TV Senado – Historiador relata processo legislativo da aprovação da Lei Áurea, sancionada há 130 anos

Historiador relata processo legislativo da aprovação da Lei Áurea, sancionada há 130 anos

25/05/2018

O historiador Bruno Antunes de Cerqueira fala sobre a Lei Áurea, sancionada há 130 anos. Ele explica o papel do Parlamento na discussão e na aprovação da lei e a reação dos fazendeiros à abolição da escravatura.

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Senado Notícias – Paim destaca os 130 anos da Lei Áurea e aponta racismo estrutural no Brasil

Paim destaca os 130 anos da Lei Áurea e aponta racismo estrutural no Brasil

Da Redação e Da Rádio Senado | 14/05/2018, 15h54 – ATUALIZADO EM 14/05/2018, 16h46

Em pronunciamento nesta segunda-feira (14), o senador Paulo Paim (PT-RS) destacou os 130 anos da abolição da escravatura — a Lei Áurea — celebrado no domingo, 13 de maio.

O parlamentar lembrou que, embora a escravidão tenha sido abolida no Brasil há mais de um século, o racismo ainda faz parte da realidade do país. Ele mencionou os elevados índices de homicídios, que a seu ver têm como causa a desigualdade social e o racismo estrutural, já que a maior parte das vítimas são pessoas pobres e negras.

— Não posso me omitir, não posso me calar diante da banalidade com que se desenrola o genocídio da população, principalmente, negra no Brasil — declarou o parlamentar.

Ele mencionou a taxa de homicídios no Brasil. Dados oficiais apontam que, em 2016, mais de 61 mil cidadãos foram assassinados, sendo 53% das vítimas jovens; 77% pessoas negras e, 93%, do sexo masculino. Paim afirmou que o país marginaliza, extermina e subaproveita o trabalho da população negra e branca pobre.

— É um jogo de perdedores. Todos mundo perde. A violência só aumenta. É impossível dizer quantos músicos excepcionais, quantos cientistas brilhantes, quantos médicos inovadores, quantos intelectuais que poderiam ter mudado o mundo, quantos deles e delas o nosso racismo cotidiano não enterrou nesses sacos plásticos pretos, na vala de indigentes — afirmou o senador, segundo o qual a desigualdade racial viola os direitos humanos de milhões de brasileiros e tem um custo alto para o desenvolvimento econômico do país, com graves consequências humanitárias.

Paim observou ainda que população negra tem, em média, cerca de dois anos a menos de estudos do que a população não negra, que já tem um nível educacional baixo comparado aos países desenvolvidos. Dado que os negros são 55% da população, o Brasil compromete a sua competitividade pela limitação, nesse nível de escolaridade, de negros e brancos pobres.

— Há uma disputa desigual, e, na economia global, nós vamos ficando para trás — disse o senador.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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Artigo – A Lei Áurea no Maranhão

A LEI ÁUREA NO MARANHÃO*

 

 

Pe. João Dias Rezende Filho**

 

Com uma pena de ouro, confeccionada por meio de subscrição popular, a Princesa D. Isabel sancionou, na tarde de 13 de maio de 1888, a lei nº 3.353, que passou à História com o epíteto de Áurea, tanto pelo nobre metal da caneta usada por Sua Alteza para assinar o diploma legal quanto pela importância e alcance social de que a lei se revestia.

A repercussão imediata no Maranhão da lei mais célebre do Brasil é pouco conhecida, mormente magistralmente explorada na ficção por autores como, por exemplo, Josué Montello em Os Tambores de São Luís e Noite sobre Alcântara e Nascimento Moraes em Vencidos e Degenerados.

