Aventuras na História – A imperatriz que não foi (matéria)

Disponibilizamos abaixo a matéria “Princesa Isabel: a imperatriz que não foi”, da jornalista Dimalice Nunes, saída na Revista Aventuras na História, edição 168 (maio/2017).

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Jornal da Unicamp – Livro traz biografia do mais importante editor do início do Segundo Reinado

Livro traz biografia do mais importante editor do início do Segundo Reinado

SEX, 07 ABR 2017 | 10:18

Editora de Francisco de Paula Brito, filho e neto de escravos libertos, teve entre seus escritores o jovem Machado de Assis

Enquanto realizava as pesquisas para a elaboração da sua dissertação de mestrado, defendida em 2010 na Unicamp, sobre a produção ficcional do jovem Machado de Assis, Rodrigo Camargo de Godoi deparou com uma personagem bastante citada na historiografia, porém até então pouco estudada: o tipógrafo, livreiro e editor negro Francisco de Paula Brito. Concluído o trabalho, o historiador decidiu tomar a trajetória de Paula Brito como tema da sua tese de doutorado, também defendida na Universidade, em 2014. Este segundo estudo deu origem ao livro Um editor no Império: Francisco de Paula Brito (1809-1861), que será lançado no próximo dia 11 de abril, a partir das 19h, na Livraria da Vila, no Galleria Shopping, em Campinas.

Antes do lançamento do livro, no mesmo dia, a partir das 16h, na Sala da Congregação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), o autor participará de uma mesa redonda que discutirá a atuação dos editores no Brasil do século XIX. Também tomarão parte no debate as professoras Márcia Abreu, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), e Silvia Hunold Lara, do IFCH.

Foto: Antonio Scarpinetti
O historiador Rodrigo Camargo de Godoi, autor do livro: obra é acessível a todas as pessoas que se interessam por história, mais especificamente sobre a história da imprensa e do livro no Brasil

Editado pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), o volume corresponde ao conteúdo da tese de Godoi. “Porém, esforcei-me para escrever um livro acessível a todas as pessoas que se interessam por história, mais especificamente sobre a história da imprensa e do livro no Brasil”, destaca o autor. A obra de Godoi está inserida no segmento que os especialistas denominam de “biografia histórica”.

Em seu livro, o autor traz à luz aspectos da trajetória profissional de Paula Brito, mas também do seu envolvimento com questões sociais e políticas que marcaram o Rio de Janeiro e o Brasil na primeira metade do Século XIX. Segundo o historiador, o editor foi filho e neto de escravos libertos. “Paula Brito integrou uma intelectualidade negra que nasceu entre o final do Século XVIII e a primeira década do Século XIX. Jovens negros que contavam entre 20 e 30 anos de idade durante o processo de Independência do Brasil. Ou seja, entender a cidadania de ‘homens de cor’ no império perpassa o estudo dos caminhos da liberdade ainda na Colônia”, relata Godoi.

Foto: Reprodução
Francisco de Paula Brito integrou uma intelectualidade negra que nasceu entre o final do Século XVIII e a primeira década do Século XIX

Conforme o historiador, uma das primeiras atividades profissionais de Paula Brito foi a de tipógrafo, ofício relativamente novo no Brasil, dado que a imprensa chegou tardiamente ao país, a partir de 1808. “Paulo Brito ingressou como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional. É importante lembrar que esta era uma função especializada, que exigia um bom domínio da língua portuguesa, o que não era problema para um jovem proveniente de uma família de ex-escravos já alfabetizada”.

 

O perfil empreendedor da personagem biografada por Godoi surgiria somente no começo da década de 1830, quando Paula Brito comprou a livraria de seu primo, o pardo Silvino José de Almeida, e a transformou posteriormente numa das maiores tipografias do Segundo Reinado, tendo tido o imperador D. Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina entre seus acionistas. Naquela época, as livrarias funcionavam como “armarinhos”, vendendo sabonete, charuto, carteiras e, obviamente, livros e periódicos.

