Memória para meus filhos

Denominação arquivística: Narração dos acontecimentos de 15 de Novembro de 1889, feita por S.A.I.R. a Senhora Condessa d´Eu. Notas redigidas a bordo do Alagoas e mais tarde em Cannes.
Documento 9.413 – Maço 207.
Arquivo Histórico
Museu Imperial
Instituto Brasileiro de Museus
Ministério da Cultura
Documento atualizado ortograficamente e com grifos, em negrito, nossos.
Documento-base para a monografia A memória da Redentora: o olhar de D. Isabel sobre o golpe de 15 de novembro de 1889 e suas consequências (1888-1921), de Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, em conclusão ao curso de História na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (nov. 2003). A monografia constitui o segundo capítulo do livro D. Isabel I a Redentora: textos e documentos sobre a Imperatriz exilada do Brasil em seus 160 anos de nascimento (Rio de Janeiro: IDII, 2006).

 

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Memória para meus filhos

 

Opinião de Papai e nossas: “Se soubesse exatamente como as coisas se achavam, teria ficado em Petrópolis, de onde depois ter-me-ia internado mais e mais, se fosse necessário”.

Papai diz, provavelmente, para não aumentar a culpa, que o Ouro Preto não o chamou ao Rio, mas que pensou, com sua presença, tudo serenar, e portanto não duvidou em descer para o foco, onde estaria mais perto dos acontecimentos e mais depressa, poderia providenciar.

Diz Papai também que foi ele quem se lembrou do Silveira Martins para suceder ao Ouro Preto. Em todos os casos como é que o Ouro Preto não o dissuadiu disso?

Além de que é contrário ao seu costume deixar seguir o parecer do Presidente do Conselho que se demite; por coisas que ouvi, creio que foi o Ouro Preto quem indicou o Silveira Martins, assim como foi ele quem chamou Papai de Petrópolis. Ambas as idéias foram desacertadas!

Com outras medidas se teria evitado o mal? Não sei. Gaston também foi de opinião de conservarmo-nos em Petrópolis, mas não teve meio de comunicar-se com Papai, e quanto a mim, que sempre vejo tudo pelo melhor, estava longe de pensar que sucederia o que sucedeu, e portanto atuou muito no meu espírito a ideia de não fazermos um papel que mais tarde tornasse menos fácil a nossa posição, podendo-se-­nos acusar de pusilanimidade.

Como o Ministério, e especialmente os Ministros da Guerra, da Marinha e da Justiça e o Presidente do Conselho por estes não sabiam nada? Imprudência! e mais imprudência! descuido ou o quê? Uma vez que a força armada toda estava do lado dos insurgentes, todos nós, nem ninguém poderia fazer senão o que fizemos.

Quando os primeiros dias de angústia são passados, e meu espírito e coração acabrunhados pela dor podem exprimir-se a não ser por lágrimas, deixai-me, filhinhos, que lhes conte como se deu a maior infelicidade de nossa vida! Eram 10 horas da manhã do dia 15 de novembro de 1889, quando a casa chegaram o Visconde da Penha e o Barão de Ivinheima declarando-nos que, diziam, parte do exército insurgido, e na Lapa achar-se um batalhão ao qual se tinham reunido os estudantes da Escola Militar, armados. Pouco depois, chegaram o Tosta, Mari­quinha e Eugeninha, pouco depois o White. Foram então chegando, sucessivamente, o Ismael Galvão, Miguel Lisboa, Pandiá Calógeras e Senhora, Lassance, Major Duarte, Barão do Catete, Carlos de Araújo, Drs. Rebouças e Araújo Góis.

As notícias que chegavam eram tais que a nós pareciam exageradas. O Miguel Lisboa ofereceu-se então para ir ao próprio Campo da Aclamação saber do que havia. Daí voltou dizendo que o Ministério estava sitiado no Quartel e o Ladário dado como morto.

Ligamos os telefones com os Arsenais de Marinha e Guerra que responderam nada saber.

Não quis sair logo do Paço Isabel; temi que talvez não sendo as coisas como se diziam, não viessem mais tarde acusar-me de medo, do que, aliás, nunca dei provas.

Pouco depois vieram notícias de que tudo estava apaziguado, nada mais haver a recear, mas todo exército coligado ter imposto e alcançado a retirada do Ministério. Gaston exclamou: a Monarquia está acabada no Brasil. Ainda iludida, eu julguei que tal exclamação era pessimismo. Também nos informaram que o Deodoro tinha a seu lado o Bocaiuva e o Benjamin Constant e que declarara um Governo Provisório. O Rebouças chegou a casa e veio também da parte do Taunay com o plano de que Papai se conservasse em Petrópolis, e aí estabelecesse o Governo internando-se se fosse necessário.

