Estadão – A memória da Princesa (artigo)

A memória da princesa


Cultura
 

A memória da princesa

Quando a princesa assinou a chamada Lei Áurea, o trabalho forçado estava em colapso

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 03h00

Como será a vida de uma herdeira do trono que nunca se tornou, de fato, Imperatriz coroada? No ano passado, Bruno da Silva Antunes de Cerqueira e Maria de Fátima Moraes Argon lançaram um grosso volume: Alegrias e Tristezas – Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do Brasil (Linotipo Digital). O estudo é consistente, bem encadernado e tem por foco o texto Joies et Tristesses que a filha de Pedro II escreveu no exílio e a Memória Para Meus Filhos.

O livro é bem feito: debates teóricos sobre a escrita biográfica, digressões sobre o nome da princesa ser com S ou Z, notas de orientações, reprodução dos textos, tradução e muitas outras informações. Ao mesmo tempo em que citam autores dos mais atualizados no campo teórico, fazem a atividade mais tradicional possível a um filho de Heródoto. Além de tudo, o volume apresenta muitas fotografias e quadros, bem como uma imensa lista de datas e acontecimentos na vida da princesa.

O gesto maior de Isabel é o 13 de maio, a abolição da escravatura. Todos sabem que o movimento negro milita pelo fortalecimento da data de 20 de novembro, ligada à luta e morte de Zumbi dos Palmares. A data da “Redentora” seria uma ideia de concessão de uma mulher branca e de olhos azuis; a data do maior quilombo é uma ocasião que reforça a luta e a resistência. Quando o olhar for mais técnico e menos orientado a partir do presente, as duas datas continuarão a ser muito significativas, cada uma indicando um aspecto real e simbólico da questão mais fundamental da história brasileira: pessoas escravizadas.

A escravidão caiu porque houve luta e resistência ativa de quilombolas, pressão da Inglaterra, convicções intelectuais e humanitárias de classes médias urbanas, declínio da necessidade do trabalho compulsório, ações concretas da Coroa e estímulo do papa Leão XIII no caso brasileiro. Quando a princesa assinou a chamada Lei Áurea, o trabalho forçado estava em colapso em meio a pressões variadas, inclusive fugas em massa e incêndios de fazendas. Ainda assim, o valor prático e simbólico do 13 de maio é colossal. Enquanto houvesse o estatuto jurídico da escravidão, a situação seria instável mesmo para a maioria de negros libertos. Não seria errado considerar a lei dada na Corte do Rio de Janeiro como uma tentativa de interromper a onda de saques, incêndios, fugas e violências que cresciam há alguns anos. Assim, a “libertação” da lei 3353 seria mais uma estratégia conservadora de tentar solidificar o controle de latifundiários brancos do que um gesto visando o bem-estar de escravizados. Funcionaria, aqui, como o 4 de agosto de 1789 na França, quando a Assembleia aboliu os Direitos Feudais para tentar impedir a onda de saques e de incêndios daquele verão revolucionário. Mesmo assim, emito minha opinião: simbolicamente, o 13 de maio é importante no Brasil, tão importante que o movimento republicano tentou construir uma memória que afastasse a princesa e o Império da luta abolicionista. Para os mais radicais, o Império foi lento na luta abolicionista; para os escravocratas, foi rápido demais e ainda fez sem indenização. Lembremo-nos: apesar da crescente onda de migração europeia para a lavoura cafeeira em marcha vitoriosa sobre São Paulo, os escravos existiam em pequenas fazendas de quase todo país, em igrejas, no comércio e até entre negros libertos. Se já estava abolida em províncias como o Ceará, a escravidão ainda era onipresente no Brasil de 1888. O racismo? Bem, esse é outro capítulo que não foi abalado naquele domingo de comemorações.

Pedro II perdeu o trono no ano seguinte. Isabel e o Conde D’Eu acompanharam o imperador ao exílio. Nenhum veria o Brasil de novo. A princesa, chefe da casa imperial brasileira desde a morte do pai (5/12/1891) faleceu no castelo D’Eu, na França, a 14 de novembro de 1921, por volta das dez horas da manhã. O Conde, neto do rei Luís Filipe da França, tão atacado pela imprensa republicana e por Rui Barbosa, em particular, falece retornando ao Brasil no ano seguinte.

A história sempre marcha acelerada. O castelo dos Eu acaba sendo vendido para o magnata de imprensa brasileira, Assis Chateaubriand. Mais tarde, seria revendido para sediar a prefeitura da cidade da Normandia. Os corpos do imperador, da Imperatriz, da princesa e do conde-marechal seriam depositados na catedral de Petrópolis. O clima do centenário da independência e o desgaste de República tinham inclinado os poderes ao cultivo da memória do Império. Nos 150 anos da data, o corpo do avô de Isabel, Pedro I, foi trazido para o Brasil.

Império e República possuem memórias entrelaçadas. A baixa qualidade média dos governantes pós 1889 destaca a formação exemplar de Pedro II e de Isabel. Claro, construir a memória do Império como um período de harmonia áurea é um esforço muito ideológico. Ocorre o mesmo quando entusiastas tentam inventar uma memória plana e linda de Getúlio Vargas, da ditadura civil-militar (1964-1985) ou de governos recentes como Lula. Os esforços falam muito dos autores e também do que veio depois como governo. O corpo da “Redentora” repousa em Petrópolis. A memória dela, como de qualquer pessoa, oscila no diálogo entre o passado e o presente. Muita esperança para príncipes e plebeus.

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,a-memoria-da-princesa,70003755460

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Estadão – Educação, neoabolicionismo e direitos humanos: nós de uma treliça comum (artigo)

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira*

20 de junho de 2021 | 10h00

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

“Abolir a escravidão não basta. É necessário abolir a miséria.” Com estas palavras, em 1889, o engenheiro André Pinto Rebouças (1838-1898), que foi o abolicionista-mor do Império do Brasil, dizia que a obra da Abolição somente se perfaria quando ela trouxesse aos antigos escravizados, e seus descendentes, a “civilização”. Embora o conceito de civilização na voga oitocentista estivesse impregnado do que hoje chamaríamos de eurocentrismo – nem sempre com a acurácia desejável –, mas também do racismo considerado científico naquela quadra, ele deitava raízes nas diferenciações sociais que gregos e romanos faziam de povos diversos de si, tanto que o vocábulo bárbaro tem origem onomatopaica e significa exatamente “aqueles que balbuciam e nada falam”.

Quando Rebouças propunha a “abolição da miséria”, ele estava instigando os políticos poderosos aos quais tinha amplo acesso a viabilizar políticas públicas voltadas a dois importantes vértices: o da reforma fundiária do país e o da ampliação do crédito, ensejando o fomento da pequena propriedade.

Após o Treze de Maio, em 1888, que constituiu a “Segunda Independência do Brasil” no dizer de seus maiores arquitetos (Rebouças, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Manoel Dantas – e o filho, Rodolpho –, João Clapp, Antonio Bento, José Mariano, Affonso Celso Junior, João Mendes Junior, Ruy Barbosa e centenas de outros e outras), os abolicionistas, fossem liberais ou conservadores, monarquistas ou republicanistas, passaram a exigir do Governo Imperial reformas de grande monta, que dessem conta daquilo que Gilberto Freyre gostava de chamar de “a transição do sistema patriarcal ou semipatriarcal”, que era escravista, para o “regime de trabalho livre”.

Se muitos dos abolicionistas miravam a Coroa e o Governo nas críticas acérrimas sobre pormenores estritamente políticos, como é o caso da demanda federalista de Ruy Barbosa, outros pensavam na engenharia social do Brasil do século XX. Rebouças era o principal deles. Pari passu com a preparação de suas aulas para a Escola Politécnica do Rio de Janeiro – a mais antiga das Américas, em cujo prédio hoje funciona o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) da UFRJ –, Rebouças escrevia artigos e livretos sobre a obra civilizacional que, segundo ele, cabia à Monarquia conduzir no país, para extirpar os resquícios trágicos da escravidão absolutamente enraizada e esgarçada. Seu amigo e companheiro de luta, Nabuco, fazia o mesmo, com o olhar de diplomata, historiador, sociólogo, mas sobretudo de parlamentar, desejoso de que chegasse o dia de compor Gabinete. Rebouças, que era dos números, das fórmulas e tinha verve muito menor do que a de Nabuco, investia a pena nas ações de planejamento.

