Gazeta de SP – 128 anos depois: a abolição da escravatura e seus reflexos

128 anos depois: a abolição da escravatura e seus reflexos

Pesquisa relaciona desigualdade social ao menor desempenho escolar da população negra em Santos

Por Daniela Origuela
De Santos (SP)

A escravidão no Brasil foi abolida em 13 de maio de 1888. Libertos e sem acesso à direitos básicos durante décadas, os escravos foram lançados à própria sorte. Seus descendentes, pretos e pardos, hoje somam mais da metade da população e concentram a menor renda. Em Santos, a cidade de maior orçamento da Baixada Santista e com população negra inferior à branca, os números retratam os reflexos da desigualdade no País, sobretudo na educação. Os dados constam na pesquisa elaborada pela professora e mestre em Educação Ísis Fernandes, que atua no Educafro, projeto voltado à afrodescendentes e pessoas de baixa renda.

“Eu e meu orientador decidimos escolher Santos porque é uma cidade muito rica. A cidade mais rica da Baixada Santista. De acordo com os parâmetros nacionais, os negros, no Brasil, estão mais propensos ao fracasso escolar. Como Santos é uma cidade que, até 2015, estava em sexto lugar no ranking de qualidade de vida, a gente acreditava que os alunos negros da cidade poderiam ter o desempenho um pouco melhor comparado aos alunos do Estado de São Paulo e do Brasil”, afirmou Ísis.

A professora, que é formada em Letras, disse que a pesquisa foi motivada ainda durante a graduação, quando estagiava em uma escola estadual de Ensino Médio. “Percebi que os alunos negros, quando digo negro estou falando os pretos e pardos, não tinham tanta motivação, por exemplo, para participar de um vestibular de uma universidade pública. Eles não acreditavam neles. Diferente dos alunos que eram mais claros. Eu via mais disposição nesses alunos. Depois entrei no Educafro (Valongo), e lá, pelo menos naquele ano, comecei a perceber também que muitos alunos eram brancos, o que não vejo problema nenhum.

No entanto, o programa é voltado para afrodescendentes e aquele público esperado não estava frequentando da forma que deveria. Então todos esses fatores começaram a me intrigar”, destacou.

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No Brasil, os negros representam um pouco mais da metade da população; neles se concentram a menor renda (Foto: Rodrigo Montaldi/Arquivo DL)

Santos

A pesquisa elaborada por Ísis levantou dados sobre a ‘escolarização da população negra de Santos’ e foi objeto de avaliação para a obtenção do título de Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O estudo contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A professora analisou números do Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE) e do Censo Escolar de 2014.

“Santos é a cidade onde a maior parte da população é branca (72%) e da Baixada Santista é a cidade que tem mais brancos e menos negros. Na minha pesquisa a gente constatou que a distribuição de renda também interfere na distribuição espacial da população. Os brancos tendem a se concentrar em locais mais ricos (orla). E os negros em locais mais pobres. A maior parte da população negra de Santos se concentra nos morros e na Zona Noroeste”, destacou. A população negra também é maioria nos aglomerados subnormais, moradias localizadas em áreas consideradas de risco ou não regularizadas.

A pesquisadora identificou ainda que a renda do negro santista é um pouco superior à dos negros das demais cidades da Baixada Santista. No entanto, a desigualdade entre a renda de brancos e negros é maior em Santos do que nos outros municípios da região. A cidade também concentra o maior número de escolas privadas.

“Santos tem a maior incidência de escolas privadas. A maior parte dos alunos que frequenta as escolas privadas é branca. Isso é outro fator que nos faz refletir a respeito da escolarização dos alunos negros, pois sabemos que as escolas privadas são escolas que apresentam maiores desempenhos”, destacou Ísis.

No Brasil o número de alunos negros – tanto no Fundamental quanto no Médio – é superior ao dos brancos. Em Santos ocorre o inverso.

“Se dividirmos o número de alunos do Fundamental pelos do Médio, a situação dos negros santistas também é pior: de cada 3,6 alunos do Fundamental apenas 1 ingressa no Médio, enquanto no Brasil e no Estado essa proporção é de 3 para 1. No que se refere à relação público-privado, a situação do estudante negro se agrava, pois enquanto no Brasil o total de matrículas de alunos negros no ensino privado corresponde a pouco menos de 30% e no Estado a praticamente 10%, no munícipio ela foi de apenas 9,1%. Em outras palavras, se o gargalo de passagem para o Ensino Médio atinge o alunado em geral, em Santos ele ainda é mais estreito para os alunos negros”, afirmou a professora.

Conclusão

Para Ísis, os números analisados na pesquisa retratam o cenário que identificou ainda no estágio – a relação baixo rendimento e  renda – e também são reflexos da libertação dada aos escravos sem que eles tivessem condições de igualdade.

“Com os números a gente constatou que ainda há desigualdade social e que os alunos negros estão mais propensos ao fracasso escolar. A gente também chegou a conclusão que o fracasso escolar tem muito a ver com pobreza. Os alunos  mais pobres com certeza terão mais dificuldades. Isso mesmo em Santos, que é considerada uma cidade rica. De acordo com os dados, a pobreza no Brasil tem cor. Os negros ainda sofrem. Se a pobreza e a desigualdade social ainda assola o país, a população  inteiramente envolvida é negra. A gente precisa refletir a respeito disso”, afirmou.

(Diário do Litoral)

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