IDII celebra aniversário da Redentora com tertúlia neoabolicionista em Brasília

Ocorreu hoje na sede do IDII, no Lago Sul, a Tertúlia Neoabolicionista em honra dos 171 anos do nascimento de D. Isabel.

O Prof. William Rezende Quintal fez uma ótima palestra sobre suas pesquisas acerca da arte e do pensamento indigenista, filomonarquista e modernista de Vicente do Rêgo Monteiro (1899-1970). William Quintal é mestrando em História da Arte na UnB, tendo atuado por muitos anos como formador de professores indígenas brasileiros em Minas Gerais.

O pernambucano Vicente do Rêgo Monteiro viveu grande parte de sua vida em Paris, onde se ligou ao mundo cultural de língua francesa. Foi um grande expoente do modernismo brasileiro, assim como seu amigo Victor Brecheret (1894-1955).

Estiveram presentes o anfitrião, Cons. José Theodoro Mascarenhas Menck, o Cons. João Pedro de Saboia Bandeira de Mello Filho, Conde de Saboia-Bandeira-de-Mello, a Senhora Lilian Quintal, a Drª. Maria Esther Menna Barreto Camino, a Senhora Pollyana Guimarães e a Srtª. Clarice Marques Salgado, o Jorn. Adirson José de Vascancellos, o Dr. Claudio Luiz Correia Lima e o gestor do IDII, Cons. Bruno da Silva Antunes de Cerqueira.

Fotos de Matheus Mascarenhas Menck Pfeiffer Macedo.

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BBC Brasil – Lima Barreto é bom remédio para nossa enxaqueca republicana e democrática, diz Lilia Schwarcz

 

Lima Barreto é bom remédio para nossa enxaqueca republicana e democrática, diz Lilia Schwarcz

  • 25 julho 2017
Lima BarretoDireito de imagem REPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO
Lima Barreto em foto de sua ficha em hospital psiquiátrico, em 1914

 

Se estivesse vivo, o escritor Lima Barreto (1881-1922) talvez fizesse piada com o 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil ou destilasse sarcasmo ao comentar a crise política nacional. Sua picardia, a qualidade de sua prosa, suas críticas aos estrangeirismos e à qualidade do funcionalismo público e sua literatura de temática racial não poderiam estar mais atuais, defende a historiadora Lilia Moritz Schwarcz.

Autora de uma recém-lançada biografia do autor, Lima Barreto – Triste Visionário, publicada pela Companhia das Letras, ela navega pela história do personagem para desaguar em um tratado sobre uma “certa história do Brasil”.

Vítima de um grave alcoolismo, que o levou a duas internações manicomiais, Lima Barreto teve sua obra silenciada por muito tempo, já que conseguiu desagradar a toda elite cultural e econômica nacional no início do século passado.

Revisitado política e literariamente, ele é o tema da Feira Literária de Paraty (Flip) deste ano, que acontece entre esta quarta-feira e o domingo. “Essa é a Flip da crise. Tinha que ser o Lima Barreto para ser uma edição mais marginal, que vai ser menor, não vai ter tenda, tem que ser na Igreja, enfim. Parece que o Lima desestabiliza até na Flip, quando chega a vez dele é diferente”, disse Schwarcz à BBC Brasil.

Veja a seguir os principais trechos da conversa com a historiadora.

A historiadora Lilia SchwarczRENATO PARADA/DIVULGAÇÃO
Schwarcz vê conexões entre seu livro anterior, ‘Brasil: Uma Biografia’, e obra sobre Lima Barreto

 

BBC Brasil – A biografia de Lima Barreto sucede seu livro Brasil: Uma Biografia. As duas obras têm algo em comum?

Lilia Schwarcz – Sim. Lima Barreto teve uma biografia fundamental, de Francisco de Assis Barbosa, de 1951. Mas eu queria outro Lima – que era vítima sim, mas que tinha protagonismo. E eu queria inquirir o tema racial e a questão de gênero – essas são questões da nossa geração, e não podia cobrar isso do Francisco de Assis. Minha geração é que tem convivido com as questões dos direitos civis, das diferenças.

Eu lia Lima Barreto havia muito tempo, já identificava isso e é uma história do Brasil, é uma certa história do Brasil. Quando eu fiz o Brasil: Uma Biografia, muito influenciada pela pesquisa, a gente dizia que um dos pilares da história do Brasil é a questão racial, que ainda é uma grande invisibilidade hoje no Brasil.

