Gazeta do Povo – Liberdade para mim, miséria para você (artigo)

A favela da Rocinha e o bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro.| Foto: Alicia Nijdam/Flickr/Wikimedia Commons
  • Paulo CruzPor Paulo Cruz 1
  • 23/11/2022, 20:32

I’ve been wonderin’ why / People livin’ in fear / Of my shade / (Or my hi top fade) / I’m not the one that’s runnin’ / But they got me one the run / Treat me like I have a gun / All I got is genes and chromosomes / Consider me Black to the bone.

Public Enemy, Fear of a black planet

O leitor que me acompanha nas redes sociais deve ter visto a agitação causada por uma postagem minha, por ocasião do Dia da Consciência Negra, em que recomendei, no texto da legenda, que trocássemos o famigerado vídeo do Morgan Freeman que as pessoas “de direita” costumam espalhar pelas redes nessa data por um pequeno vídeo com o trecho de uma entrevista de ninguém menos que Malcolm X – visto por muitos, erroneamente, como um sujeito violento e separatista. Digo isso porque o vídeo de Freeman, sem qualquer contextualização, passa uma ideia de que o racismo pode ser vencido pela inércia, o que é um erro grosseiro – ainda mais num país como o Brasil. Explico rapidamente: o fato de Morgan Freeman dizer que rejeita o Black History Month não significa que ele acredite que o racismo não exista, mas que a desracialização da sociedade é um melhor caminho que sua racialização por meio de datas que reforcem a diferença entre negros e brancos.

Entretanto, a superação do errôneo conceito de raças é um processo que não pode ser vencido enquanto o racismo ainda opera de modo tão profundo na sociedade. Como sempre digo, trata-se de um processo que exige a mudança da imaginação moral dos brasileiros, negros e brancos. E ser negro em países onde a escravidão negra vicejou por tanto tempo é diferente de não sê-lo – pelo menos por enquanto, pois, em termos históricos, é tudo ainda muito recente. Por isso julgo que um dia de reflexão sobre os males do racismo e a busca de caminhos para sua superação ainda é algo importante, embora já tenha escrito um texto, há dez anos, fazendo críticas ao modo como a data é organizada e o tipo de discussão que é promovida. Ainda assim mantenho minhas críticas, mas gravei um vídeo mais recentemente, e escrevi um artigo aqui mesmo, nesta Gazeta do Povo, explicando por que, pelo menos por enquanto, não é possível falar simplesmente em consciência humana. E mais: exaltar, como faço diuturnamente nesta coluna, o legado positivo dos negros para a sociedade ainda é uma necessidade fundamental nesse sentido, pois, por muito tempo, a história do negro, na educação e na cultura, fora relegada à escravidão.

A superação do errôneo conceito de raças é um processo que não pode ser vencido enquanto o racismo ainda opera de modo tão profundo na sociedade. Trata-se de um processo que exige a mudança da imaginação moral dos brasileiros, negros e brancos

Voltando ao vídeo de Malcolm X e à celeuma atual, minha proposta de substituição dos vídeos foi, evidentemente, uma provocação – à esquerda e à direita –, pois trata-se do trecho em que ele acusa os líderes negros de sua época (e ele pensava específica, embora erroneamente, em Martin Luther King Jr.) de serem não só financiados, mas controlados por progressistas brancos, que os faziam de “fantoches”. Malcolm diz: “Você não consegue citar um líder negro que tenha traído os negros sem que tenha sido endossado, aprovado, subsidiado ou apoiado por progressistas brancos”. Na legenda de minha postagem, complementei:

O radicalismo de Malcolm X deve ser ponderado pelas circunstâncias, mas é curioso que ele enxergasse as coisas dessa forma naquela época, pois faz uma crítica em sentido inverso ao que se costuma criticar hoje: a de que negros que não são de esquerda fazem o que os brancos (racistas, nesse caso) querem. Aqui ele acusa os negros de serem marionetes da esquerda. José Correia Leite, um dos maiores ativistas negros que esse país já teve – ele mesmo de esquerda –, disse algo parecido, que os negros estão dispersos nos partidos dos brancos, lutando a luta do branco e perdendo o espírito de união que os faria avançar em conjunto, como um ʻpovoʼ. Judeus prosperam em união, orientais também. Essa discussão é, portanto, legítima.

Pois bem, atento leitor. Ao lerem isso, algumas pessoas – curiosamente, não negras, se é que me entende –, objetaram, pois julgam perigosa a defesa de uma união dos negros como um povo. Em nome de um suposto antagonismo absoluto entre Malcolm X e Martin Luther King – o que também é um erro grosseiro –, algumas pessoas evocaram o nome do glorioso pastor batista para dizer, por exemplo: “Claro que, infelizmente, ainda existe racismo. Sempre existirá (como todo mal). Temos de combatê-lo. Mas temos de ter a preocupação de não banalizá-lo e não torná-lo um instrumento de ruptura e ódio entre raças. Bem ou mal, MLK, ao pregar a união entre as raças, falava de nos preocuparmos em ver a pessoa independentemente da cor sem violência.” Bem, primeiro que Malcolm X não está banalizando o racismo, muito pelo contrário. Segundo, que MLK não falava em “ver a pessoa independentemente da cor e sem violência”. E apenas sonhava com isso. E ao dizer – no mesmo discurso em que dizia ter um sonho de que brancos e negros fossem unidos –, por exemplo, que “não haverá descanso nem tranquilidade na América até que se conceda ao negro a sua cidadania. As tempestades da revolta continuarão a balançar os alicerces da nossa nação, até que floresça a luminosa manhã da justiça”, ele estava sendo radicalíssimo!

Mas tudo piorou quando outra pessoa disse: “Mas criar um time de negros para benefícios comuns dentro da sociedade, contra os brancos, seria a solução? Esse argumento é até empiricamente errado, pois entre os negros (assim como brancos e orientais) há povos diferentes, com vontades e culturas diferentes, você vai conseguir unir a todos? Não concordo com essa abordagem de lutas de classes, Marx pra mim é um erro. Minha opinião. […] Eu acredito no objetivo comum, no pertencimento. Não é fácil. Pode ser sonho meu. Mas foi o que deu resultados. Vide os EUA”. Vamos lá: óbvio que nas redes sociais temos de contar com o volume gigantesco de opiniões escabrosas que as pessoas dão com um ar de sofisticação intelectual. Mas alguns exageram. Primeiro, porque eu não disse negros contra brancos. Segundo, que não importa se no Brasil temos uma maioria mestiça que muito dificilmente se encaixaria no conceito fenotípico de negro. Terceiro, que não há nisso, absolutamente, nada de luta de classes. Isso é o mais puro liberalismo.

Se o capitalismo é um sistema de trocas voluntárias e o liberalismo é a soma, como dizia o sábio André Rebouças, da inciativa individual e do espírito de associação, unir-me a outras pessoas que enfrentam as mesmas adversidades que eu, numa sociedade que nos subalterniza, é a melhor maneira de buscar a ascensão socioeconômica em conjunto. Para espanto do confuso comentarista, foi exatamente o que os negros americanos fizeram – não sem ajuda de pessoas brancas, sobretudo da comunidade judaica. Não há nada de luta de classes, nada de marxismo, só o bom e liberal espírito de associação. E mais: essa é uma perspectiva de união não excludente nem exclusiva, mas ideal. Um ideal, inclusive, menos econômico que imaginativo. Se há um imaginário que os mais de 300 anos de escravidão e mais de 100 de doutrinas eugenistas – inclusive como política de Estado no Brasil – forjaram, fortalecer um imaginário diverso é uma tarefa de todos.

Mas a coisa ficou ainda mais espantosa quando um dos meus interlocutores – sim, respondi vários comentários com o intuito de ser, digamos, pedagógico – disse: “não seria melhor a gente falar de igualdade social e prosperidade para todos independentemente de raça e cor de pele? Não seria melhor nos unirmos em torno de um ideal comum de igualdade, prosperidade e justiça?”, esquecendo-se de que a igualdade de fato, no Brasil, é uma fantasia. Lembrando novamente Tobias Barreto, citado por mim no artigo da semana passada, a igualdade é uma consequência da liberdade, um produto da liberdade. O Brasil está na posição 133 no índice de liberdade econômica da Heritage Foudation, ou seja, está entre os países menos livres. E, se não existe a possibilidade de espírito de associação, não existe liberdade. Não somos iguais porque não somos livres; não somos livres porque a vida de milhões de pessoas não se encaixa num discurso de igualdade abstrato. E o outro disse: “Minhas experiências e ideias têm o mesmo valor, a princípio, que qualquer uma. Como liberal de direita eu acredito nisso”.

Como uma pessoa que se diz “liberal de direita” consegue satisfazer-se com sua liberdade num país eivado de miseráveis?

A esse respeito, caríssimo leitor, gostaria de abrir um flanco de discussão aqui que pretendo aprofundar em outra ocasião. Como uma pessoa que se diz “liberal de direita” consegue satisfazer-se com sua liberdade num país eivado de miseráveis? Creio que eu saiba a resposta. Meu interlocutor baseia seu conceito de liberdade dos livros que leu e sente que, para sua vida confortável, aquilo soa como música. O liberalismo brasileiro do século 21 é basicamente formado por ricos que leram os autores da Escola Austríaca e querem pagar menos impostos. Por isso, para eles, não importa que o país tenha uma quantidade absurda de pessoas cuja pobreza e mesmo o Estado não lhes permita a iniciativa individual e o espírito de associação. São pessoas que vivem na Áustria de Mises mesmo estando num país em que mais de 17 milhões de pessoas moram em favelas e onde a miséria está sempre à porta.

Na verdade, o liberalismo brasileiro não deveria ter como fundamento uma transferência exata dos conceitos desenvolvidos na Europa do século 20 (ou 18, no caso de Adam Smith), mas uma adaptação à nossa realidade. Foi o que fez aquele que deveria ser o nosso modelo de pensamento liberal, o movimento abolicionista. O abolicionismo brasileiro foi um movimento liberal, fomentado e teorizado por liberais que leram os autores europeus e fizeram a interpretação necessária para um contexto de pobreza e escravidão. Para um liberal de direita como Joaquim Nabuco, sua liberdade individual não bastava: o país precisava ser livre e, mais do que isso, deveria trabalhar para superar o legado da escravidão. Disse ele, em O Abolicionismo:

Quando mesmo a emancipação total fosse decretada amanhã, a liquidação desse regime só daria lugar a uma série infinita de questões, que só poderiam ser resolvidas de acordo com os interesses vitais do país pelo mesmo espírito de justiça e humanidade que dá vida ao abolicionismo. Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância. O processo natural pelo qual a escravidão fossilizou nos seus moldes a exuberante vitalidade do nosso povo durante todo o período de crescimento, e enquanto a nação não tiver consciência de que lhe é indispensável adaptar à liberdade cada um dos aparelhos do seu organismo de que a escravidão se apropriou, a obra desta irá por diante, mesmo quando não haja mais escravos.

O liberal de direita José Bonifácio de Andrada e Silva, em sua Representação à Assembleia Geral Constituinte e legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura, de 1825, dirá: “Se os negros são homens como nós, e não formam uma espécie de brutos animais; se sentem e pensam como nós, que quadro de dor e de miséria não apresentam eles à imaginação de qualquer homem sensível e cristão? Se os gemidos de um bruto nos condoem, é impossível que deixemos de sentir também certa dor simpática com as desgraças e misérias dos escravos; mas tal é o efeito do costume e a voz da cobiça que veem homens correr lágrimas de outros homens sem que estas lhes espremam dos olhos uma só gota de compaixão e de ternura. Mas a cobiça não sente nem discorre como a razão e a humanidade”. Ou, em outra ocasião: “Que valem títulos, dignidade e honras dados sem justiça, e como paga da escravidão e dos vícios?”