Em homenagem ao “Engenheiro da Nação Brasileira”, como o Instituto Cultural D. Isabel I (IDII) denomina André Rebouças desde que foi fundado, em 2001, na Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro, o mestre dos diques e das ferrovias é aqui abordado sob a ótica da estrutura de treliças, uma das muitas com as quais era familiarizado e desenvolvia seus projetos, como se vê em um dos maiores de todos, a ferrovia Paranaguá-Curitiba, cujo nome oficial era “Estrada de Ferro Dona Izabel”. Pensemos, pois, no Brasil como uma grande treliça. Em engenharia civil e mecânica, os nós na treliça são o real sustentáculo do equipamento; se qualquer um deles falhar, toda a estrutura estará comprometida. Ou, como expressaria D. Isabel, que adorava as boutades, a “caranguejola” iria abaixo.

Dizia Rebouças que a reforma fundiária do Brasil, que ele apelidava “Democracia Rural” em livro e artigos, era a conditio sine qua non do que hoje chamaríamos de crescimento econômico. Sem ela, os antigos escravizados, mas também os imigrantes europeus, que ele considerava que se estavam tornando os neoescravizados, não poderiam se emancipar, pois o monopólio da terra nas mãos dos grandes proprietários – os landlords –, não permitiria a superação da pobreza e da miséria no campo, fazendo do Brasil, eminentemente agrário no fim do XIX, e com a mesma “vocação” até hoje, um país de poucos milionários rurais e milhões de camponeses paupérrimos. A fala do trono proferida por D. Pedro II em maio de 1889 apontava o caminho que queria Rebouças: as terras devolutas do Império, isto é, bens públicos sem destinação, deveriam servir para o fim de uma ampla reforma fundiária brasileira. Cerca de seis meses após esse discurso da Coroa, militares de baixa patente do Exército, apoiados numa rede de conspiração com poucos oficiais-generais, mas sem dúvida mirando o suporte dos latifundiários, conseguiram dar um golpe de Estado, por meio do qual o primeiro-ministro, Visconde de Ouro Preto, foi deposto e preso.

Entre 15 e 17 de novembro de 1889, os militares não somente depuseram o último Ministério do Partido Liberal, como convenceram um antigo herói de guerra, Marechal Manoel Deodoro da Fonseca, a “proclamar” uma “República dos Estados Unidos do Brasil”. O golpe foi certeiro, dada a inação de D. Pedro II. Inexistindo vácuo no poder, ele foi preenchido por uma “coloração militar”, a que o povo assistia “bestializado”, ambas expressões de um republicanista histórico, Aristides Lôbo. Baniram-se o imperador e sua filha e herdeira, a futura D. Isabel I, publicamente comprometida com algumas das bandeiras do Partido Abolicionista, sobretudo a educação dos “libertos” e “ingênuos” e a não indenização senhorial. Mesmo lhe sendo vedado constitucionalmente aderir a qualquer programa partidário, D. Isabel passou a não mais escamotear seus “planos” para um Terceiro Reinado com bases muito mais populares do que os dois anteriores haviam tido. A bordo do Parnayba, e, depois, do Alagoas, rumaram para Portugal não somente os imperantes como o mais importante homem negro do Brasil de então, André Rebouças, que decidiu partir no lugar do aio (preceptor/mestre) dos príncipes filhos de D. Isabel, o Barão de Ramiz, já que solteiro o primeiro e casado, com prole, o segundo. Simbolicamente, Rebouças era ali o antelóquio de todos os negros brasileiros que ascenderiam pelas vias educacionais e laborais, conforme expusemos no livro Alegrias e Tristezas.

Outro abolicionista menos engajado, mas muito festejado por Rebouças, também embarcou no Alagoas. Franklin Doria, mais conhecido por seu título de Barão de Loreto, que Rebouças chamava de “o vate abolicionista”, foi, em seu tempo, um importante defensor da educação. Era o poderoso ministro da pasta que se chamava “dos Negócios do Império”, ou seja, o ministro do Interior ou, mais hodiernamente, o da Integração Nacional. Loreto, que fora presidente da Câmara dos Deputados, fundador da Biblioteca do Exército e organizador da entidade antecessora da ABL, a Associação dos homens de lettras do Brazil (1883), que reuniu quase duzentos intelectuais, era o marido de D. Maria Amanda de Lustosa Paranaguá Doria, amiga-irmã de D. Isabel, por ela chamada “Amandinha”. Pelos engajamentos na obra de alfabetização dos adultos e, também, de crianças, D. Amanda fora intitulada a “mãe dos analfabetos”. Era uma das damas isabelinas e isabelistas mais “empoderadas”, senão a maior, que somente agora terá biografia publicada, por um jovem historiador, baiano e negro. Curiosamente, e como alerta esse jovem historiador, Itan Cruz, tanto Franklin Doria como D. Amandinha, a despeito de serem socialmente “brancos”, eram lidos/havidos por pessoas “morenas”, já que sua tez denunciava as origens ameríndias e africanas de alguns de seus ancestrais.

O Quinze de Novembro abortou o Terceiro Reinado e, com ele, as reformas. Junto com a família imperial, também se exilava um determinado projeto de Brasil. O país que, em tese, poderia conhecer o que os abolicionistas, em seu léxico próprio, nomeavam de “Redenção do Brasil” – que estava longe de ser, somente, a equiparação jurídica entre brancos e negros e a superação do binômio que impedia o fomento da cidadania (senhores/escravos). A Redenção do Brasil era a efetivação dos afro-brasileiros como cidadãos, mesmo que “súditos” de uma realeza, mas absolutamente senhores de seu destino, uma vez saídos daquilo que se considerava um estágio de barbárie e que, reiteravam os abolicionistas, fazia de todos os brasileiros bárbaros.

O “neoabolicionismo”, tal como expresso no primeiro simpósio organizado pelo IDII, em 2005, na Glória, Rio de Janeiro, se apresenta como reconstituição histórica e retomada social do(s) movimento(s) abolicionista(s) do século XIX brasileiro, que foi o grande guarda-chuva de ideias e ideais reformistas que nossa História conheceu. Iluminando a vida e a obra dos homens e mulheres que teceram a Abolição, legiferada em 1888, e trabalharam pelo extermínio da mais nefanda das instituições jurídicas de nossa história, todos os brasileiros são chamados a retomar os projetos que se baldaram com a aniquilação do movimento abolicionista. Movimento cultural e educacional em largo senso, o neoabolicionismo se importa, sobremaneira, com a formação cidadã dos brasileiros.

Neste sentido, a educação em Direitos Humanos constitui outro nó da treliça rebouciana. O Brasil, sabemos bem, não avançará sem infraestrutura para a produção, reforma tributária, estabilidade econômica, combate à corrupção governamental – amplamente lastreada na quase lascívia que molda nossa cultura política e que no XIX se mostrava azeitada com o desprezo pela ilegalidade do “comércio infame” (tráfico de escravizados), bem como pelo esbulho das terras indígenas –, acesso irrestrito aos bens culturais, preservação do patrimônio histórico e artístico. Nada disso, contudo, se aperfeiçoará se os brasileiros não receberem educação em Direitos Humanos. Toda vez que um brasileiro profere que “Direitos Humanos é defesa de bandido” um grilhão aperta e um chicote rebimba. Das senzalas ouvimos os frêmitos e gemidos de pavor, de dor, de desalento.

No verdor dos 21 anos, Nabuco escreveu um trabalho que é pouco lembrado, de título “A escravidão” (1870). Nele, pontificava o imberbe advogado que:

A escravidão degrada a alma do escravo e a do senhor. A escravidão é como um desses venenos que se infiltram pelo perfume: ela se infiltra pelo egoísmo. Depois de se haver introduzido na sociedade e de ter alimentado uma raça à custa da outra ela corrompe a ambas. Duas palavras únicas temos a dizer a respeito: que vícios não devem ter uma alma que obedece, que está sempre curva e humilhada, que rasteja diante de um homem? Que às vezes é a encarnação de todos os crimes? Que vícios por outro lado não deve ter aquele que está habituado a mandar e não ser mandado, a castigar a homens como a animais, a contemplar a máxima degradação da nossa natureza, a satisfazer brutalmente a todos os seus caprichos? Nada há mais parecido com a alma de um senhor do que a de um escravo.

Hoje essas palavras podem parecer antinômicas, já que nelas vemos o escravizado ser comparado ao “senhor”. Ocorre que tanto Freyre (Gilberto), como Freire (Paulo) concordariam que na sociedade ambivalente, a de senhores e escravos, quase necessariamente o oprimido terá por sonho ser opressor. Isso em nada anula o fato histórico de que, no Brasil, como sempre defenderam Rebouças e Nabuco, a escravidão tinha uma cor e a cor dela era preta.