Para você ter uma ideia, quando eu lancei Brasil: Uma Biografia, não poucos jornalistas me falavam “poxa vida, nunca tinha pensado na história do Brasil sobre esse ângulo”. E foi o último país a abolir a escravidão, recebemos 45% dos africanos que foram forçados a sair do seu território, então é um espanto. Eu quero contar a história do Brasil a partir da janela de Lima Barreto.

Anúncio no jornal ACERVO DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
Página do jornal ‘A Noite’, de 1915, anunciando início de publicação de textos de Lima Barreto

 

BBC Brasil – Além de ser atual pela questão do gênero, de raça, há na obra dele uma decepção com os políticos, presente atualmente também. Como aborda isso?

Schwarcz – Eu começo o livro com uma citação que diz que “O Brasil é uma grande comilança – comem os políticos, os jornalistas, comem os juristas”. Você lê aquilo e a sensação que te dá é um dèjá vu. Ela cobre a corrupção da República, cobre o mau uso da res pública a partir de interesses privados. E faz uma crítica feroz aos políticos, chega a dizer “à República do Brasil falta dignidade”.

Então ele cobra um Brasil mais inclusivo, mais justo, mais igualitário – problemas que estamos vivendo até hoje. São temas que ele viveu no pós-abolição e que vivemos ainda nessa mesma República falhada que padece com os problemas de corrupção, mas não só disso: de racismo, homofobia. São questões que estão na pauta de Lima Barreto, e que estão na nossa agenda.

BBC Brasil – E ele faz isso com um humor ácido…

Schwarcz – A gente tem esse jeito tão brasileiro de rir da desgraça. Me lembro do 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil. Assim que o jogo terminou comecei a receber mensagens tirando sarro disso, e o Lima tem um pouco disso – muito crítico, muito mordaz, mas ao mesmo tempo muito bem humorado.

As histórias dele sobre o funcionalismo público são de matar de dar risada – ele diz que “você mede a qualidade de um bom funcionário público pela quantidade de vezes que ele abre as gavetas, ou que ele aponta o lápis”. E ele tá lá, é funcionário público.

É uma blague que tem a ver com esse modernismo carioca, que durante muito tempo ficou fora da agenda, fora do compasso dos modernismos, e que era um modernismo boêmio e bem humorado.

Era crítico de idealizações do país, era uma literatura crítica, de contestação. E ele faz uma crítica aos estrangeirismos. E teve uma recepção desastrosa na época, como você pode imaginar.

Fotos que constam da 'Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin'REPRODUÇÃO DE LÚCIA MINDLIN
João Henriques e Amália Augusta, pais de Lima Barreto, em imagens que estão na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindli

BBC Brasil – Desastrosa porque era crítica às elites ou porque já era racialmente engajada?

Schwarcz – Quando eu digo que Lima Barreto merece mais do que (ser) a vítima, é porque ele tinha um projeto literário, de inserção. E fazer uma literatura negra, afrodescendente, era grave nessa época. Porque era um tema entre muitas aspas, as pessoas achavam desagradável, era melhor não falar disso.

E a gente sabe que naquela época, quem fazia sucesso, virava branco. Tanto nas fotos como na cor. Temos cor social.

No próprio manicômio, ele foi internado como branco e, depois, como pardo. Essa é a régua da cor no Brasil. Eu tentei provar no livro que ele trazia esse tema, ele descreve a cor dos personagens de uma forma minuciosa, ele próprio se chamava de azeitona escura.

Para você ter um autor que diz que negro é a cor mais cortante no Brasil – não tem ingenuidade nisso. Ninguém queria falar desse tema.

BBC Brasil – Lima ajudou a impulsionar uma literatura afrodescendente?

Schwarcz – Ele morreu em 1922, aos 41 anos e com a obra muito silenciada. Depois da Nigéria, o Brasil é o maior país de população negra e africana e somente agora começam a aparecer expoentes da literatura negra, afrodescendente.

E eu não chamo de literatura negra quem nasceu negro, não é uma questão de origem, é uma opção – no Lima Barreto é um projeto literário.

Página do jornal 'Cigarra', de 1919REPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO
Caricatura de Lima Barreto em página do jornal ‘A Cigarra’, em 1919

E agora sim, para esse tipo de literatura, Lima Barreto é sempre lembrado e vai continuar a ser lembrado. E ele nunca esteve tão atual.

BBC Brasil – E pode ser inspirador para esse momento de apatia?

