Artigo – Há 120 anos era deflagrada a Guerra de Canudos

Há 120 anos era deflagrada a Guerra de Canudos

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira*
Flavio de Barros. Vista panorâmica de Canudos antes do assalto final (imagem formada a partir de duas fotos originais), 1897. Canudos, Bahia / Acervo Instituo Moreira Salles. In: Brasiliana Fotográfica.

Flavio de Barros. Vista panorâmica de Canudos antes do assalto final (imagem formada a partir de duas fotos originais), 1897. Canudos, Bahia / Acervo Instituto Moreira Salles. In: Brasiliana Fotográfica.

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Há 120 anos, entre 21 e 24.11.1896, foi rechaçada a primeira expedição militar contra Canudos, o arraial liderado por Antonio Vicente Mendes Maciel, o Antonio Conselheiro (1830-1897). A tropa, que perfazia 3 oficiais, 113 soldados, um médico, uma ambulância e dois guias, sob comando do Tenente Manuel da Silva Pires Ferreira, foi surpreendida pelos canudenses durante a madrugada, em Uauá. Após lutas corpo-a-corpo e com os recursos bélicos e de pessoal com que contavam o Exército e a força policial, morreram em torno de 100 conselheiristas. Do lado da força armada morreram um oficial, sete praças e os dois guias. Estas perdas, embora consideradas insignificantes quanto ao número, ocasionaram a retirada das tropas e inauguraram o conflito entre o Governo da República e o Arraial de Belo Monte — comunidade de “fanáticos”, “celerados” e “bárbaros”.

Em 25.11.1896, o Presidente Luiz Vianna (1846-1920), da Bahia, encarregou o Major Febronio de Britto, do mesmo 9º Batalhão de Infantaria, a seguir em nova expedição contra Canudos. Após dissensões entre o governo baiano e o General Frederico Solon de Sampaio Ribeiro (1839-1900) — o mesmo que, quando major, entregara à Família Imperial a ordem de exílio, em 1889 — as tropas se dirigiram a Canudos, com cerca de 600 homens, do Exército e da Polícia estadual, que receberam recursos e víveres dos fazendeiros da região. Assim como a primeira, esta expedição foi violentamente debelada pelos conselheiristas. Em 20.01.1897, as tropas governamentais se retiraram para Salvador, sob grande prostração e frustração dos comandantes.

Em janeiro de 1897, inicia-se a terceira expedição contra Canudos, comandada pelo Coronel Antonio Moreira Cesar (1850-1897), conhecido como “o Corta-Cabeças”, por suas façanhas na Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul. Composta de 1.300 homens, 6 canhões Krupp, 2 médicos, 2 engenheiros militares, ambulâncias e comboios militares, a expedição tinha por certo que arrasaria a comunidade — chamada por Euclydes da Cunha (1866-1909) e outros jornalistas de “Vandeia brasileira”, em diversos momentos do conflito.

Afeito a práticas convencionais de guerra e não à guerra de guerrilhas, Moreira Cesar não logrou êxito no extermínio de Canudos e foi abatido por tiros de conselheiristas — ou de um soldado, descontente com a insanidade do superior, pois há várias versões do fato. Morreu horas depois e os oficiais, reunidos, decidiram pela retirada; houve baixas consideráveis no processo, morrendo 13 oficiais e quase 200 soldados, além de muitos feridos em todos os lados. Com a debandada das tropas, ficaram para trás armamentos e munição. Para os conselheiristas, foi uma nova prova de santidade e poder do líder de Belo Monte.

O establishment republicano passou a considerar irrefutável que se tratava de uma revolta monarquista e se enfureceu. Jornais monarquistas foram empastelados e saqueados em março de 1897 — Gazeta da Tarde e Liberdade, no Rio, e O Commercio de São Paulo, na capital paulista. Subindo para Petrópolis (RJ) de trem, em 08.03.1897, o Visconde de Ouro Preto, o antigo Deputado Affonso Celso de Assis Figueiredo Junior e o Coronel Gentil José de Castro, proprietário da Gazeta da Tarde, foram perseguidos e alvejados por militares ensandecidos. Tombou mortalmente ferido o último, tendo os outros dois escapado, saltando do trem e se escondendo na casa de populares. Affonso Celso pai e filho, temerosos de que mulheres e crianças de sua família pudessem padecer, tiveram de deixar o Brasil e seguir para a Europa, onde encontraram D. Isabel na França.

