Há 170 anos nascia D. Leopoldina Thereza do Brasil, irmã da Redentora

D. Leopoldina do Brasil, Princesa Ludwig August de Saxe-Coburgo-Gotha, Duquesa em Saxônia. Fotografia de August Stahl. 1864/1865. Arquivo Histórico do Museu Imperial / Ibram / MinC.

 

 

No dia dos 170 anos de nascimento da Princesa D. Leopoldina Thereza (1847-1871), terceira filha de D. Pedro II e D. Thereza Christina Maria, o IDII rende homenagem à mais querida amiga de D. Isabel, finada novíssima em Viena, junto de sua irmã.

Reproduz-se abaixo artigo sobre a “Duquesa de Saxe”, da lavra do historiador e ideólogo Gustavo Barroso (1888-1959), cearense radicado no Rio de Janeiro, um dos idealizadores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, hoje Iphan) e do Museu Histórico Nacional (MHN). O artigo foi publicado na revista O Cruzeiro, edição de 11.08.1951, e está disponível para download aqui, proveniente da biblioteca virtual do MHN.

O bisneto de D. Leopoldina Thereza, D. Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança, escritor renomado e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, considera que o artigo não faz jus ao quilate de Barroso, por alguns erros que contém. Deve-se advertir, contudo, que o texto é datado, como o são todas as produções historiográficas, e eventuais lapsos podem ser devidos à rapidez com que foi preparado para publicação em semanário de circulação nacional.

Especiais agradecimentos pela gentileza do envio e confirmação de dados ao bibliófilo e livreiro juiz-forano Jean Menezes do Carmo e à historiadora muriaense Erika Morais Cerqueira, especialista na obra barroseana.

 

A SEGUNDA FILHA DE D. PEDRO II

Em documento de sua autoria, a Princesa D. Isabel a Redentora — filha mais velha de D. Pedro II –, diz o seguinte: “A 2 de dezembro de 1864, chegavam ao Rio o Conde d’Eu e o Duque de Saxe. Meu pai desejava essa viagem, tendo em mira nossos casamentos. Pensava-se no Conde d’Eu para minha irmã e no Duque de Saxe para mim. Deus e nossos corações decidiram diferentemente, e a 15 de outubro de 1864 tinha eu a felicidade de desposar o Conde d’Eu…” Por essa confissão, mais uma vez se verifica que o homem põe e Deus dispõe, como bem diz o povo, juiz de multimilenar sabedoria. O coração das princesas, imperiais desviou desta sorte o curso dos arranjos políticos e o Duque de Saxe, ao invés de Príncipe Consorte da herdeira do trono do Brasil, se tornou marido da segunda filha do Imperador.

Era esta D. Leopoldina, nascida no Rio de Janeiro a 13 de ju­lho de 1847, então com 17 anos de idade, de beleza comparável à de D. Francisca, Princesa de Joinville, sua tia e madrinha, e à de D. Amélia de Beauharnais, neta de Josefina Bonaparte e segunda mulher de D. Pedro I. A projeção histórica de D. Isabel, três vezes Regente do Império, herdeira da coroa e libertadora dos escravos sombreou a figura de sua irmã mais moça, cujo destino foi menos brilhante em sua curta trajetória pelo mundo. Mas a formosura, o recato, a simplicidade, a discrição e a graça da segunda filha de D. Pedro II tornam a sua figura extraordinariamente simpática aos que estudam a vida e os atos das pessoas da Casa Imperial.

Seu marido, Luís Augusto de Saxe Coburgo Gotha, Duque de Saxe, pertencente à mais ilustre casa que dera e ainda daria príncipes consortes e soberanos para vários tronos europeus, irmão do futuro czar dos búlgaros, sobrinho de D. Fernando, marido de D. Maria II de Portugal,primo do Rei Leopoldo da Bélgica e do Príncipe Alberto, esposo da Rainha Vitória da Inglaterra, nascera no Castelo d’Eu, em França, em 9 de outubro de 1845. Era, portanto, somente dois anos mais velho do que sua mulher.