Seguindo um movimento que acontecia quase que simultaneamente em outras cidades, como Boston, Paris e Nova York, Paula Brito iniciou-se na atividade editorial no Rio de Janeiro um pouco antes da fundação da sua Empresa Tipográfica Dous de Dezembro. Mais tarde, esta foi elevada à condição de um dos maiores parques gráficos do Rio de Janeiro. “Naquele momento, Paula Brito percebeu que precisava investir em escritores brasileiros que escrevessem narrativas sobre temas brasileiros. Só assim ele conseguiria se destacar em um mercado editorial marcado pelo consumo massivo de narrativas francesas”. Nos anos 1840, o escritor escolhido foi o também afrodescendente Antonio Gonçalves Teixeira e Sousa. Machado de Assis passaria a figurar nos catálogos da editora já em fins dos anos 1850, informa o autor do livro.

Foto: Reprodução
Plano da Empresa Tipográfica Dous de Dezembro, datado de 1° de abril de 1852. Além de apresentar a companhia ao público, o Plano cumpria a função de contrato de compra e venda de ações

Para alcançar destaque como editor, pontua Godoi, Paula Brito aproximou-se da elite política de então, sobretudo de membros atuantes do Partido Conservador, o que lhe rendeu vantagens como o acesso a financiamentos para seus projetos. “Um aspecto importante a ressaltar é que a empresa de Paula Brito nasceu no instante em que ocorria o desmanche do negócio negreiro no Brasil. Em 1850, quando o tráfico transatlântico de escravos foi definitivamente abolido, um imenso capital tornou-se inativo. Parte substancial desses recursos foi, então, destinada à constituição de diversas sociedades comanditárias e anônimas no Rio de Janeiro, entre as quais a Empresa Dous de Dezembro”.

Foto: Reprodução
Folha de rosto da “comédia original” Luxo e Vaidade, de Joaquim Manuel de Macedo, publicada por Paula Brito, em 1860

O sucesso da Dous de Dezembro durou até 1857, quando a empresa faliu. Paula Brito tentou reerguer os negócios por meio de pedidos de empréstimos ao governo, mas não obteve êxito. “Ele morreu em 1861, deixando muitas dívidas para a viúva, Rufina Rodrigues da Costa Brito”. De acordo com Godoi, a trajetória de Paula Brito ajuda a ampliar o entendimento acerca de vários episódios da história brasileira, como a formação da intelectualidade negra, a constituição das primeiras leis relativas à imprensa e a reconversão dos capitais do tráfico negreiro, aplicados na criação de diversos negócios, um deles o de Paula Brito. “O que procurei fazer foi justamente contribuir para a construção do conhecimento em torno desses temas, me valendo das vivências e experiências de uma personagem tão rica”, finaliza o historiador.
Foto: DivulgaçãoServiço

Título: Um editor no Império: Francisco de Paula Brito (1809-1861)

Autor: Rodrigo Camargo de Godoi

Editora: Edusp

Páginas: 392

Preço sugerido: R$ 44,00

Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/04/07/livro-traz-biografia-do-mais-importante-editor-do-inicio-do-segundo-reinado

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Tribuna de Petrópolis – Os 77 anos do Museu Imperial (artigo)

 

Os 77 anos do Museu Imperial

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Maurício Vicente Ferreira Júnior*

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O Museu Imperial comemora seus 77 anos de existência consolidando a posição de referência nacional para o estudo do período monárquico brasileiro e da cidade de Petrópolis. Essa dupla representatividade é fruto da sua própria gênese e da história da edificação que o abriga na relação com a cidade que o circunda.