Schwarcz – Lima Barreto é um bom autor para a gente pensar as nossas falácias da democracia e da República. Ele vivia acusando as nossas instituições – a gente anda dizendo que as nossas instituições estão fortes, eu não vejo como. É só um ritual vazio que anda forte, e não as instituições.

E ele falava mal do presidente, do deputado, ele é crítico dos discursos vazios. Ele é um bom remédio para nos curar da nossa enxaqueca republicana e democrática. É um autor que provoca, que não estabiliza.

Exatamente depois das manifestações, dos panelaços, a gente entrou em um período de apatia. E o período pede de nós – como diria o poeta – vigilância. E não apatia. E Lima Barreto era muito vigilante, e incômodo na sua vigilância. Ele é bom para nós neste momento.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40514293

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O GLOBO – Entrevista com o Prof. Dr. João José Reis

 

João José Reis, referência mundial no estudo da escravidão no Brasil – Guito Moreto / Agência O Globo

 

POR BOLÍVAR TORRES

RIO – Nesta tarde, a partir das 17h, o baiano João José Reis, referência mundial para o estudo da história da escravidão no século XIX, professor da Universidade Federal da Bahia e Doutor pela Universidade de Minnesota, recebe o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, uma das principais honrarias do país, em cerimônia no Salão Nobre do Petit Trianon. A recompensa ao autor de livros como “Rebelião escrava no Brasil: a história do Levante dos Malês” (Companhia das Letras) acontece em um momento especialmente turbulento nas discussões em torno da memória da escravidão.

Localizado na Zona Portuária e recém-reconhecido pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade, o Cais do Valongo, cujas ruínas compõem os únicos vestígios materiais de desembarque de africanos escravizados nas Américas, chama a atenção pelo abandono e pela deterioração. Ao mesmo tempo em que os planos da construção de um museu da escravidão no local dividem ativistas, outro ícone da preservação da memória da região, o Instituto Pretos Novos, reclama da falta de recursos e ameaça fechar.

 

O historiador, que também é convidado da próxima Flip (participa no sábado, dia 29, às 12h, de uma mesa com a escritora Ana Miranda), conversou com O GLOBO por e-mail.

A história da escravidão é hoje um dos assuntos mais estudados da historiografia brasileira. Isso tem levado a um melhor entendimento das desigualdades contemporâneas?

Isso merecia uma pesquisa à parte. Não é somente a historiografia que tem tratado da escravidão com muita intensidade nos últimos anos. Além da produção acadêmica, e muitas vezes por ela informada, hoje se fala muito sobre o assunto, em filmes, minisséries, novelas etc. Isso deveria criar um elo positivo entre História e atualidade, resultando numa visão crítica e mesmo no declínio tanto do racismo episódico dos ataques pessoais quanto do racismo estrutural das desigualdades. Não vejo acontecer. Talvez seja preciso ainda mais informação, ao lado de mais políticas públicas, além das cotas raciais nas universidades e em setores do serviço público.

Houve alguma iniciativa pública positiva nos últimos anos?

Uma boa medida recentemente terminada pelo governo federal foi a obrigatoriedade do estudo da história e da cultura afro-brasileiras. Poderia ter se tornado um poderoso antídoto ao racismo, pelo esclarecimento de crianças e jovens em formação, e não apenas focando o passado escravista, mas no presente da discriminação. Nunca esse tipo de informação foi mais necessária, porque a internet e as redes sociais, pelo anonimato que possibilitam, incentivam os racistas de plantão a saírem do armário.

Recentemente, um restaurante chamado Senzala foi vandalizado por manifestantes em São Paulo. Como vê a utilização de palavras como “senzala” e “casa grande” para batizar restaurantes, condomínios e motéis pelo país?

Indica a desinformação que leva à naturalização do racismo através da manipulação de elementos da História. Os militantes negros e antirracistas estão certos em ver isso como um escárnio. Daqui a pouco teremos boate chamada tumbeiro, se é que isso já não existe. Se quem bota esses nomes em seus negócios não aprender do que se trata, é preciso ir à porta dos estabelecimentos protestar e perturbar a clientela, que também devia saber por onde anda. Isso também é método de educar.