Nesse ínterim ninguém sabia como comunicar com Papai, temendo-se uma traição do telégrafo central no Campo, provavelmente em mãos dos republicanos; com efeito, pouco depois o Capanema declarava que entregara o telégrafo a estes. Os meninos, os fizemos partir, antes do recado do Capanema, para bordo do “Riachuelo”, enquanto esperavam a saída da barca das quatro para Petrópolis. Era o meio de informar Papai do que havia e também por os meninos fora do barulho. A meio-dia e tanto recebemos telegrama do Motta Maia dizendo que Papai partira de Petrópolis e que vinha pelo caminho de ferro do Norte. Resolvemo-nos a ir ter com ele em São Francisco Xavier, tomando uma lancha que nos arranjou o Barão do Catete. Partimos com os Tosta. De Botafogo nos dirigimos ao Caju, quando, em caminho, Gaston avistou em frente à Misericórdia os carros de Papai. Dirigimo-nos ao Cais Pharoux e aí soubemos que, com efeito, ele já se achava no Paço da Cidade.

Desembarcamos e com ele e Mamãe aí ficamos.

Apareceu nesse dia alguma guarda, e um piquete que ainda veio pôr-se às ordens de Papai.

Papai mandou pelo Miranda Reis chamar o Ouro Preto, que declarou de maneira alguma poder continuar com o Ministério, dando ainda, como razão, alguma deslealdade da parte de colegas.

Por volta de 6 horas, chegaram Amandinha e o Dória, Pedro Augusto, a Baronesa de Suruí e outras pessoas.

O Miranda Reis, Olegário, Silva Costa e Penha tinham passado todo o dia acompanhando o Imperador. Estiveram também o Conde e a Condessa de Carapebus, a Condessa de Baependi, D. Maria Cândida, Pandiá e Senhora, Mariquinha e Eugeninha, e talvez outras pessoas de que não me lembro.

À noite compareceram o Taunay, Tomás Coelho, Soares Brandão e os Conselheiros de Estado, a exceção de Sinimbu, Nunes Gonçalves e do Correia, Bom Conselho e Olegário, que retiraram-se antes da sessão.

Soube-se que o Ouro Preto havia indicado a Papai o Silveira Martins para compor o Ministério. Mas este ainda devia chegar do Rio Grande, e demais era inimigo figadal do Deodoro. Reunidos os Conselheiros de Estado, deram como opinião a nomeação urgente para Presidente do Conselho de alguém que estivesse imediatamente a mão, e não fosse inimigo do Deodoro e com ele pudesse se entender.

Papai manda chamar o Saraiva que, tendo já vindo, se achava novamente em Santa Teresa. O Paranaguá para lá parte imediatamente e, não achando condução, sobe a pé. Chega o Saraiva, aceita, e segundo o alvitre do Andrade Figueira, manda um emissário (Trom­powski, genro do Andrade Figueira) entender-se com o Deodoro para ver se o traz a bom caminho. Leva uma carta cujos termos do conteúdo ignoro. Às 2 horas da manhã, Trompowski volta declarando que não havia meio de nada arranjar e que o Deodoro declarou-lhe considerar-se irrevogavelmente Presidente da República. Chocou-me o modo de camaradaria que ele conta ter usado com os tais…

No dia 16 de manhã ainda entravam e saíam pessoas do Palácio, mas os guardas aumentam e não havia mais meio que se reunissem grupos a roda do Paço. Constantemente ouviam-se correrias de cavalaria em torno para espalhar a gente. Pelas 10 horas, já ninguém podia penetrar, nem mesmo senhoras. Vimos, por vezes, ainda que pouco chegássemos às janelas, alguns conhecidos que, de longe, nos cumprimentavam. Que horrível dia! Meu Deus! Vários alvitres foram levantados. Ninguém sossegava.

Às 2 horas finalmente chegou a tal Comissão do Governo Provisório, que anunciavam desde a véspera, com uma mensagem a Papai, exigindo sua retirada para fora do país. Compunha-se do Major Solon e outros oficiais subalternos.