Um dos relatos históricos mais interessantes e ricos sobre a repercussão é o do memorialista Dunshee de Abranches. Em seu clássico O Cativeiro, o insuspeito historiador republicano, testemunha ocular da abolição, narra o entusiasmo dos maranhenses, sobretudo dos recém-libertos e dos líderes do movimento abolicionista. Eis um pequeno trecho da poética narração do velho Dunshee:

“Durante três dias e três noites a população escrava e, com ela, o grupo abolicionista de São Luís não dormiram. As explosões ruidosas dos entusiasmos dos defensores impertérritos da grande causa, escrevia eu logo depois tentando apanhar para a História o flagrante dessa hora memorável, vinham juntar-se as expansões ruidosas da imensa massa dos libertos que, abandonando de chofre as casas dos senhores, se haviam lançado nas ruas em irreprimíveis e tumultuárias manifestações de júbilo.”

“A alvorada do dia da Liberdade irrompera radiante e límpida. Céu azul, sem nuvens. O sol marcara todas as horas dessa jornada gloriosa. Cânticos, risos, gritos alegres por toda a parte. Desde cedo, engalanara-se subitamente a cidade. As calçadas ficaram cobertas de flores e folhagens. Os redimidos surgiam de cada canto em grupos álacres; carregavam braçadas de ramos e de palmas; engrinaldavam-se também julgando-se os verdadeiros heróis desse prélio momentoso” (DUNSHEE DE ABRANCHES, 1992, p.194)

Na antiga Igreja de Nossa Senhora das Mercês, ao lado do convento homônimo ainda remanescente, foi celebrado no próprio 13 de maio, à noite, um festivo Te Deum, cerimônia litúrgica na qual é executado o canto solene de antigo hino latino de ação de graças a Deus. A cerimônia promovida pelos padres e alunos do então seminário menor do Maranhão que funcionava naquele antigo convento dos mercedários foi muito concorrida. Estavam presentes o Dr. Moreira Alves, Presidente da Província, Dom Antônio Cândido de Alvarenga, Bispo do Maranhão e muitas outras autoridades, além de grande número de pessoas das mais diversas classes. Pregou, entusiasticamente, o Cônego Francisco José Baptista destacando que aquele Te Deum solene em agradecimento a Deus pelo fim da escravidão tinha lugar, providencialmente, na Igreja da ordem fundada em 1218, por São Pedro Nolasco, para promover a libertação de cristãos que, no norte da África, caíam escravos nas mãos dos mulçumanos.

Houve, infelizmente, quem se opusesse à Lei, como alguns fazendeiros da Vila de São Luís Gonzaga, como noticiou a Pacotilha de 17 de maio. O Presidente da Província, ao tomar conhecimento do fato, através de telegrama vindo de Bacabal, destacou para aquela vila 10 praças do 5º Batalhão de Infantaria sob o comando do Alferes João de Lemos, nomeado no mesmo ato delegado de polícia para aquela localidade com o intuito de garantir o cumprimento da lei.  Dentre os fazendeiros, à época chamados de lavradores, que resistiram à Lei Áurea, recolhemos do Jornal maranhense O Paiz de 18 de julho de 1888, os nomes de Victorino José Godinho, do Capitão João Jansen Pereira e do Tenente Coronel Júlio Máximo de Carvalho que no dia 10 de julho de 1888, reunidos na Câmara de São Luís Gonzaga, juntamente com vários outros ex-senhores de escravos, fizeram uma representação à Câmara dos Deputados pedindo indenização pela libertação de seus antigos cativos.

No dia 19 de maio, na Associação Comercial, foi realizada concorrida sessão solene dos empregados do comércio com a presença ilustre do Presidente da Província. Dentre os que usaram da palavra exaltando o 13 de Maio destacamos Hermenegildo Jansen Ferreira, presidente da Associação Comercial, Virgílio Cantanhede, Paula Duarte e Aristides Cunha. Logo após, uma passeata com participação de grande multidão que davam vivas à Regente e à extinção da escravidão desfilou pelas ruas da cidade.

As senhoras também promoveram uma passeata “em regozijo à lei que aboliu a escravidão no Império” conforme noticiou a Pacotilha do dia 21 de maio. Eram conduzidos estandartes com imagens da Regente, dos líderes do movimento abolicionista, como Joaquim Nabuco e os Conselheiros Dantas, João Alfredo e Vieira da Silva, este último, maranhense.