Os casamentos das filhas de D. Pedro II, celebrados ambos sendo Ministro do Império o Conselheiro José Liberato Barroso, realizaram-se em datas diversas. O de D. Isabel com o Conde d’Eu, como já ficou dito, a 15 de outubro de 1864. O de D. Leopoldina com o Duque de Saxe, a 15 de dezembro do mesmo ano. O primeiro foi nomeado marechal do Exército brasileiro; o segundo, almirante da Esquadra Imperial. Os dois estiveram presentes à rendição de Uruguaiana e o Conde d’Eu foi o comandante-chefe de nossas forças vitoriosas no último período da campanha do Paraguai.

Do consórcio da filha segunda de D. Pedro II com o Duque de Saxe nasceu a 19 de março de 1866 no Rio de Janeiro o Príncipe D. Pedro de Alcantara Augusto Luís Maria Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. conhecido na nossa História simplesmente como D. Pedro Augusto, neto preferido do Imperador e da Imperatriz, pela inteligência, amor ao estudo e dedica­ção aos avós que o educaram. Pouca gente sabe que durante nove anos, de 1866 a 1875, isto é, até nascer D. Pedro de Alcântara, filho primogênito de D. Isabel e do Conde d’Eu, de acordo com a Constituição do Império, foi D. Pedro Augusto considerado herdeiro presuntivo da coroa. Vale dizer que, se nesse espaço de tempo falecessem D. Pedro II e D. Isabel, ao trono imperial do Brasil subiria um representante da velha e nobre casa de Saxe Coburgo Gotha. É corrente ter havido até certo movimento de opinião nas rodas do Paço de S. Cristóvão e nos círculos políticos favorável à apresenta­ção às Câmaras duma emenda constitucional regulando a sucessão da coroa a favor do neto mais velho do Imperador.

Chamou-se o segundo filho de D. Leopoldina e do Duque de Saxe, D. Augusto Leopoldo, tendo nascido no Rio de Janeiro a 6 de de­zembro de 1867. Era arrebatado de gênio e dado a conquistas amorosas como seu bisavô D. Pedro I. Casou em 1904 com D. Carolina, Arquidu­quesa da Áustria, e teve oito filhos. Ainda no Rio, a 21 de maio de 1869, nasceu o terceiro filho do casal, D. José Fernando, que faleceu solteiro em 1888. Já o quarto filho, D. Luís Gastão, nasceu no Castelo de Ebenthal a 14 de setembro de 1870, veio ao Brasil e casou duas vezes, a primeira com a Princesa Matilde da Baviera, a segunda com a Condessa Maria Ana de Trauttmansdorf-Weinsberg.

Como se vê, a segunda filha do Imperador e seu esposo retira­ram-se para a Europa em 1870 e ali em breve D. Leopoldina se extinguiria, vítima dum ataque de tifo, que a levou para o túmulo no Castelo de Eben­thal, a 7 de fevereiro de 1871. Tinha somente 24 anos de idade. É compre­ensível, pois, a afeição que D. Pedro II e D. Teresa Cristina dedicaram ao Príncipe D. Pedro Augusto, que representava a filha morta em plena moci­dade e que correspondia plenamente pela sua formação mental e seu caráter a esse sentimento de seus avós. Uma anedota relatada por Múcio Teixeira pinta como zelava D. Pedro II pela educação moral do seu neto. Tendo ido D. Pedro Augusto a um baile na casa duma fidalga, no Rio Comprido, dele somente voltou alta madrugada. Ao entrar no seu aposento do Paço de S. Cristóvão, deparou com espanto o Imperador deitado em sua cama, lendo à luz duma vela o D. Quixote. D. Pedro 11 levantou-se à sua chegada e disse- lhe risonho: “- Filho, a cama dum rapaz solteiro não deve ficar abandonada a noite inteira. Vi-a tão solitária que lhe vim fazer companhia. Peço-te ape­nas que me não obrigues a repetir esta noitada, porque os velhos não devem alterar seus hábitos e só tu me obrigarias a isto.”

A lição serviu e nunca mais o jovem Príncipe passou uma noite fora de casa. Esse rapaz educado tão nobre e severamente foi quem mais sofreu o golpe desfechado sobre o velho Imperador a 15 de novembro de 1889. Viajava ele, desde 27 de outubro de 1888, como segundo-tenente, em volta do mundo, a bordo do Almirante Barroso, do comando do então Capitão-de-Mar-e-Guerra Custódio José de Melo, quando em Colombo, capital da ilha de Ceilão, chegou a notícia da proclamação da República. O comandante do navio recebeu ordem para desembarcá-lo, o que fez contrariado, sendo emocionante a despedida do jovem e cor­reto oficial.