Por sua atitude respeitosa pareciam ir cumprir uma mensagem ordinária. O Major Sólon mostrava-se tão perturbado que ao entregar o papel a Papai deu-lhe o tratamento de Vossa Excelência, Vossa Alteza e finalmente Vossa Majestade. Entregando-o a Papai, o Major Sólon disse: “Venho da parte do Governo Provisório entregar mui respeitosamente a Vossa Majestade esta mensagem”.

— “Não tem Vossa Majestade uma resposta a dar ?“ disse ele.

— Por ora não, respondeu Papai.

— Então posso retirar-me? disse Sólon.

— Sim, respondeu Papai.

Só às pessoas que se achavam no Paço, Papai declarou que se retirava, e que se não fosse pelo país, para ele, pessoalmente, era uma despachação. Papai sempre calmo e digno.

Dizer o que se passava em nossos corações, não é possível!

A ideia de deixar os amigos, o país, tanta coisa que amo, e que me lembra mil felicidades de que gozei, fez-me romper em soluços! Nem por um momento desejei uma menor felicidade para minha pátria, mas o golpe foi duro!

À noite fomos descansar, algumas pessoas tiveram licença de sair para os arranjos necessários.

O Lassance tinha que vir falar com Gaston, e depois de uma hora da noite bateu à porta. Pensando que só era ele e não imaginando dever partir tão cedo, nem esperando por mais essa picardia, deitei-me de novo quando Gaston voltou a dizer-me de levantar-me que o Mallet e o Simeão estavam aí pedindo da parte do Governo Provisório que Papai partisse antes do dia, o povo parecendo querer fazer alguma manifestação, e os rapazes das Escolas já com metralhadoras para atirarem sobre quem quisesse resistir. Acordei então Papai e Mamãe e, com eles, Pedro Augusto, Josefina, o Aljezur, Tamandaré, Mota Maia, embarcamo-nos, dizendo-se que íamos para o “Alagoas”. Despediram-se de nós no Cais Pharoux, Miranda Reis, Penha, Marianinha, Pandiá e Senhora.

Papai quis saber do motivo que fazia precipitar sua partida declarando que só consentia nisso para evitar conflito inútil. Ao embarcarmos, disse eu ao Mallet que se eles tivessem qualquer lealdade não deixariam de declarar isto; o mesmo já Papai dissera antes e tornou a repeti-lo e chegando já ao cais depois de algumas palavras trocadas, disse: — Os senhores são uns doidos!

Foi a única frase um pouco dura, mas bem merecida, que Papai lhes disse.

Ao pôr o pé no vapor, foi que soubemos que em vez do “Alagoas” levavam-nos para o “Parnaíba”. Em tudo notamos receio e atrapalhação.

Os meninos que, na véspera, mandáramos chamar de Petrópolis, chegaram, graças a Deus, com o Doutor, Mr. Stoltz, o Rebouças e o Welsensheim (Ministro Austríaco). Com os outros diplomatas que estavam no Rio, foram de uma grande má fé; no sábado já os tinham impedido de vir-nos ver no Paço da Cidade, e no domingo, depois de os fazerem subir para o salão do Arsenal com promessa de irem a bordo despedir-se de nós, na hora de embarcarem Mariquinha e Amandinha, lhes foi declarado que não podiam mais ir porque não teriam condução para a volta. Entretanto, o “Parnaíba” tinha levado ordem de voltar da Ilha Grande! Vieram a bordo do “Parnaíba” Maria Eufrásia e Sebastião Laje. Domitília, que também veio, só nos pôde ver de longe.

O “Alagoas”, onde embarcou a comitiva que se achava fora em arranjos meus e deles, partiu a 1 hora e meia. Estiveram a bordo do “Alagoas” algumas pessoas que procuraram ver-nos. Carapebus (que entrara às escondidas com a Condessa, do Paço no dia 16, assim saíram encarregados por nós de velar pelos meninos, caso fosse necessário), Mariquinha, Yeats, Lopo Diniz e filho, Mamoré e Beaurepaire-Rohan.

Quanto ao “Parnaíba”, depois de muitos recados desencontrados, saiu conosco barra fora as 10 e meia e dirigiu-se a Ilha Grande, onde então passaríamos para o “Alagoas”. Às 8 horas da noite, com efeito, apesar da escuridão que era muita, e do mar agitado, passaram-nos para bordo do “Alagoas”, onde encontramos a nossa comitiva bem sobressaltada com a difícil trasladação a tais horas de um navio para outro; e na verdade perigo havia sobretudo para Papai e Mamãe, e para as crianças. À meia-noite partiu da Ilha Grande o “Alagoas”, com direção à Europa, passando defronte do Rio de Janeiro no dia 18 às 6 e meia da manhã.

