunidos todos os acervos fotográficos distribuídos entre os diversos ramos dos Orleans e Bragança, o que evidentemente jamais ocorreu e com toda probabilidade nunca ocorrerá.

*Maria de Fátima Moraes Argon, historiadora e arquivista, é pesquisadora aposentada do Ibram e foi a responsável pelo Arquivo Histórico do Museu Imperial por mais de 20 anos. É presidente do Instituto Histórico de Petrópolis

*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, historiador e advogado, é indigenista da Funai em Brasília. É fundador e presidente do Instituto Cultural D. Isabel

Fonte: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/o-autorretrato-de-d-pedro-ii/

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Maestro Wander de Oliveira em concerto na Catedral de Santa Teresinha do Menino Jesus, em Uberlândia (MG)

O conselheiro idiiano Wander de Oliveira acaba de lançar o canal “Hinos da Fé Cristã”, na plataforma de vídeos YouTube, no seguinte endereço: https://www.youtube.com/channel/UCWdP1Dx8tCDpa09MIwPLX-w

A ideia do canal é resgatar os clássicos dos antigos hinários, tanto católicos como protestantes. A edição dos vídeos é realizada pela Prof. William Rezende Quintal, mestre em História da Arte pela UnB e conselheiro-secretário do IDII.

Wander de Oliveira Alves de Souza é goiano de Piracanjuba, onde estudou Música, primeiramente, com seu próprio pai, Rev. Manoel Alves de Souza (1910-1976), da Igreja Presbiteriana.

Bacharelou-se em Geografia na Universidade Federal de Goiás em 1975, e em Música na mesma universidade, em 1981. Especializou-se em Musicoterapia pelo Instituto Vida Una, em convênio com a Faculdade de Ciências da Saúde do DF, em 2009. É organista, regente de coral e professor de música.

Wander de Oliveira em encontro de quartetos masculinos, na Igreja Memorial Batista de Brasília, em 2016.

Associou-se ao IDII em 2017, tornando-se conselheiro administrativo no ano seguinte.

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IDII – Nota oficial sobre as manifestações antirracistas, antifascistas e pró-Democracia

 

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NOTA OFICIAL DO IDII SOBRE AS MANIFESTAÇÕES ANTIRRACISTAS, ANTIFASCISTAS & PRÓ-DEMOCRACIA

 

 

O Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora (IDII), entidade que preserva e divulga a memória da chamada “Princesa Isabel” e dos abolicionistas brasileiros, além de apregoar a concretização dos ideais de inclusão social e cidadanização defendidos e teorizados por André Rebouças, Joaquim Nabuco, José do Patrocinio, Luiz Gama, Antonio Bento et alii, naquilo que intitulamos neoabolicionismo, se solidariza com os movimentos sociais e políticos que têm pugnado pela manutenção e o fortalecimento da Democracia, pelo combate às variadas formas de racismo e de neofascismo que o Brasil e o mundo têm visto crescer.

Particularmente tem nos agredido o fenômeno das “fake news”, visível e despudoradamente inimigas do Estado Democrático de Direito, e as agressões verbais e físicas existentes entre adversários políticos, como se se tratasse de campos de combate bélico e não do espaço privilegiado da Politeia, herdada de nossos antepassados helênicos, e da Civitas, dos ancestrais romanos.

Ensina a Doutrina Social da Igreja Católica (DSI), à qual este Instituto se filia, posto não seja agremiação religiosa e menos ainda braço oficial da Santa Sé ou de qualquer diocese, pelo evidente liame isabelista que o conecta à história da Abolição no Brasil, que a dignidade ínsita para o exercício das altas funções da Administração Pública não é negociável, sendo absolutamente condenável que agentes públicos atuem de modo indecoroso, pusilânime e/ou autoritário, imaginando sobrepor-se à Lei, quando constituem, na verdade, seus primeiros servidores e leais acatadores.