E o liberal de direita José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, dirá, em seu Da liberdade do trabalho: “É portanto essencial à riqueza do Estado que se deixe a cada um pleno arbítrio, não só na escolha da sua profissão, e modo de vida, dirigido unicamente pela ordinária prudência, e afeto dos pais, senão também na mudança de umas para outras ocupações, que tiverem entre si afinidade e analogia, segundo as circunstâncias; removendo-se por este modo a obstrução do trabalho e indústria, que retém em muitos países grande número de indivíduos na miséria, com desonrada humanidade, e imensa diminuição da pública opulência, e felicidade social”. Ou, ainda, o maior dos liberais brasileiros, o já citado Rebouças, que, no seu projeto para o pós-abolição defendia a realização de uma – pasme, caro liberal – reforma agrária e, dentre outras coisa, que se promovesse, por exemplo, “a descentralização governamental, reduzindo o governo imperial aos indispensáveis serviços públicos de justiça, segurança interna e externa, dívida nacional e relações internacionais; e a liberdade de comércio e a abolição de todos os direitos protecionistas à liberdade de indústria, à liberdade bancária, à liberdade de trabalho mental”. Tudo isso com os grandes latifundiários arrendando parte de suas terras aos ex-escravos para a consolidação de uma produção em escala. Tudo isso fundamentado em autores clássicos do liberalismo como Adam Smith, Frédéric Bastiat e Jean-Baptiste Say.

Por isso defendo que o modelo de liberalismo brasileiro seja baseado não diretamente nos autores europeus, mas na grande tradição liberal brasileira do séc. 19, atentando para nossa realidade e para os nossos problemas, que são enormes – tão enormes quanto nosso país. Escapar e combater o discurso revolucionário exige que finquemos os pés na realidade e saibamos adaptar os conceitos às nuances que a situação concreta exige. Lembremos que Adam Smith escreveu primeiro a Teoria dos sentimentos morais – na qual afirma, logo de início, que “por mais egoísta que se supõe o homem, evidentemente há alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte de outros, e considerar a felicidade deles necessária para si mesmo” –, para só depois escrever A riqueza das nações. Compreendendo isso, sairemos da lógica nefasta do liberdade para mim, miséria para você.

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1 Paulo Cruz é professor e palestrante nas áreas de filosofia, educação e questões relacionadas ao racismo no Brasil. Formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião, é professor de Filosofia e Sociologia na rede paulista de ensino público. Em 2017 foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura, anualmente, por indicação popular, a nomes que se destacaram na produção e divulgação cultural. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

Fonte: https://archive.md/d3Ds8#selection-2078.0-2093.16

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Entrevista com o presidente do IDII sobre os 10 anos do programa “O maior brasileiro de todos os tempos”, do SBT

Equipe IDII:

Bom dia, boa tarde, boa noite, boa qualquer hora, Prof. Bruno. Como vai o senhor? Poderia se apresentar para nossos leitores, por gentileza?

Prof. Bruno da Silva Antunes de Cerqueira:

Profissionalmente, sou historiador e advogado de formação, pela PUC-Rio e o UniCEUB, especialista em Relações Internacionais pela Universidade Candido Mendes, mestrando no PPGH-Universo. Fui assessor do Cerimonial da Alerj nos anos 2000 e assessor da Vereadora Sonia Rabello de Castro na Câmara do Rio em 2011. Tornei-me indigenista especializado da Funai em 2012 e me encontro na autarquia indigenista até hoje. De nascimento, sou niteroiense, embora morasse no Rio quando vim residir em Brasília. Sou o segundo de três irmãos e minha família paterna vem da Zona da Mata mineira e fluminense e a materna, da Região dos Lagos do Estado do Rio.

Equipe IDII:

Como foi sua reação quando a equipe do SBT contatou o IDII sobre a preocupação precípua de que houvesse uma mulher, ou mais de uma, na lista final do programa?

Prof. Bruno:

Faz exatamente 10 anos isso. Eles pediram nossa ajuda porque na listagem havia uma espécie de “cota” para as maiores brasileiras. E D. Isabel, desde a primeira lista, estava na relação. Eles não tinham ideia de quais historiadores entrevistariam e de como acessar os descendentes de D. Isabel.

Equipe IDII:

De quem partiu a ideia de que os membros do IDII fossem entrevistados para exibição de curtos vídeos biográficos? O senhor sabe ou se lembra de como foram as reações da então conselheira-presidente, Laila Vils, do representante do Instituto em Brasília o advogado Roberto Nobre Machado? E a arquivista Fátima Argon, do Museu Imperial, como ela reagiu?

Prof. Bruno:

Sim. Foram ótimas. Tivemos de acertar agendas, locais de gravação etc. Foi tudo muito corrido, “para ontem”, como se costuma dizer.

Equipe IDII:

E o senhor?

Prof. Bruno:

Eu vivia meu primeiro ano de Brasília e tinha de ir e vir ao Rio várias vezes, sendo incerta, ainda, minha permanência na capital, razão pela qual foi difícil agendar uma gravação, sendo que os estúdios deles são em SP.

Equipe IDII:

D. João Henrique de Orleans e Bragança foi convidado como embaixador de D. Isabel, seu bisneto mais conhecido. Sabe de alguma rusga que tenha havido em decorrência do convite? Os ramos de Petrópolis e Vassouras têm disputas históricas em relação aos direitos dinásticos ante a hipótese restauracionista…

Prof. Bruno:

Justamente para evitar as rusgas, que são grandes, o IDII passou o contato dos descendentes isabelinos que moram em SP. Luiz Philipe e Gabriel estiveram presentes na plateia, na primeira fila, como se pode ver pelos vídeos de YouTube. Se não me engano, Luiz Philippe falou nesse dia do orgulho de descender de uma mulher que havia tornado todos os brasileiros iguais. Não havia nenhum sinal de que ele viria a se envolver com uma corrente como o bolsonarismo.

Equipe IDII:

Como foi sua reação quando D. Isabel venceu o presidente FHC? Um homem de seu tempo, popular, renomado intelectual, um republicanista declarado, num regime republicano e tendo sido o próprio presidente da República, vencido por uma princesa do século XIX, distante de tudo e de todos, contra a qual se sabe terem propalado uma das maiores campanhas difamatórias da História do Brasil?

Prof. Bruno:

Trata-se de disputa de memórias. A de FHC, como vocês colocaram, era recentíssima, mas mesmo assim não tinha o apelo popular que a da “Princesa Isabel” possuía. No livro “Alegrias e Tristezas”, Fátima Argon e eu trabalhamos muito a diferença entre a “Princesa Isabel” e D. Isabel. Uma é uma personagem quase legendária para uma parte da população e outra é uma ilustre desconhecida, sobretudo por professores de História.

Equipe IDII:

Mas quanto de verdade havia nessas campanhas contra a D. Isabel?

Prof. Bruno:

A campanha da década de 1880 dizia, de modo resumido, que ela era inepta, por ser mulher, que era “carola” e “beata”, por ser católica engajada socialmente, que era uma fantoche do marido, o Conde d´Eu. Ele era muito mais atacado do que ela, inclusive, pois mesmo os jornalistas mais pró-República tinham receio de fustigar a regente, que possuía aura de prestígio entre os negros, antes do Treze de Maio e sobretudo após.

Equipe IDII:

Mas a historiadora Mary Del Priore foi sua orientadora, não foi? Ela tem um texto chamado “O Lado B da Princesa Isabel”. Teria mesmo a “maior brasileira de todos os tempos” um “lado B”?

Prof. Bruno:

Minha querida amiga e professora, Mary del Priore, não foi nunca minha orientadora. Ela “descobriu” os estudos isabelinos e isabelistas por meu intermédio, quando me deu aulas de diversas matérias, na PUC-Rio. Mas foi justamente o momento em que, em sua carreira intelectual, ela desejou não mais produzir historiografia em sentido estrito e partir para a divulgação histórica, como existe fortemente na Europa ou nos Estados Unidos. Essa forma de transmissão do conhecimento histórico produzido por pesquisas acuradas nos centros de ensino tem, como tudo, uma “doble face”. De um lado faz com que milhares de pessoas não versadas em historiografia conheçam um pouco de história e se interessem por aprendê-la, mas de outro não lhes permite adentrar nenhuma discussão teórica, sistemática, metodologicamente circunscrita. Desde o primeiro livro, “O Príncipe Maldito”, que eu resenhei para o AGCRJ, pude pontuar as críticas. Hoje todos trabalhamos como História Pública, como temos chamado, e com o tempo os eventuais erros interpretativos vão se dissolvendo.

Quanto ao “lado B” de D. Isabel, acho que ela possuía muitos outros. Não me consta que tenha jamais impedido escravizado de se tratar de tuberculose, como se disse em uma entrevista, até porque tinha 10 anos e não mandava nem em si mesma, que dirá em empregados de sua família. Mas D. Isabel não é a pessoa que idealizam os monarquistas brasileiros e sobretudo ela não era uma fanática religiosa. Ela foi uma católica social, uma católica plena, a governante mais cristã de nossa história nacional. Isso não faz dela nem “deusa”, nem “imaculada”. Era uma pessoa boa, mas com defeitos, como qualquer um de nós. Outro assunto interessante é o de sua hipotética beatificação, que depende de gigantesca pesquisa, o que hoje em dia ainda não se pôde realizar.

Equipe IDII:

64,2% dos votos! É um número significativo para quem sofreu tanto com décadas de exílio, longe de casa, quanto com essas campanhas, não acha? Como o senhor explica?

Prof. Bruno:

A memória isabelina (dela mesma) e isabelista (de seus seguidores e cultores) é forte, mesmo que atacada. Até 1921, quando morreu na França, o presidente do IHGB e da ABL, e que seria depois o reitor da Universidade do Brasil, Conde de Affonso Celso, dela dizia que era “a mais ilustre mulher do mundo”, vivendo banida e proscrita, como se fosse um pária, recebendo com ódio e vingança o pagamento pela Lei Áurea. De fato, isso é espantoso e todos os esforços de parte do Movimento Negro — absolutamente legítimo em suas demandas pela Segunda Abolição que a República de 1889 nunca ensejou — para obnubilarem D. Isabel, o abolicionismo isabelino e o próprio isabelismo, parece que não logram êxito.

Equipe IDII:

O IDII, num artigo datado de 27.09.2012, afirmou que tanto Santos-Dumont como Chico Xavier, o vencedor do programa, votariam em D. Isabel. Por quê? Pelo trecho do livro “Brasil, o Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, de 1938, em que ele menciona o ministério do Senador João Alfredo?

Prof. Bruno:

Sim. Nossa então presidenta, Laila Vils, que havia se graduado em História na Candido Mendes e era secretária-executiva de formação, lembrou nesse texto que Santos=Dumont e Chico Xavier eram ambos admiradores incontestes da filha de D. Pedro II. Se eles pudessem votar nela, ao invés de votarem em si mesmos, quem teria ganhado o programa inteiro seria ela e não Chico Xavier.

Equipe IDII:

“Redentora”? Mas a escravidão já não se encontrava em declínio, como mencionou Leandro Karnal em artigo sobre seu livro?

Prof. Bruno:

A escravidão, nosso câncer nacional, era decrépita e insustentável politicamente. Mas economicamente ela ainda valia muito. Os reacionários do Partido Conservador faziam questão de mantê-la. D. Isabel os chamava de “emperrados”; o líder natural deles era o Barão de Cotegipe, considerado um estadista do Império. Também o Conselheiro Saraiva, chefe do Partido Liberal, não era abolicionista e se unia a Cotegipe no combate aos abolicionistas. Ambos, naturalmente, odiavam D. Isabel e seu marido. Eles usavam o Exército e as forças policiais das Províncias para reprimir fugas e abolicionistas. Em fevereiro de 1888, um delegado de Polícia abolicionista (Firmino de Araujo) foi trucidado por fazendeiros de Mogi-Mirim, em SP. Eles eram de maioria estadunidense e tinham vindo da Guerra de Secessão para criar suas colônias escravagistas aqui. Eram daquele estilo dos filmes de Quentin Tarantino e matavam não somente os pretos como todo e qualquer defensor deles.

Se engana quem pensa, contudo, que a escravidão poderia ter o fim relativamente pacífico que teve se não fosse a ação da Coroa. A guerra civil que os Estados Unidos haviam passado na década de 1860 também ocorreria no Brasil da década de 1880 e na de 1890.