O choque sofrido nessa ocasião abalou de tal modo D. Pedro Au­gusto, feriu-o tão profundamente que chegou na Europa com o juízo afe­tado. Depois de cuidadoso tratamento, melhorou consideravelmente. Em vias de pleno restabelecimento, a morte do avô exilado em Paris causou-lhe tamanha mágoa que a insanidade voltou. Então, foi internado no Hospício de Tulln, na Baixa Áustria, onde veio a falecer a 7 de julho de 1934.

Seu irmão D. Augusto Leopoldo, marido da Arquiduquesa Ca­rolina da Áustria, serviu, sem perder os direitos de cidadão brasileiro, por decisão do Imperador Francisco José, na Marinha austríaca, tendo feito brilhante exame de admissão, graças ao curso que tirara na Marinha do Brasil. De sua correspondência mantida no decurso de longos anos com amigos brasileiros, sobretudo os Barões da Estrela e de Maia Monteiro, se vê que nunca se pôde acostumar de todo à vida da Europa e constantemen­te carpia saudades de sua pátria. Quando revogado o banimento da Família Imperial pelo Presidente Epitácio Pessoa, pretendia D. Augusto Leopoldo vir ao Brasil; mas o destino não lhe permitiu a satisfação dessa vontade: faleceu a 11 de agosto de 1922 no Castelo de Schladming. A única pessoa da Casa de Saxe-Coburgo-Gotha Bragança, formada pelo casamento da segunda filha de D. Pedro II, que pisou terras do Brasil depois do exílio da Família Imperial foi D. Teresa Cristina Maria, sua filha, em companhia de seu esposo, no ano de 1938.

Leopoldina e seu marido, enquanto viveram no Brasil, ocu­param o Palácio denominado do Duque de Saxe, que ficava ao pé da Quin­ta da Boa Vista, num parque limitado dum lado pela atual Rua General Canabarro e do outro pela Central do Brasil, terrenos cortados atualmen­te pela Avenida Maracanã. Nesse palácio, morou após a partida dos pais para a Europa, quando se tornou homem, o Príncipe D. Pedro Augusto. Restaurou-o com o maior gosto, mobiliou-o com alfaias de valor trazidas da Alemanha e ali deu recepções e banquetes que fizeram época. Com a proclamação da República, essas relíquias foram dispersadas em apressado leilão, a casa entregue ao Ministério da Guerra e por fim destruída para dar lugar a novas construções. Do Palácio do Duque de Saxe restam somente hoje dois dunquerques com altos espelhos brasonados e dourados, felizmente recolhidos ao Museu Histórico Nacional. Suas faces, inúmeras vezes, nos bons tempos idos, refletiram a face pensativa do jovem D. Pedro Augusto, destinado à loucura, e a peregrina beleza da segunda filha de D. Pedro II, D. Leopoldina Teresa Francisca Carolina de Bourbon Bragança e Saxe-Coburgo-Gotha, destinada a uma morte prematura longe da família e da pátria. Suave e graciosa figura, cheia de beleza, de virtude e de modéstia, que as circunstâncias da vida levaram para longe do país natal como folha que o vento açoita.

Gustavo Barroso

 

Baixe o artigo original, com as imagens: A Segunda Filha de D. Pedro II – GBARROSO

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AgênciaBrasil – Cais do Valongo é reconhecido Patrimônio Cultural da Humanidade

Rio de Janeiro: Cais do Valongo é reconhecido Patrimônio Cultural da Humanidade

  • 09/07/2017 16h21
  • Brasília
Mariana Jungmann – Repórter da Agência Brasil
Cais do Valongo, na regioão central da cidade (tomaz Silva/Agência Brasil)
Com título, fica Cais do Valongo no mesmo patamar de importância histórica de outros patrimônios mundiais mais conhecidos, como o Campo de Concentração de AuschwitzAgência Brasil/Arquivo/Tomaz Silva

O Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, principal porto de entrada de escravos nas Américas ao longo de três séculos, recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade hoje (9). O reconhecimento da importância histórica e cultural deste sítio, localizado na zona portuária da capital fluminense, foi feito pelo Comitê do Patrimônio Mundial, ligado a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em reunião anual que ocorreu na Cracóvia.

