D. Isabel

Nascida em 29 de julho de 1846, no Paço da Imperial Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, D. Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga de Bragança e Borbone foi preparada desde os 4 anos de idade, quando morreu seu último irmão (varão), a desempenhar as funções inerentes ao alto encargo de Princesa Imperial, o que significava dizer, segundo o art. 117 da Constituição Política do Império do Brasil, que ela seria a futura Imperatriz, quando morresse o pai, D. Pedro II (*1825 †1891).

Três vezes Regente, D. Isabel mostrou-se administradora conscienciosa e mulher de ação política particularmente voltada aos interesses dos menos favorecidos. Dentre os milhões que este termo abrigava no Brasil do século XIX, sociedade simultaneamente escravocrata e liberal, ela se preocupava, mormente, com a sorte dos escravizados — afro-brasileiros ou africanos trazidos da África desde os tempos coloniais.

Sua fé religiosa profunda e sua conseqüente adesão ao maior movimento social que o Brasil do Oitocentos conheceu, o ABOLICIONISMO, fizeram dela uma antagonista perfeita ao implacável reacionarismo do patriarcado brasileiro.

A República brasileira que nasceu no golpe militar de 15 de novembro de 1889 parece ter sido bem mais um amontoado de episódios tragicômicos, do que a evolução da política e da sociedade brasileiras de fins do Oitocentos.

O maior alvo do republicanismo de então era justamente a futura D. Isabel I, já visivelmente comprometida com o enorme conjunto de reformas sociais que as teses de ANDRÉ REBOUÇAS, JOAQUIM NABUCO, JOSÉ DO PATROCÍNIO, AFFONSO CELSO, ALFREDO DE TAUNAY e tantos outros grandes abolicionistas previam instaurar no Brasil a partir de sua ascensão ao trono.

O índice de rejeição a D. Isabel entre as classes dirigentes tornou-se alto; já entre as populares, o extremo contrário. Por ser mulher, a repulsa a sua pessoa desorientava até aqueles que se mantinham fiéis a D. Pedro II e à Monarquia. Traduzindo e atualizando: trata-se da mais injustiçada das brasileiras…

Em 05 de dezembro de 1891, em Paris, D. Pedro II faleceu — sem jamais ter renunciado ou abdicado da Coroa brasileira à qual devotou sua vida, desde os cinco anos de idade (1831); naquele momento, simultaneamente solene e funéreo, a Princesa Imperial foi reconhecida pelos conselheiros de Estado e demais nobres que a cercavam como “D. Isabel I, Imperatriz do Brasil”, motivo pelo qual nosso Instituto respeita e enaltece esse fato histórico. Nos trinta anos seguintes, ela devotou sua vida de exilada a rezar e trabalhar pela grandeza do Brasil e o conforto dos Brasileiros, ainda que em campo de atuação francamente restrito.

D. Isabel foi uma personagem reconhecida pelo seu espírito nobilíssimo na sociedade parisiense de fins do XIX e princípios do XX — Madame la Comtesse d´Eu, como a tratavam os franceses, era a Imperatriz do Brasil e todos o sabiam, do Presidente da República Francesa ao mais comum dos habitantes da pequena Cidade de Eu, onde o castelo do século XVI abrigava a Família imperial banida do território nacional brasileiro.

Em novembro de 1921, com 75 anos e já mortificada pela perda de dois filhos, a única brasileira que nos governou — antes da Presidenta Dilma Rousseff — cerrou para sempre seus belos olhos azuis e voltou à casa do Pai Eterno. Seus restos mortais somente vieram para cá em 1953; repousam, desde maio de 1971, no Mausoléu Imperial da catedral que ela ergueu: São Pedro de Alcântara, em Petrópolis.

Celebrar, pois, a memória daquela que o Povo brasileiro apelidou de Redentora — redentora da História do Brasil — é iluminar um passado que insistiram em esquecer e que, no entanto, jamais desapareceu. O passado das lutas entre escravismo e liberalismo, abolicionismos republicano e monárquico, positivismo, socialismo e catolicismo social etc.

A identidade nacional é uma amálgama de sentimentos e sensações, mas também de ideias e ideais. Diariamente, nós revisitamos os “fundadores da nacionalidade” em nossos projetos sociais e políticos e nos alimentamos de esperança para que o futuro de nossos descendentes contenha um mínimo de paz, estabilidade e progresso.

Destarte, cultuar a memória da Redentora e dos Abolicionistas sem jamais deixar de fomentar as pesquisas históricas sobre suas vidas e obras constitui, em nosso alvitre, descortinar um Brasil que clama pelo conhecimento!

Bruno de Cerqueira
Brasília, setembro de 2014

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