Artigo – Marcelo Freixo, o neoabolicionismo e o preconceito político

Artigo – Marcelo Freixo, o neoabolicionismo e o preconceito político*

 

 

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira**

 

 

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Deputado Marcelo Freixo, na tribuna do Plenário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Palácio Tiradentes). Foto do PSOL-RJ.

 

 

Tece este artigo considerações sobre o “fenômeno” Marcelo Freixo no Rio de Janeiro. Tendo chegado ao segundo turno das eleições municipais cariocas e com reais chances de se tornar prefeito da Cidade, creio que se lhe imputarão características pessoais estapafúrdias, quando não vis.

O texto será recheado do que os franceses chamam de petite histoire, mas não posso tergiversar, pois, imagino, nisso estará a riqueza para os que se disponham a ler. Trata-se, também, de uma exposição considerável de minha pessoa, à qual não estou me furtando, em prol da justiça.

Freixo é um niteroiense do Fonseca, bairro outrora bem mais nobre do que hoje em dia é, mas que na infância de Marcelo já era de classe média baixa. Ele é uma liderança inconteste do Rio atual. Esse “Rio”, aqui, engloba toda a região metropolitana da antiga capital federal e corte imperial, sobretudo Niterói, que continua sendo a “segunda capital” do Estado. Marcelo é um líder identificado com os movimentos de defesa dos direitos humanos. O filme Tropa de Elite 2 (2010) deu-lhe uma visibilidade nacional e internacional, eis que o personagem “Fraga” é uma homenagem a sua história de lutas pelos direitos dos presidiários brasileiros.

Conheço Marcelo desde criança. Ele era professor do Colégio do Instituto São José, a escola da Congregação das Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora, em Santa Rosa (Niterói), na qual estudei toda a infância e adolescência e que ajudou a me formar enquanto cidadão. Marcelo foi meu professor de OSPB, ironicamente a matéria legatária do regime civil-militar que nos governou entre 1964-1985, juntamente com EMC (Educação Moral e Cívica) – muito embora OSPB tenha sido idealizada pelo grande educador Anisio Teixeira (1900-1971).

Lecionando Organização Social e Política do Brasil, Marcelo nos ensinava da “mais-valia” à “acumulação de capitais”, dos “enclosures” à “análise da alienação”, mas não ficava só nisso. Era um marxista enragé, vez que historiador formado pela UFF (Universidade Federal Fluminense), uma máquina de produção de “comunistas”, do ponto de vista de seus detratores, mas que certamente nunca se constituiu nisso.

Há muitos fatos curiosos no percurso de Marcelo. Um deles passo a narrar. Dada a proximidade do Plebiscito de 1993, em que os brasileiros sufragariam a forma de governo (Monarquia ou República) e o sistema de governo (Parlamentarismo ou Presidencialismo), passei a ser, dos 12 anos de idade em diante, um militante monarquista. No São José, participei de debates e atividades; em minha paróquia e condomínio também. Advogava firmemente a volta da Monarquia ao Brasil e explicava às pessoas o que havia sido o banimento e o exílio de D. Pedro II (1825-1891) e D. Isabel (1846-1921). Os professores da área de Humanas passaram a instar e troçar meu pai, Antonio Cerqueira (professor de Inglês), sobre de onde teria vindo aquela orientação política. Como seria possível, com a educação que o menino recebera, em colégio de freiras associadas à Teologia da Libertação e com toda uma formação “à esquerda”, tornar-se monarquista? Após brincadeiras e conversas mais sérias, o Professor Orlando, decano da Geografia, lançou mão do tirocínio de que eu era um menino idealista e que, ao contrário da esmagadora maioria dos colegas, era politizado ao extremo, tendo optado pelo monarquismo em virtude da proximidade do Plebiscito. Daí em diante, Renato, meu professor de História, e Marcelo – o Freixo – passaram a apontar aos estudantes o “aluno Bruno” como “modelar”, vez que era politizado e preocupado com a Cidade, o Estado e o País. Enxergando o monarquismo como alguma espécie de reacionarismo, diziam eles aos alunos: “_O Bruno pode até ser monarquista, mas é estudioso de História e de Ciências Sociais e sabe discutir sobre Política, coisa que a maioria de vocês desdenha.”. Desnecessário dizer o quanto me ruborizava a situação, mas entendia o contexto.

