VozeRio – Negros, libertos e monarquistas

Negros, libertos e monarquistas

 

A Guarda Negra da Redentora foi criada pouco depois de 13 de maio de 1888 e, segundo jornais da época, chegou a contar com cerca de 1.500 integrantes. A irmandade secreta reunia negros dispostos a dar a vida pela Princesa Isabel e movimentou o Rio até a Proclamação da República. Mais de 120 anos depois, historiadores enxergam a existência do grupo como um episódio de características únicas na história do Brasil

Foto: Capoeirista Samuel “Querido de Deus” ataca com a cabeça o estivador Maré, em roda no começo do século XX (Édison Carneiro/Biblioteca Nacional)

 

Livros cercam a mesa de Ricardo Passos. O historiador trabalha no Museu do Negro, centro cultural que fica no segundo andar da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, na rua Uruguaiana, Centro do Rio. Nas horas vagas, Ricardo vem desenvolvendo por conta própria uma investigação sobre um episódio esquecido da história do Brasil. Trata-se da existência da Guarda Negra da Redentora, grupo que reuniu negros em defesa da monarquia após a promulgação da Lei Áurea, há exatos 128 anos. Nesse trabalho, Ricardo troca a companhia dos livros pelo mergulho no acervo de documentos da igreja. “Quando eu abri a primeira caixa, voltei ao passado”, afirma o pesquisador.

“Apesar do nome, a Guarda não tinha farda ou hierarquia”

A Guarda Negra foi criada pouco depois de 13 de maio de 1888. A edição de 9 de maio de 1889 do jornal Diário de Notícias informa que o grupo, formado por carroceiros, cozinheiros e homens com outras ocupações, contava então com 1.500 integrantes. “Apesar do nome, a Guarda não tinha farda ou hierarquia”, diz Ricardo. Ele explica que ela era uma espécie de irmandade de negros gratos pela abolição e dispostos a dar a vida pela Princesa Isabel. Os encontros secretos dos integrantes aconteciam na rua da Carioca e na rua Barão de Guaratiba, no Catete – entre outros endereços. “O nosso fim não é levantar o homem de cor contra o branco, mas restituir ao homem de cor o direito que lhe foi roubado de intervir nos negócios públicos”, afirmou Clarindo de Almeida, chefe-geral da Guarda Negra, em nota divulgada pelo jornal Cidade do Rio em 3 de janeiro de 1889.

Para se defender, a arma da Guarda Negra era a capoeira. Vale dizer que a mistura dessa luta com a política não era novidade no Rio. Segundo texto da historiadora Iracema Santos Medrado, as chamadas maltas de capoeiras controlavam diferentes áreas da cidade desde meados do século XIX. Entre 1864 e 1870, integrantes desses grupos foram levados à força para a Guerra do Paraguai. Quando voltaram, passaram a ser convocados pelo Partido Conservador para a missão de intimidar eleitores a cada votação. Em troca, o Império deixava de incomodá-los no dia a dia. “Por quase toda a década de 1870, o condomínio entre políticos monarquistas e negros capoeiras deu as cartas na Corte Imperial do Rio de Janeiro”, afirma em artigo o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares.

A promulgação da Lei Áurea acirrou a briga entre monarquistas e republicanos, forçando os capoeiras da cidade a tomarem uma posição. Eles preferiram os velhos parceiros da Corte aos opositores de Dom Pedro II, ainda distantes do poder e conhecidos pelo modo cruel como tratavam os negros nas fazendas cafeeiras de São Paulo.

Em ação

O Clube Ginástico Francês ficava perto do Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes). Na noite de 30 de dezembro de 1888, o republicano Silva Jardim realizava uma conferência no espaço quando membros da Guarda Negra chegaram ao local. Em artigo, Líbano relata que o encontro resultou em “autêntica pancadaria”, repleta de rasteiras, rabos de arraia e outros golpes de capoeira. A ocorrência do tumulto é confirmada pelos jornais da época. Seis dias depois, o abolicionista José do Patrocínio escrevia a seguinte frase no Cidade do Rio, publicação da qual era dono e diretor: “É preciso que se saiba bem que a Guarda Negra se organizou para resistir e não para atacar”.