Foram promovidas outras importantes solenidades, como a da Câmara de Vereadores, em que discursaram o Vereador Manuel de Bettencourt e o jovem Dunshee de Abranches, orador oficial do Club Artístico Abolicionista Maranhense, a mais importante sociedade abolicionista do Maranhão, que promoveu no dia 28 de maio, no então Teatro São Luís, hoje, Arthur Azevedo, sua sessão solene de homenagem à Lei Áurea.

Friso que o abolicionismo e todos os personagens que nele tomaram parte, dentre os quais destacamos a Princesa Regente e o nosso conterrâneo Joaquim Serra, devem ser objeto de acurado estudo tendo em vista as questões que estão imbricadas no desfecho de todo esforço pela extinção da escravidão. Concluo citando o insuspeito prócer do abolicionismo, Joaquim Nabuco, em sua autobiografia Minha Formação.  Ao relatar a audiência com o Papa Leão XIII sobre a questão servil no Brasil, escreveu Nabuco: “Quanto à Família Imperial, repeti ao Sumo Pontífice, que o que há feito em nossa lei a favor dos escravos, é devido à iniciativa e imposição do Imperador, ainda que seja pouco” (NABUCO, 1999, p.198). Sobre a Princesa D. Isabel, acrescenta Nabuco: No dia em que a Princesa Imperial se decidiu ao seu grande golpe de humanidade, sabia tudo que arriscava. A raça que ia libertar não tinha para lhe dar senão o seu sangue, e ela não o quereria nunca para cimentar o trono de seu filho… A classe proprietária ameaçava passar-se toda para a República, seu pai parecia moribundo em Milão, era provável a mudança de reinado durante a crise, e ela não hesitou; uma voz interior disse-lhe que desempenhasse sua missão, a voz divina que se faz ouvir sempre que um grande dever tem que ser cumprido ou um grande sacrífico que ser aceito” (NABUCO, 1999, p.182) Viva a Lei Áurea! Viva o 13 de Maio! Viva o Brasil e o Povo brasileiro!

 

Bibliografia consultada

DUNSHEE DE ABRANCHES, João. O Cativeiro. 2ª edição. São Luís: Alumar e AML, 1992.

NABUCO, Joaquim. Minha Formação. São Paulo: Edibras, 1999.

Jornais Pacotilha e O Paiz – Acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite

 

*Artigo publicado em O Estado do Maranhão, 12.05.2018.

** Pe. João Dias Rezende Filho é pesquisador e sócio efetivo do IHGM e do Instituto Cultural Dona Isabel I a Redentora, sediado em Brasília-DF.

 

 

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Rádio Senado – Senado promove exibição das leis que culminaram com sanção da Lei Áurea

Senado promove exibição das leis que culminaram com sanção da Lei Áurea

 

05:56
Senado promove exibição das leis que culminaram com sanção da Lei Áurea

Em 13 de maio de 1888 era sancionada a Lei Áurea. O documento assinado pela princesa Isabel, com apenas 13 linhas e dois artigos, teve importância fundamental na História do Brasil: libertou cerca de 700 mil pessoas do cativeiro. A luta pela abolição da escravatura, contudo, começou bem antes, com a resistência de muitos heróis e heroínas negros e um longo processo legislativo. Neste domingo o país celebra os 130 da Lei. Mas a inclusão social da população negra ainda é um desafio.

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Rede Globo (Bom Dia Brasil) – Lei que aboliu a escravatura completa 130 anos no próximo domingo (13)

7 min
Exibição em 11 mai 2018
Domingo marca os 130 anos da abolição da escravatura.
O Bom Dia Brasil preparou uma reportagem especial que conta os bastidores políticos da assinatura da Lei Áurea. E os efeitos, nos dias de hoje, da lei mais curta do Brasil.