O tempo passou. Minha mãe, Leila Cerqueira, assistente social, foi chamada por uma colega servidora de INSS, neurologista e pugnadora dos direitos das pessoas com deficiência, a atuar na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) enquanto sua assessora-chefe. Marcelo passou a ser assessor, na mesma época, do Deputado Estadual Chico Alencar. Todos eles pertenciam ao PT, a agremiação semionírica de dezenas de milhões de brasileiros, na qual eram depositadas quase todas as suas esperanças, e que tantos pesadelos lhes trariam, ao se tornar governo federal na década de 2000. Mas isso é outra história.

Enquanto isso, eu estudava História na PUC-Rio. Até que Chico Alencar – historiador – foi eleito deputado federal, em 2002. Marcelo foi para o gabinete de Alessandro Molon – historiador, de novo! –, que inaugurava seu primeiro mandato parlamentar na Alerj, em 2003. Na mesma ocasião eu entrei para a equipe de Cerimonial e Protocolo da Assembleia.

Na organização dos eventos e das solenidades e no dia a dia da Casa, voltei a topar com Marcelo. Certa vez ele até zoou, dizendo à então chefe do Cerimonial que eu não me tornara monarquista por culpa dele. De chofre respondi, na arrogância típica dos vinte e poucos anos, que, de fato, ele não influíra em nada nos meus posicionamentos políticos. Mentira, pois foi o primeiro professor que leu para minha turma o “Analfabeto Político”, de Bertolt Brecht (1898-1956), e isso jamais passa in albis

Em julho de 2004, petistas desgostosos, como se sabe, fundaram o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Eram vistos, e ainda são vistos, como uma “esquerda da esquerda”. Será? Conheci alguns dos militantes: cristãos, trotskistas, gramscianos e até filo-stalinistas (!). Uns cândidos, meigos, sonhadores, outros raivosos e aparentemente impiedosos: como em todos os partidos. Mas a maturidade vem para todos. Ou deve vir. Para todos.

Em 2006 Marcelo foi candidato a deputado estadual e ganhou. Fiquei felicíssimo. Encontrei-o na Alerj no ano seguinte, quando iniciava a sua própria carreira parlamentar. Neófito, era ajudado por pouquíssimos deputados, que são uma maioria de oligarcas e cleptocratas ferozes. Um dos raros que o acolhia, se bem me lembro, era o brizolista Paulo Ramos, líder do PDT por anos a fio, hoje membro do PSOL. Marcelo já era tido e havido por combatente das milícias estabelecidas nas favelas do Rio de Janeiro; recebia centenas de ameaças de morte, extensivas a sua família. Chegou a se exilar do Brasil em uma época. Uma vez o encontrei na fila do caixa eletrônico e disse: “_Querido, eu rezo muito por você!”. Ele ficou tocado e disse: “_Puxa, Bruno, obrigado, de coração!”; e nos abraçamos. Rezar por alguém, na Alerj, não é uma retórica religiosa. É pedir a Deus que mantenha viva uma pessoa que luta contra o banditismo desenfreado que assola a política fluminense e carioca. Com isso não quero reiterar o discurso, muito perigoso, da criminalização da política, mas para quem já viu de perto o modo pelo qual é administrado o Estado do Rio de Janeiro não seria frutuoso e honesto negar o alcance do domínio de máfias e gangues em nossa desolada unidade federada. Fenômeno que evidentemente nada tem de privativo do Rio.

Os anos passaram. Marcelo identificou no trabalho de resgate histórico-cultural implementado pelo IDII – o neoabolicionismo –, um fator cidadanizante e apoiou a causa. Eu saí da Alerj e continuei as atividades do IDII, que Prof. Otto de Sá Pereira e eu havíamos idealizado, em 2000, e fundado em 2001.