Ex-aluno do educandário que ocupou o Palácio Imperial de Petrópolis entre 1909 e 1939 − o Colégio São Vicente de Paulo −, Alcindo de Azevedo Sodré foi um político e intelectual que sonhava, desde criança, transformar a residência favorita de d. Pedro II em um museu dedicado à memória do imperador. Perseverante, encontrou na estrutura do governo estado-novista do presidente Getúlio Vargas as condições necessárias para a concretização de seu projeto de vida. No entanto, o ideário de Estado do governo Vargas visava construir valores identitários para a nação, e o projeto de Sodré sofreu alterações. Assim, o conceito de sede da vilegiatura imperial precisou conviver com o de museu de história do período monárquico brasileiro. Dessa forma, a dualidade própria à criação da instituição orientou a formação de seu acervo e, consequentemente, a organização do circuito de exposição permanente. Desde a sua criação, portanto, o Museu Imperial é uma casa histórica e um museu de História, simultaneamente.

Ao longo de sete décadas, o museu reuniu mais de 300 mil itens documentais, bibliográficos e artísticos da história nacional, com ênfase no século XIX. Ao mesmo tempo, reforçou a relação com a cidade de Petrópolis ao incorporar inúmeras coleções relativas à história local, como o acervo do Museu Histórico de Petrópolis instalado no Palácio de Cristal, em 1938. Com o objetivo de universalizar o acesso aos bens sob sua guarda, o museu criou o Projeto de Digitalização do Acervo do Museu Imperial (Projeto DAMI), que disponibiliza as coleções da instituição no portal www.museuimperial.gov.br, onde já é possível consultar mais de 50 mil imagens. Já o complexo formado pelo palácio, pelos jardins e pelo acervo histórico e artístico atrai um público superior a 400 mil pessoas/ano, o que eleva o Museu Imperial à condição de mais visitada unidade pertencente ao Instituto Brasileiro de Museus do Ministério da Cultura.

Sensível às novas demandas do mundo contemporâneo, incluindo as transformações operadas no âmbito da museologia e da reflexão e prática nos museus, o Museu Imperial desenvolveu uma série de projetos em caráter permanente, como os espetáculos “Som e Luz” e “Um Sarau Imperial”. Enquanto o primeiro convida o público a uma verdadeira viagem ao período imperial com o emprego de alta tecnologia, o segundo proporciona a vivência de uma atividade de lazer comum no século XIX. Ambos os projetos alcançaram grande sucesso de público, tendo o espetáculo “Som e Luz” provocado um impacto muito positivo na economia local, especialmente nos setores de hotelaria, gastronomia e serviços.
Com a criação da Sociedade de Amigos do Museu Imperial (SAMI) – associação civil sem fins lucrativos criada há 21 anos para auxiliar o museu no desempenho de suas atribuições –, a instituição passou a contar com o prestimoso apoio de cidadãos que, de forma gratuita e graciosa, têm-se empenhado para o alcance dos objetivos institucionais do Museu Imperial.

Para além das atividades consideradas básicas de preservar, estudar e comunicar os bens sob sua responsabilidade, o museu pretende enfrentar novos desafios durante as próximas décadas, tais como expandir seu acervo, completando conjuntos que ainda necessitem de exemplares documentais, bibliográficos e objetuais e ampliar o número de visitantes, seja através da fidelização de público com a oferta de eventos, serviços e novas opções para a apropriação de suas coleções, seja através da formação de novos públicos, com a expansão dos recursos de comunicação e condições de acesso. Assim, será possível afirmar que o Museu Imperial é, de fato, um patrimônio de todos os brasileiros.

Artigo publicado em A Tribuna de Petrópolis, 29.03.2017, p. 3.

*Maurício Vicente Ferreira Júnior é
historiador, professor de História da Universidade Católica de Petrópolis, sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e diretor do Museu Imperial – Ibram – MinC.

 

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SAPO.PT – A última escrava portuguesa morreu em Lisboa nos anos 1930

A última escrava portuguesa morreu em Lisboa nos anos 1930

25 mar, 2017 – 10:36 • Dina Soares

“Escravos de Portugal” reúne histórias de escravos. Portugal é pioneiro na abolição da escravatura, mas ela só acabaria, de facto, muito depois de 1761, diz o historiador Arlindo Manuel Caldeira.

