Há 170 anos nascia D. Leopoldina Thereza do Brasil, irmã da Redentora

D. Leopoldina do Brasil, Princesa Ludwig August de Saxe-Coburgo-Gotha, Duquesa em Saxônia. Fotografia de August Stahl. 1864/1865. Arquivo Histórico do Museu Imperial / Ibram / MinC.

 

 

No dia dos 170 anos de nascimento da Princesa D. Leopoldina Thereza (1847-1871), terceira filha de D. Pedro II e D. Thereza Christina Maria, o IDII rende homenagem à mais querida amiga de D. Isabel, finada novíssima em Viena, junto de sua irmã.

Reproduz-se abaixo artigo sobre a “Duquesa de Saxe”, da lavra do historiador e ideólogo Gustavo Barroso (1888-1959), cearense radicado no Rio de Janeiro, um dos idealizadores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, hoje Iphan) e do Museu Histórico Nacional (MHN). O artigo foi publicado na revista O Cruzeiro, edição de 11.08.1951, e está disponível para download aqui, proveniente da biblioteca virtual do MHN.

O bisneto de D. Leopoldina Thereza, D. Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança, escritor renomado e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, considera que o artigo não faz jus ao quilate de Barroso, por alguns erros que contém. Deve-se advertir, contudo, que o texto é datado, como o são todas as produções historiográficas, e eventuais lapsos podem ser devidos à rapidez com que foi preparado para publicação em semanário de circulação nacional.

Especiais agradecimentos pela gentileza do envio e confirmação de dados ao bibliófilo e livreiro juiz-forano Jean Menezes do Carmo e à historiadora muriaense Erika Morais Cerqueira, especialista na obra barroseana.

 

A SEGUNDA FILHA DE D. PEDRO II

Em documento de sua autoria, a Princesa D. Isabel a Redentora — filha mais velha de D. Pedro II –, diz o seguinte: “A 2 de dezembro de 1864, chegavam ao Rio o Conde d’Eu e o Duque de Saxe. Meu pai desejava essa viagem, tendo em mira nossos casamentos. Pensava-se no Conde d’Eu para minha irmã e no Duque de Saxe para mim. Deus e nossos corações decidiram diferentemente, e a 15 de outubro de 1864 tinha eu a felicidade de desposar o Conde d’Eu…” Por essa confissão, mais uma vez se verifica que o homem põe e Deus dispõe, como bem diz o povo, juiz de multimilenar sabedoria. O coração das princesas, imperiais desviou desta sorte o curso dos arranjos políticos e o Duque de Saxe, ao invés de Príncipe Consorte da herdeira do trono do Brasil, se tornou marido da segunda filha do Imperador.

Era esta D. Leopoldina, nascida no Rio de Janeiro a 13 de ju­lho de 1847, então com 17 anos de idade, de beleza comparável à de D. Francisca, Princesa de Joinville, sua tia e madrinha, e à de D. Amélia de Beauharnais, neta de Josefina Bonaparte e segunda mulher de D. Pedro I. A projeção histórica de D. Isabel, três vezes Regente do Império, herdeira da coroa e libertadora dos escravos sombreou a figura de sua irmã mais moça, cujo destino foi menos brilhante em sua curta trajetória pelo mundo. Mas a formosura, o recato, a simplicidade, a discrição e a graça da segunda filha de D. Pedro II tornam a sua figura extraordinariamente simpática aos que estudam a vida e os atos das pessoas da Casa Imperial.

Seu marido, Luís Augusto de Saxe Coburgo Gotha, Duque de Saxe, pertencente à mais ilustre casa que dera e ainda daria príncipes consortes e soberanos para vários tronos europeus, irmão do futuro czar dos búlgaros, sobrinho de D. Fernando, marido de D. Maria II de Portugal,primo do Rei Leopoldo da Bélgica e do Príncipe Alberto, esposo da Rainha Vitória da Inglaterra, nascera no Castelo d’Eu, em França, em 9 de outubro de 1845. Era, portanto, somente dois anos mais velho do que sua mulher.