O ano de 2020 celebra o septuagésimo-quinto aniversário do armistício na Segunda Guerra Mundial, em cujo processo final, como se sabe, as tropas da Força Expedicionária Brasileira, embora numericamente pequenas, tiveram participação heroica em defesa do regime democrático e das liberdades civis e políticas, contra o fascismo e o nazismo europeus, tendo nossos “pracinhas” tombado pelo supremo desiderato do fim dos totalitarismos de todos os matizes e pela fraternidade universal.

Em nome da memória desses gloriosos Brasileiros, mas também da de todos os abolicionistas e isabelistas, o IDII reafirma sua fé na Democracia, sua comunhão com a Doutrina Social da Igreja, especialmente no que concerne à “opção preferencial pelos pobres”, defendida nos dois mil anos de cristianismo e hoje encarnada na figura veneranda do Papa Francisco.

Não admitimos que negros, indígenas, LGBTs ou quaisquer outros segmentos sociais com características particulares diversas do prevalente em nossa sociedade sejam abordados de forma truculenta por agentes do Poder Público, que os devem proteger, bem assim que sofram qualquer forma de preconceito.

Basta de “balas perdidas”, que ceifam as vidas inocentes de crianças pretas e pobres neste Brasil desigual, injusto e horripilante, que insiste em manter a herança escravista mais de 130 anos após a Abolição!

Por fim, reiteramos que este Instituto apoia as manifestações pacíficas que, sem prejuízo do cuidado devido ao perigo de contágio pela pandemia do coronavírus Sars-CoV-2, têm se sucedido no País, com palavras de ordem a favor do regime democrático sob a égide da Constituição Cidadã de 1988, e contra as investidas autoritárias, discriminatórias e retrógradas que parecem ter ganhado voz nos últimos anos em nossa sociedade.

 

Brasília, 12 de junho de 2020.

 

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira

Presidente

 

João Pedro de Saboia Bandeira de Mello Filho

Vice-Presidente

 

William Rezende Quintal

Secretário

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IDII – Carta Aberta às Autoridades em prol da Igreja do Rosário

 

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Carta Aberta do IDII às Autoridades Brasileiras em prol da Igreja do Rosário

 

Brasília, 07 de janeiro de 2020.

 

Aos Excelentíssimos Senhores

Jair Messias Bolsonaro,
Presidente da República Federativa do Brasil

Senador da República David Samuel Alcolumbre Tobelem,
Presidente do Senado Federal

Deputado Federal Rodrigo Felinto Ibarra Epitacio Maia,
Presidente da Câmara dos Deputados

Ministro José Antonio Dias Toffoli,
Presidente do Supremo Tribunal Federal

Dr. Antonio Augusto Brandão de Aras,
Procurador-Geral da República

 

 

Com os melhores votos de Ano Novo, dirigimo-nos a Vossas Excelências para demandar em nome deste Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora e dos Irmãos Conscientes da Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, localizada na Cidade do Rio de Janeiro, providências quanto ao estado lastimável em que se encontra o templo da Irmandade, na Rua Uruguaiana, 77, Rio de Janeiro.

Em ocasião anterior (24/05/2008), este Instituto endereçou carta aberta aos então Senhores Ministros de Estado da Cultura, Gilberto Gil, e de Políticas de Igualdade Racial, Edson Santos, rogando que auxiliassem a Irmandade do Rosário na reconstrução de sua igreja, haja vista a penhora judicial do próprio bem tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde a década de 1930. Atendendo parcialmente ao pleito, o MinC determinou ao Iphan que procedesse a obras emergenciais na Igreja do Rosário, evitando que a fiação elétrica entrasse em curto-circuito e destruísse esse riquíssimo e valoroso prédio histórico.

É de quase todos os brasileiros consabida a história dessa igreja carioca mas, para efeitos mnemônicos, resgata-se. A Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos foi palco dos acontecimentos que culminaram em nossa emancipação enquanto Estado nacional desde março de 1808, quando a Corte portuguesa transmigrou-se para sua antiga colônia americana. Funcionando, então, como Sé Episcopal do Rio de Janeiro, nela o Príncipe Regente D. João, a família real e os altos dignitários foram então recebidos para o Te Deum Laudamus de celebração pela travessia.