Equipe IDII:

Sabe-se que Chico Xavier tinha grande popularidade. O médium mineiro era realmente um fenômeno. O que significou, para o senhor e para IDII, ver o nome de D. Isabel disputando, no dia 03.10.2002, com o dele no encerramento do programa, passadas tantas águas contra a imagem da “Redentora”?

Prof. Bruno:

O neoabolicionismo tem grande parte nisso. Nosso instituto foi fundado em 2001, no salão nobre da Igreja da Irmandade dos Homens Pretos, que foi usada como um “quartel-general” pelos membros da Confederação Abolicionista. Lá está, inclusive, o único estandarte da Confederação Abolicionista existente até hoje, totalmente abandonado e sem restauração. De modo que com trabalho hercúleo e sem patrocínios, o IDII conseguiu, nestes mais de 20 anos, ir retirando paulatinamente as camadas de desconhecimento não somente sobre D. Isabel mas sobre todos os líderes do movimento abolicionista. A lembrar que ela não era líder abolicionista e sim chefe de Estado.

Equipe IDII:

O senhor diz, em seu livro “Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil”, que não foram levados em consideração pormenores técnicos sobre a organização, os métodos, enfim, a gestão do programa em si. Fossem levados, qual seria a diferença para a persona isabelina?

Prof. Bruno:

Pois é. O programa tinha por meio de votação as ligações telefônicas. Não sei se já existiam programas como WhatsApp. Enfim, o que percebi na época é que as pessoas poderiam votar várias vezes e isto fez com que os monarquistas tenham se empenhado nesse tipo de método. De qualquer forma, penso que D. Isabel é entendida como, talvez, a “maior brasileira de todos os tempos” por muitos brasileiros que sequer cogitam a volta da monarquia e apenas reconhecem nela, que foi governante por quase 4 anos no século XIX, uma mulher que poderia ter feito quase nada em nossa história, mas que fez questão de assinar e conduzir o processo legislativo de nossa maior lei.

Equipe IDII:

Como o senhor explica a permanência do reconhecimento popular para a figura de D. Isabel, depois de tanto tempo de alijamento?

Prof. Bruno:

Pelo que já disse antes. Existe o aspecto da memória dela e da memória de muitos isabelistas, que as pessoas sequer imaginam que tenham sido isabelistas. Na Primeira República, Affonso Celso, Carlos de Laet os todos os Mendes de Almeida, por exemplo, se bateram pela restauração do trono e do retorno dela ao Brasil. Não conseguiram. No fim da República Velha, Assis Chateaubriand liderou imensa campanha para a suspensão do banimento da família imperial. Ele a venerava. Ariano Suassuna ou Camara Cascudo são dois exemplos de homens que, no Nordeste, mantiveram a chama isabelista. Rachel de Queiroz, Dinah Silveira de Queiroz — as duas primeiras mulheres da ABL — eram fãs incondicionais de D. Isabel. E por aí vai.

Equipe IDII:

O Mestre Tony Vargas compôs uma canção de capoeira intitulada “Dona Isabel”. Com introito voltado a apontar a criminalização da capoeira na Primeira República, o canto critica o posicionamento da regente do Império durante a aprovação e a sanção da lei 3.353/1888. Como um Terceiro Reinado isabelino se diferiria da Primeira República?

Prof. Bruno:

O reinado de D. Isabel não poderia ser o da repressão dos negros, de seu abandono, de sua criminalização. É o contrário disso. Em nosso livro, Fátima e eu mostramos que o Terceiro Reinado era tido, havido e sentido como o da solidificação do Estado nacional, que agora incluía os negros como brasileiros plenos. Tudo isso foi abortado, pelo golpe de 1889 e o impedimento de um referendo sobre a volta da monarquia. Na década de 1890 e na de 1900 morreram quase 40 mil brasileiros em diversas guerras, todas elas consequências do Quinze de Novembro. E é óbvio que os conflitos possuíam origem em questões raciais, para além de questões políticas mais particulares, como a luta pelo poder entre as diversas oligarquias locais, regionais e nacionais.

Equipe IDII:

Mas o próprio movimento negro afirma que D. Isabel não é heroína da Abolição coisa nenhuma. Este papel não caberia a Zumbi dos Palmares? Quer dizer, são os negros que o dizem. O lugar de fala deles não corrobora com o argumento?

Prof. Bruno:

Sem dúvida os negros devem colocar como “heróis da negritude” pessoas negras. Só não se pode confundir heróis da negritude com heróis da Abolição. No panteão cívico nacional abolicionista, dois negros (André Rebouças e José do Patrocinio) e um não negro, Joaquim Nabuco, compõem a tríade augusta. Mas há centenas de outros abolicionistas. E D. Isabel, que era loura, não pode ser retirada desse panteão cívico, como tantas abolicionistas mulheres, pela cor de sua pele, cabelos e olhos. Seria não somente segregacionista como anti-histórico.

Equipe IDII:

Exatamente o que queria dizer Nabuco, em visita a Belo Horizonte, em 1906, ao mencionar que na memória social oitocentista deveriam ficar cravados um abolicionismo dinástico, cuja representante máxima é D. Isabel, e o democrático, cujo representante máximo era José do Patrocinio? E o que era o “abolicionismo aristocrático”?

Prof. Bruno:

Exato isto. Nabuco dividia o movimento abolicionista em vertentes. A dinástica, em que ele dá créditos à ideia de que D. Pedro I e D. Pedro II fossem “abolicionistas” e que D. Isabel tenha coroado a obra. A vertente popular-democrática, de que era encarnação José do Patrocinio. O que ele não comenta, por humildade, ao menos naquele instante, é a vertente aristocrática, que foi plena de militantes, como Rebouças e ele, mas também Antonio Bento, em SP, José Mariano, em Pernambuco, Maria Thomazia e tantas senhoras no Ceará, a Baronesa de Loreto e a Condessa da Estrela no Rio, e infinidade de outras pessoas.

Equipe IDII:

Machado de Assis, numa de suas crônicas, diz jamais ter presenciado tamanha comemoração. O senhor poderia comentar sobre os dias que sucederam ao Treze de Maio, por gentileza?

Prof. Bruno:

Foi uma apoteose nacional e internacional, já que as festas pela extinção da escravidão brasileira ocorreram fora do país. Na Argentina, 30 mil pessoas desfilaram na semana seguinte. Em Londres e Paris houve comemorações, assim como em Portugal e na Espanha. Toda a comunidade internacional ansiava pela abolição brasileira.

Equipe IDII:

Podemos afirmar, por isso, que D. Isabel fez parte de um movimento que foi chamado de “A segunda e definitiva Independência ao Brasil”?

Prof. Bruno:

Sim. Sem dúvida. Coube à neta de D. Pedro I e D. Maria Leopoldina ajudar a conduzir um processo de milhares de brasileiros que pugnavam pela extinção da escravidão e a nova fase do Império, que seria a da emancipação civil e cidadã dos antigos escravizados.

Equipe IDII:

Como D. Isabel pensava em superar as heranças do passado escravista? Quer dizer, não ficou faltando endireitar essa parte? Por que ela não indenizou esses que haviam acabado de ser emancipados?

Prof. Bruno:

Claro que faltou. Mas a história não comporta a contrafactualidade. Ela comporta a factualidade submersa. O “Partido Abolicionista” de Nabuco, Rebouças, Patrocinio, José Mariano, Antonio Bento, estava chegando ao poder. Era o que eles queriam. Mas não puderam, jamais, alcançar esse poder e promover as reformas sociais, a primeira das quais a fundiária. Havia as demais reformas liberalizantes que todos queriam e havia, claro, o empenho máximo de todos em promover a educação dos libertos ou negros sempre livres, que permaneciam, como também os brancos pobres, analfabetos.

Equipe IDII:

E como podemos superá-las ainda hoje?

Prof. Bruno:

As mazelas do Brasil são políticas. Economicamente somos um país forte, com nossa indústria agrícola. Mas somos aberrantemente um dos países de maior disparidade econômica do planeta. Penso que chegará o dia em que todos se darão conta de que agronegócio e agroecologia devem ser a mesma coisa e que jamais a economia e a ecologia, duas faces da mesmíssima moeda, poderão permanecer estanques. É o espírito da encíclica apostólica Laudato Si´, do atual romano pontífice, o Papa Francisco.

Se a Doutrina Social da Igreja fosse minimamente respeitada, o Brasil seria outro. E a prática da DSI tem tudo a ver com isabelismo e neoabolicionismo, como fica patente em nossos textos e ações.

Equipe IDII:

Leandro Rodrigues dos Santos

Kauê Neves Martins de Souza

William Rezende Quintal

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Condolências à Duquesa de Wurtemberg

O Instituto enviou hoje a S.A.R. a Duquesa de Wurtemberg, Princesa Diane, nascida em Petrópolis e batizada na Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro em 13 de maio de 1940, o seguinte ofício de condolências pelo passamento de seu marido, o Príncipe Senhor Carl, Duque de Wurtemberg (1936-2022).


Of. nº. 002/2022/IDII

Brasília, le 7 juin 2022.

À Son Altesse Royale

Madame Diane Françoise Maria da Gloria

Duchesse de Wurtemberg etc.

Château d´Altshausen

Bade-Wurtemberg – Allemagne

Madame,

Notre Institut avait reçu avec chagrin la nouvelle sur la disparition de votre cher époux.

Que le Bon Dieu et Sa Très Sainte Mère, la Vierge Marie, vous bénissent, gardent et confortent dans ce moment douloureux.

Que Monseigneur le Duc de Wurtemberg, le jeune Prince Wilhelm, reçoit de ses familiers et ses amis un grand soutien pour sa nouvelle mission.

Respectueusement,

Prof. Bruno da Silva Antunes de Cerqueira

Conseiller-Président de l´IDII

Prof. João Pedro de Saboia Bandeira de Mello Filho, Comte de Saboia-Bandeira de Mello

Conseiller-Vice-Président de l´IDII

Prof. William Rezende Quintal

Conseiller-Secrétaire de l´IDII

Hugo Frazão Coutinho

Conseiller-Secrétaire-Adjoint de l´IDII

Père Stannly Cunha dos Santos, Vicaire de la Cathedrale de S. Sebastien de Rio de Janeiro

Mme. Angela Maria Chiesi Moliterno de Oliveira

Présidente du Conseil Consultif de l´IDII

Mme. la Comtesse Olga Csàky de Körözsseg et Adórjan, Veuve Sebastião Perlingeiro

Prof.e Maria de Lourdes Lamonica

Prof. e Miriam Cristina Zanutti de Oliveira e Oliveira

Prof. e Maria Adelaide Flexa Daltro Barretto

Prof. Luciano Cavalcanti de Albuquerque

Prof. Dr. José Theodoro Mascarenhas Menck

Prof. Roberto Ricardo Mäder Nobre Machado

Min. Marcus Henrique Morais de Paranaguá

Maestro Wander de Oliveira A. de Souza

Prof. Caio Cesar Tourinho Marques, Vicomte de Tourinho

Prof. Dr. Diogo Guagliardo Neves

Prof. Dr. Rodrigo Martiniano Tardelli

Prof. Francisco Anderson Tavares de Lyra

Prof. Malcov Machado Marcos Terena

M. Luiz Antonio Muniz de Souza e Castro

M. Antonio Aprígio Pereira Rodrigues

Dr. Ezequiel Novais Neto

Prof. Gabriel Meirelles Pinto

Prof. Daniel Mata Roque

Conseillers de l´IDII

Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora

CNPJ 05.874.977/0001-51

SHIS QI 27, conjunto 20, casa 27 • 71675-200 • Brasília • DF

http://www.idisabel.org.br / E-mail: idisabel@idisabel.org.br


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Obituário – Prof. José Ubaldino Motta do Amaral (1938-2021)

José Ubaldino Motta do Amaral nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de julho de 1938, filho de Ubaldino do Amaral Neto e bisneto de Ubaldino do Amaral Fontoura (1842-1920), abolicionista e prefeito do Distrito Federal. A mãe do Prof. José Ubaldino foi Alice do Amaral Motta. Por sua avó paterna, Prof. José Ubaldino era trineto do Marechal Rufino Eneas Gustavo Galvão, Visconde de Maracaju (1831-1909), último ministro da Guerra do Império (Gabinete Ouro Preto) e primo do Marechal Manoel Deodoro da Fonseca, que “proclamou” a República em 1889.

