REVISTA VEJA – Uma senhora soberana

UMA SENHORA SOBERANA

Textos inéditos refazem a trajetória da imperatriz Leopoldina e mostram que a mulher traída e humilhada por dom Pedro I teve papel decisivo nos destinos do Brasil

MARIA CLARA VIEIRA

 

 

D. LEOPOLDINA: A HISTÓRIA NÃO CONTADA, de Paulo Rezzutti (LeYa, 464 páginas, 64,90 reais).

MARIA LEOPOLDINA, imperatriz do Brasil, entrou para a história pela porta da tragédia: a pobre princesa humilhada e deprimida pelas infidelidades e pelos maus-tratos do marido, dom Pedro I. O retrato é verdadeiro, mas Leopoldina não foi só uma soberana melancólica. À medida que documentos inéditos sobre ela são tirados do baú do passado, onde repousaram por 200 anos sem despertar maior interesse, e outros já conhecidos são analisados em profundidade, vem à luz uma jovem alegre, uma noiva apaixonada e uma imperatriz bem preparada e perspicaz, que desempenhou papel relevante em momentos definidores da formação do Brasil. Culta, esclarecida e decidida, Leopoldina dedicou-se com fervor ao movimento pela separação de Portugal depois que a corte de dom João VI retornou à Europa, o herdeiro Pedro permaneceu como seu representante e o Brasil se viu na iminência de voltar a ser mera colônia. “Fiquei admiradíssima quando vi, de repente, aparecer meu esposo, ontem à noite. Ele estava mais bem-disposto para os brasileiros do que eu esperava ó mas é necessário que algumas pessoas o influam mais, pois não está tão positivamente decidido quanto eu desejaria”, confidenciou em carta a seu secretário meses antes da independência, em setembro de 1822. Ela se apaixonou pela causa e abandonou o sonho de retornar à Áustria. “Costumo dizer que o ‘fico de Leopoldina é bem anterior ao de dom Pedro”, diz o pesquisador Paulo Rezzutti, autor de D. Leopoldina: a História Não Contada, a ser lançado na semana que vem.

Além da preocupação sincera com o futuro dos brasileiros ela era querida e admirada pela população, a mulher de dom Pedro tinha motivos muito práticos para apoiar a independência. Via o trono de Portugal enfraquecido e ameaçado por disputas. Concluiu que, permanecendo aqui, sua família manteria maior prestígio e projeção entre as coroas europeias. “Era uma mulher obcecada em garantir um trono para os filhos”, explica a historiadora Mary Del Priore, outra estudiosa da nobre austríaca. Independentemente das razões que a moviam, a relevância política de Leopoldina é incontestável. Em pelo menos três ocasiões em que viajou, dom Pedro a instalou como sua representante no Rio. Ela presidia o Conselho de Estado, órgão que assessorava o príncipe, na sessão de 1822 em que os conselheiros se puseram a favor da separação do Brasil de Portugal e da contratação de mercenários para a luta contra as tropas portuguesas. O passo seguinte foi o grito às margens do Ipiranga.

A biografia retrata com pinceladas até então desconhecidas a jovem arquiduquesa da rica e poderosa casa austríaca de Habsburgo que se casou por procuração com dom Pedro (no segundo centenário de sua chegada ao Brasil, ela é personagem na novela das 6, Mundo Novo, que estreia no dia 22, vivida por Letícia Colin). Até agora, pouco se sabia a respeito da longa viagem que a princesa realizou em 1817, saindo de Viena, passando pela Itália e pela Ilha da Madeira e cruzando o Atlântico rumo ao novo continente. Em seu livro, Rezzutti reproduz os escritos inéditos da condessa Maria Ana von Kühnburg, dama de companhia da arquiduquesa que viajou com ela ó a contragosto ó e narrou a experiência em um diário e em cartas ao pai e à melhor amiga. Remexer papéis empoeirados é atividade propícia a surpresas: outro livro recém-lançado (leia a resenha na pág. 96) revela aspectos desconhecidos de Antônio Conselheiro, que no fim do século XIX desafiaria a nascente República em Canudos. Os textos da dama de companhia de Leopoldina sobre a jornada em navio português, assinados com seu apelido, Nanny, revelam uma princesa inquieta e ansiosa e dão pistas da corte carola e antiquada que ela, acostumada aos refinados salões vienenses, encontraria no Brasil. “Fazer passeios com a princesa seria um crime”, relata Nanny, em referência à proibição de caminhadas pelo convés sem o devido séquito. A condessa faz ainda um relato minucioso da chegada em 5 de novembro de 1817, desde o primeiro minuto ó “Logo de manhã um grito: terra, terra, martela os ouvidos de todo mundo” ó até o encontro de Leopoldina com a nova família. “Como o rei havia anunciado que ele não poderia subir no nosso navio por ter dor numa das pernas, nossa princesa, seguida da sua corte, desceu as escadas e veio até o barco do rei, que estava rodeado de toda a sua família.” Tímidos, dom Pedro e Leopoldina mantinham os olhos baixos e “os levantavam furtivamente de vez em quando”. Rezzutti conta que procurou pelos escritos completos da condessa, dos quais conhecia apenas trechos, em museus, institutos e coleções na Europa. Acabou por encontrá-los em São Paulo, no Instituto Hercule Florence, especializado em documentos do século XIX. Nunca haviam sido traduzidos nem expostos. Outro fragmento da história apresentado no livro é o diário da própria Leopoldina na sua juventude em Viena, que se encontra no Museu Imperial de Petrópolis e permanecia inexplorado. O documento revela uma jovem impetuosa e divertida, que descreve com humor os reis e príncipes presentes ao Congresso de Viena, presidido pelo seu pai, Francisco I. “Os relatos da infância ajudam a desconstruir a ideia de que Leopoldina sempre foi dada à melancolia”, diz o historiador. A depressão abateu-se sobre ela quando o marido perdeu a cabeça por Domitila, a marquesa de Santos, e instalou a amante na corte. Em 1826, Maria Leopoldina, que teve sete filhos em sete anos — Pedro, futuro imperador, foi o caçula —, morreu em consequência de um aborto seguido de infecção. O Brasil, que nas suas palavras “nunca poderia ser subjugado pela Europa”, era independente fazia quatro anos.

Fonte: Revista Veja, edição nº. 2.522, de 22.03.2017, pp. 92-95.

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