Em tempos de negação do passado escravista de nosso país, e de diversos outros gêneros de negacionismo, é imperioso continuar a construir a estrada que foi pavimentada pelos abolicionistas. Parafraseando Antonio Bento, o chefe maior do movimento em São Paulo, ou o Brasil acaba com a escravidão mental e a ignorância, ou a escravidão acaba com o Brasil.

*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, advogado, historiador, membro das comissões de Direitos Humanos da OAB Federal e da OAB-DF, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas da OAB-DF, criador do canal “História do Brasil Como Você Nunca Viu” (YouTube) e coautor, com Fátima Argon, de Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil (São Paulo: Linotipo Digital e IDII, 2019, 888 páginas)

Fonte: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/educacao-neoabolicionismo-e-direitos-humanos-nos-de-uma-trelica-comum/

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Estadão – Uma grande Babel (artigo)

Uma grande Babel

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira*

21 de maio de 2021 | 06h30

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

O debate público no Brasil tem se tornado, diuturnamente, um diálogo de surdos. Todos têm razão e, paradoxalmente, o Outro sempre está proibido de tecer opiniões, em virtude de seu “lugar de fala”.

Uma das razões para o fenômeno está, não há dúvida, no academicismo à brasileira, rechaçado em texto clássico de Rosana Pinheiro-Machado. Do alto de suas cátedras, nenhuma delas de São Pedro, os professores universitários brasileiros se autodenominam “a academia” e olham de soslaio, quando não com franco menoscabo – e despeito, naturalmente –, para o IHGB, a ABL, a ABC, a ABM, os IHGs, a SPBC, esta última agora graças aos maus ventos voltando a ser valorizada, e têm a pachorra de considerar que pesquisas reais são apenas as intentadas nas suas faculdades, já que também há clara hierarquização de instituições de Ensino Superior nessa “cosmovisão”. Num país em que grande parte do povo é analfabeto funcional e semianalfabeto, o academicismo à brasileira constitui praga vicejante, em contraste com a revolução educacional e a verdadeira democratização do ensino que todos dizem defender.

Encastelados, os academicistas brasileiros lamentam o pouco caso dos governos federal, estaduais e municipais no incentivo à pesquisa científica nas mais variadas instituições disponíveis, sem proceder a uma autocrítica necessária sobre quão grande é o fosso entre o que se produz e o que se revela ao conjunto dos brasileiros, na práxis cidadã exigida do ofício do magistério.

Na pandemia-pandemônio que tem vivido o Brasil, a polarização dos extremos políticos tem mostrado o quanto esse cenário é deletério para o futuro da juventude brasileira, sabe-se lá Deus qual será. Pois é nas margens que se alimentam os recalques. Em pleno início do XXI e do Terceiro Milênio, vemos surgir entre nós, em graus variados e com performances esdrúxulas, neofascistas, neonazistas e neo-stalinistas. Não custa lembrar que os ismos do XX são todos legatários dos ismos do XIX: nacionalismo, positivismo, cientificismo e comunismo.

De novo não custa lembrar que os do XIX eram legatários dos do XVIII: iluminismo, racionalismo e liberalismo. E há um problema em tudo isso, como Hannah Arendt chamou a atenção e já Max Weber antes dela: o desencantamento do mundo, com a destruição dos aparatos mentais que as religiões costumavam oferecer, fatalmente levaria os humanos à banalização do mal de modo nunca dantes visto. Para a maioria dos historiadores é assente que o culto deificante à “Razão” e à “Ciência” estava absolutamente presente no nazismo, por exemplo, e que, portanto, o cume da razão pode ter a máscara cínica, mas não cênica, da irrazão.

No Brasil, como se pôde ver na semana passada, a da Abolição da Escravatura, os discursos tomam o lugar das pesquisas científicas. Historiadores não negros, alguns renomados, sentenciam que a Lei Áurea – o estatuto da Igualdade Racial do século XIX, duramente conquistado por abolicionistas negros e brancos, ricos e pobres – pode ser lembrada, mas “jamais celebrada”. De outro lado, narrativas da “dádiva isabelina”, por parte de monarquistas direitistas, e da “farsa de brancos”, por parte de militantes de movimentos negros, são reiteradas.

Como lembra Ricardo Henrique Salles, biógrafo de Nabuco, ambas as historietas aniquilam o movimento abolicionista. Não bastasse a República de 1889 ter varrido do mapa o Partido Abolicionista – e também o Partido Capoeira, no dizer de Carlos Líbano Soares –, hoje a memória desses homens e mulheres é enxovalhada, recebendo a culpa pelas consequências do ostracismo a que foram relegados no período de suas biografias em que mais poderiam ter trabalhado pelo Brasil. Uma verdadeira sandice.

Mas nem tudo são espinhos. Em meio a essas lutas memoriais renhidas, que constituem campos de batalha por excelência, passou despercebida a aprovação, na Comissão de Cultura da Câmara, do projeto de lei da Deputada Joênia Wapichana, que propõe algo que já deveria ter ocorrido há muito tempo: será alterada a nomenclatura oficial varguista para o dia 19 de Abril. Do racista e assimilacionista “Dia do Índio”, teremos agora o “Dia da Resistência dos Povos Indígenas”. Joênia, que como sempre lhe digo, é a “História do Brasil ambulante”, é a primeira deputada federal indígena do parlamento brasileiro, mas certamente não será a última.

Por fim um comentário sobre a cultura de cancelamento que agudiza a Babel brasileira, anteriormente já abordada aqui por Marcelo Copelli. Na Roma Antiga, os estádios se enchiam da “plebe ignara”, como a definiam os senadores, para assistir aos munera entre escravizados ou homens livres pobres, que compunham a maior parte dos gladiadores, celebrizados na sétima arte. Do alto do pulvinar (camarote imperial do anfiteatro), cabia a César aplacar a sede de sangue do espetáculo e conceder direito de vida ou morte ao perdedor da luta. O cancelamento popular, neste caso, era fatal, em que pese, muitas vezes, ser demandado pelo próprio perdedor…

Não sejamos desavisados. Clio, nossa musa maior, é uma senhora ciosa de seu império da ironia. Do alto do Monte Hélicon, ela pode até nos observar com alguma compaixão, mas não deixará de exigir de nós o seu culto, perenemente.

*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas da OAB-DF e criador do canal de YouTube História do Brasil Como Você Nunca Viu.

Fonte: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/uma-grande-babel/

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O Estado do Maranhão – Os breves dias de João (artigo)

Pe. João Dia Rezende Filho com Da. Isidoria, da Comunidade São José Operário, em maio de 2014. Na ocasião, ela lhe contou que sua avó havia sido alforriada pelo fazendeiro “proprietário”, junto com os demais escravizados, e em virtude disso D. Isabel do Brasil lhe havia agraciado com o título de Barão de Itapary. o que de fato ocorrera em 12.05.1888.

Os breves dias de João

Natalino Salgado Filho*

Entre tantas mortes sofridas e perdas emocionais ocasionadas pela Covid19, uma delas, em particular, nesses últimos dias, trouxe-me profunda tristeza. Falo da perda do amigo e também membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão – do qual faço parte – o Padre João Dias Rezende Filho.

Passageira e bastante significativa foi a vida de João. Nem havia chegado aos 40 anos. Ainda bem jovem, fez os sagrados votos de obediência, pobreza e castidade para dedicar cada um dos seus dias ao ofício da Casa de Deus. Além das ações próprias de sua missão – visitas aos doentes, audições, ensino e responsabilidades administrativas – o clérigo tinha paixão pelos livros, pelos amigos e por sua família, à qual me irmano enlutado.

Quando do ingresso dele no IHGM, tive a honra de saudá-lo. Àquela ocasião, tive a alegria de narrar um pouco do histórico dos antepassados de João, que também estiveram envolvidos no sagrado ofício de cultivar o conhecimento. Lembrei de Thucydides Barbosa, o primeiro homem a ocupar a cadeira de número 35 do Instituto. Era irmão de Antonio Barbosa, bisavô de João. 

Thucydides Barbosa era intelectual de renome, pesquisador dedicado e autor de várias obras que registram a história de Balsas, cidade que escolheu para amar e servir. Lá também exerceu mandato de prefeito. Foi ainda deputado, empresário do jornalismo, incentivador de ligas esportivas, difusor de tecnologia. Viveu para honrar e dignificar a região que o acolheu como filho. Naquele momento, tive a oportunidade de enaltecer as raízes de João, esse saudoso querido amigo.