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Chafariz d’el Rey, anónimo. Colecção Berardo

Já Portugal era há muito uma república quando morreu, em Lisboa, a última escrava do império. Foi nos anos 30 do século passado. Os jornais da época diziam que teria 120 anos. Era muito conhecida no Bairro Alto, onde vendia amendoins. Tinha sido escrava até 1869, data em que foi publicado o decreto que abolia a escravatura em todo o território português.

Portugal foi o primeiro estado do mundo a fazer comércio global de escravos vindos de África. Entre 1450 e 1900, terá traficado cerca de 11 milhões de pessoas. Apesar da mitologia histórica nacional gostar de exibir o galardão de primeiro país do mundo a abolir a escravatura, o decreto publicado em 1761 pelo Marquês de Pombal não acabou, de facto, com os escravos.

A história da escravatura no império português só começou a ser estudada a sério depois do 25 de Abril.

Segundo o historiador Arlindo Manuel Caldeira, autor de “Escravos em Portugal – Das Origens ao Século XIX”, editado este mês pela Esfera dos Livros, “o facto de termos vivido durante muito tempo sob um regime autoritário que se baseava num esforço de propaganda marginalizou estes aspectos e tornou-os muito difíceis de abordar. Não havia teses nas universidades e as que existiam tinham quase sempre efeitos laterais de propaganda – serviam mais para negar a realidade do que para a tentar compreender.”

Olhar para a realidade da escravatura do ponto das pessoas foi o objectivo do estudo agora publicado por este historiador. “Escravos em Portugal” reúne histórias de vítimas da escravatura. Entre elas estão as de Lourenço, marcado na testa pelo seu senhor com um ferro em brasa; a de João, que tinha ao pescoço uma argola de ferro com o nome do seu dono; e a de Florinda, chamada à Inquisição por recorrer a feitiços na esperança de abrandar as iras da sua ama.

“O escravo é normalmente apresentado como uma peça, um objecto. Eu quis apresentá-los como pessoas, seres vivos, o que não é fácil porque nem sempre as fontes que referem a escravatura têm este cuidado com as pessoas. Pelo contrário”.


GRÁCIA, CONDENADO PELO SEU PRÓPRIO ASSASSINATO

A história passa-se no século XVII, em Évora. Grácia, escrava pertencente a um despenseiro do Santo Ofício, era uma mulher fraca e, provavelmente, com problemas de saúde. Certo dia, o dono manda-a levar uns cestos de queijos a um almocreve que vinha para Lisboa. Grácia não aguenta o peso dos cestos, deixando-os cair. Como castigo, o despenseiro espanca-a com grande violência. A mulher regressa a casa, gritando “morro, morro”. Acaba mesmo por morrer. A Inquisição decide, então, abrir um processo para justificar a morte, que acaba provando que a culpada era… a própria escrava. O padre encarregue do processo ainda lamenta não ter chegado mais cedo ao local do crime. “Conheço muito bem as manhas dos escravos” – diz ele nos autos – “eles fecham a boca para deixarem de respirar e morrerem. Se tivesse chegado mais cedo, chegava-lhe fogo à boca, ela era obrigada a respirar e não morria.”


Para encontrar estas histórias de escravos, Arlindo Manuel Caldeira recorreu sobretudo aos processos judiciais. “ O que têm mais informação são os processos da Inquisição, onde as perguntas são muito detalhadas e muito dirigidas ao quotidiano, o que os torna particularmente ricos”.

Arlindo Manuel Caldeira, autor do livro “Escravos em Portugal”

A escravatura não foi proibida em 1761

“Escravos em Portugal” vai desde as origens da escravatura até ao século XIX.

“Na verdade, em 1761, a escravatura não foi proibida, o que foi proibido foi a entrada de novos escravos. Isso não se traduziu no fim da escravatura, uma vez que, além dos escravos já existentes, havia também os que nasciam de mãe escrava e por isso continuavam escravos. Em 1763, o Marquês de Pombal aprovou uma nova lei, a lei do ventre livre, que determinava que os filhos de escravos passavam a ser homens livres e que todos os escravos cuja bisavó já era escrava podiam ser libertados. Teoricamente, restava apenas uma geração de escravidão, mas isso não aconteceu por razões fraudulentas: a entrada ilegal de escravos vindos das colónias.”