Nesse dia, o “Riachuelo” veio ter conosco e até agora nos segue, obrigando-nos, muitas vezes, a parar ou retardar nossa marcha, e fazendo um papel ridículo e tolo: guardar quem eles devem bem saber nada podem empreender agora, pois o resultado seria conflitos e sangue.

O “Riachuelo” acha vir guardando-nos, entretanto posta-se do lado do mar, deixando-nos assim livres de dirigirmo-nos para qualquer província sem que ele nos possa impedir, pois a sua marcha é só de pouco mais de metade da nossa, acrescentando-se ainda que nem se saberia haver sós, pois levam todo o tempo a pedir-nos rumo!

(Tudo isto foi escrito antes do “Riachuelo” largar-nos a 22 de novembro de 1889 e copiado muito mais tarde em Cannes, assim como o que segue escrito em diferentes datas anotadas. Acho mais, no borrão a lápis, uma nota, que, por ser difícil intercalar no que precede, copio-a agora aqui mesmo:

— Papai incomunicável, assim como o ministério sitiado, mandei pedir ao Dantas que me dissesse o que pensava. Veio logo ter comigo, e sem encarregá-lo de missão alguma política, pois nada devia fazer a esse respeito, pedi-lhe que visse o que dever-se-ia empreender e nesse intuito saiu de minha casa. Quando penso agora que ele me disse:

“Vossa Alteza não receie nada, peço que tenha toda confiança em mim, eu não quero república, eu não admito república!”.

De bordo do Riachuelo tinha vindo para bordo do Alagoas (já aí se achava quando embarcamos) o Tenente Amorim Rangel; este tendo adoecido veio substitui-lo o Tenente Magalhães Castro. Ambos a bordo e vão conosco até Lisboa.

No dia 30 de madrugada chegamos a São Vicente do Cabo Verde e no dia 1 partimos com a nossa bandeira arvorada.

Saúdes boas até o dia 1. Mamãe nesse dia sentiu-se resfriada e no dia 2 ficou no quarto. No dia 2, ao jantar, bebemos à saúde de Papai, ele respondeu as nossas saúdes brindando: À prosperidade do Brasil!

Todos cordialmente tomaram parte no nosso regozijo, e o comandante e gente de bordo mostravam-se especialmente dispostos a nos testemunhar sua simpatia por todos os modos possíveis, o Tenente Magalhães Castro, de farda, conservou-se todo o dia, e veio nos saudar pelo aniversário. Todos os da comitiva escreveram pensamentos, que, assinados, viemos entregar a Papai. Foi grande minha comoção quando, de manhã, vim abraçar Papai. Já no dia meu coração sobressaltava-se ao ver içar, ao sair de São Vicente, a nossa bandeira, ainda não hasteada neste vapor desde a partida. Não pude deixar de bater palmas e tive um momento de grande júbilo. Parecia-me a esperança! Lembrei-me de tantos momentos de verdadeira felicidade!

Desde este dia Pedro Augusto voltou ao seu estado natural; já a bordo do Parnaíba mostrava-se receoso de tudo e de todos os que não eram da comitiva, vendo ciladas, assassinatos e veneno por toda a parte. Tivemos sérios receios pelo seu juízo, sobretudo a bordo do “Alagoas”.

4 de dezembro de 1889.

Avistamos ontem Tenerife, primeiro o pico sobre as nuvens e a parte baixa da ilha por baixo delas, depois a ilha de mais perto, mas já o pico nas nuvens. Mar inteiramente calmo, quando na véspera não pudera levantar-me.

5 de dezembro de 1889.

Para maior clareza e evitar dúvidas futuras, direi que, do Rio, no Parnaíba, como pessoas que acompanhavam a Família Imperial, vieram Josefina, Aljezur, Mota Maia, Manuel Mota Maia e o Rebouças que aí chegara, vindo de Petrópolis, juntamente com os meninos, e mais as duas criadas de Mamãe e os dois criados dos meninos.