Agora, no percurso do Padre João a que me refiro, chego ao lugar oposto de suas origens, nesta vida, porque ele, que tantas vezes consolou outros corações e animou os entristecidos, encontra nova morada no lugar que foi tema de suas pregações e de sua esperança terrena. Era um homem de Deus e da fé. Quando de meu discurso de saudação, lembrei de outros homens de Deus que se encontram na Bíblia, os quais, com ele, poderiam ser identificados. 

Por exemplo: o Batista, precursor do Cordeiro de Deus que veio para tirar os pecados do mundo, cumpriu fielmente o ofício de chamar pecadores ao arrependimento e assomar-se ao papel humilde de “voz que clama no deserto”. O outro João, discípulo amado, foi autor do evangelho que se inicia com a figura emblemática do Verbo que se fez carne, registra o diálogo de Jesus com Nicodemos, narra a ressurreição de Lázaro e, por fim, já aos pés da cruz, recebe a missão de cuidar de Maria, a mãe de Jesus. Coube a ele o privilégio de narrar os últimos acontecimentos da humanidade registrados em seu cativeiro na ilha de Patmos, no livro que encerra o cânon bíblico chamado de Apocalipse.

Ao nosso João recém-partido, permanece a tarefa de, com seu exemplo e dedicação, aqui na terra, através de sua biografia, inspirar outros a trilharem a mesma senda da partilha do pão do saber, do cuidado com os pobres, do amparo às famílias e do culto aos sagrados valores eternos, como o amor, a graça e a misericórdia, sem nunca perder de vista a presença de Cristo no próximo, o semelhante.

(A)Deus, amigo João!

*Médico nefrologista, reitor da UFMA, titular da Academia Nacional de Medicina, da Academia de Letras do Maranhão e da Academia Maranhense de Medicina.

Fonte: https://portalpadrao.ufma.br/site/institucional/palavra-do-reitor/os-breves-dias-de-joao

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Necrológio – Padre João Dias Rezende Filho (1981-2021)

João Dias Rezende Filho nasceu em 31 de julho de 1981, no Hospital Português São João de Deus — que, desde a fundação, em 1862, é dirigido e mantido pela Real Sociedade Humanitária Primeiro de Dezembro —, em São Luís do Maranhão.

Era filho único da união de João Dias Rezende (*1949), economista graduado pela antiga Faculdade de Ciências Econômicas do Maranhão e Rita de Cássia Pires Barbosa Pecegueiro (*1960), administradora de empresas e designer de moda.

Pelas linhagens paternas, Pe. João descendia de famílias da aristocracia rural da região dos Lençóis Maranhenses (Diniz, Soeiro, Dias, Miranda e Carvalho), sendo trineto do Capitão Henrique Diniz Soeiro Dias (†1918). Seu avô paterno, Nataniel Farias de Rezende (1917-1983), da Marinha do Brasil, serviu durante muitos anos como chefe do farol das Preguiças e primeiro faroleiro no povoado de Mandacaru, na cidade maranhense de Barreirinhas, sendo filho de João José de Moraes Rezende (1882-1954), pernambucano de Garanhuns, que ingressou na Marinha e, posteriormente, fixou residência no Maranhão, na região dos Lençóis. João descende ainda pelo lado paterno do Coronel Joaquim Soeiro de Carvalho, pai do médico e governador do Maranhão entre 1957 e 1961, José de Matos Carvalho (1905-1993) — chamado em família de Zezico.

Os avós maternos do Pe. João foram o Dr. Mário Corrêa Pecegueiro (1929-1993), farmacêutico-bioquímico, professor titular da Universidade Federal do Maranhão e a Senhora, nascida Tamar Pires Ferreira Barbosa (1930-), cirurgiã-dentista. O Prof. Mario Pecegueiro provinha da burguesia luso-maranhense, sendo neto de dois industriais e comerciantes portugueses estabelecidos no Maranhão, Joaquim Julio Corrêa (1857-1937) e Manoel Coelho Pecegueiro Junior (1857-1924), este último um monarquista atuante.

Já a Dra. Tamar Pecegueiro descendia da aristocracia rural que colonizou o Piauí e o sul do Maranhão (Castelo Branco, Almendra, Gayoso, Pires Ferreira, Barbosa, Coelho, Rocha, Barros, Pereira, Carvalho, Rego Freitas), sendo seus avoengos o líder da Revolução Pernambucana de 1817 e deputado-geral do Império Gervasio Pires Ferreira (1765-1836), o senador piauiense Joaquim de Lima Pires Ferreira (1869-1958) e o capitão-mor da Vila de São João da Parnaíba (atual cidade de Parnaíba-PI) e mestre-de-campo setecentista João Paulo Diniz, colonizador do norte do Piauí e de parte do Maranhão, pecuarista que recebeu várias sesmarias do Rei D. José I e da Rainha D. Maria I. Essas linhagens são estudadas pelo jornalista Edgardo Pires Ferreira em sua volumosa obra “A Mística do Parentesco” (1987), hoje disponível na Internet (www.parentesco.com.br).

João Dias Rezende Filho, ainda pela linha de sua avó materna, era trineto do chefe do antigo Partido Liberal no Maranhão, José Barbosa (1856-1941), sobrinho-bisneto do deputado estadual Thucydides Pires Ferreira Barbosa (†1959), e sobrinho-neto do Coronel EB José Maria Barbosa, que foi governador do antigo Território do Rio Branco (Estado de Roraima). Destaca-se ainda na parentela da Dra. Tamar seu primo-irmão lazarista, D. José Carlos Melo CM (1930-2017), que foi bispo auxiliar (1991-1999) e, depois, arcebispo auxiliar de São Salvador da Bahia (1999-2002) e arcebispo metropolitano de Maceió (AL), de 2002 a 2007, quando renunciou canonicamente.

João cursou parte do Ensino Fundamental no Colégio Santa Teresa, das Irmãs Dorotéias de Santa Paula Frassinetti e o restante dos estudos no Colégio Girassol, ambos em São Luís. Bacharelou-se em Ciências Jurídicas pelo UniCEUMA (Centro Universitário do Maranhão) em 2003.

De família profundamente católica, João sentiu-se chamado ao sacerdócio e ingressou em 2006 no seminário a fim de preparar-se para servir a Deus e a seu povo. Cursou Filosofia e Teologia no IESMA (Instituto de Estudos Superiores do Maranhão). Foi ordenado sacerdote por D. Frei José Belisário da Silva OFM, em 07 de setembro de 2013, na presença de diversos conselheiros idiianos.

Era membro efetivo da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia (ASBRAP) e sócio da Confraria dos Bibliófilos do Brasil.

Tomou posse como sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão em 22 de março de 2018.

Foi conselheiro administrativo e consultivo do Instituto D. Isabel I e seu representante em São Luís do Maranhão por muitos anos. Era capelão das irmãs do Carmelo de São José e titular na Paróquia de Nossa Senhora da Luz, em Paço do Lumiar (MA), além de orientador espiritual da Associação Ad Maiorem Dei Gloriam.

Publicou inúmeros artigos, frutos de suas pesquisas em História e Genealogia, na imprensa maranhense e em revistas especializadas e lançou em 2013 o livro “São Luís, Rei de França” (Arquidiocese de São Luís), enquanto ainda era diácono.

Pe. João deixa enlutados a mãe, o pai, os irmãos Pedro Henrique e Bertha Júlia Pecegueiro Anchieta e o padrasto, a quem também considerava pai, Sérgio Anchieta, além dos amigos, parentes, paroquianos e todos os que tiveram a graça de conhecê-lo e com ele conviver.

Vitimado pela Covid-19, Pe. João faleceu no Hospital Universitário Presidente Dutra, da UFMA, em São Luís, e foi enterrado no túmulo de seus amados avós, no Cemitério do Gavião.

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Comunicado – Falecimento do Cons. Pe. João Dias Rezende Filho

Cumpre-nos o doloroso dever de comunicar, com a permissão de sua querida mãe, a morte do Reverendíssimo Padre João Dias Rezende Filho, conselheiro consultivo deste Instituto e membro do clero arquidiocesano de São Luís do Maranhão, ocorrido às 14h10min de hoje, na festa litúrgica de São Domingos Sávio, a quem ele tinha grande afeição.

Segue o necrológio do estimado Padre João, que jamais será esquecido.

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Hildegard Angel – Carlota feminista?

CARLOTA FEMINISTA?!

Eis a Imperatriz do Brasil, em quadro do acervo do Palácio da Ajuda, em Portugal, D. Carlota Joaquina, que no filme de Carla Camuratti foi vivida por Marieta Severo, num desempenho memorável.