José Ubaldino Motta do Amaral bacharelou-se em História e licenciou-se em Línguas Latinas pela PUC-Rio. Em 1989, realizou estudos de adaptação do sistema de estenotipia “Stenograph” do inglês para o português, em Chicago, Illinois, EUA. Analista judiciário do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, exerceu a função de taquígrafo e diretor do Serviço de Taquigrafia.

Traduziu para português os livros “Tout m’est bonheur”, “Les chémins creux” e “Contes de mes pays”, de D. Isabel de Orleans-e-Bragança, Condessa de Paris (1911-2003), neta e afilhada de D. Isabel do Brasil, que teria sido a rainha-consorte da França se a monarquia fosse restaurada no país e a quem o Prof. José Ubaldino secretariou no Rio de Janeiro. Os livros da Condessa de Paris saíram pela editora carioca Butiá, como “De todo coração” (1995) e “Contos de minhas terras”. Traduziu também “Les temps de ma Mère”, de D. Pia Maria do Brasil, Condessa René de Nicolaÿ (1913-2000), “Un jeune Prince Chrétien – Louis Gaston d’Orléans-Bragance”, de Monsenhor René Delair, respectivamente, como “Minha Mãe, a Princesa Imperial Viúva” e “Um jovem Príncipe Cristão – D. Luiz Gastão do Brasil”, e as memórias de Albert Latapie, mordomo do Castelo d’Eu. Sobre todo esse material de pesquisa e estudos, comentou em live recente, no canal “História do Brasil Como Você Nunca Viu”, que pode ser acessada aqui.

Membro titular do Colégio Brasileiro de Genealogia, publicou “O Visconde de Maracaju – memória histórico-genealógica” (1995), “Um ramo da família Motta no Brasil, a Descendência de José Antônio da Motta (2001), pelo próprio CBG. Publicou, ainda, “A descendência de Ubaldino do Amaral Fontoura” e “A descendência de Francisco das Chagas do Amaral Fontoura” (2010).

José Ubaldino casou-se no Rio de Janeiro, na Igreja da Paróquia de São José, em 19 de dezembro de 1964, com Maria Celanira Silveira Zacarias, nascida em Quarai (RS), em 7 de abril de 1940, professora, filha de Olinto Zacarias e de Maria Ester Silveira. O casal gerou dois filhos, já casados, Luís Zacarias do Amaral, engenheiro de informática, e Maria Alice Zacarias do Amaral, médica veterinária, e tem três netos.

Faleceu de complicações cirúrgicas, em 19 de dezembro de 2021, no Hospital São Lucas, tendo recebido os sacramentos da Santa Igreja, à qual devotou toda a vida.

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Comunicado – Falecimento do Prof. José Ubaldino Motta do Amaral (1938-2021)

Cumpre-nos o triste dever de anunciar o falecimento de nosso associado honorário, Prof. José Ubaldino do Amaral, ocorrido em 19 de dezembro de 2021, no Rio de Janeiro.

Segue-se o obituário do Prof. José Ubaldino.

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Gazeta do Povo – André Rebouças: o maior (artigo)

André Rebouças: o maior

Óleo sobre tela de Rodolpho Bernardelli. Acervo do Museu Histórico Nacional.
Foto de Stannly dos Santos. 2019. Acervo Digital do IDII.
  • Paulo CruzPorPaulo Cruz
  • 26/10/2021 22:24

No fim de 1864, inicia a Guerra do Paraguai e André se apresenta como voluntário da pátria. Vai à guerra e, dentre outras coisas, inventa um torpedo (que funcionou, mas nunca foi utilizado), constrói pontes e interfere, direta e curiosamente, nas estratégias do alto comando. A Guerra do Paraguai é um capítulo à parte na vida de André Rebouças. Suas críticas duríssimas à desorganização da campanha de guerra são bem conhecidas.De volta da guerra, em 1866, tenta emplacar sua atividade de engenheiro. Seus trabalhos mais notáveis foram o plano para abastecimento de água no Rio, as docas da Alfândega e Pedro II. Mas suas batalhas são imensas, pois sofre todo tipo de boicote e perseguições. Suas vitórias ocorrem pela associação com o Barão de Mauá, que, financeiramente, sustenta seus projetos. Fora Mauá, só a família imperial o apoiava – e seu devotamento a ela não é sem razão. As obras das Docas da Alfândega se iniciam em 1867. Dom Pedro II visita as obras e André lhe pede para dar o seu nome ao seu novo projeto; ele aceita. Mas André é confrontado (por ciúmes) pelo presidente do conselho de ministros, Zacarias de Góis, que lhe diz que só poderá nomear a obra com a homenagem ao imperador caso passe em votação pelo Congresso.

O Barão de Cotegipe também lhe faz dura oposição. Em 1868, André tenta a vaga para professor titular do Colégio Central. Um amigo o aconselha para aguardar ser nomeado pelo Ministério da Guerra, uma vez que esteve no front; mas ele responde que quer passar por todos os exames – ou seja, rejeita as cotas. Mas é preterido porque lhe dizem que ele fizera a inscrição após a data (mesmo sabendo que, à época, ele estava justamente na guerra). Depois consegue uma vaga para professor eventual de Ciências Físicas e Naturais, Botânica e Zoologia, e, pelos próximos dez anos, do curso de Engenharia. Só em 1880 ele passará em primeiro lugar para o cargo de efetivo. Uma curiosa nota, de 24 de junho de 1870, em seu diário nos serve de interlúdio: “Libertei, com meu pai, os três últimos escravos que possuíamos: Roque, Júlio e Emília”.

Em 1871, durante seu projeto de abastecimento de água, sofre mais uma batalha por puro preconceito: foi confrontado pelo ministro da Agricultura, por causa da dificuldade de realização e algumas falhas que ocorreram nos testes. Requereu um teste público e demonstrou o pleno funcionamento de seu empreendimento. Sua coragem e expertise diante dos poderosos é notável. No entanto, no mesmo ano é demitido sumariamente, por pura pressão política de seus desafetos, do cargo de diretor do projeto das Docas de Pedro II. No ano seguinte, também foi demitido do projeto das Docas da Alfândega. Frustrado com tamanha perseguição, ruma para a Europa e para os EUA.

Nos EUA sofre intenso racismo. Não consegue se hospedar em hotéis e nem mesmo comer em restaurantes. As notas dessa época são desconcertantes: “Fui com outros companheiros de viagem em carro da mesma companhia para o hotel; aí disseram não mais ter aposentos e indicaram-me outro hotel. Depois de algumas tentativas, compreendi que era dificuldade da cor a causa das recusas de aposentos”. Ou: “O prejuízo da cor impediu-me de assistir ao espetáculo no ʻGrand Opera Houseʼ”. Ou ainda: “Às 12h30 chegamos à Parker’s. Demorou-se o trem 20 minutos para a refeição; ainda o prejuízo de cor no restaurante, obrigando-me a passar o dia de hoje, como o de ontem, sem alimentos!” Alguns dizem que foram esses eventos que o fizeram se reconhecer como negro, descobrir o racismo e tornar-se abolicionista. Mas, como vimos e veremos, isso não é correto; ele não só compreendia perfeita e anteriormente a discriminação que sofria aqui mesmo, no Brasil, como sua atividade abolicionista se iniciou antes da fatídica viagem à América. A morte rondou a vida de André Rebouças e, num curto período de tempo, levou as três pessoas mais importantes para ele, causando-lhe profundo impacto.

Em 18 de junho de 1865, no front da Guerra do Paraguai, recebe a notícia da morte de sua amada mãe. Em seu diário, a nota – que transparece seu compromisso e devoção – é comovente: “Que tristíssima noite! Minha pobre mãe. Meu bom Pai, meu Deus, dai-me resignação. Ai de mim e ainda doente na horrível dúvida se terei força para fazer ao meu país e à minha família todo o bem que lhes desejo”. Em 17 de maio de 1874, morre seu irmão Antônio, seu companheiro. Ele diz: “Um dos mais tristes dias de minha vida. Alteração profunda em todo o plano de vida; sofro a maior dor”. E, em 19 de junho de 1880, morre seu venerado pai, que já estava cego e doente.

Em 9 de julho de 1870, escreve: “Alio-me ao deputado Joaquim Nabuco para a propaganda abolicionista. Escrevo para o Jornal do Commercio o primeiro artigo: Carlos Gomes e a emancipação”. No entanto, sua atividade abolicionista se inicia – contrariando aqueles que dizem que Rebouças teve uma participação discreta no processo – em 1867! Nesse ano, ele formula uma Lei de Impostos Sobre a Escravatura. Em 1868, escreve em seu Diário:“Li os evangelhos de S. João e S. Lucas; escrevi à noite algumas ideias que me ocorreram para a solução do instante problema da emancipação dos escravos. Assim Deus me conceda resolver o mais importante problema de minha pátria.”No mesmo ano, numa reunião sobre a Escola de Arar, relata:“Pedi a palavra ao sr. Presidente, principalmente para responder a uma de muitas arguições que foram feitas à comissão especial, arguição que causou-me muita dor. Refiro-me à pecha de esclavagista que me lançou o sr. Comendador Azevedo: ʻsou abolicionista de coração e aproveito esta solene ocasião para declará-lo. Não me acusa a consciência de ter deixado uma só ocasião de, lavrando pareceres para esta sociedade, fazer propaganda para a abolição dos escravos. E espero em Deus não morrer sem ter dado ao meu país as mais exuberantes provas de minha dedicação à Santa Causa da Emancipaçãoʼ.”

Em 1870, juntamente com o Visconde de Lage, integra uma sessão preparatória para criar um projeto de emancipação via seguros de vida. Também tem participação direta, mas discreta, na formulação da Lei do Ventre Livre. Em 1879, se associa a José do Patrocinio e passa a escrever na Gazeta da Tarde; fundam a Associação Central Emancipadora. Em 1880, Joaquim Nabuco junta-se a eles e formam a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, e depois a Confederação Abolicionista (CA), junção das duas.André não só compreendia perfeita e anteriormente a discriminação que sofria aqui mesmo, no Brasil, como sua atividade abolicionista se iniciou antes da fatídica viagem à América.