O senhor defende a construção de um museu da escravidão no Pelourinho. A proposta de um museu semelhante no Rio vem sendo criticada. Muitos preferem um museu da herança africana, por exemplo…

Um museu da escravidão trataria da herança africana se for concebido sob inspiração da produção historiográfica recente. Os historiadores têm estudado aspectos essenciais da vida dos escravos com um olho na cultura trazida pelos africanos, no que diz respeito à família, a resistência cotidiana, a revolta e a formação de quilombos, a religiosidade etc. Por outro lado, um museu da herança africana terá que tratar de como os aportes culturais africanos se transformaram no Brasil escravista. Então não importa qual nome será dado a um museu que contemple, vamos dizer, a história do negro no Brasil em suas várias dimensões. Seu sucesso como instrumento de formação e transformação vai depender de como será concebido. Ultimamente penso mesmo que um museu da história afro-brasileira ou um museu da história do negro pudesse ser ainda mais interessante.

Algum outro museu poderia servir de referência?

O monumental museu recentemente inaugurado em Washington, nos EUA. Um museu dessa espécie no Brasil representaria superar a impressão de que a história do negro que interessa encerra com a escravidão e que a herança africana é a única forma cultural de expressão dos negros. Um museu dessa espécie seria uma oportunidade para esclarecer o visitante sobre as desigualdades raciais, a discriminação sutil e o racismo explícito, a repressão social e cultural no período pós-abolição, e ao mesmo evidenciar a vida cotidiana dos trabalhadores negros e a formação de suas comunidades e manifestações culturais no campo e na cidade, suas organizações identitárias e políticas. Um museu que não represente o negro apenas como vítima, mas como pessoa inteira e complexa, que reage, luta, conquista espaços na sociedade. O Museu Afro Brasil em São Paulo, aliás, já faz muito disso.

Conheço o Instituto dos Pretos Novos e o Cais do Valongo. Acho ambos tímidos para representar a magnitude do mal representado pelo tráfico de escravos, ainda mais considerando que o Rio foi o porto negreiro nas Américas onde mais desembarcaram cativos africanos. O reconhecimento do Valongo deveria servir de incentivo para a construção de algo mais significativo nos arredores, talvez o museu que antes discutimos. É uma dívida do poder público e mesmo do setor privado, pois muitas fortunas no Brasil devem sua origem ao dinheiro ganho com o tráfico e a escravidão. Aliás, essa é uma pesquisa específica a ser feita.

A escravidão no Brasil foi democrática, já que negros e pardos podiam ser donos de escravos. Uma de suas descobertas curiosas é que houve também escravos donos de escravos. Como isso era possível?

Embora existisse no meio rural, na Bahia, em Pernambuco (onde existem estudos específicos de outros pesquisadores), no Rio de Janeiro etc, o fenômeno era mais comum na cidade. Minha pesquisa por enquanto se limita a Salvador. Aqui, a posse de escravo por outro escravo estava ligada ao sistema de ganho, no qual o ganhador, ou a ganhadeira, saía às ruas em busca de trabalho remunerado e o resultado era dividido com o senhor, que naturalmente ficava com a maior parte. Muitos ganhavam o suficiente para poupar e, depois de alguns anos, usavam essa poupança para comprar bens, inclusive escravos, ou se alforriar; às vezes fazer as duas coisas. Acontecia amiúde o escravo usar seu escravo para comprar a alforria. O sistema funcionava como uma forma de controle senhorial, pois se o direito costumeiro permitia tais arranjos, caso o escravo saísse da linha o senhor podia a qualquer hora revindicar, segundo o direito positivo, tudo que pertencesse ao escravo. Ressalve-se, no entanto, que no conjunto da população escrava, a possibilidade a compra de um escravo ou da alforria não era generalizada. Na sua grande maioria os escravos morriam escravos sem escravos.

Hoje, mais de 60 % dos presos no Brasil são negros. A OAB chegou a comparar as prisões atuais com as senzalas, no sentido de que a política de encarceramento atual remete às condições vividas pelos negros na época da escravidão. Concorda com essa comparação?

Eu acho que, na média, as prisões brasileiras são piores do que foram, na média, as senzalas. Pense bem, os escravos eram propriedade, tinham valor monetário, precisavam ser preservados. Os presos pobres são descartáveis, essa é a impressão que fica. Não falo dos presos brancos de colarinho branco, que são alojados em celas especiais. Aliás, você conhece quantos pretos de colarinho branco presos? Tem algum nos cárceres da Lava Jato? Eis mais um índice, embora enviesado, da desigualdade racial no Brasil.

Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/joao-jose-reis-poder-publico-setor-privado-tem-divida-com-escravidao-21609440

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Há 170 anos nascia D. Leopoldina Thereza do Brasil, irmã da Redentora

D. Leopoldina do Brasil, Princesa Ludwig August de Saxe-Coburgo-Gotha, Duquesa em Saxônia. Fotografia de August Stahl. 1864/1865. Arquivo Histórico do Museu Imperial / Ibram / MinC.

 

 

No dia dos 170 anos de nascimento da Princesa D. Leopoldina Thereza (1847-1871), terceira filha de D. Pedro II e D. Thereza Christina Maria, o IDII rende homenagem à mais querida amiga de D. Isabel, finada novíssima em Viena, junto de sua irmã.

Reproduz-se abaixo artigo sobre a “Duquesa de Saxe”, da lavra do historiador e ideólogo Gustavo Barroso (1888-1959), cearense radicado no Rio de Janeiro, um dos idealizadores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, hoje Iphan) e do Museu Histórico Nacional (MHN). O artigo foi publicado na revista O Cruzeiro, edição de 11.08.1951, e está disponível para download aqui, proveniente da biblioteca virtual do MHN.

O bisneto de D. Leopoldina Thereza, D. Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança, escritor renomado e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, considera que o artigo não faz jus ao quilate de Barroso, por alguns erros que contém. Deve-se advertir, contudo, que o texto é datado, como o são todas as produções historiográficas, e eventuais lapsos podem ser devidos à rapidez com que foi preparado para publicação em semanário de circulação nacional.

Especiais agradecimentos pela gentileza do envio e confirmação de dados ao bibliófilo e livreiro juiz-forano Jean Menezes do Carmo e à historiadora muriaense Erika Morais Cerqueira, especialista na obra barroseana.

 

A SEGUNDA FILHA DE D. PEDRO II

Em documento de sua autoria, a Princesa D. Isabel a Redentora — filha mais velha de D. Pedro II –, diz o seguinte: “A 2 de dezembro de 1864, chegavam ao Rio o Conde d’Eu e o Duque de Saxe. Meu pai desejava essa viagem, tendo em mira nossos casamentos. Pensava-se no Conde d’Eu para minha irmã e no Duque de Saxe para mim. Deus e nossos corações decidiram diferentemente, e a 15 de outubro de 1864 tinha eu a felicidade de desposar o Conde d’Eu…” Por essa confissão, mais uma vez se verifica que o homem põe e Deus dispõe, como bem diz o povo, juiz de multimilenar sabedoria. O coração das princesas, imperiais desviou desta sorte o curso dos arranjos políticos e o Duque de Saxe, ao invés de Príncipe Consorte da herdeira do trono do Brasil, se tornou marido da segunda filha do Imperador.

Era esta D. Leopoldina, nascida no Rio de Janeiro a 13 de ju­lho de 1847, então com 17 anos de idade, de beleza comparável à de D. Francisca, Princesa de Joinville, sua tia e madrinha, e à de D. Amélia de Beauharnais, neta de Josefina Bonaparte e segunda mulher de D. Pedro I. A projeção histórica de D. Isabel, três vezes Regente do Império, herdeira da coroa e libertadora dos escravos sombreou a figura de sua irmã mais moça, cujo destino foi menos brilhante em sua curta trajetória pelo mundo. Mas a formosura, o recato, a simplicidade, a discrição e a graça da segunda filha de D. Pedro II tornam a sua figura extraordinariamente simpática aos que estudam a vida e os atos das pessoas da Casa Imperial.

Seu marido, Luís Augusto de Saxe Coburgo Gotha, Duque de Saxe, pertencente à mais ilustre casa que dera e ainda daria príncipes consortes e soberanos para vários tronos europeus, irmão do futuro czar dos búlgaros, sobrinho de D. Fernando, marido de D. Maria II de Portugal,primo do Rei Leopoldo da Bélgica e do Príncipe Alberto, esposo da Rainha Vitória da Inglaterra, nascera no Castelo d’Eu, em França, em 9 de outubro de 1845. Era, portanto, somente dois anos mais velho do que sua mulher.

Os casamentos das filhas de D. Pedro II, celebrados ambos sendo Ministro do Império o Conselheiro José Liberato Barroso, realizaram-se em datas diversas. O de D. Isabel com o Conde d’Eu, como já ficou dito, a 15 de outubro de 1864. O de D. Leopoldina com o Duque de Saxe, a 15 de dezembro do mesmo ano. O primeiro foi nomeado marechal do Exército brasileiro; o segundo, almirante da Esquadra Imperial. Os dois estiveram presentes à rendição de Uruguaiana e o Conde d’Eu foi o comandante-chefe de nossas forças vitoriosas no último período da campanha do Paraguai.