O Instituto Cultural D. Isabel a Redentora, que fará 20 anos no dia 13 de maio, acaba de descobrir o nome completo da célebre rainha portuguesa, que entrou para a história brasileira com outros múltiplos nomes, como “horrorosa”, “megera”, “ambiciosa”, “fogosa”, “detestável”, entre outros ‘carinhos’ mais.

O mérito da descoberta do nome gigantesco é dos historiadores Juliana Bezerra de Menezes e Bruno Antunes de Cerqueira, em pesquisa nos arquivos da Casa Real da Espanha, em Madrid.

Está lá, na certidão de batismo da infanta espanhola: D. Carlota Joaquina Theresa Marcos Cayetana Coleta Francisca de Sales Rafaela Vizenta Ferrer Juana Nepomucena Fernanda Josepha Luisa Sinforosa Antonia Francisca Bibiana Maria Casilda Rita Genara y Pasquala.

Nenhuma obra histórica ou genealógica jamais havia exposto o nome completo da soberana, nascida às 8 horas da manhã do dia 25 de abril de 1775 no palácio de Aranjuez.

A informação inédita estará no livro “Mulheres e poder: a face feminina do Estado no Brasil oitocentista”, organizado por Bruno Antunes, Fátima Argon e Malcov Terena – o filho do líder indígena Marcos Terena, que hoje cursa mestrado em História Antiga na Sorbonne.

Mais importante do que o nome de Carlota é o papel político que exerceu: o de uma rainha muito católica, mesmo que vacilante e imperfeita. Outro achado dos pesquisadores é que ela acolheu em seu palácio em Botafogo uma moça que sofria violência doméstica do marido. Além de custear a educação das filhas dessa moça, ela “ordenou” ao bispo do Rio de Janeiro que dissolvesse o matrimônio!

Esse episódio, do ponto de vista da história dos direitos das mulheres, diz o historiador Bruno Antunes, “trata-se de uma intervenção pública nas relações conjugais muito afrontosa para o tempo”.

Faltou chamá-la também de “corajosa”.

Publicado em: https://www.instagram.com/p/CKE_AxQJNym/

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GAZETA DO POVO – A esquerda negra, ou: nigga, please (artigo)

I love niggas, I love niggas, I love niggas
Because niggas are me
And I should only love that which is me
I love that you niggas […]

It’s plain to see, you can’t change me
’Cause I’mma be a nigga for life.

(N.W.A., Niggaz4Life)

Paulo Cruz*

Não foi sem espanto que li a recente matéria da revista Piauí “A direita negra”, escrita pelos professores – ou seria jornalistas sem influência? – Flávio Thales Francisco e Márcio Macedo. Não porque esperasse mais de quem se propõe a rotular, já no título, o objeto a ser analisado; nem porque são professores universitários, pois a mera “capacidade para apreensão e manipulação de ideias complexas”, que é característica do intelecto, é diferente da inteligência, “cuja realidade envolve a combinação do intelecto com capacidade de julgamento e acuidade na seleção de fatores explicativos relevantes”. Isso é o que nos ensina um dos maiores intelectuais vivos, Thomas Sowell, citado com menosprezo no artigo – o que seria o suficiente para duvidar da capacidade de julgamento dos autores.

Meu espanto veio da absoluta falta de apreensão, no sentido filosófico do termo, do fenômeno que pretenderam criticar. Os autores reuniram a maior quantidade de pessoas que pudessem rotular sem qualquer constrangimento, fizeram associações palavrosas bem ao gosto dos leitores da revista – “fascismo”, “extrema-direita”, “ultraliberal” – e, no fim, somente fortaleceram a impressão errônea de que a disposição conservadora, a doutrina moral das pessoas absolutamente comuns, é incompatível com o antirracismo – tema já tratado por mim nesta Gazeta do Povo.

O ataque dos autores inicia com uma filigrana absolutamente estúpida: a discussão americana em torno da controversa palavra nigga, a fim de atacar um salão de cabeleireiros de nome Niggaz Place, na Galeria Presidente, situada à Rua 24 de Maio, no Centro de São Paulo, cujos proprietários votaram em Jair Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais. A galeria é um lendário espaço de cultura negra da cidade, com lojas de discos, de roupas e de tênis, e salões de beleza onde cortes étnicos e tranças são realizados com maestria artística. Segundo os autores do artigo, é um desses centros culturais “onde se discute a respeito de tudo: conflitos pessoais, planos de futuro, relacionamentos amorosos, problemas econômicos, futebol, religião e política”; e afirmam ser essa também a realidade do Niggaz Place. Ou seja, é um lugar onde se discute de tudo, menos o próprio nome do local, que eles precisaram denunciar como “ofensivo”.

O termo nigga foi ressignificado pela própria cultura – apesar de ainda ser ofensivo quando dito por brancos ou mesmo fora da cultura hip hop

O problema é que nigga é um termo que, apesar de ser, sim, ofensivo de maneira geral, tornou-se comum dentro da cultura negra americana e é utilizado aos montes em músicas, filmes etc. Como diz o professor de Antropologia H. Samy Alim, da UCLA, em seu Roc the mic right: The language of hip hop culture: “Um dos usos mais controversos da linguagem na cultura hip hop é o termo ‘nigga’. O HHN [Hip Hop National Language, Linguagem Nacional do Hip Hop] percebeu que esta palavra tinha vários significados positivos dentro do grupo, e significados pejorativos fora do grupo, e assim sentiu a necessidade de refletir os significados culturalmente específicos com uma nova grafia (‘nigger’ torna-se ‘nigga’). Um ‘nigga’ é seu chegado, ou um de seus companheiros próximos, seu mano”. Ou seja, o termo foi ressignificado pela própria cultura – apesar de ainda ser ofensivo quando dito por brancos ou mesmo fora da cultura hip hop –, o que, de certo modo, ocorreu aqui também com o termo negro (explico aqui).

Caríssimo leitor, se os autores do referido artigo não tiveram o cuidado de informar seus próprios leitores disso, o resto é ainda mais assombroso. Sigamos.

Em seguida, declaram ter havido uma “guinada para a direita (sic) de mais da metade dos eleitores brasileiros nas eleições de 2018”, e que esta incluiu negros, e que também viabilizou o surgimento de pessoas como o vereador Fernando Holiday; o atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo; e este que vos escreve, alcunhado como “jornalista e influenciador digital” – talvez porque um professor de Filosofia do ensino básico não signifique muita coisa para os nobres acadêmicos. Não que me ofenda ser chamado de jornalista ou mesmo influenciador digital, mas, de fato, não sou jornalista; e, se tenho alguma influência, é por ser o que sou: professor.

Para começar, tal guinada à direita não foi de mais da metade dos eleitores, pois, somando votos brancos e nulos, mais as abstenções, o porcentual passou de 30%. Isso é um reflexo do descontentamento dos eleitores brasileiros com a política e, mais especificamente, com o ocaso da era PT, cujos governos Lula e Dilma se notabilizaram por serem aliados dos pobres, mas que se mostraram, na verdade, mais amigos dos – como chama mesmo? Ah! – rentistas e das empreiteirasJair Bolsonaro não era o candidato da direita, era o candidato anti-PT, e muita gente que votou nele – provavelmente a maioria – nem sequer reconhece tais definições. Sem contar que a polarização que se formou no segundo turno das eleições deixou muitas pessoas que não queriam votar no PT sem opção a não ser o candidato do PSL.

Portanto, o que possibilitou o ressurgimento de um conservadorismo, ainda que incipientíssimo no Brasil – como analiso aqui –, foram os escândalos de corrupção dos governos petistas e a reação à hegemonia cultural da esquerda, que ameaçava (ainda ameaça) valores tradicionais das pessoas mais simples, tais como a família e a religião. Eu mesmo escrevo nesta Gazeta do Povo desde 2015, muito antes de Bolsonaro – que, aliás, foi quem se aproveitou do surgimento de uma direita que, havia pelo menos dez anos, vinha vagarosamente se articulando no país – se tornar o fenômeno político que se tornou. A associação que os autores fazem, no parágrafo seguinte de seu artigo, do falecido ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, que era negro, à direita é algo que não merece sequer atenção, pois não há absolutamente nada que a justifique.