No 13 de maio de 2008, recebeu o Título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, em caráter post-mortem, o Visconde do Rio Branco, Conselheiro José Maria da Silva Paranhos (1819-1880). Qual deputado propôs a honraria? Marcelo, o Freixo… (Confira-se aqui a resolução legislativa estadual) No dia da cerimônia, que ocorreu, como sempre se dá, na Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, ele não pôde ir entregar aos tetranetos do Visconde do Rio Branco a honorificência, por causa de seus engajamentos com a Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, mas sua equipe de gabinete se fez presente e outros deputados o representaram. Foi a mesma ocasião em que José Bonifacio de Andrada e Silva (1763-1838), Antonio Frederico de Castro Alves (1847-1871) e José Carlos do Patrocínio (1853-1905) receberam seus títulos post-mortem e seus descendentes, à exceção do último, que foi representado pela neta de Joaquim Nabuco, puderam agradecer em nome de suas famílias, após mais de cem anos de silêncio sobre esse passado glorioso. Na verdade o IDII estava repetindo o 13 de maio de 2004, em que Joaquim Nabuco, André Rebouças, o Senador Dantas e o Conselheiro João Alfredo receberam o mesmo título estadual, e das mãos de deputados “à esquerda”, como Jurema Batista (PT-RJ), que teve orgulho de participar daquele tipo de cerimônia, eis que egressa de uma escola estadual nomeada “Conselheiro João Alfredo”, que fica na Vila Isabel do Rio de Janeiro – o bairro abolicionista por excelência! Todos esses acontecimentos podem ser consultados aqui mesmo, neste blog institucional.

Acusa-se Marcelo Freixo de ser comunista e totalitarista. Improcedente. Ele é democrata. Sua adolescência já passou há muito tempo. Ele tem, hoje, 49 anos de idade. Se remanesce socialismo em seu coração rubro-negro isto em nada lhe retira a dignidade plena de cidadão honrado e engajado, que quer o melhor para o Rio de Janeiro.

Há dezenas de “socialismos” no mundo das ideias. Há, inclusive, um, que pode ser tido por cristão; que não é pró-comunista, mas é pró-comunitarista radical. Aos preconceituosos, recomendo estudarem com afinco a Doutrina Social da Igreja Católica (DSI). Muito provavelmente se chocarão e poderão percebê-la eventualmente mais “socialista” do que o programa partidário do PSOL, o que não é. O catolicismo apregoa uma reforma de si e da comunidade (a local, a regional, a nacional e a mundial, dado o universalismo) bem absolutizantes, vez que não defende a partilha dos bens da terra e o chamado “cuidado da Casa Comum” apenas como conditio sine qua nom da vida terrena, mas como condicionante da entrada no céu. Projeta na transcendência os compromissos que advêm da filiação divina universal. É algo bem mais hard e punk do que uma filosofia que tem por base o materialismo e o imanentismo. A DSI não é só um convite à conversão diária, ela é um imperativo categórico da vida comunitária dos cristãos, ela é a doutrina do Cristo posta em prática, indicando que a salvação está na ortopraxia, que necessariamente implicará em ortodoxia.

Pois bem, Marcelo é hoje em dia o “Freixo50”, candidato que concorre à titularidade da cidade mais importante da História do Brasil. A cidade onde, em grande medida, o Brasil foi feito. Não é pouca coisa. Que tenha discernimento e habilidade nas falas e alianças que construirá. Que não permita discursos aniquiladores da alteridade, que no caso atual se consubstancia na de outro Marcelo, o Crivella. O hierarca da Igreja Universal do Reino de Deus tem tudo para encarnar o “bode expiatório” e o “judas” dos discursos rasos de esquerdistas fanáticos. Marcelo Freixo tem, por seu turno, tudo para encarnar o alvo do discurso falacioso dos direitistas radicais, que o descrevem como “defensor de bandidos”, “apoiador de black-blocks”, “abortista” e outras pejorações. Será um pleito em que as clivagens entre os que têm e os que não têm formação politológica falará alto. Só espero que o PSOL carioca tenha a destreza de saber conduzir de forma serena os debates, não ajudando a ensejar polarizações estéreis e reforçadoras dos preconceitos. Que não despreze o voto daqueles a quem, tolamente, alguns de seus militantes possam lançar a pecha de “conservadores”, pois é aí, precisamente, entre católicos e protestantes tradicionais, que estará o voto a fazer a diferença para Marcelo Freixo.