Apesar de atividade discreta, Rebouças foi a figura mais importante do abolicionismo brasileiro. E não sou eu que digo, é ninguém menos que um de seus amigos mais próximos, Joaquim Nabuco. Sobre ele, Nabuco diz em Minha Formação – e a longa citação e fundamental (e, a mim, particularmente emocionante):“De todos, aquele com quem mais intimamente vivi, com quem estabeleci uma verdadeira comunhão de sentimento, foi André Rebouças… Nossa amizade foi por muito tempo a fusão de duas vidas em um só pensamento: a emancipação. Rebouças encarnou, como nenhum outro de nós, o espírito antiescravagista: o espírito inteiro, sistemático, absoluto, sacrificando tudo, sem exceção, que lhe fosse contrário ou suspeito, não se contentando de tomar a questão por um só lado, olhando-a por todos, triangulando-a, por assim dizer – era uma de suas expressões favoritas – socialmente, moralmente, economicamente. Ele não tinha, para o público, nem a palavra, nem o estilo, nem a ação; dir-se-ia assim que em um movimento dirigido por oradores, jornalistas, agitadores populares, não lhe podia caber papel algum saliente, no entanto ele teve o mais belo de todos, e calculado por medidas estritamente interiores, psicológicas, o maior, o papel primário, ainda que oculto, do motor, da inspiração que se repartia por todos… não se o via quase, de fora, mas cada um dos que eram vistos estava olhando para ele, sentia-o consigo, em si, regulava-se pelo seu gesto invisível à multidão… sabia que a consciência capaz de resolver todos os problemas da causa só ele a tinha, que só ele entrava na sarça ardente e via o Eterno face a face… É-me tão impossível resumi-lo a ele em um traço como me seria impossível figurar uma trajetória infinita… Depois da Abolição ele sempre teve o pressentimento de que a escravidão causaria uma grande desgraça à dinastia, como assassinara a Lincoln. Seu maior amor talvez tenha sido pelos seus alunos da Politécnica, mas como todas as suas recordações da ʻEscolaʼ se transformaram em outros tantos tormentos, quando os viu glorificando o 15 de Novembro, que para ele era a desforra de 13 de maio!… Do seu quarto no Hotel Bragança, em Petrópolis, onde durante anos notara no seu diário a nossa pulsação comum, até o despenhadeiro do Funchal, que linha a que descreveu André Rebouças! Ele foi o cortesão do Alagoas… Um republicano, a quem veio a tocar na hora de amargura o papel de discípulo amado do velho Imperador banido… Foi um industrial, um engenheiro ousado e triunfante, que acabou praticando o tolstoísmo… Foi um gênio matemático, um sábio, que reduziu sua ciência a uma serpentina em que de tudo destilava a Abolição… Seu centro de gravidade foi verdadeiramente o sublime… […] Matemático e astrônomo, botânico e geólogo, industrial e moralista, higienista e filantropo, poeta e filósofo, Rebouças foi talvez dos homens nascidos no Brasil o único universal pelo espírito e pelo coração… Pelo espírito teremos tido alguns, pelo coração outros; mas somente ele foi capaz de refletir em si ao mesmo tempo a universalidade dos conhecimentos e a dos sentimentos humanos. Quem sabe se não foi a imagem que partiu o espelho! […] Da Abolição ele foi o maior, não pela ação exterior, ou influência direta sobre o movimento, mas pela força e altura da projeção cerebral, pela rotação vertiginosa de ideias e sensações em torno do eixo consumidor e candente, que era para ele o sofrimento do escravo. Era uma fornalha cósmica a que ardia nele. Se Rebouças ainda é visto no seu tempo como uma estrela de segunda grandeza, é porque estava mais longe do que todas… Dos Evangelistas da nossa boa-nova ele é que teria por atributo a águia… Há no seu estilo e nos seus moldes muita coisa que lembra São João… Idealista todo ele, é quase só por símbolos que escreve… A Ilha da Madeira foi a Patmos de um apocalipse infelizmente perdido, porque suas últimas páginas, voltado para o Sul, ele as escrevia, tomando por letras as estrelas e as constelações. Sua lenda, porém, está feita, não há perigo para ele de esquecimento: a lenda do seu desterro e de sua amizade a Dom Pedro II.

Durante o período mais intenso do Abolicionismo, escreve mais de 120 artigos; ocupa o cargo de tesoureiro da CA, e gasta uma grande quantidade de seu dinheiro na causa; redige os estatutos da Associação Central Emancipadora (ACE); produz, também, praticamente sozinho, o Manifesto da CA, que pedia abolição total e sem indenização aos senhores, e sim do latifúndio.

Apesar de atividade discreta, Rebouças foi provavelmente a figura mais importante do abolicionismo brasileiro. E não sou eu que digo, é ninguém menos que um de seus amigos mais próximos, Joaquim Nabuco. Participa ativamente na organização das Conferências-Concerto, que foi o método encontrado por ele e José do Patrocínio para mobilização popular à causa da abolição. Shows teatrais, concertos musicais (com artistas do calibre de Carlos Gomes e Chiquinha Gonzaga), recitação de poesia com Castro Alves, e as famosas distribuições de cartas de alforria no palco, promovidas por Patrocínio – o espírito vulcânico da abolição, já retratado aqui –, em momentos de verdadeira catarse. Rebouças também é responsável por apaziguar Patrocínio e Nabuco, que eram espíritos contrários.

Logo após a abolição, produz um documento chamado Programa de evolução após o 13 de maio, que é um primor de liberalismo. Confira alguns itens, atento leitor:

1. Cumprir escrupulosamente o sacrossanto legado da Confederação Abolicionista, impedindo a reescravização da raça africana, assegurando a sua libertação pela independência e pelo bem-estar; promovendo a educação e a instrução dos libertos; facilitando a aquisição da propriedade da terra em que trabalham, constituindo lavradores proprietários;

2. Promover a descentralização governamental, reduzindo o governo imperial aos indispensáveis serviços públicos de justiça, segurança interna e externa, dívida nacional e relações internacionais;

3. Propagar a democratização dos impostos: abolição progressiva dos impostos diretos sobre a venda e sobre a superfície da terra ocupada;

4. Propagar a liberdade de comércio e a abolição de todos os direitos protecionistas à liberdade de indústria, à liberdade bancária, à liberdade de trabalho mental.

Por essa pequena citação, fica mais que evidente por que André Rebouças é solenemente ignorado pelos próceres dos movimentos negros atuais, cujo pensamento é predominantemente à esquerda.

Mas há mais: seu projeto liberal para o Brasil, sobretudo com a sua obra Propaganda abolicionista – Democracia Rural, propõe uma verdadeira guinada do país ao liberalismo clássico tão caro a André Rebouças, ávido leitor de Adam Smith, Frédéric Bastiat e Jean-Baptiste Say. Como adiantado no Programa, seu projeto aprofundava os conceitos de nacionalização do solo, de liberdade individual e espírito de associação e mínima intervenção estatal. A ideia era dividir as grandes propriedades dos senhores de engenho em pequenos lotes de 20 hectares (os Engenhos Centrais), que seriam arrendados a seus ex-escravos e aos imigrantes, concentrando a produção inicial nesses pequenos proprietários – que seriam responsáveis, inclusive, pelo maquinário necessário à produção. Os produtos seriam enviados às Fazendas Centrais, que tratariam dos trâmites de finalização e distribuição. Era de um projeto capitalista antilatifúndio, não de socialismo ou comunismo – acusações das quais teve de se defender muitas vezes.O liberalismo de André Rebouças explica por que ele é solenemente ignorado pelos próceres dos movimentos negros atuais, cujo pensamento é predominantemente à esquerda.

E, para arrematar, mais duas referências de seu apreço pela liberdade individual e pelo espírito de associação, que fazem dele um dos grandes pensadores do liberalismo brasileiro. Primeiro, um artigo de 1877, para o jornal Novo Mundo, dos EUA, no qual diz, de modo categórico: “A iniciativa individual […] é a faculdade ou a capacidade, própria de cada pessoa, para encetar ideias ou ações novas. A iniciativa individual pressupõe vários elementos intelectuais e morais; enumeremos dentre eles os mais notáveis: consciência de si, a fé nos recursos intelectuais dados pelo Criador e aperfeiçoados por esforço próprio; a independência de caráter; a inata aversão a qualquer tutela; a sublime aspiração de ser o que os yankes denominam a self-made man, um homem feito por si mesmo, sem padrinho nem protetores; o espírito ou talento inventivo; o saber tirar recursos ainda dos casos extremos; – o tato da ocasião […]; força de vontade; o self-help; o saber lutar, jamais desesperar; a coragem contra o ridículo – arma predileta da rotina contra a iniciativa individual, principalmente nos países latinos e neolatinos; enfim, principalmente e acima de tudo, a fé em Deus e na imortalidade da alma. É indispensável que, nos dias de agonia extrema, quando o próprio céu oculta seu azul e elimina suas estrelas, se possa dizer: ‘Acima dessa abóbada de chumbo está o Deus de Colombo, de Franklin e de [Robert] Fulton’.”Segundo, de sua fundamental obra Democracia Rural, de 1872:“Dentro do círculo dos seus direitos, cada cidadão é, deve ser, tem perfeitamente o direito de ser, pela nossa constituição e pelas nossas leis, um Estado; uma companhia,  uma associação soma os círculos dos direitos dos cidadãos que a compõem; o seu círculo de direito é o círculo máximo, que circunscreve os círculos de todos os seus associados; esse círculo é naturalmente maior e mais forte; e é por isso mesmo que causa assombro, que causa medo, que causa terror aos oligarcas, que querem um povo fraco e subdividido: um povo de carneiros, tosquiável ao seu livre arbítrio, incapaz da menor resistência! […] Possa bem […] a nossa cara Pátria cumprir a grandiosa missão que lhe destinou o Criador, pela iniciativa individual e pelo espírito de associação, filhos sublimes da Liberdade. E assim teremos Progresso – porque o Progresso, já outros o disseram antes de nós, é pura e simplesmente a Liberdade em ação!”.

Rebouças também era um homem de temperamento conservador. Numa carta de 7 de abril de 1895 a seu amigo Joaquim Nabuco, diz, sobre a Revolução Francesa: “Certamente não se aperfeiçoa uma nacionalidade, permitindo, sob pretexto de necessidade da guerra, todos os horrores e todos os crimes. Dificílimo é aperfeiçoar a espécie humana. Tenho disso a experiência íntima e pública em toda minha longa vida de mestre e educador de meninos e moços. Se alguma coisa pode ser conseguida, é pela propaganda quotidiana, como fizeram Wilberforce e Cobden, e como imitamos, de 1880 a 1888, na Propaganda Abolicionista […]. Nosso juvenil entusiasmo pela Revolução Francesa está hoje muito moderado. Quando consideramos o quanto há sofrido a França e o quão longe ainda ela está do ideal de Liberdade, de Igualdade e de Fraternidade, somos obrigados a concluir que foi um mal, tanto para a França quanto para a Humanidade, esse amálgama de reformas filantrópicas no sangue e na alma do terror e do militarismo de Napoleão. Ainda mais: feito o cálculo dos abusos atuais da 3.ª República em militarismo, em protecionismo, em burocracia, em exploração do povo por toda sorte de monopólios, fica-se em dúvida se eram maiores os horrores e as misérias do ʻantigo regimeʼ”.

Mas, com o golpe de 15 de novembro de 1889, que instaurou a malfadada República, tudo vai por água abaixo. Rebouças, recusando-se a ficar e presenciar a traição e destruição do país, parte com a família imperial, expulsa pelos golpistas para a Europa. Embarca no paquete Alagoas e, com seu amigo dom Pedro II, relembra os muitos acontecimentos que viveram juntos. A princesa imperial também confere-lhe a tutoria para a educação de seu primogênito durante a viagem. A vida e obra de Rebouças ainda precisam ser retratadas por uma série televisiva destinada ao grande público, para que todos saibam que sobre a Terra de Santa Cruz também andaram homens excepcionais. Rebouças fica um tempo em Portugal, depois vai para a França reencontrar o imperador. Em seguida, vai para Cannes e ali fica até a morte do imperador. Decide ir para a África, pois, como ele diz, “sou, em corpo e alma, meio brasileiro, meio africano. Não podendo voltar ao Brasil, parece-me melhor viver e morrer n’África”.

Vale lembrar que Rebouças recusa vários convites para voltar ao Brasil, inclusive com emprego garantido. Após ver que em solo africano havia ainda escravização em grande escala e nada conseguir fazer para mudar aquela realidade, vai para Funchal, na Ilha da Madeira, onde sua saúde se deteriora acentuada e rapidamente. Viveu cada vez mais triste, mais introspectivo, e sem esperança para o Brasil, que chamava de “nação do passado”. Suas cartas desse período são de cortar o coração. Passa os dias a escrever seus idílios Por que o Negro Africano ri, canta e dança sempre?! e cartas aos amigos, relatando seus muitos infortúnios financeiros e sua doença. Em 9 de maio de 1898, foi encontrado ao pé de um penhasco, de onde caíra de 60 metros de altura. Aventou-se a ideia de suicídio, que logo foi descartada. Sua sobrinha, filha de Antônio, comenta em carta que “ele porém sofria com tanta resignação, com tal espírito cristão, que não posso convencer-me que tenha se suicidado. Disseram-me que ele costumava passear acima do lugar em que foi encontrado. Enfraquecido pela moléstia, poderia ter uma vertigem ter-lhe causado a morte”. O maior herói brasileiro, o gênio esquecido, morreu só, pobre, doente e cheio de amor ferido pelo Brasil.

Há muito ainda a se dizer sobre André Rebouças, mas este artigo é um mero recorte de um homem imenso e intenso, cuja vida e obra ainda precisam ser retratadas por uma série televisiva destinada ao grande público, para que todos saibam que sobre a Terra de Santa Cruz também andaram homens excepcionais, e as crianças e jovens negros das periferias possam ver a potência que há na inteligência, na iniciativa individual e no espírito de associação.