Em seguida, cometem o erro comum daqueles que desconhecem completamente o conservadorismo: a associação política antes da cultural. O conservadorismo brasileiro existe e resiste na cultura popular, e quase nunca se viu representado na política. Dizer que a direita foi “incapaz de formular um discurso sólido que levasse em conta as demandas antirracistas e de inserção social” em “seus partidos” é só usar da famigerada falácia do espantalho, pois o que a esquerda chama de direita é, precisamente, os partidos e políticos patrimonialistas de sempre – os de esquerda inclusos. Se conhecessem ao menos os dez princípios conservadores elencados por Russell Kirk em seu inescapável A política da prudência, ou mesmo o best-seller nacional Pare de acreditar no governo, de Bruno Garschagen, saberiam que essa associação é indevida. Mas é óbvio que o interesse não é informar. O mesmo vale para a ideia de que a direita prega o mito da democracia racial – ou o mito do mito, como diz o antropólogo Hermano Vianna.

O conservadorismo brasileiro existe e resiste na cultura popular, e quase nunca se viu representado na política

Daqui para a frente, os nobres acadêmicos tentam enquadrar o conservadorismo brasileiro em “dois tipos ideais”, um radical e outro moderado. No primeiro, investem pesadamente contra a memória de um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20, Arlindo Veiga dos Santos, professor universitário, ativista e fundador da Frente Negra Brasileira, provavelmente a maior organização de movimento negro do país, e da Ação Imperial Patrianovista Brasileira (ou Patrianovismo), movimento de bases monarquistas e profundamente católicas. O que dizem tratar-se do “fascismo negro dos anos 1930” nada mais é – como diz a maior especialista na vida e obra de Arlindo Veiga, Teresa Malatian, autora do livro O cavaleiro negro: Arlindo Veiga dos Santos e a Frente Negra Brasileira e completamente ignorada pelos autores – que “o profundo descrédito em relação à República oligárquica, a percepção crítica do momento que viviam, sobretudo do ponto de vista político”. A intenção do movimento criado por Arlindo Veiga era uma reação “à ‘desordem’ identificada nas rebeliões tenentistas, no movimento operário, na fundação do Partido Comunista, no Modernismo e no domínio oligárquico, com a proposta de um governo forte, capaz de impedir ‘excessiva’ liberdade. Inspirada pelas encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo Anno, propôs a recatolicização da sociedade mediante a defesa da ‘ordem’ e da ‘justiça social’, numa tentativa de neutralizar as esquerdas e seu avanço no país”.

Ou seja, Arlindo Veiga dos Santos, um homem de família muito humilde que teve oportunidade de estudar, em sua cidade natal, Itu (SP), em colégios católicos de altíssimo nível, se tornou um católico fervoroso e um anticomunista ferrenho. Isso, para desavisados e desonestos, é ser “católico sectário”, “fascista, antissemita e monarquista”, cujas ideias são “descaradamente fascistas”. Teresa Malatian, que não se rende à rotulação apressada de seu biografado, diz que Arlindo Veiga, “em sua própria interpretação errática do fascismo, reteve dele o que lhe parecia adequado ao Brasil, sem distanciar-se da Igreja. Adotou alguns pontos do fascismo, estruturados da AIPB e na FNB, movimentos que correram paralelos durante algum tempo e apresentavam como pontos convergentes o objetivo de deter o avanço do comunismo no Brasil. Sua proposta nunca chegou a admitir o totalitarismo que caracterizou o nazifascismo com a mobilização pelo partido único, pois recusava toda organização político-partidária”.

Malatian ainda diz que a interpretação do sociólogo marxista Clovis Moura, citado pelos autores do artigo, de que Arlindo Veiga era uma “personalidade dividida, porque, se de um lado protesta com ela, de outro é um dominado subliminarmente pela cultura do dominador”, não dá conta da complexidade de um personagem como Arlindo Veiga; Malatian afirma que “a questão é mais complexa do que essa análise sugere”, pois mesmo adversários ideológicos, como o militante de esquerda Hardy Silva, confiavam em sua liderança.

Os grandes feitos de Arlindo Veiga e da Frente Negra são ignorados pelos autores, pois não lhes interessa o resultado de tão grande esforço empreendido por ele e por seus pares na defesa da elevação moral e educacional da população negra, por meio da ética de superação, que era marca de todos os movimentos até a ascensão da esquerda negra e sua ética da reivindicação e da concentração na luta de classes marxista. A Frente Negra era uma organização com grande atuação de mulheres, que valorizava a educação de crianças e imprimia-lhes autoestima elevada. E mais: dizer que “Santos manifesta uma forte xenofobia contra os recém-chegados ao Brasil, que passaram a gozar da preferência dos empregadores, em detrimento dos negros” é pura canalhice, pois a rejeição dele à imigração não é maior que a própria reclamação dos movimentos negros atuais em relação à mesma imigração, que deixou os ex-escravizados sem perspectiva no pós-abolição. O seu panfleto radical, usado e abusado por seus caluniadores, no qual diz “Somos Pátria-Nova, extrema-direita radical e violenta, afirmadores de Deus e sua Igreja, afirmadores da Pátria Imperial e Católica, inimigos irreconciliáveis e intolerantes do burguesismo, plutocratismo e capitalismo materialista, ateu, gozador, explorador, internacionalista, judaizante e maçonizante”, não pode ser utilizado sem contexto e sem relacionar a retórica inflamada do grande orador com suas ações concretas, de alguém que jamais foi violento. Malcolm X fez o mesmo. Ou não?

Agora vem o absurdo dos absurdos: a associação de Arlindo Veiga dos Santos a Sérgio Camargo, chamado de “seu discípulo fortuito”, é surreal, pois este não tem absolutamente nenhuma contribuição à luta antirracista no Brasil, enquanto aquele é um de nossos maiores expoentes. A ligação se dá porque Camargo estaria movido “por um autoritarismo similar, [que] faz tábula rasa de toda a trajetória da militância negra ao longo do século 20 para voltar ao ponto zero, ao isabelismo, exaltando os próceres abolicionistas negros, como André Rebouças”, e cuja “maior pedra no sapato […] é a figura de Zumbi”. Entretanto, Zumbi era uma referência para Arlindo Veiga e para toda a militância negra de sua época, pois, como diz Malatian, “o personagem representava a capacidade de resistência dos cativos ao sistema, sem anular o protagonismo dos próceres da monarquia que fizeram as leis abolicionistas”. Arlindo Veiga chegou a escrever um soneto exaltando Palmares. Sobre Sérgio Camargo, eu mesmo já escrevi, por pura necessidade de me distinguir desse sujeito, que para mim representa nada mais que fina-flor do reacionarismo bolsonarista, um mero escravo ideológico desse governo de ineptos. Camargo jamais receberá, como Arlindo recebeu, um elogio como esse, do supracitado Hardy Silva – que, como dito, era de esquerda:

Veiga Santos! Ainda uma vez, meus abraços! Tu, assim jovem e forte, poderoso e saudável de espírito e grande e imenso nesse teu coração cheio de amor idealístico, serás, um dia que já vem próximo, o Magnânimo Redentor da opressão da raça negra, filha da nossa grande Pátria!

ética de superação era marca de todos os movimentos até a ascensão da esquerda negra e sua ética da reivindicação e da concentração na luta de classes marxista

Entretanto, as acusações contra Arlindo Veiga são antigas, datam de sua própria época. Outro grande expoente do movimento negro brasileiro e também fundador da Frente Negra, José Correia Leite – que deixou a organização por desavenças políticas com o Arlindo –, também o acusava de fascismo. Trato dessa disputa em meu curso O Brasil é um país racista?

Curiosamente, Arlindo Veiga dos Santos não foi o único a simpatizar com ideias politicamente controversas de sua época. W.E.B. Du Bois, o maior intelectual negro americano do século 20, viajou para a União Soviética e para a China em 1926 e 1958, e para a Alemanha nazista em 1936, e suas opiniões acerca dos regimes ditatoriais desses lugares são motivos de crítica até hoje. Apesar de condenar o tratamento dado aos judeus, louvou o desenvolvimento econômico do nacional-socialismo e o fascismo hitleriano como a “visão mais surpreendente da história moderna”. Isso é o que nos diz seu maior biógrafo, David Levering Lewis, em W.E.B. Du Bois The Fight for Equality and the American Century, 1919-1963. Sobre a China, tirou fotos sorridentes ao lado de Mao Tsé-tung e, num discurso na Universidade de Pequim, disse que “a União Soviética está superando o mundo em educação popular e superior, porque desde o início iniciou seu próprio sistema educacional completo. A essência da revolução na União Soviética e na China, e em todas as nações da ‘cortina de ferro’, não é a violência que acompanhou a mudança; não mais do que a foi a fome em Valley Forge a essência da revolução americana contra a Grã-Bretanha. A verdadeira revolução é a aceitação por parte da nação do fato de que doravante o objetivo principal da nação é o bem-estar da massa do povo e não de uns poucos sortudos”. Também admirou-se do colonialismo japonês na Manchúria e louvou Stalin, em sua morte, com um artigo em sua homenagem, chamando-o de “um grande homem […] simples, calmo e corajoso”. Tudo isso enche os olhos de militantes socialistas e comunistas – certamente a filiação ideológica dos próprios autores do artigo em questão –, mas, diante dos horrores de tais regimes – os 45 milhões que morreram de fome na China e o horror do Holodomor são exemplos –, isso está muito longe de ser unanimidade.

