Há 195 anos nascia D. Thereza Christina, a “Mãe dos Brasileiros”

D. Teresa Cristina das Duas Sicílias. Óleo de José Corrêa de Lima em 1843. Acervo do Museu Imperial / Ibram / MinC.

 

Sua Alteza Real a Senhora D. Teresa Cristina Maria Giuseppa Gasparre Baltassare Melchiorre Gennara Rosalia Lucia Francesca d’Assisi Elisabetta Francesca di Padova Donata Bonosa Andrea d’Avelino Rita Liutgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde di Borbone-Sicilie e Borbón, Princesa das Duas Sicílias e Princesa de Bourbon-Anjou, nasceu aos 14 de março de 1822, no Palácio Real de Nápoles.

Era a décima filha de S.M. o Senhor D. Francesco I (1777-1830), Rei das Duas Sicílias (etc.) e de S.M. a Senhora D. Maria Isabella (1789-1848), Rainha-Consorte das Duas Sicílias, nascida Infanta D. Maria Isabel de Espanha, Princesa de Bourbon-Anjou.

Quando nasceu a futura imperatriz brasileira reinava seu avô, D. Ferdinando I (1751-1825) — D. Ferdinando III de Nápoles e IV da Sicília, o primeiro a adotar o título de “Rei das Duas Sicílias”, no contexto do Congresso de Viena. A esposa dele, Rainha D. Maria Carolina (1752-1814), era a irmã predileta de Marie Antoinette da França (1755-1793). Em represália ao regicídio, a Armada napolitana uniu-se à espanhola para invadir a França Revolucionária em 1793.

A Princesa D. Teresa Cristina casou-se por procuração em Nápoles, em 30 de maio de 1843, com seu primo-sobrinho — sua mãe era irmã mais nova de D. Carlota Joaquina e sua tia, a mãe de D. Leopoldina —, D. Pedro II do Brasil (1825-1891), que foi representado na cerimônia pelo irmão da noiva, o Príncipe D. Leopoldo, Conde de Siracusa (1813-1860).

Desembarcou no Rio de Janeiro em 03 de setembro do mesmo ano e, no dia seguinte, o casal foi abençoado na Capela Imperial, pelo Bispo do Rio de Janeiro, D. Manoel do Monte Rodrigues de Araujo (1798-1863), Capelão-Mor de Sua Majestade e Conde de Irajá.

A decepção com as características físicas da consorte foi um dos episódios mais traumáticos da vida de D. Pedro II. Segundo os biógrafos antigos e contemporâneos (Heitor Lyra, Pedro Calmon e Roderick Barman), o casamento não se consumou no curso do primeiro ano.

Após o casamento, D. Teresa Cristina passou a assinar-se “Thereza Imperatriz”, “Thereza Christina” ou somente “Thereza”.

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Cartão das grandes armas da união dinástica Brasil-Duas Sicílias, idealizado por Bruno da S. A. de Cerqueira em 2002, sob consulta heráldica de Renato Moreira Gomes, com desenho de Luís Afonso Queiroz da Silva. Disponível no IDII e no Museu Histórico Nacional.

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O tempo fez brotar no casal considerável afeição. Do matrimônio nasceram:

  1. D. Affonso Pedro (1845-1847), Príncipe Imperial do Brasil;
  2. D. Isabel Christina (1846-1921), Princesa Imperial e Regente do Brasil. Imperatriz do Brasil no exílio (1891-1921). Princesa Gaston de Bourbon-Orleans, Condessa d’Eu;
  3. D. Leopoldina Thereza (1847-1871), Princesa do Brasil. Princesa Ludwig August de Saxe-Coburgo-Gotha, Duquesa em Saxônia;
  4. D. Pedro Affonso (1848-1850), Príncipe Imperial do Brasil.

Como é amplamente sabido, ambos os meninos faleceram, deixando a D. Isabel os direitos sucessórios ao trono. A perda dos bebês imperiais foi duríssimo golpe para D. Pedro e D. Thereza.

D. Thereza Christina passou 46 anos no Brasil, coadjuvando o marido, cuidando da prole, atuando na caridade social e incentivando as artes e o progresso científico e cultural da pátria de adoção. Está longe, contudo, de ter sido uma nulidade social e política. Deve-se a ela o nascedouro da imigração de povos itálicos ao nosso País. Em decorrência dos trabalhos infatigáveis com os pobres e desvalidos foi fixada no culto popular enquanto “Mãe dos Brasileiros”, epíteto que correspondeu grandemente à realidade.