Do consórcio da filha segunda de D. Pedro II com o Duque de Saxe nasceu a 19 de março de 1866 no Rio de Janeiro o Príncipe D. Pedro de Alcantara Augusto Luís Maria Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. conhecido na nossa História simplesmente como D. Pedro Augusto, neto preferido do Imperador e da Imperatriz, pela inteligência, amor ao estudo e dedica­ção aos avós que o educaram. Pouca gente sabe que durante nove anos, de 1866 a 1875, isto é, até nascer D. Pedro de Alcântara, filho primogênito de D. Isabel e do Conde d’Eu, de acordo com a Constituição do Império, foi D. Pedro Augusto considerado herdeiro presuntivo da coroa. Vale dizer que, se nesse espaço de tempo falecessem D. Pedro II e D. Isabel, ao trono imperial do Brasil subiria um representante da velha e nobre casa de Saxe Coburgo Gotha. É corrente ter havido até certo movimento de opinião nas rodas do Paço de S. Cristóvão e nos círculos políticos favorável à apresenta­ção às Câmaras duma emenda constitucional regulando a sucessão da coroa a favor do neto mais velho do Imperador.

Chamou-se o segundo filho de D. Leopoldina e do Duque de Saxe, D. Augusto Leopoldo, tendo nascido no Rio de Janeiro a 6 de de­zembro de 1867. Era arrebatado de gênio e dado a conquistas amorosas como seu bisavô D. Pedro I. Casou em 1904 com D. Carolina, Arquidu­quesa da Áustria, e teve oito filhos. Ainda no Rio, a 21 de maio de 1869, nasceu o terceiro filho do casal, D. José Fernando, que faleceu solteiro em 1888. Já o quarto filho, D. Luís Gastão, nasceu no Castelo de Ebenthal a 14 de setembro de 1870, veio ao Brasil e casou duas vezes, a primeira com a Princesa Matilde da Baviera, a segunda com a Condessa Maria Ana de Trauttmansdorf-Weinsberg.

Como se vê, a segunda filha do Imperador e seu esposo retira­ram-se para a Europa em 1870 e ali em breve D. Leopoldina se extinguiria, vítima dum ataque de tifo, que a levou para o túmulo no Castelo de Eben­thal, a 7 de fevereiro de 1871. Tinha somente 24 anos de idade. É compre­ensível, pois, a afeição que D. Pedro II e D. Teresa Cristina dedicaram ao Príncipe D. Pedro Augusto, que representava a filha morta em plena moci­dade e que correspondia plenamente pela sua formação mental e seu caráter a esse sentimento de seus avós. Uma anedota relatada por Múcio Teixeira pinta como zelava D. Pedro II pela educação moral do seu neto. Tendo ido D. Pedro Augusto a um baile na casa duma fidalga, no Rio Comprido, dele somente voltou alta madrugada. Ao entrar no seu aposento do Paço de S. Cristóvão, deparou com espanto o Imperador deitado em sua cama, lendo à luz duma vela o D. Quixote. D. Pedro 11 levantou-se à sua chegada e disse- lhe risonho: “- Filho, a cama dum rapaz solteiro não deve ficar abandonada a noite inteira. Vi-a tão solitária que lhe vim fazer companhia. Peço-te ape­nas que me não obrigues a repetir esta noitada, porque os velhos não devem alterar seus hábitos e só tu me obrigarias a isto.”

A lição serviu e nunca mais o jovem Príncipe passou uma noite fora de casa. Esse rapaz educado tão nobre e severamente foi quem mais sofreu o golpe desfechado sobre o velho Imperador a 15 de novembro de 1889. Viajava ele, desde 27 de outubro de 1888, como segundo-tenente, em volta do mundo, a bordo do Almirante Barroso, do comando do então Capitão-de-Mar-e-Guerra Custódio José de Melo, quando em Colombo, capital da ilha de Ceilão, chegou a notícia da proclamação da República. O comandante do navio recebeu ordem para desembarcá-lo, o que fez contrariado, sendo emocionante a despedida do jovem e cor­reto oficial.

O choque sofrido nessa ocasião abalou de tal modo D. Pedro Au­gusto, feriu-o tão profundamente que chegou na Europa com o juízo afe­tado. Depois de cuidadoso tratamento, melhorou consideravelmente. Em vias de pleno restabelecimento, a morte do avô exilado em Paris causou-lhe tamanha mágoa que a insanidade voltou. Então, foi internado no Hospício de Tulln, na Baixa Áustria, onde veio a falecer a 7 de julho de 1934.