Du Bois foi adversário de ideias daquele que é associado ao segundo “tipo ideal”, o moderado, da chamada direita negra, Booker T. Washington. Sobre este pouco direi, pois já escrevi um artigo sobre ele e trato em detalhes dessa rivalidade – que, para mim, nada mais é que complementariedade –, entre os dois maiores expoentes negros americanos de todos os tempos, em meu curso, citado acima. Para os autores, tanto Booker T. Washington quando Thomas Sowell são “partidários de uma orientação liberal da política e da economia, eles questionaram o papel do Estado no combate ao racismo, defendendo a ação individual e o empoderamento econômico dos negros como formas de superar as desigualdades raciais”. E dizem isso com, digamos, nojinho. O maior empreendimento de Booker T. Washington, a Tuskegee University, nem sequer é mencionado.

Para os autores do artigo da Piauí, se você é negro e não milita nos movimentos de esquerda, na turba permitida pelos acadêmicos viúvas de Karl Marx, sofre de “subalternidade consentida”

Washington, que nasceu escravo na Virginia, no sul dos Estados Unidos – diferente de Du Bois, que nasceu no norte, de uma família de classe média negra com ascendência holandesa –, sete anos após a abolição, aos 16 anos, parte para a cidade de Hampton, onde “os estudantes pobres aprendiam um ofício e podiam pagar com trabalho uma parte da pensão”, como diz em sua autobiografia Memórias de um negro americano. Hampton ficava a mais de 700 quilômetros de distância de sua casa. Suportou fome e frio, e chegou a dormir na rua. Não é para menos a ênfase de Washington na ética de superação, dizendo que “não devemos permitir que nossas queixas ofusquem nossas oportunidades”. Seus “esforços não eram utópicos, muito menos revolucionários. Ele sabia que o tempo, a liberdade econômica e o empreendedorismo eram aliados nesse processo; que qualquer tentativa de exigir, por meios políticos, direitos iguais, poderia resultar em mais segregação”. Os articulistas ainda citam Marcus Garvey, Martin Luther King Jr., George Shyuler, Thomas Sowell e o recém-falecido – e homenageado por este humilde escriba – Walter Williams, fazendo uma associação desses autores com o vereador Fernando Holiday, recentemente reeleito com ainda mais votos, somente para dizer que:

O percurso histórico a respeito dessas correntes de pensamento explicita que nem o conservadorismo é um privilégio de brancos nem a direita negra forma um bloco coeso e unitário, podendo ter variantes e mesmo rivalidades. Debates antigos ganham formas novas, reatualizados num contexto em que o racismo e a inserção social do negro são questões ainda muito longe de serem solucionadas.

Como se isso não fosse uma realidade também nas esquerdas e no próprio movimento negro. Agora pergunto: é a isso que se reduziu os pensadores negros de esquerda no Brasil? Que saudades de Alberto Guerreiro Ramos!

Para encerrar sua diatribe, os diletos militantes dão um salto, como não poderia deixar de ser, para a América de Trump; e voltam para o Brasil para cometerem outra rotulação ofensiva:

No Brasil, os negros são convidados a figurar na órbita do governo Bolsonaro em geral para se oporem aos movimentos antirracistas ou para ocuparem papéis político-institucionais subalternos em que sua cor é utilizada estrategicamente para esvaziar ou negar a questão da desigualdade racial. A “subalternidade consentida” engendra da parte dessas personalidades negras uma adesão aos princípios da dominação, que varia da verborragia reacionária de Sérgio Camargo ao silêncio quanto à questão racial do deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ), mais conhecido pelas alcunhas que adotou durante a campanha eleitoral: “Hélio Bolsonaro”, “Negão de Bolsonaro” ou “Hélio Negão”.

Pois é, entraram ainda na roda, alvos dessa metralhadora giratória de adjetivações dos articulistas da revista que desistiu de “contar bem uma história” – o que aconteceu, João Moreira Salles?! –, o deputado Hélio Lopes (sobre quem também já falei) e Carlos Decotelli, ex-ministro relâmpago da Educação. É inacreditável.

Não há uma direita negra no Brasil, pois nem sequer há a preocupação para que ela se articule. O que há são indivíduos

Ou seja, se você é negro e não milita nos movimentos de esquerda, na turba permitida pelos acadêmicos viúvas de Karl Marx, sofre de “subalternidade consentida”, como se a adoração pelo PT, por Lula e por toda verborragia acadêmica europeia que alimenta as teses identitárias negras atuais fosse sinal de absoluta independência. Como se negros não pudessem simplesmente ter um pensamento autônomo. E terminam em tom falsamente profético – posto ser ilusório:

Esse movimento, porém, terá muito trabalho para se constituir, pois o que existe até agora, como vimos, são lideranças negras de direita que atribuem a si mesmas um papel subalterno, negam o caráter sistêmico do racismo e não oferecem propostas para a construção de subjetividades negras que sirvam de alternativa às da esquerda. Além disso, essas lideranças vivem desconectadas da população negra, estão pouco atentas às transformações sociais que ocorrem atualmente nas periferias do país e do mundo […]. Sua pregação liberal primária, ademais, é incapaz de pensar um empreendedorismo negro e periférico.

É ilusório porque simplesmente não há uma direita negra no Brasil, pois nem sequer há a preocupação para que ela se articule. O que há são indivíduos. Aqui e ali, alinhados ou não a esse governo catastrófico, cuja militância negra só existe para fins de polarização política nefasta. O alinhamento episódico em algumas pautas não deve ser tratado como movimento político – uma vez que nem sequer há, como diz Norberto Bobbio, “ligames profundos com os grupos sociais e o enraizamento neles”, e nem uma liderança. Tampouco é um movimento social, pois não tem “o acento sobre a existência de tensões na sociedade, a identificação de uma mudança, a comprovação da passagem de um estádio de integração a outro através de transformações de algum modo induzidas pelos comportamentos coletivos”. Não estão desconectadas da população negra, são a população negra. Não há “pregação liberal primária” (Walter Williams dando piruetas no túmulo); o que há nas periferias é a mais profunda aplicação intuitiva da lógica do liberalismo econômico e do espírito de associação.

Se há uma direita negra, ela não está no governo Bolsonaro nem mesmo na política, mas na tradição e na resistência cultural das periferias

Os conservadores negros são milhares – quando não milhões – de indivíduos que não se curvaram às doutrinas marxistas e estruturalistas porque não têm tempo a perder com academicismo de quem vive de bolsa de estudos. Se há uma direita negra, ela não está no governo Bolsonaro nem mesmo na política, mas na tradição e na resistência cultural das periferias; nos ônibus, trens e metrôs dos grandes centros; nos bailes Nostalgia que – graças a Deus! – ainda teimam em ocorrer; na caneta do rapper que, ao fazer uma crônica de sua quebrada, deseja apontar um caminho a seus irmãos; naquele pretinho e naquela pretinha que aprenderam que “o reino de Deus se conquista à força”, que depositam seus esforços, como todo aquele que deseja vencer as adversidades, naquilo que André Rebouças – para mim o maior intelectual negro brasileiro de todos os tempos e personagem da maior aula de meu curso – chama de iniciativa individual, definida por ele num artigo escrito em 1877:

A iniciativa individual […] é a faculdade ou a capacidade, própria de cada pessoa, para encetar ideias ou ações novas. A iniciativa individual pressupõe vários elementos intelectuais e morais; enumeremos dentre eles os mais notáveis: consciência de si, a fé nos recursos intelectuais dados pelo Criador e aperfeiçoados por esforço próprio; a independência de caráter; a inata aversão a qualquer tutela; a sublime aspiração de ser o que os yankees denominam self made man, um homem feito por si mesmo, sem padrinho nem protetores; o espírito ou talento inventivo; o saber tirar recursos ainda dos casos extremos; o tato da ocasião […]; a força de vontade – o self-help; o saber lutar – jamais desesperar; a coragem contra o ridículo – arma predileta da rotina contra a iniciativa individual, principalmente nos países latinos e neolatinos; enfim, principalmente e acima de tudo, a fé em Deus e na imortalidade da alma. É indispensável que nos dias de agonia extrema, quando o próprio céu oculta seu azul e elimina suas estrelas, se possa dizer: “Acima dessa abóbada de chumbo está o Deus de Colombo, de Franklin e de Fulton”.