O chamado Palacio da Princeza, em Petrópolis, foi apedrejado dias depois do atentado a Gentil de Castro. Estava alugado à Legação da Rússia e causou incidente diplomático sério com o Governo da República.

Inexistia ligação entre os chefes monarquistas do Rio e de São Paulo e os canudenses, como declaravam os próprios antigos ministros e conselheiros. O Conde de Affonso Celso (1860-1938), quando escreve seu livro O assassinato do Coronel Gentil José de Castro (subsidios para a historia do regimen republicano no Brazil) — disponível on-line na Brasiliana Digital — no mesmo ano de 1897, afirma que seu pai teria dito que se estivessem no poder teriam igualmente combatido o “elemento perigoso”, de “bandos de fanáticos”, do sertão baiano. Afirmações de oportunidade frente ao perigo, vez que é pouquíssimo crível que D. Isabel I, enquanto chefe de Estado, fosse permitir a declaração de guerra a campesinos miseráveis e ultracatólicos.

Em 05.04.1897 teve início a quarta e última expedição contra Canudos, comandada pelo General Arthur Oscar de Andrade Guimarães e dividida em duas colunas, sob as ordens dos Generais João da Silva Barbosa e Claudio Savaget e contando com quase 3.000 militares, muitos deles recrutados à força, de diversos cantos do País.

Temendo a reunião dos conselheiristas com outros outsiders dos sertões — negros, mulatos, brancos, indígenas —, a Presidência da República empenhou todas as suas forças para a exterminação de Canudos.

Na quarta expedição o cerco foi implacável; muitos dos que se rendiam eram assassinados. Eliminar Canudos tornou-se uma “questão de honra”. A guerra durou meses e as baixas entre os “soldados da República” foram de quase um terço dos enviados. Um novo envio de 1.500 homens veio reforçar o contingente, altamente abatido, em agosto de 1897, vindo do Rio; semanas depois chegaram outros 1.500 homens, vindos do Pará, do Amazonas e de São Paulo. O próprio ministro de Estado da Guerra, Marechal Carlos Machado de Bittencourt (1840-1897) foi para o campo de batalha, no quartel de Monte Santo (BA), próximo a Canudos. No fim de setembro, chegaram ainda mais homens e o cerco ao Arraial de Belo Monte estava próximo do fim.

Em 22.09.1897 Antonio Conselheiro morreu. Não se sabe ao certo a causa mortis. As razões mais citadas são ferimentos causados por uma granada, e uma forte “caminheira” (disenteria). Em 27 de setembro tombou o braço-direito do Conselheiro, João Abade; Macambeira morreu em 01.10.1897.

Em 01.10.1897, cerca de 6.000 soldados e oficiais bombardeiam Belo Monte. Incendeiam tudo que podem e matam com fuzis, baionetas, machados e facas todos que alcançam. Acreditando em promessas dos generais republicanos, entre 600 e 1.000 conselheiristas se entregaram; os chefes foram degolados, mesmo tendo se rendido.

Em 05.10.1897 foram mortos os últimos 4 defensores de Canudos — um velho, um jovem, um caboclo e um negro alto; o Exército iniciou a contagem das casas do arraial. No dia seguinte, o General Arthur Oscar mandou atear fogo em tudo. No mesmo dia, o cadáver do Conselheiro é encontrado enterrado no Santuário de Canudos; cortam-lhe a cabeça e levam-na até a Faculdade de Medicina de Salvador para ser examinada pelo famoso médico lombrosiano maranhense Raymundo Nina Rodrigues (1862-1906), que será responsável por toda a demonização da “loucura” dos “fanáticos” de Canudos nas décadas seguintes.