Em 09 de janeiro de 1822, sediando o Senado da Câmara em seu consistório, uma deputação saída em direção ao Paço da Cidade do Rio de Janeiro convenceu o Príncipe Regente D. Pedro de Alcantara a não sair do Brasil, resultando no célebre “Dia do Fico”.

Em 13 de maio de 1822, portanto antes do “Grito do Ipiranga” (07 de setembro), D. Pedro foi aclamado “Defensor Perpétuo do Brasil” na mesma Igreja do Rosário.

Feita a Independência e mantendo-se unido o Brasil, infelizmente manteve-se também a escravidão. Pois foi na Igreja do Rosário que, na década de 1880, constituiu-se o quartel-general do Movimento Abolicionista brasileiro.

No ano passado, por ordem do ínclito Juízo da 23ª Vara Federal do Rio de Janeiro, no âmbito de Ação Civil Pública movida pela Procuradoria da República no Rio de Janeiro, a Igreja do Rosário foi interditada, uma vez que inexiste segurança para os fiéis, celebrantes e visitantes em geral.

Estamos às vésperas do Bicentenário da Independência do Brasil. É inadmissível que a Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos permaneça no estado de abandono em que se encontra, mormente tendo em vista que se trata de patrimônio histórico nacional e não apenas bem particular de uma associação de fiéis católicos do Rio de Janeiro.

Certos de que a Vossas Excelências aprazerá contribuir de modo indelével para a recuperação desse tesouro da História do Brasil, subscrevemo-nos, ficando à disposição.

 

Respeitosamente,

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira
Presidente do IDII

João Pedro de Saboia Bandeira de Mello Filho
Vice-Presidente do IDII

William Rezende Quintal
Secretário do IDII

***

Para saber mais:

Carta Aberta aos Ministros Gilberto Gil e Edson Santos (24/05/2008) – https://idisabel.wordpress.com/2008/05/07/idii-carta-aberta-aos-ministros-gilberto-gil-e-edson-santos/

Reportagem da Globonews sobre os 123 anos da Lei Áurea, 10 anos do IDII e abandono da Igreja do Rosário – https://youtu.be/uUL_NIjm0hA

Petição inicial da ACP proposta pelo Procurador da República Dr. Jaime Mitropoulos – http://www.mpf.mp.br/rj/sala-de-imprensa/docs/pr-rj/acp-igreja-de-nossa-senhora-do-rosario-e-sao-benedito-dos-homens-pretos

 

Página oficial do Instituto – http://www.idisabel.org.br/

Blog do IDII – https://idisabel.wordpress.com/

Página do IDII no Facebookhttps://www.facebook.com/idisabel.org.br/

Canal do IDII no YouTubehttps://www.youtube.com/channel/UCJRhUCplhl-hn-PqKvI3M7w

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IG – Autobiografia de princesa Isabel vira livro

 

Autobiografia de princesa Isabel vira livro. Veja fotos

Maria de Fátima Argon e Bruno da Silva A. Cerqueira reuniram 20 anos de pesquisa sobre o período da transição da monarquia para a república

Por MH

Alegrias e Tristezas: Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do Brasil
Alegrias e Tristezas: Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do Brasil – Divulgação
Maria de Fátima Argon, historiadora e arquivista, e Bruno da Silva Cerqueira, historiador e advogado, reuniram 20 anos de pesquisa sobre o período da transição da monarquia para a república. A obra já foi lançada em Petrópolis e Rio de Janeiro (RJ); Brasília (DF) e São Paulo (SP), Belo Horizonte e Juiz de fora (MG), além de Lisboa, Portugal.