Diante disso, fortalecendo nossa vocação e dando o primeiro passo, como dizia o meu saudoso pai: “forças extraordinárias virão em teu auxílio”. Foi assim com todos os luminares negros acima citados, tem sido assim comigo, e continua sendo assim com milhões e milhões de pessoas. Não é exceção, é história, é cultura, é vida negra em movimento – e esse é o verdadeiro esforço conjunto. Não é “subalternidade consentida”, é estratégia de sobrevivência.

Mas isso a esquerda negra, que só crê no coletivo abstrato, jamais compreenderá.

*Paulo Cruz é professor de Filosofia da Rede Pública do Estado de São Paulo e fundador dos Cursos Paulo Cruz, em que trabalha a temática racial e abolicionista da História do Brasil.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/paulo-cruz/esquerda-negra-piaui/

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O GLOBO – Educação e cultura na reconstrução pós-pandemia (artigo)

Educação e cultura na reconstrução pós-pandemia

O que será do novo tempo quando o risco à vida for controlado?

Paulo Knauss*

16/12/2020 – 01:00

Não há dúvida de que as vacinas contra a Covid-19 se aproximam. O avanço da ciência enche o mundo de esperança. Os resultados recentes das eleições brasileiras indicam que os novos prefeitos terão como tarefa imediata se dedicar à saúde pública. A ciência e a cidadania demonstram que são instrumentos de defesa da vida. Nada mais atual.

Aos poucos se impõe outra interrogação: se o momento é de sobrevivência, o que será do novo tempo quando o risco à vida for controlado? O senso de responsabilidade em relação ao presente exige que se coloque em perspectiva o que virá depois. Então, a esperança de vencer a batalha pela saúde deve mirar um futuro não tão distante. É preciso uma resposta pragmática antecipadora.

Fala-se muito de um novo normal, que melhor seria traduzido por uma agenda pública renovada. Não há como negar que a pandemia trouxe novos comportamentos, mas também carrega consequências econômicas evidentes, sublinha as injustiças sociais e mexe com corações e mentes. Portanto, se há vida depois da pandemia, certamente isso depende da criação de oportunidades para toda gente e do fortalecimento de laços sociais.

Está na hora de lembrar que, depois da Segunda Guerra Mundial, a educação e a cultura tiveram papel importante na reconstrução social. A diplomacia da paz, comprometida com a cooperação internacional, resultou na criação da ONU, e, na sequência quase imediata, foi instalada a Unesco como agência dedicada à educação e à cultura, antes da OMS e da OMC.

Em vários países atingidos profundamente pela guerra, a valorização da educação pública universal e a implementação de políticas culturais foram decisivas para superar a tragédia e a miséria. Na França, a liderança do escritor André Malraux na criação do Ministério de Assuntos Culturais marcou época, tornando os centros culturais focos da vida social. Especialmente onde as memórias da dor e da violência eram incontornáveis, a educação e a cultura restabeleceram o gosto pela convivência humana e pela criação coletiva, traduzindo a capacidade de resiliência dos povos.

Noutra época, a história contemporânea da Coreia do Sul também atesta que educação e cultura são vias essenciais para o desenvolvimento social.

No Brasil de hoje, os exemplos históricos indicam a necessidade de rever o ponto de vista que relega a educação e a cultura ao segundo plano, o que foi estabelecido por uma ideia torta de democracia contra a pluralidade, e que busca, nos impasses da pandemia, sua justificativa. Se no presente isso é incongruente, não dar o devido peso à educação e à cultura significa negar as oportunidades do futuro.

Na contramão do que estamos vivendo, é preciso reinstalar a educação e a cultura como função de Estado e direito de cidadania. Os governos não podem escapar a seu dever de inovar práticas e mudar conceitos. A rede educacional e a economia criativa servem para enfatizar que a educação e a cultura são plataformas de produção de riquezas e garantia do sustento de muitos trabalhadores, definem graus de qualidade de vida. No mundo da concentração urbana, as cidades são a arena possível de reconciliação, e valorizar a rua como espaço público significa respeitar o próximo. Por meio da educação e da cultura, a sociedade se encontra e se reconhece, ganha força no plano simbólico fazendo uso das tecnologias e do conhecimento, do patrimônio cultural e da imaginação.

Foi o poeta Ferreira Gullar que cunhou a máxima de que “a arte existe porque a vida não basta”. Assim, o poeta serve de guia para afirmar a condição humana. A vacina da vida será uma conquista do presente, mas, sem educação e cultura, não haverá como encontrar a vitalidade essencial do novo tempo. Isso vale para o país do futuro não desistir do projeto nacional! Mas a atualização é necessária. Agora, o futuro é pra já com educação e cultura.

*Paulo Knauss é professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e foi diretor do Museu Histórico Nacional.

Fonte: https://oglobo.globo.com/opiniao/educacao-cultura-na-reconstrucao-pos-pandemia-24798491

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FBN – Convite para evento virtual sobre a Casa de Bragança

O Brasil que conhecemos do ponto de vista territorial só é possível porque, com a vinda da corte em 1807/08, executava-se uma política de Estado prevista mais de um século antes: a de mudar o epicentro do império ultramarino lusitano, de Lisboa para o Rio de Janeiro. De D. Maria I e seu filho, o Regente D. João, depois aclamado e sagrado em terras brasílicas, até a prole da Regente D. Isabel, a última Bragança a reinar no País, o Brasil viu nascer e crescer inumeráveis príncipes e princesas, aos quais se devotou. A maior parte dessa realeza que se tornou “nacional” dos anos 1820 em diante era feminina. Do ponto de vista das Relações Internacionais, as uniões dinásticas celebradas no Brasil trouxeram novos engajamentos e arranjos institucionais.

A Fundação Biblioteca Nacional convida para um episódio da série “200 da Independência”

Quinta-feira, 03 de dezembro de 2020 às 17h

“A FAMÍLIA REAL PORTUGUESA E IMPERIAL BRASILEIRA”

Bruno Antunes de Cerqueira (Historiador, Advogado e Indigenista (Funai))

Luciano Cavalcanti de Albuquerque (Arquiteto e Historiador)

Moderadores:
João Carlos Nara Jr. (CCD-FBN)

Luiz Ramiro (CPE-FBN)

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira é historiador com formação na PUC-Rio, especialista em Relações Internacionais pelo Iuperj-Ucam, advogado com formação na PUC-Rio e no UniCEUB, membro das Comissões de Direitos Humanos, Memória e Verdade e Direitos dos Povos Indígenas da OAB. Foi assessor de Cerimonial na Alerj e assessor parlamentar na CMRJ, antes de assumir o cargo de indigenista especializado da Funai, em Brasília. Na Funai atuou na Presidência e em todas as diretorias, tendo encetado o manual de Redação Oficial da autarquia e trabalhado no Serviço de Análise de Contestações aos Procedimentos de Identificação de Terras Indígenas etc. Idealizou e fundou, com Otto de Alencar de Sá Pereira, em 2001, o Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora e tem diversos artigos e livros publicados sobre a história da Monarquia e da realeza do Brasil.

Luciano Cavalcanti de Albuquerque,  Arquiteto e Historiador da Arte e Arquitetura é restaurador de monumentos pelo Instituto Ítalo Latino Americano de Roma, emérito do IPHAN Instituto Histórico e Artístico Nacional e do IBRAM Instituto Brasileiro de Museus. Membro do Polo Novo Rio Antigo, da Comissão do Patrimônio Histórico do IAB Instituto dos Arquitetos do Brasil, do Conselho Estadual de Tombamento do Rio de Janeiro, do IHP Instituto Histórico de Petrópolis e Diretor o Ateliê Belmonte, escritório de arquitetura, decoração e restauração. Coordenador do curso de pós-graduação em Restauração e Arqueologia do INBEC – Instituto Brasileiro de Educação Continuada. Presidente da SATHE Sociedade de Amigos do Theatro D. Pedro em Petrópolis. Com artigos e trabalhos publicados em vários jornais e revistas especializadas.

 

Fundação Biblioteca Nacional

Secretaria Especial da Cultura

Ministério do Turismo

Governo Federal

Acesse o canal do Youtube da FBN para acompanhar esse e outros eventos:

www.youtube.com/c/FundacaoBibliotecaNacional

Para ir direto ao episódio da próxima quinta-feira às 17h acesse:

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