Os casamentos das filhas de D. Pedro II, celebrados ambos sendo Ministro do Império o Conselheiro José Liberato Barroso, realizaram-se em datas diversas. O de D. Isabel com o Conde d’Eu, como já ficou dito, a 15 de outubro de 1864. O de D. Leopoldina com o Duque de Saxe, a 15 de dezembro do mesmo ano. O primeiro foi nomeado marechal do Exército brasileiro; o segundo, almirante da Esquadra Imperial. Os dois estiveram presentes à rendição de Uruguaiana e o Conde d’Eu foi o comandante-chefe de nossas forças vitoriosas no último período da campanha do Paraguai.

Do consórcio da filha segunda de D. Pedro II com o Duque de Saxe nasceu a 19 de março de 1866 no Rio de Janeiro o Príncipe D. Pedro de Alcantara Augusto Luís Maria Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. conhecido na nossa História simplesmente como D. Pedro Augusto, neto preferido do Imperador e da Imperatriz, pela inteligência, amor ao estudo e dedica­ção aos avós que o educaram. Pouca gente sabe que durante nove anos, de 1866 a 1875, isto é, até nascer D. Pedro de Alcântara, filho primogênito de D. Isabel e do Conde d’Eu, de acordo com a Constituição do Império, foi D. Pedro Augusto considerado herdeiro presuntivo da coroa. Vale dizer que, se nesse espaço de tempo falecessem D. Pedro II e D. Isabel, ao trono imperial do Brasil subiria um representante da velha e nobre casa de Saxe Coburgo Gotha. É corrente ter havido até certo movimento de opinião nas rodas do Paço de S. Cristóvão e nos círculos políticos favorável à apresenta­ção às Câmaras duma emenda constitucional regulando a sucessão da coroa a favor do neto mais velho do Imperador.

Chamou-se o segundo filho de D. Leopoldina e do Duque de Saxe, D. Augusto Leopoldo, tendo nascido no Rio de Janeiro a 6 de de­zembro de 1867. Era arrebatado de gênio e dado a conquistas amorosas como seu bisavô D. Pedro I. Casou em 1904 com D. Carolina, Arquidu­quesa da Áustria, e teve oito filhos. Ainda no Rio, a 21 de maio de 1869, nasceu o terceiro filho do casal, D. José Fernando, que faleceu solteiro em 1888. Já o quarto filho, D. Luís Gastão, nasceu no Castelo de Ebenthal a 14 de setembro de 1870, veio ao Brasil e casou duas vezes, a primeira com a Princesa Matilde da Baviera, a segunda com a Condessa Maria Ana de Trauttmansdorf-Weinsberg.

Como se vê, a segunda filha do Imperador e seu esposo retira­ram-se para a Europa em 1870 e ali em breve D. Leopoldina se extinguiria, vítima dum ataque de tifo, que a levou para o túmulo no Castelo de Eben­thal, a 7 de fevereiro de 1871. Tinha somente 24 anos de idade. É compre­ensível, pois, a afeição que D. Pedro II e D. Teresa Cristina dedicaram ao Príncipe D. Pedro Augusto, que representava a filha morta em plena moci­dade e que correspondia plenamente pela sua formação mental e seu caráter a esse sentimento de seus avós. Uma anedota relatada por Múcio Teixeira pinta como zelava D. Pedro II pela educação moral do seu neto. Tendo ido D. Pedro Augusto a um baile na casa duma fidalga, no Rio Comprido, dele somente voltou alta madrugada. Ao entrar no seu aposento do Paço de S. Cristóvão, deparou com espanto o Imperador deitado em sua cama, lendo à luz duma vela o D. Quixote. D. Pedro 11 levantou-se à sua chegada e disse- lhe risonho: “- Filho, a cama dum rapaz solteiro não deve ficar abandonada a noite inteira. Vi-a tão solitária que lhe vim fazer companhia. Peço-te ape­nas que me não obrigues a repetir esta noitada, porque os velhos não devem alterar seus hábitos e só tu me obrigarias a isto.”