 

BOM DIA BRASIL Lei que aboliu a escravatura completa 130 anos no próximo domingo (13)

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Senado (Arquivo S) – Senado e Câmara aprovaram Lei Áurea em 5 dias

Arquivo S

Senado e Câmara aprovaram Lei Áurea em 5 dias

Ricardo Westin | 07/05/2018, 09h57

A lei mais famosa da história do Brasil completará 130 anos neste domingo. Em 13 de maio de 1888 (também um domingo), a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, libertando os escravos e implodindo o famigerado sistema socioeconômico que vigorava desde o Descobrimento.

A Lei Áurea nasceu em tempo recorde. O governo imperial enviou ao Parlamento numa terça-feira o projeto de lei que aboliria a escravidão. Os deputados aprovaram o texto na quinta. Os senadores, no domingo. A lei foi sancionada pela princesa imediatamente, e o Rio, capital do Império, explodiu em festa.

A aprovação, contudo, não foi unânime. Documentos guardados no Arquivo do Senado revelam um lado pouco conhecido da história: houve um grupo de parlamentares — reduzido, porém ruidoso — que se posicionou contra a Lei Áurea. Cinco senadores e nove deputados votaram pela derrubada do projeto.

Defensores dos interesses dos fazendeiros do café, eles profetizaram em tom catastrofista que o fim abrupto do trabalho escravo tornaria a agricultura inviável e, como consequência, levaria a economia nacional à ruína.

Principal líder da bancada escravagista, o senador Barão de Cotegipe (BA) discursou:

— Tenho conhecimento da nossa lavoura, especialmente das províncias de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, e afianço que a crise será medonha. A verdade é que haverá uma perturbação enorme no país durante muitos anos.

O senador Paulino de Souza (RJ), ele próprio um latifundiário do Vale do Paraíba (região entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro), bateu na mesma tecla:

— O elemento servil é o único trabalho organizado em quase todo o país, inclusive na extensa e rica zona das margens do Rio Paraíba, que tem sido nestes últimos 50 anos a oficina da riqueza nacional. Eu, ligado por muitos laços com os outros produtores da região, tenho o dever de colocar-me na resistência, em defesa de tamanhos e tão legítimos interesses, que entendem tanto com a fortuna particular como com a ordem econômica e financeira do Estado.

Em outra frente, Cotegipe classificou o projeto de inconstitucional:

— A Constituição, as leis civis, as eleitorais, as de impostos etc., tudo reconhece o escravo como propriedade. Mas, de um traço de pena, legisla-se que não existe mais tal propriedade, que tudo pode ser destruído por meio de uma lei, sem atenção a direitos adquiridos? Daqui a pouco se pedirá a divisão dos latifúndios, a expropriação, por preço mínimo ou de graça. Esperem. O primeiro passo é o que custa a dar, depois…

Caridade e filantropia

Pela rejeição do projeto da Lei Áurea, Cotegipe chegou a recorrer a argumentos humanitários:

— Agora entro no mar da caridade e da filantropia e pergunto qual é a sorte dos libertados, quais os preparativos para que aqueles que abandonarem as fazendas tenham ocupação honesta. Temos um frisante exemplo no Peru. Ali, os escravos foram de uma vez libertados. Uma pequena parte continuou nas fazendas, outra parte morreu pelas estradas e nos hospitais, e outra foi morta a tiro. Quer dizer que estes últimos se tornaram saqueadores, atacavam os viandantes e as fazendas e praticavam toda casta de barbaridade.

A bancada abolicionista reagiu. O senador Dantas (BA) assegurou que o discurso dos dois colegas contrários à Lei Áurea era exagerado e falso:

— Nos últimos 17 anos [por força da Lei do Ventre Livre e da Lei dos Sexagenários], 800 mil escravos desapareceram do Brasil. É justamente neste período que se nota a maior riqueza no país, grande aumento de trabalho e produção e, como consequência, considerável elevação da renda pública. Se foram essas as consequências da diminuição do trabalho escravo em mais da metade, o que se deve esperar é que o desaparecimento de 600 mil criaturas escravas não produzirá a nossa ruína, antes aumentará a nossa prosperidade, graças ao trabalho livre e nobilitado.

