Tribuna de Petrópolis – D. Pedro de Alcantara: o “órfão da nação” (artigo)

 

D. Pedro de Alcantara: o “órfão da nação”

 

Anônimo. Retrato de D. Pedro II. Têmpera sobre papel, 0,49 X 0,39m, c. 1840. Acervo do Museu Imperial /Ibram /MinC. Fotografia de Jaime Acioli.

Anônimo. Retrato de D. Pedro II. Têmpera sobre papel, 0,49 X 0,39m, c. 1840. Acervo do Museu Imperial /Ibram /MinC. Fotografia de Jaime Acioli.

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Maurício Vicente Ferreira Júnior*

“Às cinco da manhã os tiros já ribombavam pelos montes de S. Cristóvão e as bandeiras hasteadas tremulavam no azulado céu; eram estes os indícios do dia do meu nascimento,
2 de dezembro, dia memorável nas páginas da história do Brasil.”
Diário de D. Pedro II. Vol. I, 2 de dezembro de 1840 (Acervo do Museu Imperial – Ibram – MinC).

“2 de dezembro de 1889 (2a fa) — 5 ¾ 64 anos.
Quase 50 destes procurei servir o Brasil e mesmo de longe o farei.
O dia parece belo, mas há os verdadeiramente assim sem esperança de voltar quase certa à Pátria?”
Diário de D. Pedro II. Vol. XXIX, 2 de dezembro de 1889 (Acervo do Museu Imperial – Ibram – MinC).

Para celebrar o aniversário de nascimento do carioca mais ilustre de todos os tempos, Pedro de Alcantara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, e que governou o Brasil como o imperador D. Pedro II, elegemos duas referências produzidas pelo próprio e anotadas em seu diário por ocasião de seu aniversário. Pela forma, ambas as anotações parecem dirigidas para a posteridade ao mesmo tempo em que, pelo conteúdo, expressam momentos específicos da vida de D. Pedro de Alcantara.

Na primeira, datada de 1840, vemos o imperador-menino, de apenas 15 anos, crente na dimensão quase apologética da sua representatividade com relação ao país. Órfão de mãe ainda bebê e de pai aos 9 anos, D. Pedro foi educado, tutorado, formado para governar sob a égide da ordem monárquica que seu reinado viria consolidar. E a alvorada festiva com tiros de canhão e bandeiras tremulando no céu azul reconhece o 2 de dezembro como “o dia memorável nas páginas da história do Brasil”, como o próprio aniversariante vaticinou. O retrato de D. Pedro II, de autor anônimo, ilustra bem essa atmosfera. Na têmpera sobre papel, o retratado aparece, em frente ao portal do Palácio de São Cristóvão, trajando farda imperial de gala e portando a insígnia da ordem do Tosão de Ouro e a placa de Grã-Cruz da Imperial Ordem do Cruzeiro do Sul, referências do seu status político.

Félix Tournachon "Nadar". Retrato de D. Pedro de Alcântara. Fotopintura sobre cartão, 1,15 X 0,88m, c. 1891. Acervo do Museu Imperial /Ibram /MinC. Fotografia de Jaime Acioli.

Félix Tournachon “Nadar”. Retrato de D. Pedro de Alcantara. Fotopintura sobre cartão, 1,15 X 0,88m, c. 1891. Acervo do Museu Imperial /Ibram /MinC. Fotografia de Jaime Acioli.

Na segunda anotação, datada de 1889, vemos o imperador destronado que, do exílio imposto pelo governo republicano provisório, registra os anos de dedicação ao Brasil, expressa devoção à pátria e, sem rancor, manifesta a tristeza de não poder retornar ao seu país em vida. Tal sentimento está impresso na imagem-símbolo do epílogo da vida de D. Pedro de Alcantara. Na fotopintura de Félix-Tournachon “Nadar”, de c. 1891, vemos o ex-imperador do Brasil em trajes civis e aparência debilitada pela doença. A imagem pode ser entendida como a reiteração final do epíteto que vale por toda uma vida: Pedro de Alcantara, o órfão da nação.

 

*Maurício Vicente Ferreira Júnior é
historiador, professor da Universidade Católica de Petrópolis, sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e diretor do Museu Imperial – Ibram – MinC.

 

(Artigo publicado em A Tribuna de Petrópolis, 02.12.2016, p. 4.)

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