Paulo Cruz é professor e palestrante nas áreas de filosofia, educação e questões relacionadas ao racismo no Brasil. Formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião, é professor de Filosofia e Sociologia na rede paulista de ensino público. Em 2017 foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura, anualmente, por indicação popular, a nomes que se destacaram na produção e divulgação cultural.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/paulo-cruz/andre-reboucas-o-maior/

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Estadão – Cristo Redentor: 90 anos de um ícone! (artigo)

Cristo Redentor: 90 anos de um ícone!

Ricardo Oriá*

10 de outubro de 2021 | 06h00

Cristo Redentor. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

No próximo dia 12 de outubro, o mais famoso cartão-postal do Brasil completa 90 anos. Estamos nos referindo à estátua do Cristo Redentor, localizada no cume do Corcovado, na cidade do Rio de Janeiro. É muito comum a identificação de um lugar com a história do país. Assim, podemos apontar alguns monumentos que se tornaram emblemáticos e ficam indelevelmente associados a um determinado país: a Torre Eiffel, na França; o Coliseu, na Itália, a Estátua da Liberdade, nos Estados Unidos e, no caso brasileiro, o Monumento ao Cristo Redentor.

Apesar de bastante conhecido de todos os brasileiros e amplamente divulgado e reproduzido em imagens e souvenires dos mais variados, poucos sabem da longa trajetória que levou à construção desse Monumento. E mais: por que um monumento de caráter religioso, ligado à tradição católica, se tornou um verdadeiro ícone do país?

A ideia de construção desse Monumento remonta ao período imperial de nossa história. Segundo a tradição, atribui-se ao padre francês Pierre-Marie Bos, que era capelão do Colégio Imaculada Conceição em Botafogo, a ideia de se erigir uma imagem de Cristo no Corcovado. No entanto, novas pesquisas mostram que a história não é bem essa. Os historiadores Bruno Antunes e Maria de Fátima Argon, na sua obra “Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil” (Linotipo Digital, 2019), mostram com base em documentos históricos que a estátua ao Cristo Redentor é “um monumento eminentemente abolicionista e isabelista”. Vamos aos fatos!PUBLICIDADE

Logo após a assinatura da famosa Lei Áurea, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em sessão do dia 15 de maio de 1888, propôs, por meio de subscrição popular, que se construísse uma estátua em bronze de D. Isabel como “Redentora”. Isabel recebera a alcunha de “A Redentora” do jornalista e abolicionista José do Patrocínio e o monumento seria uma homenagem a ela. Isabel prontamente recusou a ideia e, como católica praticante, dissera que ao invés de um Monumento à Redentora deveria ser construído uma estátua a Jesus Cristo, o verdadeiro Redentor.

O golpe militar que implantou a República e baniu D. Pedro II e sua família adiou a concretização dessa ideia. Somente em 1908, um grupo de senhoras católicas, lideradas por Euphrasia Marques Lisboa, filha do Almirante Tamandaré, criou, de forma sigilosa, a “Comissão Executiva Isabel a Redentora”, com o objetivo de se fazer valer a ideia original de construção, no Corcovado, de uma imagem do Cristo Redentor e uma menor, a seus pés, da princesa Isabel. A República recém-instalada não via com bons olhos qualquer tipo de homenagem a membros da família imperial e, considerando-se que o estado brasileiro era agora laico, a imagem de Cristo no Corcovado também não agradava aos ateus e aos republicanos positivistas.

O assunto veio à baila novamente por ocasião dos festejos relativos às comemorações do centenário de nossa independência (1922). No dia 12 de setembro daquele ano, como de praxe em se tratando da construção de monumentos, foi lançada a pedra fundamental e fincado o mastro da Estátua do Cristo Redentor no Morro do Corcovado.

No entanto, o monumento levou quase uma década para ser construído e somente foi inaugurado em 1931. Mesmo assim, aproveitando o ensejo da mobilização da sociedade e do governo em torno dessa efeméride, lançou-se, em 1923, um concurso para a escolha do projeto a ser executado no Corcovado. Concorreram três projetos apresentados pelos senhores José Agostinho dos Reis, Adolfo Morales de Los Rios e Heitor da Silva Costa.

O projeto vencedor, de autoria do engenheiro Heitor da Silva Costa, trazia a imagem de Cristo empunhando em suas mãos um globo terrestre e uma cruz. O projeto recebeu algumas críticas acirradas na imprensa e por intervenção do Cardeal Dom Sebastião Leme optou-se por representar o Cristo de braços abertos, em estilo art-déco, bastante em voga na época. Em 1924, Heitor da Silva Costa escolheu o escultor francês Paul Landowski para iniciar os trabalhos. As obras de instalação do monumento tiveram início em 1926 e delas participaram, além de Heitor Costa, o arquiteto Heitor Levy e o engenheiro Pedro Vianna da Silva.

Em 12 de outubro de 1931, dia consagrado à Padroeira do Brasil, foi finalmente inaugurado o Monumento ao Cristo Redentor, graças, em grande parte, à mobilização dos católicos em todo o país, que não deixaram de envidar esforços e angariar dinheiro para a construção da estátua. O Cristo Redentor possui, incluindo seu pedestal octogonal, 38 metros de altura, pesa 1.145 toneladas e é revestido de pedra-sabão.

Ricardo Oriá. FOTO: DIVULGAÇÃO

O monumento foi paulatinamente sendo integrado à paisagem da cidade até se transformar em ponto turístico de maior visitação e um cartão-postal de divulgação do país no exterior. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), várias reformas foram feitas desde sua inauguração com o objetivo de facilitar o acesso ao local, além de outras benfeitorias. Em 1936, foi inaugurada a estrada de rodagem Paineiras-Corcovado. Por ocasião das comemorações do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro (1965), foram adotados novos sistemas de iluminação. O reconhecimento de sua importância histórica e arquitetônica veio em 30 de setembro de 2008 quando a estátua do Cristo Redentor foi tombada em nível federal, integrando-se ao patrimônio histórico e artístico nacional.

Sua consagração internacional se deu no ano de 2007 quando, em votação popular, por meio da internet, foi escolhido como uma das sete maravilhas do mundo moderno, ao lado da Grande Muralha da China, do templo Taj-Mahal na Índia, do Coliseu na Itália, de Machu Picchu no Peru, da cidade de Petra na Jordânia e da Pirâmide de Chichen-Itza no México.

Em 2012, a Unesco reconheceu o Rio de Janeiro como Patrimônio da Humanidade por sua paisagem cultural. Foi a primeira área urbana do mundo a receber esse título. Assim, o Corcovado, juntamente com o Pão de Açúcar, a Floresta da Tijuca, o Aterro do Flamengo, o Jardim Botânico, a praia de Copacabana, a entrada da Baía de Guanabara, bem como o Forte e o Morro do Leme, o Forte de Copacabana e o Arpoador, o Parque do Flamengo e a Enseada de Botafogo, integram essa paisagem cultural da Humanidade.

Tom Jobim, nosso genial maestro, tem toda a razão ao exaltar o nosso principal monumento e essa paisagem que ainda fazem do Rio uma “cidade maravilhosa”: “Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara. Este samba é só porque. Rio, eu gosto de você…”

*Ricardo Oriá, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Consultor Legislativo da área de educação, cultura e desporto da Câmara dos Deputados. Autor de artigos sobre patrimônio cultural e museus e do livro O Brasil contado às crianças: Viriato Corrêa e a literatura escolar brasileira (E. Annablume, 2011)

Fonte: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/cristo-redentor-90-anos-de-um-icone/

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Gazeta do Povo – Por um neoabolicionismo (artigo)

GAZETA DO POVO

Por um neoabolicionismo

SEPTEMBER 14, 2021

Paulo Cruz*

“[…] Porque nós, os abolicionistas, animados de uma só crença, dirigidos por uma só ideia, formamos uma só família, visamos um sacrifício único, cumprimos um só dever.” (Luiz Gama)

Saber usar bem a internet, sobretudo as redes sociais, pode ser algo muito produtivo e nos trazer bênçãos inesperadas; uma delas são as amizades que temos a possibilidade de construir à distância. Amizade é algo valiosíssimo para mim, e não é exagero dizer que tenho sempre pautado minha concepção de quem são meus amigos na deliciosa construção da amizade entre a Raposa e o Pequeno Príncipe, no clássico de Antoine de Saint-Exupéry. O principezinho, empolgado por ter encontrado o gracioso animal, o convida para brincar, mas ouve uma resposta que o confunde: “Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda”. E, indagada pelo príncipe sobre o que seria “cativar”, ela completa: “Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…”

No último fim de semana tive a oportunidade de experimentar essa sensação ao encontrar um grande amigo, com quem converso virtualmente há alguns anos – e cuja amizade se construiu exatamente à maneira exupéryana –, mas que nunca tinha encontrado pessoalmente: Bruno Antunes de Cerqueira. Bruno é presidente do Instituto Cultural Dona Isabel I, a Redentora – entidade que visa a “valorização da civilização brasileira e preservação da memória dos grandes vultos da transição entre o Oitocentos e o Novecentos, em especial de D. Isabel e dos Abolicionistas” – e também autor, em parceria com a historiadora Fátima Argon, do mais completo e monumental estudo sobre D. Isabel e o período do Segundo Reinado, Alegrias e Tristezas – estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil, com quase 900 páginas de pesquisas, análises e preciosidades biográficas.

Entusiasta do meu trabalho de resgate das grandes figuras negras de nossa história – muitas delas presentes em artigos meus, aqui, nesta Gazeta do Povo –, Bruno, historiador nato, tem feito um igual esforço para manter viva a chama daquele que foi o movimento social mais importante da história brasileira, o abolicionismo. A pedra fundamental de nossa civilização foi um evento grandioso, uma construção de décadas que envolveu das classes mais altas à população mais pobre e os próprios escravizados, e que se intensificou nos últimos oito anos (de 1880 a 1888), culminando na assinatura da Lei Áurea. Seguiram-se vários dias da mais absoluta catarse. Osvaldo Orico, biógrafo de José do Patrocínio, relata que “os paladinos da abolição não podiam aparecer sem que se improvisasse logo um comício, uma passeata, uma procissão de louvor. Nabuco, ao atravessar distraidamente uma rua, foi carregado em triunfo”. E André Rebouças chamará a Missa Campal, realizada em 17 de maio de 1888, de “um dos mais grandiosos espetáculos que tem visto a humanidade; antevisão do Vale de Josaphat [referência ao local bíblico citado no livro do profeta Joel, 3,2 e 3,12]”.

Considerando-se – e também a mim – um neoabolicionista, Bruno tem procurado, como eu, reconstruir essa época e esse movimento no sentido da produção de um “resgate histórico-cultural enquanto auxiliar dos debates nacionais e ferramenta de cidadania”, ou, como ele diz: “a psicanálise da nação brasileira”. Há muita mistificação e, mais do que isso, mentiras e demonizações em relação a esse período, sobretudo por conta da escravidão e de termos sido o último país das Américas a abolir tal sistema. O domínio historiográfico da esquerda tem, ao longo das últimas décadas, recontado nossa história sob o diapasão da crítica e do ressentimento, ignorando completamente que nossa história (na verdade qualquer história civilizacional), como disse bem Gilberto Freyre, foi construída “sob antagonismos”. Transformaram a família imperial nos grandes responsáveis pela escravidão e lhe subtraíram qualquer participação no movimento pela extinção do “elemento servil”.

Já os abolicionistas – tais como André Rebouças, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e Visconde de Taunay – foram relegados a meros coadjuvantes da assinatura da Lei Áurea, e ainda acusados de displicência em relação à situação dos negros no pós-abolição. Mas Joaquim Nabuco mesmo já havia previsto, em seu clássico O Abolicionismo, de 1883: “O processo natural pelo qual a escravidão fossilizou nos seus moldes a exuberante vitalidade do nosso povo durante todo o período de crescimento, e enquanto a nação não tiver consciência de que lhe é indispensável adaptar à liberdade cada um dos aparelhos do seu organismo de que a escravidão se apropriou, a obra desta irá por diante, mesmo quando não haja mais escravos”.