Desesperados com as centenas de prisioneiros, os oficiais-generais permitiam que muitos fossem degolados pela soldadesca: a todos se ordenava gritar “Viva a República!” antes da degola. Cenas civilizadíssimas, para quem estava ali combatendo a barbárie. Inúmeros dos sentenciados gritavam “Viva o Conselheiro!” antes de morrer.

Após o horror das perseguições e mortes dos sobreviventes da campanha, até a proibição de enterro cristão foi “decretada” por um cura local, tendo os familiares dos canudenses de estabelecer cemitério em local um pouco distante.

Os “jaguncinhos”, crianças meninos e meninas, foram barbaramente distribuídos entre famílias oligárquicas e prostíbulos, sob o comando do General Arthur Oscar. Uma hediondez.

Recebidos com festanças na capital da República dos Estados Unidos do Brasil, os militares se uniram ao Presidente Prudente José de Moraes e Barros (1841-1902) para comemorar a vitória contra o “fanatismo”. Em 05.11.1897, no Arsenal de Guerra — onde hoje fica o Museu Histórico Nacional —, o jovem soldado Marcelino Bispo de Mello (1875-1898), do 10º Batalhão de Infantaria, se posicionou para matar o presidente da República, quando o Marechal Bittencourt o desarmou da garrucha, o que não impediu que o anspeçada o matasse a facadas.

Marcelino Bispo representava o furor dos praças e suboficiais que padeceram em Canudos e que eram quase tão desprezados pelo establishment republicano quanto os conselheiristas, pois que mulatos e caboclos em maioria.

Do nome do morro que dominava a cena de Belo Monte, o Alto da Favela, surgiram pouco a pouco as ocupações dos morros do Rio de Janeiro, onde se foram alojar centenas de soldados pobres abandonados à própria sorte pelo Governo Federal.

Em 03.03.1905, um incêndio na antiga Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, em Salvador (BA), fez desaparecer a cabeça do Conselheiro.

Imortalizado no romance Os Sertões (1902), de Euclydes da Cunha — o genro malfadado do General Solon Ribeiro —, o conflito de Canudos sempre gerou ambivalência em seus analistas. Era símbolo da barbárie e do atraso para seus inimigos, que se identificavam como republicanos, positivistas, letrados, científicos. Mesmo nas análises historiográficas marxistas não encontrou apreço considerável. Por fim, na batalha também por memória, o Presidente Getulio Vargas (1882-1954) mandou construir um açude no local onde um dia se erguera Belo Monte, em 1940. A barragem foi finalizada em 1969 e uma terceira Cidade de Canudos nasceu no antigo vilarejo de Cocorobó.

Em 1997, o cineasta Sergio Rezende filmografou a Guerra de Canudos, tendo no elenco José Wilker (1944-2014), que interpretou o Conselheiro, e Marieta Severo, Paulo Betti e Claudia Abreu.

Em novembro de 2006 o IDII promoveu o colóquio “Canudos: a Guerra Santa do Brasil?”, no auditório do Arquivo-Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

As fotos, célebres, que Flavio de Barros tirou na Guerra de Canudos podem ser acessadas no portal Brasiliana Fotográfica, da Biblioteca Nacional.

Aos canudenses os neoabolicionistas prestamos as mais sinceras e respeitosas homenagens.

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira é historiador, especialista em Relações Internacionais e bacharelando em Direito.

É fundador e gestor do IDII e dos programas Protokollon e MemoRio. 

Indigenista especializado (analista de Política Indigenista) da Funai, atua no Serviço de Análise de Contestações aos procedimentos de identificação e delimitação de terras indígenas. 

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Bibliografia basilar:

HERMANN, Jacqueline. Canudos: a terra dos homens de Deus. Estudos Sociedade e Agricultura, 9, outubro 1997: 16-34. Disponível em: http://r1.ufrrj.br/esa/V2/ojs/index.php/esa/article/viewFile/113/109. Acesso em: 23 nov. 2016.

MACEDO, José Rivair & MAESTRI, Mário. Belo Monte. Uma história da Guerra de Canudos. São Paulo: Expressão Popular, 2004.

VILLA, Marco Antonio. Canudos, o povo da terra. São Paulo: Ática, 1999.

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