O senador João Alfredo (PE) explicou que, concretizada por meio de lei e conforme o desejo da Coroa e do Parlamento, a abolição seria uma medida prudente e estratégica, pois impediria o país de mergulhar numa guerra civil entre abolicionistas e escravagistas, tal qual a Guerra de Secessão, que arrasara os Estados Unidos duas décadas antes. A preocupação não era exagerada. O Brasil já assistia a confrontos isolados e até sangrentos entre os dois lados.

— Muito infeliz foi o Brasil herdando a escravatura. Porém, mais infeliz será se a sua extinção não for conseguida mediante sábias cautelas e previsões, de modo que não acarrete graves perturbações — disse João Alfredo. — Ninguém aspira à extinção com mais ardentes votos do que eu, mas desejo a reforma com espírito e processo conservadores.

Décadas antes, dom Pedro II havia fechado com a poderosa classe dos latifundiários uma espécie de acordo tácito por meio do qual a escravidão não seria abolida repentinamente. Em vez disso, seria eliminada de forma lenta, gradual e segura, de modo a não provocar nenhum grande abalo nas plantações, responsáveis pela sustentação política e econômica do Império.

Foi buscando a abolição gradual que se aprovaram a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885). Pela primeira, os filhos de escravas passaram a nascer livres. Pela segunda, os escravos passaram a ganhar a liberdade aos 60 anos.

As duas leis bastariam para que a escravidão encolhesse até desaparecer naturalmente por volta de 1930. Considerando a alta taxa de mortalidade dos negros e o crescente número de cartas de alforria, o fim poderia vir antes disso.

Pressão do papa

Esse pacto não escrito entre a Coroa e a elite foi lembrado no Senado, de forma sutil, nas discussões do projeto da Lei Áurea.

— Pretende-se dividir os brasileiros em escravocratas e não escravocratas, tornando odiosos aqueles que pugnam pela restrita execução das leis de 1871 e 1885 — afirmou o senador Cotegipe. — Isso não é certo. Na prática, a escravidão já está extinta. A questão é apenas de prazo.

Às vésperas de 1888, porém, muita coisa mudou e aquele acordo tácito se tornou insustentável. O movimento abolicionista cresceu de forma extraordinária e intensificou a sua propaganda. Jornais e revistas entraram com tudo na campanha. Ante tantos argumentos, a crescente elite urbana, menos dependente dos escravos do que a elite rural, se convenceu de que já passava da hora de acabar com a escravidão.

O Exército, por sua vez, estava farto das incômodas missões de caçar e matar negros fugidos e destruir quilombos. Além disso, havia pressões internacionais. O Reino Unido exigia leis abolicionistas desde a Independência. O papa Leão XIII chegou a criticar publicamente o sistema escravagista do Brasil. Em 1886, o senador Dantas afirmou:

— Sempre que penso que hoje o Brasil é a única nação do mundo cristão com escravos, sinto uma revolta contra esse obscurantismo e contra o desconhecimento dos direitos da civilização, do cristianismo e da liberdade. Temos que acabar de uma vez com essa instituição daninha e maldita que ainda existe.

A grande reviravolta ocorreu em junho de 1887, quando dom Pedro II viajou para a Europa com o objetivo de cuidar da saúde, debilitada pelo diabetes, e a princesa Isabel assumiu a Coroa pela terceira e última vez. Católica fervorosa e abolicionista convicta, ela decidiu que era o momento de romper o acordo pela abolição gradual e sepultar imediatamente a escravidão.

O plano só não vingou em 1887 porque o primeiro-ministro do Império era o Barão de Cotegipe, o mesmo senador que no ano seguinte faria discursos inflamados contra o projeto da Lei Áurea. O primeiro-ministro escravagista fez de tudo para frear os ímpetos da princesa.

Apoiados por Isabel, senadores e deputados apresentaram diversos projetos de lei abolicionistas em 1887. Uma proposta do senador Dantas previa o fim da escravidão para 31 de dezembro de 1889 e uma espécie de reforma agrária, com os ex-escravos sendo assentados em glebas às margens de rios e ferrovias.