A preocupação dos abolicionistas com o dia seguinte era profunda e real; todos sabiam que era preciso dar encaminhamento à libertação no sentido de inserir aquele grande contingente de pessoas (cerca de 800 mil à época) na sociedade; e André Rebouças, ao construir o seu projeto de Democracia Rural, previa a indenização de ex-escravos mediante a divisão das grandes propriedades (Fazendas Centrais) em pequenas propriedades (Engenhos Centrais), arrendadas pelos ex-escravos e colonos europeus, fomentando a produção em cadeia baseada na liberdade individual e no espírito de associação. E também, como diz Nabuco na citação acima, era fundamental realizar todo um trabalho de reeducação da imaginação moral do brasileiro, a fim de romper com a fossilização da “exuberante vitalidade do nosso povo”. Rebouças, logo após a assinatura da Lei Áurea, não descansou. Em 17 de junho de 1888, registrou em seu Diário que estava “redigindo um projeto de lei para educação, instrução e elevação do nível moral dos libertos”.

No entanto, o golpe republicano de 15 de novembro de 1889 sepultou todo o trabalho da abolição e, pior, iniciou um processo de perseguição e marginalização das pessoas negras, inclusive promovendo iniciativas eugênicas (trato brevemente disso nesse artigo), que fomentou um racismo nunca antes visto no país. Não foi à toa que Joaquim Nabuco, numa carta de 1.º de janeiro de 1893 a seu amigo Rebouças – no exílio desde o golpe –, reclama dos descaminhos da malfadada República:

“Com que gente andamos metidos! Hoje estou convencido de que não havia uma parcela de amor do escravo, de desinteresse e de abnegação em três quartas partes dos que se diziam abolicionistas. […] A prova é que fizeram esta República e depois dela só advogaram a causa dos bolsistas, dos ladrões da finança, piorando infinitamente a condição dos pobres. É certo que os negros estão morrendo e, pelo alcoolismo, se degradando ainda mais do que quando escravos, porque são hoje livres, isto é, responsáveis, e antes eram puras máquinas, cuja sorte Deus tinha posto em outras mãos (se Deus consentiu na escravidão)”.

Em resposta, de 6 de março de 1893, Rebouças rememorou aquele trágico período a seu confrade:

“A 13 de maio de 1889 eu tive uma tristeza inexplicável. Lembra-se que foi necessário telegrama para tirar-me de meu isolamento em Petrópolis… Na tarde de 22 de agosto de 1888, quando voltávamos da faustosa e hipócrita recepção ao imperador [em sua volta da Europa], eu lhe disse ao ouvido: ̔Agora posso dormir tranquilo̕… Pareciam-me que, a todo momento, os escravocratas assassinavam a princesa redentora e cobriam de sangue a página santa que havíamos escrito durante longos oito anos… A 22 de agosto de 1888, ainda esperavam os celerados indenização e Chins [chineses]”.

Por esses e outros motivos, o Segundo Império brasileiro, que os republicanos trataram de difamar de forma absoluta e sistemática, foi completamente demonizado e quase esquecido, e, com ele, toda a imensa e fundamental obra do abolicionismo. No entanto, o neoabolicionismo visa a resgatar essa obra. Como bem diz Bruno de Cerqueira, no site do IDII:

“Rememorar os Trezes de Maio imediatamente posteriores ao de 1888 tem uma função pedagógica, além de historiográfica. Quer significar que o abolicionismo foi muito mais do que um movimento civil de cunho advocatício-parlamentar e ações revolucionárias. Quer significar que ele era um partido, um movimento político que visava tomar o poder no Brasil, para que se pudessem efetivar as mudanças profundas, de base, e se alcançasse aquilo que o próprio movimento chamava de ʻRedenção do Brasilʼ e/ou ʻemancipação dos libertosʼ. Aquilo que o Brasil não conheceu com o III Reinado feminino, de uma princesa devota e consciente, uma mulher voluntariosa, ainda que aparentemente dócil e pouco sagaz, não se pode deixar de lastimar. Não foi pequeno o sentimento de culpa dos chefes maiores do abolicionismo – mormente Rebouças e Nabuco – nos Trezes de Maio seguintes, por se conscientizarem do quanto o movimento, em seu frenesi, não previu com argúcia as artimanhas e ciladas dos diversos inimigos não somente da Coroa, mas dos negros”.

Apesar da escravidão e de todos os problemas dela decorrentes, o século 19, no Brasil, foi extremamente frutífero tanto política – tendo produzido homens de estatura política e intelectual insuperável como José Bonifácio, Antônio Pereira Rebouças, Visconde de Jequitinhonha, Nabuco de Araújo (e seu filho já citado), Rui Barbosa, Visconde de Uruguai e Visconde de Cairu – quanto culturalmente, com grandes intelectuais da estirpe de Francisco de Paula Brito, André Rebouças, Machado de Assis, Tobias Barreto, Sílvio Romero (cujas contradições em relação à raça e à eugenia não superam sua imensa contribuição à filosofia e à literatura), Nísia Floresta, Amália dos Passos Figueiroa e Maria Firmina dos Reis.

Bruno, por meio do IDII, vem lutando para incluir grandes brasileiros negros, como José do Patrocínio e André Rebouças, no panteão dos Heróis e Heroínas da Pátria. Passo importantíssimo para a preservação da memória desses luminares de nossa brasilidade.

Foi também no jantar com Bruno que conheci pessoalmente a professora Teresa Malatian, a maior autoridade na vida e na obra do grande Arlindo Veiga dos Santos (sobre quem já falei aqui), fundador da Frente Negra Brasileira e da Ação Imperial Patrianovista. Arlindo foi um dos mais ativos militantes negros brasileiros de todos os tempos, além de jornalista – responsável pelo jornal A Voz da Raça, da Frente Negra – e um intelectual diferenciado, tendo sido professor de Latim, Inglês, Português, História, Sociologia e Filosofia. Lecionou na Faculdade São Bento e na PUC-SP; foi tradutor de São Tomás de Aquino e escritor de várias obras de filosofia, panfletos políticos e poesia. Malatian escreveu uma excelente introdução a Arlindo Veiga, O Cavaleiro Negro, e a editora Resistência Cultural acaba de republicar uma de suas mais importantes obras políticas, Ideias que marcham no silêncio. Arlindo Veiga, para além de toda difamação que o movimento negro marxista lhe impingiu, foi um dos mais aguerridos neoabolicionistas.

Pois é, caríssimo leitor, a internet pode ser, realmente, fonte de amizades não só profundas, mas gratificantes, instrutivas e propositivas. Viva o neoabolicionismo!

*Paulo Cruz é licenciado em Filosofia e Tecnologia da Informação, mestre em Ciência da Religião e professor da Rede de Ensino do Estado de São Paulo. Leciona cursos por intermédio do site www.cursospaulocruz.com.br.

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Estadão – A memória da Princesa (artigo)

A memória da princesa


Cultura
 

A memória da princesa

Quando a princesa assinou a chamada Lei Áurea, o trabalho forçado estava em colapso

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 03h00

Como será a vida de uma herdeira do trono que nunca se tornou, de fato, Imperatriz coroada? No ano passado, Bruno da Silva Antunes de Cerqueira e Maria de Fátima Moraes Argon lançaram um grosso volume: Alegrias e Tristezas – Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do Brasil (Linotipo Digital). O estudo é consistente, bem encadernado e tem por foco o texto Joies et Tristesses que a filha de Pedro II escreveu no exílio e a Memória Para Meus Filhos.

O livro é bem feito: debates teóricos sobre a escrita biográfica, digressões sobre o nome da princesa ser com S ou Z, notas de orientações, reprodução dos textos, tradução e muitas outras informações. Ao mesmo tempo em que citam autores dos mais atualizados no campo teórico, fazem a atividade mais tradicional possível a um filho de Heródoto. Além de tudo, o volume apresenta muitas fotografias e quadros, bem como uma imensa lista de datas e acontecimentos na vida da princesa.

O gesto maior de Isabel é o 13 de maio, a abolição da escravatura. Todos sabem que o movimento negro milita pelo fortalecimento da data de 20 de novembro, ligada à luta e morte de Zumbi dos Palmares. A data da “Redentora” seria uma ideia de concessão de uma mulher branca e de olhos azuis; a data do maior quilombo é uma ocasião que reforça a luta e a resistência. Quando o olhar for mais técnico e menos orientado a partir do presente, as duas datas continuarão a ser muito significativas, cada uma indicando um aspecto real e simbólico da questão mais fundamental da história brasileira: pessoas escravizadas.

A escravidão caiu porque houve luta e resistência ativa de quilombolas, pressão da Inglaterra, convicções intelectuais e humanitárias de classes médias urbanas, declínio da necessidade do trabalho compulsório, ações concretas da Coroa e estímulo do papa Leão XIII no caso brasileiro. Quando a princesa assinou a chamada Lei Áurea, o trabalho forçado estava em colapso em meio a pressões variadas, inclusive fugas em massa e incêndios de fazendas. Ainda assim, o valor prático e simbólico do 13 de maio é colossal. Enquanto houvesse o estatuto jurídico da escravidão, a situação seria instável mesmo para a maioria de negros libertos. Não seria errado considerar a lei dada na Corte do Rio de Janeiro como uma tentativa de interromper a onda de saques, incêndios, fugas e violências que cresciam há alguns anos. Assim, a “libertação” da lei 3353 seria mais uma estratégia conservadora de tentar solidificar o controle de latifundiários brancos do que um gesto visando o bem-estar de escravizados. Funcionaria, aqui, como o 4 de agosto de 1789 na França, quando a Assembleia aboliu os Direitos Feudais para tentar impedir a onda de saques e de incêndios daquele verão revolucionário. Mesmo assim, emito minha opinião: simbolicamente, o 13 de maio é importante no Brasil, tão importante que o movimento republicano tentou construir uma memória que afastasse a princesa e o Império da luta abolicionista. Para os mais radicais, o Império foi lento na luta abolicionista; para os escravocratas, foi rápido demais e ainda fez sem indenização. Lembremo-nos: apesar da crescente onda de migração europeia para a lavoura cafeeira em marcha vitoriosa sobre São Paulo, os escravos existiam em pequenas fazendas de quase todo país, em igrejas, no comércio e até entre negros libertos. Se já estava abolida em províncias como o Ceará, a escravidão ainda era onipresente no Brasil de 1888. O racismo? Bem, esse é outro capítulo que não foi abalado naquele domingo de comemorações.

Pedro II perdeu o trono no ano seguinte. Isabel e o Conde D’Eu acompanharam o imperador ao exílio. Nenhum veria o Brasil de novo. A princesa, chefe da casa imperial brasileira desde a morte do pai (5/12/1891) faleceu no castelo D’Eu, na França, a 14 de novembro de 1921, por volta das dez horas da manhã. O Conde, neto do rei Luís Filipe da França, tão atacado pela imprensa republicana e por Rui Barbosa, em particular, falece retornando ao Brasil no ano seguinte.

A história sempre marcha acelerada. O castelo dos Eu acaba sendo vendido para o magnata de imprensa brasileira, Assis Chateaubriand. Mais tarde, seria revendido para sediar a prefeitura da cidade da Normandia. Os corpos do imperador, da Imperatriz, da princesa e do conde-marechal seriam depositados na catedral de Petrópolis. O clima do centenário da independência e o desgaste de República tinham inclinado os poderes ao cultivo da memória do Império. Nos 150 anos da data, o corpo do avô de Isabel, Pedro I, foi trazido para o Brasil.

Império e República possuem memórias entrelaçadas. A baixa qualidade média dos governantes pós 1889 destaca a formação exemplar de Pedro II e de Isabel. Claro, construir a memória do Império como um período de harmonia áurea é um esforço muito ideológico. Ocorre o mesmo quando entusiastas tentam inventar uma memória plana e linda de Getúlio Vargas, da ditadura civil-militar (1964-1985) ou de governos recentes como Lula. Os esforços falam muito dos autores e também do que veio depois como governo. O corpo da “Redentora” repousa em Petrópolis. A memória dela, como de qualquer pessoa, oscila no diálogo entre o passado e o presente. Muita esperança para príncipes e plebeus.