Com a independência com o Brasil, em 1822, regressam a Portugal muitos portugueses que trouxeram os escravos como um dos seus aforros.

Perante a lei, à chegada a Portugal deviam tornar-se livres, mas o rei concedeu aos seus donos um privilégio especial para os poderem manter.

Para Arlindo Caldeira, “a precocidade da decisão do Marquês tem sido muitas vezes usada como propaganda porque se partia apenas da realidade europeia, quando o que estava em causa era a abolição nas colónias”.

Mesmo assim, o historiador reconhece méritos ao primeiro-ministro de D. José I. “O Marquês era um ser muito complexo. Era um mercantilista, mas também um iluminista. Foi ele, por exemplo, que acabou com o estatuto do cristão-novo. Ele via que o escravo era um ser marginalizado e procurou integrá-lo na sociedade. Na Europa, o Marquês é um precursor. Portugal é um dos primeiros a abolir a entrada de escravos na Europa, mas também não podemos esquecer que somos quase dos últimos a abolir a escravatura nos territórios coloniais.”

Indemnizações?

Curiosamente, esta realidade não dá origem a grandes movimentos abolicionistas – os que surgem, surgem bastante tarde.


JOÃO DE SÁ, DE ESCRAVO A CAVALEIRO

O caso mais conhecido de ascensão social de um escravo aconteceu com um homem chamado João de Sá, que viveu na corte de D. João III. João de Sá tinha trabalhado nas cavalariças de um nobre próximo do rei e foi o seu dono que o recomendou para a corte. Como era muito “gracioso”, isto é, tinha um grande sentido de humor, tornou-se muito apreciado pelo rei que não só lhe deu alforria como também o hábito da Ordem Militar de Santiago, uma distinção bastante rara. É o único escravo nesta situação, uma situação realmente excepcional.


“Quando se começa a discutir – sobretudo por pressão inglesa – a restrição ao tráfego nas colónias, isso provoca grande resistência em Portugal. Só muito tarde é que surge uma corrente favorável à abolição da escravatura, contra os interesses instalados nas classes dirigentes, e a primeira medida a proibir a escravatura em todos os territórios sob administração portuguesa só é aprovada em 1869. Em Portugal continental já quase não havia escravos, mas nas colónias havia muitos e essa realidade manteve-se de forma encapotada como trabalho forçado, que é quase a mesma coisa, pelo século XX fora.”

A constatação desta realidade tem alimentado uma corrente que defende que os países africanos de onde era oriunda a maioria dos escravos deviam ser indemnizados.

Arlindo Caldeira discorda. “Não vejo nem fundamento nem viabilidade. Vitorino Magalhães Godinho dizia que a culpa não é hereditária. Mesmo o pedido de desculpas só se compreende do ponto de vista político. No caso de indemnização, como se iria calcular o valor de uma vida humana e quem devia receber a indemnização? A nossa obrigação é fazer tudo para evitar que se repitam os erros do passado”, argumenta.

“Indiferença” a um crime

Actualmente, a escravatura é um crime e isso faz toda a diferença. O que preocupa o historiador é a “indiferença” com que as notícias sobre este crime são recebidas pela opinião pública.

“Mais do que o crime é si, o que é grave é a indiferença com que se encaram situações que estão muito próximas da escravidão”, critica.

Apesar de parecer uma realidade longínqua, a escravatura continua a existir. Em Portugal, entre 2014 e 2015, o Observatório do Tráfico de Seres Humanos, do Ministério da Administração Interna, sinalizou 193 presumíveis escravos e deu conta de 40 condenações de traficantes. A organização não-governamental Walk Free Foundation calculava que, em 2016, viviam em todo o mundo 46 milhões de pessoas em regime de escravidão.