Um projeto do senador Escragnolle Taunay (SC) marcava a abolição para o Natal de 1889, com a obrigação de os ex-escravos continuarem trabalhando para os ex-senhores por mais um ano, agora com salário. A proposta também determinava que o governo espalharia os libertos pelo Império, de modo a evitar a sua “acumulação” nas cidades.

Manobra da princesa

O primeiro-ministro conseguiu engavetar todos os esboços da Lei Áurea. A princesa, então, percebeu que, se quisesse que a causa abolicionista prosperasse, teria que derrubar o chefe do gabinete ministerial. Em março de 1888, usando como desculpa um incidente na segurança do Rio, Isabel exigiu que Cotegipe demitisse o chefe de polícia da capital. Ofendido, ele se recusou a fazê-lo e renunciou.

Livre do incômodo primeiro-ministro, a princesa escolheu como substituto o senador João Alfredo, afinado com as ideias abolicionistas. Isabel, que já tinha o apoio popular, ganhou o respaldo político que lhe faltava para acabar com a escravidão.

Em 3 de maio, na fala do trono (discurso com o qual a Coroa abria os trabalhos do Parlamento), Isabel avisou aos senadores e deputados que queria a aprovação da Lei Áurea, “aspiração aclamada por todas as classes”. No dia 8, a proposta do governo chegou à Câmara. No dia 13, o sucinto projeto — com dois artigos — foi transformado em lei.

A pressão e a pressa foram tantas que o Senado trabalhou inclusive no sábado e no domingo. A comissão de senadores encarregada de fazer a primeira análise do texto emitiu seu parecer favorável em cinco minutos.

Em todas as sessões, a população encheu as galerias e os arredores da Câmara e do Senado. O deputado Andrade Figueira (RJ), contrário à abolição, irritou-se com a “invasão de pessoas estranhas à Câmara” e disse que a “augusta majestade do recinto” havia virado um “circo de cavalinhos”. O deputado Joaquim Nabuco (PE), célebre abolicionista, acusou o colega de ter “coração de bronze”.

No final, atropelados pela onda abolicionista, os parlamentares escravocratas já sabiam que perderiam e até passaram a admitir a abolição imediata — mas com a condição de que o governo indenizasse os senhores com títulos da dívida pública. Inúmeros projetos de lei com essa previsão foram apresentados antes e depois da Lei Áurea, mas nenhum vingou.

— O cidadão brasileiro não pode ser privado de uma propriedade legal e garantida senão mediante prévia indenização do seu valor. É o que está na lei fundamental do Império — discursou no dia 13 o senador e latifundiário Paulino de Souza.

O historiador Mauro Henrique Miranda de Alcântara, autor de D. Pedro II e a Emancipação dos Escravos, explica que a indenização estava fora de cogitação:

— O Império vivia uma crise econômica, em parte ainda decorrente da Guerra do Paraguai. Além disso, o movimento abolicionista conseguiu convencer a sociedade de que a escravidão era uma coisa monstruosa. Com tal, seria inadmissível indenizar alguém que havia mantido pessoas escravizadas. Houve quem pedisse que os escravos fossem indenizados.

Pena de ouro

Ainda na histórica sessão do Senado em 13 de maio de 1888, o senador Paulino encerrou sua fala da seguinte maneira:

— São tantas as impaciências que sou obrigado a concluir meu pronunciamento sem demora. Confesso-me vencido. Cumpri, como as circunstâncias permitiram, o meu dever de senador. Agora posso cumprir o de cavalheiro, não fazendo esperar uma dama de tão alta hierarquia.

Sarcástico, Paulino referia-se a Isabel. A princesa aguardava no Paço da Cidade a chegada da Lei Áurea, que, para entrar em vigor, dependia de sua sanção. Uma delegação de senadores foi encarregada de levar-lhe o livro de leis, onde ela, com uma pena de ouro, deixaria sua assinatura. O trajeto dos parlamentares demorou mais do que o previsto porque o centro da cidade estava tomado por uma multidão efusiva.