Galeria de Fotos

Alegrias e Tristezas: Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do BrasilACERVO ARQUIVO GRÃO PARÁ – DIVULGAÇÃO

Alegrias e Tristezas: Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do BrasilDIVULGAÇÃO

Alegrias e Tristezas: Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do BrasilDIVULGAÇÃO

Alegrias e Tristezas: Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do BrasilDIVULGAÇÃO

Alegrias e Tristezas: Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do BrasilDIVULGAÇÃO

Uma produção editorial bastante rara de ser encontrada nas livrarias brasileiras. “Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil” é considerado o livro mais longo já escrito sobre a “Princesa Isabel” e um trabalho minucioso conduzido pelos valentes autores e historiadores Maria de Fátima Moraes Argon e Bruno da Silva Antunes de Cerqueira.

O Instituto Cultural D. Isabel a Redentora, sediado na capital federal, e a editora Linotipo Digital de São Paulo, foram os responsáveis pela edição de tão completa pesquisa histórica.

O livro, fruto de mais de vinte anos de pesquisas, contém muito material inédito para os leitores que, nas últimas décadas, foram apresentados a uma princesa museora alienada, ora inapta e, por fim, praticamente ausente do processo que levou ao fim da escravidão no Brasil.

Fátima Argon, que por mais de trinta anos foi pesquisadora do Museu Imperial na Cidade Imperial, sendo responsável pelo Arquivo Histórico da instituição, em Petrópolis, mostra no texto sobre a “escrita de si” no percurso biográfico da “Redentora”, que ela era plenamente ciente de sua missão enquanto herdeira da coroa e futura imperatriz.

“Mesmo de modo discretíssimo, a Princesa agiu pelo fim da escravidão mais de uma década antes do 13 de maio de 1888. Evidências disso são as honrarias concedidas aos homens que pudessem fazer algo não somente pelos negros, mas pelos pobres em geral. As moedas de troca eram comendas das ordens imperiais e, algumas vezes, títulos de nobreza, o que ela chamava de ‘tartines’, que significam ’confeites’ ou ‘badulaques’, em cartas à Condessa de Barral”, comenta Fátima.

Mas o texto vai além, deixando claro que a princesa-herdeira jamais foi marionete nas mãos de D. Pedro II ou do marido dela, o difamado Conde d´Eu. De acordo com as historiadoras Teresa Maria Malatian, da UNESP, e Lúcia Maria Paschoal Guimarães, da UERJ (colaboradoras da obra), trata-se de rico material sobre um dos temas mais enigmáticos da história brasileira: a transição da Monarquia para a República.

“A historiografia sobre a futura imperatriz foi enviesada por olhares masculinos, depois reproduzido até por historiadoras. Por outro lado, o catolicismo de D. Isabel é esmerilhado, sendo compreendido como parte de sua legitimação social enquanto governante e, também, de uma cosmovisão cristã que impregnava todos os seus atos”, acrescenta Bruno Antunes de Cerqueira, historiador, advogado, indigenista da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e fundador do Instituto Cultural que leva o nome da biografada.

Ponto alto dos estudos que Bruno chama de “isabelistas” é identificar que o golpe da República em 1889 não foi contra D. Pedro II e sim contra a filha, que no Pós-Abolição poderia ter sido a real garantidora dos direitos dos negros, governando em companhia de Joaquim Nabuco, André Rebouças, José do Patrocínio, Rodolpho Dantas, Franklin Doria, Alfredo Taunay, Affonso Celso Junior e, até, de Machado de Assis, além das mulheres que ela já “empoderava”, como suas amigas Amandinha Doria (Baronesa de Loreto) e Mariquinha Tosta (Baronesa de Muritiba).

Influência da imperatriz exilada

Documentos inéditos mostram que mesmo do exílio D. Isabel influiu na vida social brasileira, de modo restrito. Foi dela a “promessa”, em pleno momento do banimento da Família Imperial, de que no alto do Corcovado seria erguida uma estátua de Jesus.

Suas súditas fiéis, no Rio de Janeiro, sobretudo a filha do Almirante Tamandaré, idealizaram o Cristo Redentor, na década de 1900, algo que absolutamente nunca se comentou. O monumento teria uma estátua em tamanho menor da princesa, como “redentora” do Brasil, o que ela mesma não incentivou.