Seu irmão D. Augusto Leopoldo, marido da Arquiduquesa Ca­rolina da Áustria, serviu, sem perder os direitos de cidadão brasileiro, por decisão do Imperador Francisco José, na Marinha austríaca, tendo feito brilhante exame de admissão, graças ao curso que tirara na Marinha do Brasil. De sua correspondência mantida no decurso de longos anos com amigos brasileiros, sobretudo os Barões da Estrela e de Maia Monteiro, se vê que nunca se pôde acostumar de todo à vida da Europa e constantemen­te carpia saudades de sua pátria. Quando revogado o banimento da Família Imperial pelo Presidente Epitácio Pessoa, pretendia D. Augusto Leopoldo vir ao Brasil; mas o destino não lhe permitiu a satisfação dessa vontade: faleceu a 11 de agosto de 1922 no Castelo de Schladming. A única pessoa da Casa de Saxe-Coburgo-Gotha Bragança, formada pelo casamento da segunda filha de D. Pedro II, que pisou terras do Brasil depois do exílio da Família Imperial foi D. Teresa Cristina Maria, sua filha, em companhia de seu esposo, no ano de 1938.

Leopoldina e seu marido, enquanto viveram no Brasil, ocu­param o Palácio denominado do Duque de Saxe, que ficava ao pé da Quin­ta da Boa Vista, num parque limitado dum lado pela atual Rua General Canabarro e do outro pela Central do Brasil, terrenos cortados atualmen­te pela Avenida Maracanã. Nesse palácio, morou após a partida dos pais para a Europa, quando se tornou homem, o Príncipe D. Pedro Augusto. Restaurou-o com o maior gosto, mobiliou-o com alfaias de valor trazidas da Alemanha e ali deu recepções e banquetes que fizeram época. Com a proclamação da República, essas relíquias foram dispersadas em apressado leilão, a casa entregue ao Ministério da Guerra e por fim destruída para dar lugar a novas construções. Do Palácio do Duque de Saxe restam somente hoje dois dunquerques com altos espelhos brasonados e dourados, felizmente recolhidos ao Museu Histórico Nacional. Suas faces, inúmeras vezes, nos bons tempos idos, refletiram a face pensativa do jovem D. Pedro Augusto, destinado à loucura, e a peregrina beleza da segunda filha de D. Pedro II, D. Leopoldina Teresa Francisca Carolina de Bourbon Bragança e Saxe-Coburgo-Gotha, destinada a uma morte prematura longe da família e da pátria. Suave e graciosa figura, cheia de beleza, de virtude e de modéstia, que as circunstâncias da vida levaram para longe do país natal como folha que o vento açoita.

Gustavo Barroso

 

Baixe o artigo original, com as imagens: A Segunda Filha de D. Pedro II – GBARROSO

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Familiares e amigos se despedem de Prof. Otto de Sá Pereira

Foram tocantes as despedidas pela passagem do Prof. Otto de Alencar de Sá Pereira, fundador e conselheiro-decano do IDII, que Deus chamou a Si em 04 de julho de 2017.

Na manhã do dia 05.07.2017, Prof. Otto foi velado na capela 2 do Cemitério de São João Batista pela família e os amigos.

A missa de Corpo Presente foi celebrada pelo Pe. Alceu Kuhnen, vigário da Matriz de Nossa Senhora da Glória do Largo do Machado e professor de História da Igreja no Seminário Arquidiocesano de São José. As exéquias foram celebradas pelo Pe. Lourenço Ferronato EP e o Santo Rosário foi recitado em todo o percurso da capela até o jazigo perpétuo da família Sá Pereira.

Representaram a Família Imperial o Príncipe D. Antonio João e a Princesa D. Christine,  o Príncipe D. Fernando Diniz e a Princesa D. Maria da Graça e o Príncipe D. Alberto. D. Antonio, D. Fernando e D. Alberto são filhos de D. Pedro Henrique, neto e sucessor da Redentora, a quem Prof. Otto serviu enquanto assessor e de quem foi, também, grande amigo e benfeitor.