Fonte: http://rr.sapo.pt/noticia/79112/a_ultima_escrava_portuguesa_morreu_em_lisboa_nos_anos_1930

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AgênciaBrasil – Governo volta a divulgar lista suja do trabalho escravo após decisão judicial

Governo volta a divulgar lista suja do trabalho escravo após decisão judicial

  • 24/03/2017 19h19
  • Brasília
Ivan Richard Esposito – Repórter da Agência Brasil

Depois de quase três anos sem ser atualizada e após uma intensa disputa judicial entre governo e Ministério Público do Trabalho (MPT), voltou a ser divulgado o cadastro de empresas autuadas por submeter seus empregados a condições análogas à escravidão, a chamada “lista suja do trabalho escravo”.

A lista, publicada na noite de ontem (23) no site do Ministério do Trabalho, tem 68 empregadores que foram flagrados por fiscais submetendo seus empregados a situação análoga à escravidão. De acordo com a lista, de 2011 até o final do ano passado, 503 trabalhadores estavam em situação de trabalho degradante. O total refere-se apenas aos casos em que houve decisão administrativa pela punição aos empregadores sem possibilidade de recurso.

Ainda segundo a lista suja do trabalho escravo, a maior parte das irregularidades foi registrada em fazendas, 45 no total. Os ficais do trabalho também encontraram trabalhadores submetidos a situação análoga à escravidão nos ramos da construção civil e carvoaria e no madeireiro. Ao todo, nove empresas da construção civil aparecem na lista.

Em 2014, a lista suja do trabalho escravo deixou de ser atualizada após o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, conceder liminar a pedido da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias para suspender a divulgação.

Em maio do ano passado, a ministra Cármen Lúcia, atual presidente do STF,  revogou a medida cautelar, retirando o impedimento à publicação do cadastro. Mesmo assim, a lista não voltou a ser publicada pelo Ministério do Trabalho.

Em 30 de janeiro deste ano, o juiz Rubens Curado Silveira, titular da 11ª Vara do Trabalho, concedeu ao MPT uma liminar para obrigar o governo a publicar a lista suja no prazo de 30 dias, sob pena de multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento. A Advocacia-Geral da União (AGU) recorreu ao Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (TRT10), que manteve a determinação.

Contundo, no último dia do prazo para que o Ministério do Trabalho publicasse a lista suja, a AGU recorreu mais uma vez da decisão, dessa vez, no Tribunal Superior do Trabalho (TST). O presidente da corte trabalhista, ministro Ives Gandra Martins Filho, acatou o pedido da AGU e, novamente, o cadastro não foi publicado.

No último dia 14, o ministro Alberto Bresciani, do TST, derrubou a liminar concedida por Ives Gandra. Com isso, voltou a valer a decisão do TRT da 10ª Região que havia determinado a publicação da lista suja do trabalho escravo.

Edição: Fábio Massalli
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REVISTA VEJA – Uma senhora soberana

UMA SENHORA SOBERANA

Textos inéditos refazem a trajetória da imperatriz Leopoldina e mostram que a mulher traída e humilhada por dom Pedro I teve papel decisivo nos destinos do Brasil

MARIA CLARA VIEIRA

 

 