O texto de Bruno A. de Cerqueira mostra ainda que, na França, a “imperatriz exilada do Brasil” trabalhou sempre pelas causas sociais e que seu nome era de absoluto prestígio nos movimentos de remissão de pessoas escravizadas na África.

Até Marcel Proust a teria conhecido e nela teria se baseado, em parte, para idear a sua “Princesa de Parma”, uma das mais curiosas personagens de “Em busca do tempo perdido”.

A formação da princesa também ganha destaque em “Alegrias e Tristezas”, provando que estudou a vida toda, e que seu pai dizia que para ela se educar era que ele tanto se dedicava aos estudos. Um dos muitos fatos curiosos do exílio na França é saber que o mais importante professor de piano de D. Isabel, o maestro afro-cubano José White y Latiffe, que ela nomeara diretor do Conservatório do Rio de Janeiro, a acompanhou no banimento, sendo uma espécie de “mestre de capela” de sua corte, em Paris e no Castelo d´Eu.

Por fim, revela-se que a adesão à República de 1889 não foi grandiosa como se acredita e que muitos nobres, sobretudo os titulados pela princesa em suas regências, morreram desgostosos, no ostracismo, sem jamais ingressar na política.

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Alcilene Cavalcante – Livro “alegrias e tristezas: estudos sobre a autobiografia de d. isabel do brasil” será lançado em Macapá

 

Livro “alegrias e tristezas: estudos sobre a autobiografia de d. isabel do brasil” será lançado em Macapá

Uma produção editorial bastante rara de ser encontrada nas livrarias brasileiras. “Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil” é considerado o livro mais longo já escrito sobre a “Princesa Isabel” e um trabalho minucioso conduzido por Maria de Fátima Moraes Argon e Bruno da Silva Antunes de Cerqueira. A publicação já foi lançada em Petrópolis e Rio de Janeiro (RJ); Brasília (DF); São Paulo (SP), Belo Horizonte e Juiz de fora (MG), São Luis (MA), além de Lisboa, Portugal.

O próximo lançamento oficial acontecerá na capital do Amapá. Macapá contará com uma apresentação exclusiva na próxima quarta-feira, 27 de novembro, às 19h, na Livraria Acadêmica, dentro do Macapá Shopping. O evento conta com o apoio do Instituto Cultural D. Isabel a Redentora (IIDI), da editora Linotipo Digital e da Livraria Acadêmica.

 

O livro, fruto de mais de vinte anos de pesquisas, contém muito material inédito para os leitores que, nas últimas décadas, foram apresentados a uma princesa ora alienada, ora inapta e, por fim, praticamente ausente do processo que levou ao fim da escravidão no Brasil. Fátima Argon mostra no texto sobre a “escrita de si” no percurso biográfico da “Redentora”, que ela era plenamente ciente de sua missão enquanto herdeira da coroa e futura imperatriz.

 

“Mesmo de modo discretíssimo, a Princesa agiu pelo fim da escravidão mais de uma década antes do 13 de maio de 1888. Evidências disso são as honrarias concedidas aos homens que pudessem fazer algo não somente pelos negros, mas pelos pobres em geral. As moedas de troca eram comendas das ordens imperiais e, algumas vezes, títulos de nobreza, o que ela chamava de ‘tartines’, que significam ’confeites’ ou ‘badulaques’, em cartas à Condessa de Barral”, comenta Fátima.

 

“A historiografia sobre a futura imperatriz foi enviesada por olhares masculinos, depois reproduzido até por historiadoras. Por outro lado, o catolicismo de D. Isabel é esmerilhado, sendo compreendido como parte de sua legitimação social enquanto governante e, também, de uma cosmovisão cristã que impregnava todos os seus atos”, acrescenta Bruno Antunes de Cerqueira.

 

Influência da imperatriz exilada

 

Documentos inéditos mostram que mesmo do exílio D. Isabel influiu na vida social brasileira, de modo restrito. Foi dela a “promessa”, em pleno momento do banimento da Família Imperial, de que no alto do Corcovado seria erguida uma estátua de Jesus. Suas súditas fiéis, no Rio de Janeiro, sobretudo a filha do Almirante Tamandaré, idealizaram o Cristo Redentor, na década de 1900, algo que absolutamente nunca se comentou. O monumento teria uma estátua em tamanho menor da princesa, como “redentora” do Brasil, o que ela mesma não incentivou.