Na Cidade de São Paulo a vitória acachapante contra o petismo indicou que o povo pode até não ser douto em matéria de Ciência Política, mas não é idiota nem apático. Para quem traiu a própria história biográfica e traiu os ideais de tantos militantes do passado, as urnas deram um sonoro não. Aos que sequestraram os sonhos de toda uma geração, dos paulistanos que foram votar em 02.10.2016 a maioria indicou o caminho da porta. Evidentemente serve de lição.

A Democracia, essa herança helênica de grande monta que nos chegou por intermédio dos pensadores ditos ocidentais, é algo dificílimo de construir. Somos, ainda, uma nação de cultura política autoritária e tacanha. Se no XIX éramos um Império liberal com a barbárie escravista naturalizada pelo povo e pelas classes dirigentes, na transição do XIX para o XX nos tornamos uma República sem res publica, um conluio oligárquico que atrasou o País em décadas. De 1889 para cá quantos períodos democráticos teve o Brasil? Poucos, muito poucos. Mas nada de “viralatice”: as presidenciais norte-americanas estão aí para mostrar-nos, e ao mundo, o quanto não é só o Brasil que coloca nos píncaros pessoas despreparadas, caricaturais, retrógradas e… antidemocráticas.

Que no Rio de Janeiro o cultivo de valores democráticos possa fazer um segundo turno mais bonito, com os dois Marcelos disputando sem vilipêndios, calúnias e difamações. De Crivella tenho a impressão de ser também um democrata, por uma experiência pessoal. Quando titular da pasta da Pesca e Aquicultura, solicitou minha cessão da Funai para chefiar o Cerimonial do Ministério, sem sequer me conhecer, apenas pela análise do curriculum vitae e a indicação da antiga chefe do Cerimonial da Câmara dos Deputados. Eu cheguei a perguntar à chefe de gabinete dele se minha associação com o catolicismo, que de algum modo transparece no currículo, não seria um óbice para essa nomeação, ao que ela me respondeu que esse teria sido o motivo principal pelo qual ele havia se interessado. Hoje eu sei, por uma amiga indigenista, que Crivella foi um menino do bairro da Glória, conhecido como “Marcelo Louro” pelos colegas, e que desde pequeno era apontado como sendo preparado por um tio materno a suceder-lhe à frente de uma instituição religiosa. As crianças nem entendiam o que poderia ser isso. Leio pelos jornais eletrônicos que a família paterna de Crivella teria se oposto a essa orientação, vez que católica – ítalodescendente. Em poucas palavras, um humano que fez suas opções, mas a quem a vida também impôs outras “opções”.

Que os discursos messiânicos, à direita e à esquerda, cedam lugar a debates mais sólidos e concretos, sobre a administração da megalópole carioca, a primazia do sistema educacional nas políticas públicas, a cidadanização dos excluídos, políticas de combate às drogas acuradas e não demagógicas, investimentos abissais na economia criativa, mormente no turismo histórico-cultural carioca, que pode ser uma das maiores redenções da “Cidade Maravilhosa”.

Fico por aqui, augurando que na Muy Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro seja eleito um alcaide digno de tanta história, que possa fazer uma gestão um pouco mais do hoje do que do amanhã, sem, contudo, esquecer-se do ontem.

 

 

* Artigo que exprime as opiniões do autor, não comportando avaliações do Instituto D. Isabel I (IDII) ou de seus associados.

 

 

** Bruno da Silva Antunes de Cerqueira é historiador, especialista em Relações Internacionais e bacharelando em Direito.

 

É fundador e gestor do IDII e dos programas Protokollon e MemoRio.

 

Indigenista especializado (analista de Política Indigenista) da Funai, atua no Serviço de Análise de Contestações aos procedimentos de identificação e delimitação de terras indígenas. 

 

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