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José do Patrocínio: “A Guarda Negra é vasadoiro de quanta cólera, de quanto acesso rábico provocaram as decepções de 13 de maio”

“José do Patrocínio foi a peça fundamental na defesa da Guarda Negra”, afirma Ricardo. Segundo o pesquisador, o abolicionista buscava apresentar o movimento como legítimo e fruto das transformações de seu tempo, já que a Lei Áurea não representou a inclusão imediata do negro na sociedade brasileira. “A Guarda Negra é vazadoiro de quanta cólera, de quanto acesso rábico provocaram as decepções de 13 de maio”, escreveu ele em seu jornal em 19 de março de 1889. Entretanto, alguns intelectuais viam a agressividade envolvida nos atos praticados pela irmandade negra com menos benevolência. “Rui Barbosa se opunha a Patrocínio em relação à Guarda e, embora entendesse as razões de existir do grupo, criticava a violência por ele adotada”, conta Ricardo. Por trás da aparente discordância sobre métodos, havia uma disputa ideológica. Rui Barbosa era a favor da república. Patrocínio, monarquista.

Um novo confronto entre republicanos e a Guarda Negra aconteceu em 14 de julho de 1889. Neste dia, um comício em comemoração ao centenário da Revolução Francesa promovido pelos opositores da monarquia na rua do Ouvidor no começo da noite terminou em confusão. O artigo de Líbano informa que houve pelo menos cinco prisões: três do lado republicano e duas do lado monarquista. A essa altura, os jornais já registravam o surgimento de Guardas Negras em cidades do interior do país, como Bagé (RS), Jundiaí (SP) e Piracicaba (SP). “Maranhão e Rio Grande Norte também contaram com Guardas Negras em defesa da monarquia”, afirma Ricardo.

Em outras localidades, como Campinas (SP), Campos (RJ) e Resende (RJ), foram registrados protestos contra a irmandade. Em 14 de maio, o Diário de Notícias informou que menções à Guarda Negra foram feitas por jornais argentinos por ocasião do 1º aniversário da Lei Áurea. Em 16 de agosto, a Gazeta de Colônia, da Alemanha, mencionou a Guarda Negra em artigo sobre o Brasil, reproduzido em 20 de novembro pelo Diário de Notícias.

Mistério

Diversos fatores contribuíram para o fim da Guarda Negra. O principal deles foi a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. “Dom Pedro II estava doente e havia a expectativa de que Isabel assumisse o trono. Como isso não aconteceu, a Guarda Negra foi perdendo força”, explica Ricardo. “Além disso, o novo regime iniciou uma perseguição aos capoeiras liderada pelo chefe de polícia João Batista Sampaio Ferraz”, conta o historiador. Ricardo lembra que o apoio de Patrocínio ao novo regime também foi decisivo para a extinção do grupo. “A adesão de Patrocínio à república foi uma traição à Guarda”, diz ele. Endividado, o abolicionista tentava assim manter de pé o seu jornal.

“O destino final desses homens é um mistério”

De acordo com o artigo de Líbano, membros da Guarda foram detidos e, após um período na prisão de Santa Cruz, encaminhados para um presídio em Fernando de Noronha. “O destino final desses homens é um mistério”, afirma Líbano. Mais de 120 anos depois, Ricardo tem uma teoria que pode esclarecer esse enigma. Ele afirma que, com o fim da Guarda, a Marinha era uma das poucas alternativas restantes para os ex-membros do grupo em liberdade. O historiador lembra que a força admitia negros (diferentemente do que acontecia no Exército) e era reconhecidamente monarquista, como demonstram episódios como a Revolta da Armada de 1893. “Esse ingresso na Marinha, somado aos maus tratos sofridos nos anos seguintes por esses negros, desaguam na Revolta da Chibata”, afirma Ricardo. “Para mim, essa é uma hipótese 99% provável”, diz ele.

Se a Guarda Negra foi semente da Revolta da Chibata, só o tempo (e as pesquisas) dirão. O fato é que, embora tenha durado pouco, o movimento marcou de forma única a história do Brasil. Líbano destaca em artigo que o grupo foi uma das primeiras iniciativas a ressignificar a palavra negro, usada na época como forma de xingamento e associada a ideias negativas. Além disso, o historiador destaca o mérito da irmandade de ter angariado a simpatia de intelectuais mesmo capitaneada por um setor marginalizado da sociedade. Ricardo, que se dedica ao tema, pretende em breve publicar um artigo ou até mesmo um livro contando a trajetória da Guarda Negra. “A verdadeira história do negro no Brasil desmente muita coisa do que se aprende hoje na escola”, afirma ele.

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