D. LEOPOLDINA: A HISTÓRIA NÃO CONTADA, de Paulo Rezzutti (LeYa, 464 páginas, 64,90 reais).

MARIA LEOPOLDINA, imperatriz do Brasil, entrou para a história pela porta da tragédia: a pobre princesa humilhada e deprimida pelas infidelidades e pelos maus-tratos do marido, dom Pedro I. O retrato é verdadeiro, mas Leopoldina não foi só uma soberana melancólica. À medida que documentos inéditos sobre ela são tirados do baú do passado, onde repousaram por 200 anos sem despertar maior interesse, e outros já conhecidos são analisados em profundidade, vem à luz uma jovem alegre, uma noiva apaixonada e uma imperatriz bem preparada e perspicaz, que desempenhou papel relevante em momentos definidores da formação do Brasil. Culta, esclarecida e decidida, Leopoldina dedicou-se com fervor ao movimento pela separação de Portugal depois que a corte de dom João VI retornou à Europa, o herdeiro Pedro permaneceu como seu representante e o Brasil se viu na iminência de voltar a ser mera colônia. “Fiquei admiradíssima quando vi, de repente, aparecer meu esposo, ontem à noite. Ele estava mais bem-disposto para os brasileiros do que eu esperava ó mas é necessário que algumas pessoas o influam mais, pois não está tão positivamente decidido quanto eu desejaria”, confidenciou em carta a seu secretário meses antes da independência, em setembro de 1822. Ela se apaixonou pela causa e abandonou o sonho de retornar à Áustria. “Costumo dizer que o ‘fico de Leopoldina é bem anterior ao de dom Pedro”, diz o pesquisador Paulo Rezzutti, autor de D. Leopoldina: a História Não Contada, a ser lançado na semana que vem.

Além da preocupação sincera com o futuro dos brasileiros ela era querida e admirada pela população, a mulher de dom Pedro tinha motivos muito práticos para apoiar a independência. Via o trono de Portugal enfraquecido e ameaçado por disputas. Concluiu que, permanecendo aqui, sua família manteria maior prestígio e projeção entre as coroas europeias. “Era uma mulher obcecada em garantir um trono para os filhos”, explica a historiadora Mary Del Priore, outra estudiosa da nobre austríaca. Independentemente das razões que a moviam, a relevância política de Leopoldina é incontestável. Em pelo menos três ocasiões em que viajou, dom Pedro a instalou como sua representante no Rio. Ela presidia o Conselho de Estado, órgão que assessorava o príncipe, na sessão de 1822 em que os conselheiros se puseram a favor da separação do Brasil de Portugal e da contratação de mercenários para a luta contra as tropas portuguesas. O passo seguinte foi o grito às margens do Ipiranga.

A biografia retrata com pinceladas até então desconhecidas a jovem arquiduquesa da rica e poderosa casa austríaca de Habsburgo que se casou por procuração com dom Pedro (no segundo centenário de sua chegada ao Brasil, ela é personagem na novela das 6, Mundo Novo, que estreia no dia 22, vivida por Letícia Colin). Até agora, pouco se sabia a respeito da longa viagem que a princesa realizou em 1817, saindo de Viena, passando pela Itália e pela Ilha da Madeira e cruzando o Atlântico rumo ao novo continente. Em seu livro, Rezzutti reproduz os escritos inéditos da condessa Maria Ana von Kühnburg, dama de companhia da arquiduquesa que viajou com ela ó a contragosto ó e narrou a experiência em um diário e em cartas ao pai e à melhor amiga. Remexer papéis empoeirados é atividade propícia a surpresas: outro livro recém-lançado (leia a resenha na pág. 96) revela aspectos desconhecidos de Antônio Conselheiro, que no fim do século XIX desafiaria a nascente República em Canudos. Os textos da dama de companhia de Leopoldina sobre a jornada em navio português, assinados com seu apelido, Nanny, revelam uma princesa inquieta e ansiosa e dão pistas da corte carola e antiquada que ela, acostumada aos refinados salões vienenses, encontraria no Brasil. “Fazer passeios com a princesa seria um crime”, relata Nanny, em referência à proibição de caminhadas pelo convés sem o devido séquito. A condessa faz ainda um relato minucioso da chegada em 5 de novembro de 1817, desde o primeiro minuto ó “Logo de manhã um grito: terra, terra, martela os ouvidos de todo mundo” ó até o encontro de Leopoldina com a nova família. “Como o rei havia anunciado que ele não poderia subir no nosso navio por ter dor numa das pernas, nossa princesa, seguida da sua corte, desceu as escadas e veio até o barco do rei, que estava rodeado de toda a sua família.” Tímidos, dom Pedro e Leopoldina mantinham os olhos baixos e “os levantavam furtivamente de vez em quando”. Rezzutti conta que procurou pelos escritos completos da condessa, dos quais conhecia apenas trechos, em museus, institutos e coleções na Europa. Acabou por encontrá-los em São Paulo, no Instituto Hercule Florence, especializado em documentos do século XIX. Nunca haviam sido traduzidos nem expostos. Outro fragmento da história apresentado no livro é o diário da própria Leopoldina na sua juventude em Viena, que se encontra no Museu Imperial de Petrópolis e permanecia inexplorado. O documento revela uma jovem impetuosa e divertida, que descreve com humor os reis e príncipes presentes ao Congresso de Viena, presidido pelo seu pai, Francisco I. “Os relatos da infância ajudam a desconstruir a ideia de que Leopoldina sempre foi dada à melancolia”, diz o historiador. A depressão abateu-se sobre ela quando o marido perdeu a cabeça por Domitila, a marquesa de Santos, e instalou a amante na corte. Em 1826, Maria Leopoldina, que teve sete filhos em sete anos — Pedro, futuro imperador, foi o caçula —, morreu em consequência de um aborto seguido de infecção. O Brasil, que nas suas palavras “nunca poderia ser subjugado pela Europa”, era independente fazia quatro anos.