Em 11.07.2017, a Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro celebrou sua missa de Réquiem. Presidiu o ofício o Pe. Alex Barbosa de Britto EP, especialmente vindo de São Paulo. Os Arautos do Evangelho cantaram e acolitaram a missa. Presentes os familiares de Prof. Otto e os irmãos da Glória do Outeiro, Des. José Carlos Murta Ribeiro — antigo provedor e atual procurador da Irmandade —, Prof. Luciano Cavalcanti de Albuquerque e Prof. Bruno Antunes de Cerqueira, conselheiros do IDII.

Da parte do Círculo Monárquico do Rio de Janeiro falou a vice-chanceler do órgão, Profª. Maria Cecília Pires de Carvalho e Albuquerque Penna.

As fotos do funeral são do Seminarista Stannly Cunha dos Santos, que acolitou tanto a missa de Corpo Presente quanto a de sufrágio da alma.

As da missa no Outeiro são do fotógrafo Luís Mendes e dos irmãos Arautos que gentilmente enviaram-nas ao IDII.

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AgênciaBrasil – Cais do Valongo é reconhecido Patrimônio Cultural da Humanidade

Rio de Janeiro: Cais do Valongo é reconhecido Patrimônio Cultural da Humanidade

  • 09/07/2017 16h21
  • Brasília
Mariana Jungmann – Repórter da Agência Brasil
Cais do Valongo, na regioão central da cidade (tomaz Silva/Agência Brasil)
Com título, fica Cais do Valongo no mesmo patamar de importância histórica de outros patrimônios mundiais mais conhecidos, como o Campo de Concentração de AuschwitzAgência Brasil/Arquivo/Tomaz Silva

O Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, principal porto de entrada de escravos nas Américas ao longo de três séculos, recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade hoje (9). O reconhecimento da importância histórica e cultural deste sítio, localizado na zona portuária da capital fluminense, foi feito pelo Comitê do Patrimônio Mundial, ligado a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em reunião anual que ocorreu na Cracóvia.

O título não se traduz em benefícios financeiros diretos, mas coloca o Cais do Valongo no mesmo patamar de importância histórica de outros patrimônios mundiais mais conhecidos, como o Campo de Concentração de Auschwitz, na Alemanha, e da cidade de Hiroshima, no Japão, que foram reconhecidos como locais de memória e sofrimento da humanidade.

O Brasil recebeu cerca de 4 milhões de escravos nos mais de 3 séculos de duração do regime escravagista, o que equivale a 40% de todos os africanos que chegaram vivos nas Américas, entre os séculos 16 e 19. Destes, aproximadamente 60% entraram pelo Rio de Janeiro, sendo que cerca de 1 milhão deles pelo Cais do Valongo.

O título tem o objetivo de reconhecer a importância do local e dos africanos que lá desembarcavam para a formação cultural, social e econômica do Brasil. E ainda a sua relevância para toda a humanidade como símbolo da violência que a escravidão representa.

Candidatura

O Cais do Valongo foi o único sítio inscrito pelo Brasil para concorrer ao título este ano. A candidatura foi apresentada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pela prefeitura do Rio de Janeiro e aceita pelo comitê em 2015.

Na oportunidade, foi apresentado dossiê com detalhes da história do tráfico negreiro para o país e o que o trabalho escravo significou para a economia brasileira entre os séculos 16 e 19. O trabalho, coordenado pelo antropólogo Milton Guran, também demonstrou que a importância do sítio arqueológico não está ligada apenas aos afrodescendentes, mas a toda a população brasileira.

Edição: Fábio Massalli
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Convite – Missa da Ressurreição de Prof. Otto de Alencar de Sá Pereira

 

 

Nelie Sá Pereira, Norma Sá Pereira, Norberto Medeiros,

Romilda Sá Pereira, Rafael Sá Pereira Salgado, Moema Sá Pereira Salgado,

Mariana Sá Pereira, Alice Legg Sá Pereira,

Ana Napolitani Salgado, Dora e Julio Salgado Peregrino,
Manuela e Guilherme Sá Pereira Costa, Cecília Sá Pereira Mariano,

Joana Medeiros, Graça Carvalho,
Ricardo Luiz C. de Albuquerque d´Avila Vilella e
Bruno da Silva Antunes de Cerqueira

convidam para a Missa da Ressurreição

de seu inolvidável irmão, amigo, cunhado, tio, tio-avô e padrinho,

Prof. Otto de Alencar de Sá Pereira,

a se realizar na Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro,

no dia 11 de julho de 2017, às 19 horas.

 

 

 Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

Praça Nossa Senhora da Glória, 26

Glória – Rio de Janeiro – RJ

 

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