A lição serviu e nunca mais o jovem Príncipe passou uma noite fora de casa. Esse rapaz educado tão nobre e severamente foi quem mais sofreu o golpe desfechado sobre o velho Imperador a 15 de novembro de 1889. Viajava ele, desde 27 de outubro de 1888, como segundo-tenente, em volta do mundo, a bordo do Almirante Barroso, do comando do então Capitão-de-Mar-e-Guerra Custódio José de Melo, quando em Colombo, capital da ilha de Ceilão, chegou a notícia da proclamação da República. O comandante do navio recebeu ordem para desembarcá-lo, o que fez contrariado, sendo emocionante a despedida do jovem e cor­reto oficial.

O choque sofrido nessa ocasião abalou de tal modo D. Pedro Au­gusto, feriu-o tão profundamente que chegou na Europa com o juízo afe­tado. Depois de cuidadoso tratamento, melhorou consideravelmente. Em vias de pleno restabelecimento, a morte do avô exilado em Paris causou-lhe tamanha mágoa que a insanidade voltou. Então, foi internado no Hospício de Tulln, na Baixa Áustria, onde veio a falecer a 7 de julho de 1934.

Seu irmão D. Augusto Leopoldo, marido da Arquiduquesa Ca­rolina da Áustria, serviu, sem perder os direitos de cidadão brasileiro, por decisão do Imperador Francisco José, na Marinha austríaca, tendo feito brilhante exame de admissão, graças ao curso que tirara na Marinha do Brasil. De sua correspondência mantida no decurso de longos anos com amigos brasileiros, sobretudo os Barões da Estrela e de Maia Monteiro, se vê que nunca se pôde acostumar de todo à vida da Europa e constantemen­te carpia saudades de sua pátria. Quando revogado o banimento da Família Imperial pelo Presidente Epitácio Pessoa, pretendia D. Augusto Leopoldo vir ao Brasil; mas o destino não lhe permitiu a satisfação dessa vontade: faleceu a 11 de agosto de 1922 no Castelo de Schladming. A única pessoa da Casa de Saxe-Coburgo-Gotha Bragança, formada pelo casamento da segunda filha de D. Pedro II, que pisou terras do Brasil depois do exílio da Família Imperial foi D. Teresa Cristina Maria, sua filha, em companhia de seu esposo, no ano de 1938.

Leopoldina e seu marido, enquanto viveram no Brasil, ocu­param o Palácio denominado do Duque de Saxe, que ficava ao pé da Quin­ta da Boa Vista, num parque limitado dum lado pela atual Rua General Canabarro e do outro pela Central do Brasil, terrenos cortados atualmen­te pela Avenida Maracanã. Nesse palácio, morou após a partida dos pais para a Europa, quando se tornou homem, o Príncipe D. Pedro Augusto. Restaurou-o com o maior gosto, mobiliou-o com alfaias de valor trazidas da Alemanha e ali deu recepções e banquetes que fizeram época. Com a proclamação da República, essas relíquias foram dispersadas em apressado leilão, a casa entregue ao Ministério da Guerra e por fim destruída para dar lugar a novas construções. Do Palácio do Duque de Saxe restam somente hoje dois dunquerques com altos espelhos brasonados e dourados, felizmente recolhidos ao Museu Histórico Nacional. Suas faces, inúmeras vezes, nos bons tempos idos, refletiram a face pensativa do jovem D. Pedro Augusto, destinado à loucura, e a peregrina beleza da segunda filha de D. Pedro II, D. Leopoldina Teresa Francisca Carolina de Bourbon Bragança e Saxe-Coburgo-Gotha, destinada a uma morte prematura longe da família e da pátria. Suave e graciosa figura, cheia de beleza, de virtude e de modéstia, que as circunstâncias da vida levaram para longe do país natal como folha que o vento açoita.

Gustavo Barroso

 

Baixe o artigo original, com as imagens: A Segunda Filha de D. Pedro II – GBARROSO

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