O título não se traduz em benefícios financeiros diretos, mas coloca o Cais do Valongo no mesmo patamar de importância histórica de outros patrimônios mundiais mais conhecidos, como o Campo de Concentração de Auschwitz, na Alemanha, e da cidade de Hiroshima, no Japão, que foram reconhecidos como locais de memória e sofrimento da humanidade.

O Brasil recebeu cerca de 4 milhões de escravos nos mais de 3 séculos de duração do regime escravagista, o que equivale a 40% de todos os africanos que chegaram vivos nas Américas, entre os séculos 16 e 19. Destes, aproximadamente 60% entraram pelo Rio de Janeiro, sendo que cerca de 1 milhão deles pelo Cais do Valongo.

O título tem o objetivo de reconhecer a importância do local e dos africanos que lá desembarcavam para a formação cultural, social e econômica do Brasil. E ainda a sua relevância para toda a humanidade como símbolo da violência que a escravidão representa.

Candidatura

O Cais do Valongo foi o único sítio inscrito pelo Brasil para concorrer ao título este ano. A candidatura foi apresentada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pela prefeitura do Rio de Janeiro e aceita pelo comitê em 2015.

Na oportunidade, foi apresentado dossiê com detalhes da história do tráfico negreiro para o país e o que o trabalho escravo significou para a economia brasileira entre os séculos 16 e 19. O trabalho, coordenado pelo antropólogo Milton Guran, também demonstrou que a importância do sítio arqueológico não está ligada apenas aos afrodescendentes, mas a toda a população brasileira.

Edição: Fábio Massalli
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Convite – Missa da Ressurreição de Prof. Otto de Alencar de Sá Pereira

 

 

Nelie Sá Pereira, Norma Sá Pereira, Norberto Medeiros,

Romilda Sá Pereira, Rafael Sá Pereira Salgado, Moema Sá Pereira Salgado,

Mariana Sá Pereira, Alice Legg Sá Pereira,

Ana Napolitani Salgado, Dora e Julio Salgado Peregrino,
Manuela e Guilherme Sá Pereira Costa, Cecília Sá Pereira Mariano,

Joana Medeiros, Graça Carvalho,
Ricardo Luiz C. de Albuquerque d´Avila Vilella e
Bruno da Silva Antunes de Cerqueira

convidam para a Missa da Ressurreição

de seu inolvidável irmão, amigo, cunhado, tio, tio-avô e padrinho,

Prof. Otto de Alencar de Sá Pereira,

a se realizar na Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro,

no dia 11 de julho de 2017, às 19 horas.

 

 

 Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

Praça Nossa Senhora da Glória, 26

Glória – Rio de Janeiro – RJ

 

***

 

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Obituário – Prof. Otto de Alencar de Sá Pereira (1932-2017)

 

Otto de Alencar [de] Sá Pereira nasceu aos 16 de novembro de 1932, no Hospital da Beneficência Portuguesa, bairro da Glória, Cidade do Rio de Janeiro. Era o filho único da união do Dr. Augusto Neiva de Sá Pereira (1904-1977), advogado, e da Senhora, nascida Ruth de Alencar Silva (1907-1969); da segunda união de seu pai, tem três irmãos, Nelie de Sá Pereira, Norma de Sá Pereira e Lino de Sá Pereira (†).

Tanto por sua origem paterna quanto materna, Otto descende de algumas das mais ilustres casas senhoriais do Norte e do Nordeste do Brasil. Seu pai era filho de uma Nabuco Neiva e neto dos Oliveira Junqueira, Leal Ferreira e Carneiro de Campos (aristocracia da Bahia), descendendo do Marquês de Caravelas, José Joaquim Carneiro de Campos (1768-1836), um dos grandes estadistas do Primeiro Reinado, que chegou a redigir boa parte da Constituição de 1824 com D. Pedro I (1798-1834).