Fonte: Revista Veja, edição nº. 2.522, de 22.03.2017, pp. 92-95.

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O GLOBO – Acervo do Museu Imperial será disponibilizado on-line

Acervo do Museu Imperial será disponibilizado on-line

Museu teve parte do acervo digitalizado, em parceria com o Google. Tour virtual começará em junho

POR IGOR MELLO

Traje majestático de dom Pedro II: incluído em exposição sobre moda – Marcelo de Jesus / Agência O Globo

 

PETRÓPOLIS – Circular pelos jardins do Museu Imperial e visitar o prédio de arquitetura imponente encravado no Centro de Petrópolis são programas obrigatórios para quem vai à cidade. Mas em breve não será mais preciso subir a serra para conhecê-lo. Parte do acervo de um dos principais centros culturais brasileiros estará disponível on-line, através de uma parceria firmada entre o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e o Google. O lançamento dos conteúdos digitais está previsto para ocorrer em junho, durante o 7º Fórum Nacional de Museus, em Porto Alegre.

Com a parceria — que incluirá outros quatro museus brasileiros —, o Museu Imperial estará inserido no projeto Google Art, que disponibiliza diferentes ferramentas de visualização para o público interessado em arte e história de todo o mundo. Usando o Google Street View, será possível adentrar os portões e fazer um tour pelos salões adornados com objetos, joias e obras de arte da família imperial brasileira. Diversos itens da coleção — como a famosa coroa de dom Pedro II e vários quadros — foram registrados em altíssima resolução, revelando os mínimos detalhes das obras. É o que explica a museóloga Muna Raquel Durans, responsável pela parceria na instituição:

— Vamos ter duas exposições virtuais no Google Art. Por meio dessas imagens de altíssima resolução é possível ver detalhes da pincelada de um artista e até mesmo da trama da tela em que a imagem foi pintada. Isso é muito importante, por exemplo, para pesquisadores de diversas áreas.

Os profissionais da empresa americana trabalharam por cerca de dois meses na digitalização do acervo, entre setembro e outubro do ano passado. Para o diretor do Museu Imperial, Maurício Vicente Ferreira Junior, a iniciativa vai ampliar o interesse do público pela instituição. Ele rechaça a ideia de que a visita virtual interfira na presencial.

— Muito pelo contrário. Um museu tem que atender todos, desde um estudante de doutorado até quem não sabe ler. Por limitações de espaço, uma parte muito pequena do nosso acervo (apenas 8%) fica em exposição. Nos maiores museus do mundo, esse percentual é ainda menor. A digitalização permite que caminhemos na direção da disponibilidade total do material — explica Ferreira Junior.

Uma curiosidade diz respeito ao guarda-roupas de dom Pedro II. O traje majestático do imperador — hoje exposto num salão vizinho à sua coroa — passará a integrar uma exposição virtual mantida pelo Google apenas sobre moda ao longo da história.

Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/bairros/acervo-do-museu-imperial-sera-disponibilizado-on-line-21060305

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