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,a-memoria-da-princesa,70003755460

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Estadão – Educação, neoabolicionismo e direitos humanos: nós de uma treliça comum (artigo)

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira*

20 de junho de 2021 | 10h00

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

“Abolir a escravidão não basta. É necessário abolir a miséria.” Com estas palavras, em 1889, o engenheiro André Pinto Rebouças (1838-1898), que foi o abolicionista-mor do Império do Brasil, dizia que a obra da Abolição somente se perfaria quando ela trouxesse aos antigos escravizados, e seus descendentes, a “civilização”. Embora o conceito de civilização na voga oitocentista estivesse impregnado do que hoje chamaríamos de eurocentrismo – nem sempre com a acurácia desejável –, mas também do racismo considerado científico naquela quadra, ele deitava raízes nas diferenciações sociais que gregos e romanos faziam de povos diversos de si, tanto que o vocábulo bárbaro tem origem onomatopaica e significa exatamente “aqueles que balbuciam e nada falam”.

Quando Rebouças propunha a “abolição da miséria”, ele estava instigando os políticos poderosos aos quais tinha amplo acesso a viabilizar políticas públicas voltadas a dois importantes vértices: o da reforma fundiária do país e o da ampliação do crédito, ensejando o fomento da pequena propriedade.

Após o Treze de Maio, em 1888, que constituiu a “Segunda Independência do Brasil” no dizer de seus maiores arquitetos (Rebouças, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Manoel Dantas – e o filho, Rodolpho –, João Clapp, Antonio Bento, José Mariano, Affonso Celso Junior, João Mendes Junior, Ruy Barbosa e centenas de outros e outras), os abolicionistas, fossem liberais ou conservadores, monarquistas ou republicanistas, passaram a exigir do Governo Imperial reformas de grande monta, que dessem conta daquilo que Gilberto Freyre gostava de chamar de “a transição do sistema patriarcal ou semipatriarcal”, que era escravista, para o “regime de trabalho livre”.

Se muitos dos abolicionistas miravam a Coroa e o Governo nas críticas acérrimas sobre pormenores estritamente políticos, como é o caso da demanda federalista de Ruy Barbosa, outros pensavam na engenharia social do Brasil do século XX. Rebouças era o principal deles. Pari passu com a preparação de suas aulas para a Escola Politécnica do Rio de Janeiro – a mais antiga das Américas, em cujo prédio hoje funciona o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) da UFRJ –, Rebouças escrevia artigos e livretos sobre a obra civilizacional que, segundo ele, cabia à Monarquia conduzir no país, para extirpar os resquícios trágicos da escravidão absolutamente enraizada e esgarçada. Seu amigo e companheiro de luta, Nabuco, fazia o mesmo, com o olhar de diplomata, historiador, sociólogo, mas sobretudo de parlamentar, desejoso de que chegasse o dia de compor Gabinete. Rebouças, que era dos números, das fórmulas e tinha verve muito menor do que a de Nabuco, investia a pena nas ações de planejamento.

Em homenagem ao “Engenheiro da Nação Brasileira”, como o Instituto Cultural D. Isabel I (IDII) denomina André Rebouças desde que foi fundado, em 2001, na Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro, o mestre dos diques e das ferrovias é aqui abordado sob a ótica da estrutura de treliças, uma das muitas com as quais era familiarizado e desenvolvia seus projetos, como se vê em um dos maiores de todos, a ferrovia Paranaguá-Curitiba, cujo nome oficial era “Estrada de Ferro Dona Izabel”. Pensemos, pois, no Brasil como uma grande treliça. Em engenharia civil e mecânica, os nós na treliça são o real sustentáculo do equipamento; se qualquer um deles falhar, toda a estrutura estará comprometida. Ou, como expressaria D. Isabel, que adorava as boutades, a “caranguejola” iria abaixo.

Dizia Rebouças que a reforma fundiária do Brasil, que ele apelidava “Democracia Rural” em livro e artigos, era a conditio sine qua non do que hoje chamaríamos de crescimento econômico. Sem ela, os antigos escravizados, mas também os imigrantes europeus, que ele considerava que se estavam tornando os neoescravizados, não poderiam se emancipar, pois o monopólio da terra nas mãos dos grandes proprietários – os landlords –, não permitiria a superação da pobreza e da miséria no campo, fazendo do Brasil, eminentemente agrário no fim do XIX, e com a mesma “vocação” até hoje, um país de poucos milionários rurais e milhões de camponeses paupérrimos. A fala do trono proferida por D. Pedro II em maio de 1889 apontava o caminho que queria Rebouças: as terras devolutas do Império, isto é, bens públicos sem destinação, deveriam servir para o fim de uma ampla reforma fundiária brasileira. Cerca de seis meses após esse discurso da Coroa, militares de baixa patente do Exército, apoiados numa rede de conspiração com poucos oficiais-generais, mas sem dúvida mirando o suporte dos latifundiários, conseguiram dar um golpe de Estado, por meio do qual o primeiro-ministro, Visconde de Ouro Preto, foi deposto e preso.

Entre 15 e 17 de novembro de 1889, os militares não somente depuseram o último Ministério do Partido Liberal, como convenceram um antigo herói de guerra, Marechal Manoel Deodoro da Fonseca, a “proclamar” uma “República dos Estados Unidos do Brasil”. O golpe foi certeiro, dada a inação de D. Pedro II. Inexistindo vácuo no poder, ele foi preenchido por uma “coloração militar”, a que o povo assistia “bestializado”, ambas expressões de um republicanista histórico, Aristides Lôbo. Baniram-se o imperador e sua filha e herdeira, a futura D. Isabel I, publicamente comprometida com algumas das bandeiras do Partido Abolicionista, sobretudo a educação dos “libertos” e “ingênuos” e a não indenização senhorial. Mesmo lhe sendo vedado constitucionalmente aderir a qualquer programa partidário, D. Isabel passou a não mais escamotear seus “planos” para um Terceiro Reinado com bases muito mais populares do que os dois anteriores haviam tido. A bordo do Parnayba, e, depois, do Alagoas, rumaram para Portugal não somente os imperantes como o mais importante homem negro do Brasil de então, André Rebouças, que decidiu partir no lugar do aio (preceptor/mestre) dos príncipes filhos de D. Isabel, o Barão de Ramiz, já que solteiro o primeiro e casado, com prole, o segundo. Simbolicamente, Rebouças era ali o antelóquio de todos os negros brasileiros que ascenderiam pelas vias educacionais e laborais, conforme expusemos no livro Alegrias e Tristezas.

Outro abolicionista menos engajado, mas muito festejado por Rebouças, também embarcou no Alagoas. Franklin Doria, mais conhecido por seu título de Barão de Loreto, que Rebouças chamava de “o vate abolicionista”, foi, em seu tempo, um importante defensor da educação. Era o poderoso ministro da pasta que se chamava “dos Negócios do Império”, ou seja, o ministro do Interior ou, mais hodiernamente, o da Integração Nacional. Loreto, que fora presidente da Câmara dos Deputados, fundador da Biblioteca do Exército e organizador da entidade antecessora da ABL, a Associação dos homens de lettras do Brazil (1883), que reuniu quase duzentos intelectuais, era o marido de D. Maria Amanda de Lustosa Paranaguá Doria, amiga-irmã de D. Isabel, por ela chamada “Amandinha”. Pelos engajamentos na obra de alfabetização dos adultos e, também, de crianças, D. Amanda fora intitulada a “mãe dos analfabetos”. Era uma das damas isabelinas e isabelistas mais “empoderadas”, senão a maior, que somente agora terá biografia publicada, por um jovem historiador, baiano e negro. Curiosamente, e como alerta esse jovem historiador, Itan Cruz, tanto Franklin Doria como D. Amandinha, a despeito de serem socialmente “brancos”, eram lidos/havidos por pessoas “morenas”, já que sua tez denunciava as origens ameríndias e africanas de alguns de seus ancestrais.

O Quinze de Novembro abortou o Terceiro Reinado e, com ele, as reformas. Junto com a família imperial, também se exilava um determinado projeto de Brasil. O país que, em tese, poderia conhecer o que os abolicionistas, em seu léxico próprio, nomeavam de “Redenção do Brasil” – que estava longe de ser, somente, a equiparação jurídica entre brancos e negros e a superação do binômio que impedia o fomento da cidadania (senhores/escravos). A Redenção do Brasil era a efetivação dos afro-brasileiros como cidadãos, mesmo que “súditos” de uma realeza, mas absolutamente senhores de seu destino, uma vez saídos daquilo que se considerava um estágio de barbárie e que, reiteravam os abolicionistas, fazia de todos os brasileiros bárbaros.

O “neoabolicionismo”, tal como expresso no primeiro simpósio organizado pelo IDII, em 2005, na Glória, Rio de Janeiro, se apresenta como reconstituição histórica e retomada social do(s) movimento(s) abolicionista(s) do século XIX brasileiro, que foi o grande guarda-chuva de ideias e ideais reformistas que nossa História conheceu. Iluminando a vida e a obra dos homens e mulheres que teceram a Abolição, legiferada em 1888, e trabalharam pelo extermínio da mais nefanda das instituições jurídicas de nossa história, todos os brasileiros são chamados a retomar os projetos que se baldaram com a aniquilação do movimento abolicionista. Movimento cultural e educacional em largo senso, o neoabolicionismo se importa, sobremaneira, com a formação cidadã dos brasileiros.

Neste sentido, a educação em Direitos Humanos constitui outro nó da treliça rebouciana. O Brasil, sabemos bem, não avançará sem infraestrutura para a produção, reforma tributária, estabilidade econômica, combate à corrupção governamental – amplamente lastreada na quase lascívia que molda nossa cultura política e que no XIX se mostrava azeitada com o desprezo pela ilegalidade do “comércio infame” (tráfico de escravizados), bem como pelo esbulho das terras indígenas –, acesso irrestrito aos bens culturais, preservação do patrimônio histórico e artístico. Nada disso, contudo, se aperfeiçoará se os brasileiros não receberem educação em Direitos Humanos. Toda vez que um brasileiro profere que “Direitos Humanos é defesa de bandido” um grilhão aperta e um chicote rebimba. Das senzalas ouvimos os frêmitos e gemidos de pavor, de dor, de desalento.

No verdor dos 21 anos, Nabuco escreveu um trabalho que é pouco lembrado, de título “A escravidão” (1870). Nele, pontificava o imberbe advogado que:

A escravidão degrada a alma do escravo e a do senhor. A escravidão é como um desses venenos que se infiltram pelo perfume: ela se infiltra pelo egoísmo. Depois de se haver introduzido na sociedade e de ter alimentado uma raça à custa da outra ela corrompe a ambas. Duas palavras únicas temos a dizer a respeito: que vícios não devem ter uma alma que obedece, que está sempre curva e humilhada, que rasteja diante de um homem? Que às vezes é a encarnação de todos os crimes? Que vícios por outro lado não deve ter aquele que está habituado a mandar e não ser mandado, a castigar a homens como a animais, a contemplar a máxima degradação da nossa natureza, a satisfazer brutalmente a todos os seus caprichos? Nada há mais parecido com a alma de um senhor do que a de um escravo.

Hoje essas palavras podem parecer antinômicas, já que nelas vemos o escravizado ser comparado ao “senhor”. Ocorre que tanto Freyre (Gilberto), como Freire (Paulo) concordariam que na sociedade ambivalente, a de senhores e escravos, quase necessariamente o oprimido terá por sonho ser opressor. Isso em nada anula o fato histórico de que, no Brasil, como sempre defenderam Rebouças e Nabuco, a escravidão tinha uma cor e a cor dela era preta.

Em tempos de negação do passado escravista de nosso país, e de diversos outros gêneros de negacionismo, é imperioso continuar a construir a estrada que foi pavimentada pelos abolicionistas. Parafraseando Antonio Bento, o chefe maior do movimento em São Paulo, ou o Brasil acaba com a escravidão mental e a ignorância, ou a escravidão acaba com o Brasil.

*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, advogado, historiador, membro das comissões de Direitos Humanos da OAB Federal e da OAB-DF, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas da OAB-DF, criador do canal “História do Brasil Como Você Nunca Viu” (YouTube) e coautor, com Fátima Argon, de Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil (São Paulo: Linotipo Digital e IDII, 2019, 888 páginas)

Fonte: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/educacao-neoabolicionismo-e-direitos-humanos-nos-de-uma-trelica-comum/

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