Dr. Augusto de Sá Pereira pertencia a uma antiga casa da nobreza portuguesa: a varonia é de — da mesma procedência que Mem de Sá (1500-1572) e Estácio de Sá (1520-1567) —, mas a origem Pereira lhes é mais honrosa, por provir dos Condes da Feira, primos de São Nun´Álvares Pereira (1360-1431), Condestável de Portugal, vencedor da Batalha de Aljubarrota contra os castelhanos (1385), o heroico antepassado da Casa de Bragança que foi canonizado em 2009.

A mãe de Otto era Alencar e Sousa Brasil (Ceará) e neta dos Wilkens de Mattos e Perdigão (Pará). O pai de Ruth, Otto de Alencar (1874-1912) foi um dos maiores matemáticos de sua época, tendo exercido a administração da Iluminação Pública do Rio de Janeiro. Foi ainda exímio pianista e amigo de boêmios como Emilio de Meneses (1866-1918) e Guimarães Passos (1867-1909). Affonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) foi aluno e grandíssimo admirador de Otto de Alencar — que é, inclusive, nome de um logradouro no bairro da Tijuca.

Por ser filha de um casal de primos-irmãos, Ruth era duas vezes prima-sobrinha-neta do grande literato do romantismo brasileiro José de Alencar (1829-1877) e do Barão de Alencar (1832-1921) e sobrinha-bisneta do Cônego José Martiniano de Alencar (1794-1860), senador do Império pela Província do Ceará. Era também bisneta do Cônego Thomaz Pompeu de Sousa Brasil (1818-1877), por linha natural. Thomaz Pompeu era o chefe do Partido Liberal no Ceará e tornou-se senador em 1864.

Otto de Alencar de Sá Pereira foi aluno do Colégio Padre Antonio Vieira, sob a orientação de D. Thomaz Maria da Câmara (1889-1970), professor e codiretor do colégio e seu padrinho de crisma, e dos diretores Baronesa de Saavedra (1904-1959) e Dr. Décio José de Carvalho Werneck (1910-1973). Sua adolescência e juventude foram marcadas pelo engajamento na Congregação Mariana Nossa Senhora das Vitórias, sob a égide do filósofo Pe. Francisco Leme Lopes SJ (1912-1983), de saudosa memória. Desde muito cedo, seu monarquismo transparecia em todas as suas iniciativas.

Seus compromissos marianos formais ele os iniciou quando, em 15.04.1951, se tornou irmão da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro.

Recebeu formação militar através do antigo Centro de Instrução para Oficiais de Reserva da Marinha (CIORM), de onde saiu como segundo-tenente em 1954. Seguindo tradições familiares, bacharelou-se em Direito em 1958, pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro — em sua família sobressaía-se a figura de seu tio, Dr. Lino de Sá Pereira (1902-1981), procurador-geral do Estado da Guanabara.

Na década de 1960, Otto pôde realizar um de seus grandes desejos, ao cursar História na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde licenciou-se em 1968. Foi a mesma época em que militou entre os propagandistas da revista Catolicismo, grupo que deu origem à Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (SBDTFP). Desligou-se gradualmente da TFP entre 1969 e 1971.

Lecionou História Moderna na Universidade Gama Filho (1969-1971). Em 1970, dois fatos lhe marcam sobremaneira a vida ativa: a admissão na Universidade Católica de Petrópolis (UCP), e a entrada para a Assessoria do Chefe da Casa Imperial do Brasil, S.A.I.R. o Príncipe Senhor D. Pedro Henrique (1909-1981), neto e sucessor da Redentora.

Na UCP, passou a lecionar Estudos de Problemas Brasileiros, História do Brasil, Antiga e Medieval. Mais tarde, foi responsável pelas disciplinas de Fundamentos de Ciências Sociais e Realidade Social Brasileira. Lecionou, ainda, História do Direito. Foi também professor titular de História Antiga e Medieval na Sociedade Universitária Augusto Motta (SUAM), de 1972 a 1997.

Em 19 de fevereiro de 1983, Prof. Otto representou o Príncipe Michel de Ligne como padrinho de D. Pedro Luiz de Orleans e Bragança e Ligne (1983-2009), na cerimônia de batizado do bebê — que simbolizava a continuidade da dinastia imperial brasileira —, na igreja da Glória do Outeiro.