 

O texto de Bruno A. de Cerqueira mostra ainda que, na França, a “imperatriz exilada do Brasil” trabalhou sempre pelas causas sociais e que seu nome era de absoluto prestígio nos movimentos de remissão de pessoas escravizadas na África. Até Marcel Proust a teria conhecido e nela teria se baseado, em parte, para idear a sua “Princesa de Parma”, uma das mais curiosas personagens de “Em busca do tempo perdido”.

 

A formação da princesa também ganha destaque em “Alegrias e Tristezas”, provando que estudou a vida toda, e que seu pai dizia que para ela se educar era que ele tanto se dedicava aos estudos. Um dos muitos fatos curiosos do exílio na França é saber que o mais importante professor de piano de D. Isabel, o maestro afro-cubano José White y Latiffe, que ela nomeara diretor do Conservatório do Rio de Janeiro, a acompanhou no banimento, sendo uma espécie de “mestre de capela” de sua corte, em Paris e no Castelo d´Eu.

 

Os autores

 

Nascido em Niterói (RJ), Bruno A. de Cerqueira graduou-se em História na PUC-RJ e pós-graduou-se em Relações Internacionais no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Graduou-se em Direito no UniCEUB. É especialista em genealogia dinástica, foi diretor de publicações do Colégio Brasileiro de Genealogia. Desde 2012 atua na Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília, e, atualmente, auxilia a Coordenação-Geral de Gestão de Pessoas na formação dos novos servidores da entidade. Como advogado atua nas Comissões da Memória e da Verdade e dos Direitos Humanos da OAB/DF. Presta consultorias em diversas principalmente no que se refere à história da Monarquia e da realeza brasileiras, do abolicionismo, do isabelismo e da participação das mulheres na política oitocentista. Em 2001, fundou o Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora.

 

Natural de Paraíba do Sul (RJ), Maria de Fátima Moraes Argon é graduada em História pela Universidade Católica de Petrópolis e Arquivologia pela UniRio, além de contar com uma e pós-graduação em História do Brasil pela Universidade Cândido Mendes. Trabalhou no Museu Imperial / IBRAM, de 1980 a 2018, tendo coordenado projetos como a organização de publicações técnicas, seminários e exposições. É autora de diversos artigos, publicações e CDs sobre os temas a Família Imperial, História de Petrópolis, História da Fotografia e Arquivos.

 

*SERVIÇO:

 

Lançamento de Alegrias e Tristezas. Estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil

Data: 27/11/2019

Livraria Acadêmica

Macapá Shopping – 216, 2ºPiso

  1. Leopoldo Machado, 2334, Trem, Macapá/AP

(96) 98118-1835*

 

FICHA TÉCNICA

 

Livro: Alegrias e Tristezas. Estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil

Páginas: 888 páginas e mais de 70 ilustrações

Editora: Linotipo Digital, em parceria com o Instituto Cultural D. Isabel a Redentora

Dimensões: 23.50cm x 16.50cm x 5.50cm

Edição: 1

Encadernação: Capa dura, com guardas ilustradas e coloridas

Peso: 1558 gramas

Idioma: Português

ISBN: 978-85-65854-25-2

Ano de publicação: 2019

Preço: R$ 150,00

Vendas: https://www.linodigi.com.br/produto/alegrias-e-tristezas-29  ou (11) 3256-5823

 

Informações à Imprensa:

idisabel@idisabel.org.br

Marcos Oliveira – (11) 962208491

marcosjunior.oliveira@gmail.com

Publicado em Sem categoria | Marcado com , , , , , , | Comentários desativados em Alcilene Cavalcante – Livro “alegrias e tristezas: estudos sobre a autobiografia de d. isabel do brasil” será lançado em Macapá