O Amarante, a senhora e o pequeno Manuel vieram despedir-se de nós na Ilha Grande, tendo ido no Alagoas e voltando no Parnaíba. Mr. Stoll do Parnaíba saíra ainda no Rio para despedir-se dos seus e buscar suas coisas e só pode ir ter conosco na Ilha Grande, no Alagoas, assim como os Tostas (Eugeninha tinha saído com eles para se arranjar) que tinham ido a minha casa e à deles na noite de 16 para 17 para arranjos meus e deles e despedidas, os Dórias que também tinham ido a arranjar e despedidas pela mesma ocasião e minha criada que tinha seguido os Tostas por causa de minhas malas.

Cannes, 30 de maio de 1890.

MINHAS CONVERSAS A BORDO DO “PARNAÍBA”

Com um oficialzinho da fazenda, ainda parados no porto:

— Vossa Alteza compreende que esta transformação era necessária.

— Pensava que se daria, mas por outro modo: a nação iria elegendo cada vez maior número de deputados republicanos, e estes, tendo a maioria, nos retiraríamos.

— Assim nunca podia ser feita, porque o poder é o poder.

— Quanto a ser a expressão da vontade da nação, não. Estou convencida de que se cada um votasse livremente, a maioria por meu Pai seria incontestável. Agora tudo foi feito pelo exército, armada, por conseguinte pela fôrça. Pode-se mesmo dizer tudo foi feito por alguns oficiais.

— Mas ver-se-á isto por meio da constituinte proximamente.

— Não disse o senhor que o poder é o poder?!

O rapazinho, aliás, falava respeitosamente e parecia bem intencionado e comovido da nossa dor.

Com o comandante do “Parnaíba”, Palmeira:

— Falava-se das questões militares. Veio a falar-se de suas diferentes fases do momento em que se quis obrigar o exército a ir pegar os pretos fugidos em São Paulo. Disse em resumo isto: o exército deve obedecer, mas também quem manda deve igualmente lembrar-se que manda a pessoas a quem deve certas considerações.

Falando-se dos acontecimentos que deram lugar a crise, e das acusações que se nos faziam de intervenção, dissemos que nunca nos metíamos nos negócios (o Estado, e que até ignorávamos completamente que tivessem embarcado ou devessem embarcar corpos do exército.

Escrevo tudo isto, porque é raro relatar-se exatamente o que se ouve.

Soube em viagem que, no dia 10, embarcara um batalhão; no dia seguinte a noite do baile da Ilha Fiscal, o que dera ocasião a que se dissesse que, enquanto uns se divertiam, gemiam as famílias dos soldados. Soube que muitas poucas pessoas do exército e da armada foram convidadas para o baile. Que o C. de Oliv. [Candido de Oliveira] mostrara-se áspero em certas ordens como Ministro da Guerra. Que o Chefe de Polícia Basson, em conferência de ministros que precedeu ao baile dissera que os militares preparavam uma grande reunião para essa noite. Na conferência seguinte os colegas, perguntando o que havia, o C. de Oliv. respondeu não ter havido nada de importância. Na noite de 14, às 9 horas, foram (creio que o Basson mesmo) avisar o Ouro Preto de que o regimento tal se rebelara. O Ouro Preto começou por não dar grande importância a tal informação, tanto que só a 1 hora da noite, depois de outras informações, é que fora para a Secretaria de Justiça.

A senhora do Rio Apa, no dia 14, à noite, fora à casa de Amandinha.

O Dória voltara de Petrópolis muito endefluxado e se achava em cima.

Amandinha recebeu a senhora em baixo. Esta lhe disse que as coisas não pareciam boas, que o marido devia vir também à casa dela.

Chegado este, só falou com Amandinha com meias palavras e foram-se.

Mais tarde, o Dória exprobrando o Rio Apa de não tê-lo avisado, este respondeu que pensava que, como ministro, deveria estar ao fato de tudo. Este, no dia 15, a sua brigada tendo bandeado, parecera ir colocar-se ao lado dos ministros, foi demitido pelos revoltosos e, logo depois, fez a ordem do dia em que declara o dia 15 de novembro o mais glorioso! Expliquem tudo isto!

RESUMO

Grande incúria, muita falta de cuidado, sobretudo por parte dos ministros da Guerra e Justiça, personificados no C. de Oliv.; corda esticada demais pelo C. de Oliv. e Ouro Preto; Exército ou antes oficiais muito minados pelas idéias republicanas e sabendo proceder com muita discrição; tolice do Deodoro que, estou convencida, foi mais longe do que queria; esperteza do Bocayuva e Benjamin Constant que souberam aproveitar a ocasião; verdadeiro ratoeiro para o ministro e para nós e, finalmente, força maior que decidiu tudo.