— Seria o dia de hoje um dos mais belos da minha vida se não fosse saber meu pai enfermo — disse Isabel aos senadores.

A profecia dos escravocratas não se concretizaria. A libertação dos escravos, abrupta e sem indenização, não levou o Brasil à ruína. Mas implodiu o Império. Os latifundiários do café retiraram a sustentação que vinham dando à Coroa e, em 1889, respaldaram o golpe militar que implantou a República.

De acordo com o historiador Bruno Antunes de Cerqueira, presidente do Instituto Cultural Dona Isabel I, havia resistência à princesa como herdeira da Coroa, por ser mulher, religiosa, liberal e casada com um estrangeiro (o francês Conde d’Eu).

— Num cálculo político, a princesa apostou na abolição como a medida que sedimentaria o seu reinado. Quis mostrar que era, sim, forte e capaz de tomar decisões importantes para o país. Ela indicava que, como imperatriz, continuaria com as medidas abolicionistas e integraria os ex-escravos à sociedade. Isso afrontava a elite agrária. O golpe de 1889 não foi contra o reinado de Pedro II, mas contra o futuro reinado de Isabel.

A seção Arquivo S, resultado de uma parceria entre o Jornal do Senado e o Arquivo do Senado, é publicada na primeira segunda-feira do mês. Acesse http://bit.ly/arquivoS

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Sacerdote e conselheiro do IDII toma posse no IHGM

Tomou posse, em 22 de março de 2018, no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM) o Pe. João Dias Rezende Filho, conselheiro do IDII. A solenidade teve lugar na Academia Maranhense de Letras, prédio em que funcionava a biblioteca pública da província no tempo do Império.

Recebeu o novel associado efetivo do sodalício seu presidente, Prof. Euges Lima, e saudou-o o antigo reitor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Prof. Dr. Natalino Salgado.

Compareceram numerosas personalidades, dentre as quais se destacam:

  • Prof. Dr. Pe. Raimundo Gomes Meireles, Chanceler do Arcebispado, representando o Senhor D. Frei José Belisário da Silva, Arcebispo Metropolitano de São Luís do Maranhão;
  • Pe. Frei Valdo Nogueira, OFMconv., Pároco da Paróquia São Francisco de Assis;
  • Diácono Renato Fontoura Nogueira da Cruz
  • Des. Cleones Cunha, presidente em exercício do TRE-MA
  • Dr. Benedito Bogéa Buzar, Presidente da Academia Maranhense de Letras (AML) e membro honorário do IHGM;
  • Prof. Dr. Sebastião Moreira Duarte (AML);
  • Dr. José Carlos Sousa e Silva (AML);
  • Drª.  Josefa Ribeiro da Costa, desembargadora aposentada do TJMA;
  • Profª. Drª. Maria Helena Pereira Espínola, Diretora do Arquivo Público do Estado do Maranhão;
  • Profª. Drª. Ceres Costa Fernandes;
  • Profª. Drª. Cláudia Maria Pinho de Abreu Pecegueiro, do Depto. de Biblioteconomia da UFMA;
  • Profª. Marluce Almeida Coelho, primeira professora de Filosofia, na antiga quinta série ginasial do Pe. João Dias Rezende Filho;
  • Drª. Helena Duailibe Ferreira, antiga Secretária de Saúde do Município de São Luís do Maranhão;
  • Drª. Graça Nina, do Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM);
  • Prof. Dr. José Augusto Silva, antigo reitor da Universidade Estadual do Maranhão (Uema);
  • Prof. Dr.  José Belo Salgado (Uema);
  • Prof. Antônio Guimarães de Oliveira (IHGM);
  • Prof. Leopoldo Gil Dúlcio Vaz (IHGM);
  • Dr. Álvaro Urubatan Melo (IHGM);
  • Dr. Diogo Gualhardo Neves (IHGM);
  • Prof. Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, gestor do IDII, que atuou como mestre de cerimônias a pedido do empossando.

 

As fotografias são do IHGM.

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