Fotografia de Joaquim Insley Pacheco (1830-1912), provavelmente de 1876, constante da coleção de D. Thereza Theodora de Orleans e Bragança Martorell, publicada como “Coleção Princesa Isabel” (2008), org. Bia e Pedro Corrêa do Lago.
Trabalho de colorização da imagem por Reinaldo Elias (https://www.facebook.com/colorizandoopassado/).

Perdeu a filha D. Leopoldina Thereza, em 07.02.1871, em Viena, e ajudou a criar os netos D. Pedro Augusto (1866-1934) e D. Augusto Leopoldo (1867-1922).

Mãe e filha na Igreja da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, em 1882, visitando as obras e conhecendo os murais de João Zeferino da Costa (1840-1916). Estimava-se para essa igreja a coroação projetada de D. Isabel. Acervo Arquivo Grão-Pará / Museu Imperial / Ibram / Minc.

 

Por ocasião da Proclamação da República, deu-se trânsito horrendo, em meio a nevoeiro e penumbra, entre a canhoneira Parnahyba e o paquete Alagoas. D. Thereza Christina, idosa e debilitada, cheia de dores reumáticas, gritando pavorosamente, quase caiu no mar. Um dos traidores de plantão, Capitão Mallet — João Nepomuceno de Medeiros Mallet (1840-1907), filho do Marechal Mallet, da Guerra do Paraguai — testemunhou mais tarde que se ela ou o Imperador tivessem caído, ele se jogaria junto, afogando-se, para não ser linchado no Rio de Janeiro.

Sua Majestade Imperial faleceu em 28 de dezembro de 1889, no Grande Hotel, na Cidade do Porto, em Portugal. Sem dúvida a morte resultou do golpe militar que jamais esperou e que fê-la prisioneira domiciliar no Rio de Janeiro e proscrita do Brasil.

D. Thereza Christina morreu convalescendo da asma de que sofria, na ausência do marido e da filha — D. Isabel estava na Espanha com os tios Duques de Montpensier. Na hora da morte, a Imperatriz tinha a seu lado sua dama de honra, Baronesa viúva de Japurá, D. Maria Izabel de Andrade Pinto Lisboa (1822-1904) e a filha desta, Maria Isabel Ribeiro Lisboa, sobrinha do Almirante Marquês de Tamandaré. Recebeu os sacramentos da Igreja, pois um padre foi trazido às pressas, do meio da rua, para lhos ministrar. Foi velada e sepultada na necrópole real bragantina, a Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa, em funerais oficiais decretados pelo recém-entronizado D. Carlos I de Portugal (1863-1908), sobrinho-neto do casal.

O Conde Carlos de Laet (1847-1927), publicista e educador célebre na Primeira República, sustentava que ela foi “martirizada” no Quinze de Novembro e que esse matricídio custaria caro aos brasileiros.

Absurdamente, D. Thereza nunca havia sido biografada em todo o século XX, até que o professor de Literatura da Universidade Tor Vergata, de Roma, Dr. Aniello Angelo Avella, publicou Teresa Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos (Rio de Janeiro: Eduerj, 2014). Nas pesquisas, o autor sustenta que D. Thereza Christina não foi uma “imperatriz silenciosa”, mas uma imperatriz silenciada pela historiografia.

Os restos mortais da “Mãe dos Brasileiros” retornaram ao Brasil em 1920 e repousaram na Antiga Sé-Catedral do Rio de Janeiro (Nossa Senhora do Carmo) até 1939, quando o Presidente Getulio Vargas e o Príncipe D. Pedro (antigo Príncipe do Grão-Pará) inauguraram o Mausoléu Imperial da Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis.

D. Thereza repousa ao lado do marido e de parte de sua descendência, vez que muitos ainda jazem fora do Brasil.

Para sua perpétua memória tem-se a capital piauiense, Teresina (1852), a cidade mineira de Cristina (1852), a cidade maranhense de Imperatriz (1856), a cidade serrana fluminense de Teresópolis (1891), além de milhares de logradouros e distritos brasileiros. A Terra Indígena Tereza Cristina, do Povo Bororo, na Amazônia Legal (Estado do Mato Grosso), aguarda o reestudo de limites no âmbito da Coordenação-Geral de Identificação e Delimitação da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Fato curiosíssimo e que denota, talvez, mais importância do que os preitos oficiais dos municípios e estados é a enorme incidência do prenome duplo “Teresa Cristina”, em todo o Brasil, em homenagem inconsciente ou consciente à antiga imperatriz-consorte. Especialmente no caso de mulheres negras, o emprego do nome de batismo parece indicar um apelo isabelista. A mais famosa portadora do nome na atualidade é a cantora carioca Teresa Cristina Macedo Gomes (*1968) ou, simplesmente, Teresa Cristina.

Texto: Bruno A. de Cerqueira.

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