Participou da fundação de um partido monarquista em 1987, quando a cláusula pétrea impeditiva dos movimentos pró-monarquia, constante em todas as constituições brasileiras desde a de 1891, estava prestes a ser derrubada na Assembleia Nacional Constituinte. Foi o vice-presidente do partido, o qual, sob orientação da Casa Imperial, se desfez.

Fundou, em 1988, centenário da Lei Áurea, o Círculo Monárquico do Rio de Janeiro — cujo nome completo homenageia o filho segundo e herdeiro de D. Isabel, D. Luiz (1878-1920), cognominado “O Príncipe Perfeito” —, tendo sido sucessivamente reeleito seu presidente. Trabalhou com afinco pela propaganda da causa monarquista em todo o período anterior e durante o Plebiscito de 1993, por meio do qual os brasileiros optariam, de acordo com as disposições constitucionais transitórias (CR, ADCT, art. 2º), entre a forma republicana e a forma monárquica de governo e o sistema parlamentarista ou presidencialista. A Monarquia Parlamentarista obteve cerca de 13% dos votos válidos na eleição.

Em dezembro de 2001, Prof. Otto renunciou à presidência do Círculo Monárquico do Rio de Janeiro, mantendo-se como associado.

Em 1999, se tornou sócio do Instituto Histórico de Petrópolis e, em 2002, foi homenageado com o título de sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói.

Publicou dezenas de artigos em jornais e revistas de todo país, sempre versando sobre temas monárquicos de relevância histórica. De sua vasta correspondência se destacam as cartas que trocou com o escritor Pedro Nava (1903-1984), seu primo pelo costado materno, e com o poeta gaúcho Mario Quintana (1906-1994).

Em 2000, idealizou com Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, então graduando em História na PUC-Rio e seu afilhado de crisma, o Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora. Diversos pesquisadores e profissionais da História, do Direito e das Ciências Sociais se somaram na iniciativa, fundando o IDII em 13.05.2001, na Igreja do Rosário dos Homens Pretos.

Prof. Otto foi o presidente do IDII da fundação até abril de 2005; desde então, passou a ser o conselheiro-decano do Instituto.

Publicou, em 16 de novembro de 2007, ao completar 75 anos, seu livro Diálogos Monárquicos — conversas de um avô católico e monarquista com seu neto adolescente.

Em 27 de junho de 2012, recebeu da Câmara Municipal do Rio de Janeiro sua mais alta honorificência, a Medalha Pedro Ernesto, por iniciativa da Vereadora Sonia Rabello de Castro.

Por fim, em 8 de dezembro de 2016 (festa da Imaculada Conceição), Prof. Otto foi empossado como membro honorário da Academia Brasileira de Defesa.

Vitimado pelo câncer, recebeu visita de inúmeros sacerdotes nos últimos meses, que lhe ministravam os santos sacramentos e o reconfortavam.

Isabelista e neoabolicionista, Prof. Otto faleceu em 04.07.2017, em uma casa de saúde de Laranjeiras, exatamente em frente ao antigo Palácio Isabel, hoje chamado de Palácio Guanabara, no dia da festa de Santa Isabel de Portugal (1271-1336) — nascida infanta de Aragão —, a antepassada por quem D. Isabel nutria enorme afeição e devoção.

Prof. Otto deixa a irmã Nelie e a irmã e afilhada Norma, o amigo Norberto Medeiros, além de sobrinhos e quase uma vintena de afilhados.

Seu corpo será velado hoje e enterrado amanhã pela manhã no Cemitério de São João Batista, na Rua Real Grandeza, Botafogo, Rio de Janeiro.

REQUIESCIT IN PACE!

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NexoJornal – Lima Barreto é um bom autor para pensar o Brasil atual

 

Deve-se conferir e ler a importante entrevista e reportagem sobre o grande Affonso Henriques de Lima Barreto, abaixo.

https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/06/23/Lima-Barreto-é-um-bom-autor-para-pensar-o-contexto-brasileiro-atual-diz-biógrafa

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El País – A vez da literatura produzida por negros e pobres (artigo)

A vez da literatura produzida por negros e pobres

José Ruy Lozano*

 

A escritora Carolina Maria de Jesus se tornou leitura obrigatória dos vestibulares da Unicamp e da UFRGS. Enquanto a Flip vai homenagear Lima Barreto

 

A escritora Carolina Maria de Jesus
A escritora Carolina Maria de Jesus AGÊNCIA BRASIL

 

Em 2013, liderava a equipe de professores de Língua Portuguesa de um grande colégio paulistano, e decidimos adotar o livro Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, como leitura obrigatória. Trata-se, como diz o subtítulo, do diário de uma favelada, em que a autora relata o dia a dia cruel em meio à miséria na periferia de São Paulo.

Poucas vezes vi tamanha reação a uma leitura escolar. Pais nos acusavam de muitas coisas. Uma delas: promover a ignorância em relação à norma gramatical, aludindo ao texto da autora que pouco frequentou a escola. A outra (a meu ver, a pior): o que o relato de vida de “uma favelada” acrescentaria à formação cultural de seus filhos?

Escapava àquelas pessoas, no entanto, o fato de que desvios formais não impediam a autora de criar imagens, estabelecer analogias, refletir sobre o cotidiano e, acima de tudo, narrar com enorme sensibilidade e inteligência seu cotidiano de mulher pobre, que certa vez recorreu ao lixo para dar um par de sapatos a sua filha.

Para muitos (não só os pais daquele colégio), Carolina não fez literatura, apenas escreveu diários, cujo tom confessional prejudicaria o caráter “literário” do texto. Como se diários, sermões, discursos políticos e outros tantos gêneros não recebessem, ao longo do tempo, a chancela de literatura.

O problema com Carolina era – e é – outro: é o lugar de onde ela fala. Das periferias, das favelas, dos lixões. De lá, emergiu uma voz que não se calou nem cedeu lugar à interposição dos mais letrados.

Agora, em 2017, Carolina Maria de Jesus é leitura obrigatória para os exames vestibulares da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Se serve como legitimação, antes tarde do que nunca: mulher, negra, pobre, favelada, catadora de lixo e escritora. Das maiores do Brasil.

Neste mesmo 2017, a Festa Literária de Paraty (Flip) terá como homenageado principal Lima Barreto. A programação do evento, recentemente divulgada, conta ainda com muitos escritores negros, brasileiros e estrangeiros.

A escolha da curadoria da Flip faz justiça ao escritor carioca de origem humilde e vida tão madrasta quanto curta. Anterior à festa da Semana de 1922, não foi incluído no rol dos modernos e, nos livros didáticos dedicados à literatura, fica num limbo estético, confinado à ambígua categoria de “pré” alguma coisa.

Para além da simbologia social que envolve o escritor negro e pobre, vítima do alcoolismo, recusado pela Academia Brasileira de Letras e enjeitado por certas altas rodas intelectuais de seu tempo, deve se ressaltar o período em que viveu e que tão bem retratou (e criticou): a República nascente, hoje paradoxalmente chamada de “Velha”, mas que à época era nova.

O Brasil desse tempo era o país da alternância de poder entre as classes dirigentes paulistas e mineiras. Era o país da higienização dos cortiços cariocas, do massacre de Canudos, da Guerra do Contestado, do grito sufocado de populações marginalizadas tratadas como ameaça de sublevação social e retrocesso histórico.

Certamente Lima Barreto acompanhou os debates raciais que mobilizaram a intelectualidade brasileira à época, dividida entre os derrotistas (a mistura racial vai degenerar nosso povo) e os otimistas (a mistura fará prevalecer a raça branca, afinal a mais forte, e teremos um grande futuro). Como terá sido para alguém como ele ter de conviver com tais discursos, que na época contavam com a prestigiosa chancela da ciência?

Tanto os vestibulares como a Flip não poderiam ter feito escolhas mais significativas diante de nosso atual momento histórico. Não apenas pelo prestígio, ou mesmo pelo resgate, de autores negros de origem modesta. Mas pelo testemunho de suas obras frente às hipocrisias, injustiças e contradições do Brasil.

 

* José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Cipi (Conselho Independente de Proteção à Infância) e coordenador pedagógico geral da Rede Alix – Colégio Nossa Senhora do Morumbi.

 

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/15/opinion/1497554545_151977.html

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Aventuras na História – A imperatriz que não foi (matéria)

Disponibilizamos abaixo a matéria “Princesa Isabel: a imperatriz que não foi”, da jornalista Dimalice Nunes, saída na Revista Aventuras na História, edição 168 (maio/2017).

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