Folha de SP – Livro de Angela Alonso fortalece nova historiografia da Abolição

Livro de Angela Alonso fortalece nova historiografia da Abolição

SYLVIA COLOMBO
ilustração ELISA VON RANDOW

13/12/2015 02h04 

RESUMO A historiografia da abolição passa por mudanças que a deslocam de visões oficialistas ou marxistas. Entre jogar luz sobre a Lei Áurea da princesa Isabel ou sobre a luta dos negros, representada por Zumbi, novos estudos, como obra da socióloga Angela Alonso recém-lançada, voltam-se para o movimento abolicionista.

Elisa Von Randow

Era o aniversário de 45 anos de dom Pedro 2º. Naquela noite de 2 de dezembro de 1870, apresentava-se no Teatro Lírico Provisório do Rio de Janeiro a ópera-balé “O Guarani”, de Carlos Gomes (1836-96), adaptação do romance de José de Alencar (1829-77), intelectual conservador e defensor da manutenção da escravidão.

Trajando casaca, o abolicionista André Rebouças (1838-98) transitava à vontade entre a nata social e econômica do Império. Há tempos esse engenheiro viajado e integrante de uma classe média negra que ia se fazendo influente na sociedade do Segundo Reinado já alimentava o perfil de articulador entre a elite aristocrática, políticos e empresários. Essa sua habilidade possibilitava não apenas a viabilização de obras de engenharia que modernizaram o país mas também fez dele uma das vozes mais influentes do movimento abolicionista brasileiro.

Em “Flores, Votos e Balas” [Companhia das Letras, 568 págs., R$ 66,90], a socióloga Angela Alonso reconstrói aquela noite cheia de significados e seus personagens. Enquanto no palco se encenava um mito da origem da nacionalidade focado no elemento indígena, os negros, “ausentes do enredo, estavam no camarim, engomando roupas e lustrando sapatos”. E era isso que Rebouças e seus colegas queriam mudar.

O espetáculo ocorreu quando o Brasil estava na antessala de um momento de grande divisão política e de transformação da sensibilidade da sociedade. “Ao acabar aquele dezembro, chegaria o ano sem par de 1871, quando a escravidão, bomba-relógio do Império, sairia da coxia para roubar o centro da cena”, diz o texto.

Naquele ano, após um profundo embate, seria aprovada a Lei do Ventre Livre, libertando os nascidos de mãe escrava.

Presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e autora de “Ideias em Movimento – A Geração de 1870 na Crise do Brasil Império” (Paz e Terra, 2002) e da biografia “Joaquim Nabuco” (Companhia das Letras, 2007), Angela Alonso dedicou seis anos de pesquisas para reconstruir a trajetória do movimento abolicionista brasileiro entre os anos de 1868 e 1888.

“Proponho um ângulo diferente. A historiografia marxista se fixou na transformação econômica que levou à abolição. Já a nova história transferiu o protagonismo para os escravos. De um modo geral, não se tem muito em conta a importância do movimento social” abolicionista que cresceu no espaço público nem a ideia da tensão política desse período”, diz a autora em entrevista à Folha.

“Fala-se do fim da escravidão como algo que se daria de qualquer forma por conta da mudança de conjuntura econômica, quando o que defendo é que a abolição não teria sido possível sem também uma mobilização política e a transformação de sensibilidades.”

Para a estudiosa, vinham ofuscando a relevância do movimento abolicionista a constante referência às fraturas que existiam entre os mobilizados, entre monarquistas e republicanos ou radicais e moderados, e o deslocamento da ênfase historiográfica, desde 1988 (o centenário da abolição), da herdeira do trono imperial (a princesa Isabel) para o líder da revolta escrava (Zumbi dos Palmares).

“Essa discussão deixou em segundo plano um fator que foi fundamental para o fim da escravidão: o movimento abolicionista, que incluiu vários tipos de atividades por parte de inúmeras organizações em todo o Brasil e em conexão com agrupações europeias e norte-americanas”, diz a autora.

CENÁRIOS

O teatro seria, justamente, um dos cenários utilizados quando aos abolicionistas faltava espaço no Parlamento. Diferentemente do abolicionismo norte-americano, que usava estrutura e espaços das capelas dos “quakers”, o brasileiro não contava com a ajuda da Igreja Católica, que cerrou fileiras com o escravismo –daí a importância de locais como teatros, centros cívicos e escolas.

Em seu livro, Angela Alonso argumenta que o movimento combinou retóricas e estratégias num “jogo de ação e reação que durou duas décadas”, no qual ora se usavam flores (nos atos públicos), ora votos (no Parlamento) e ora balas (na clandestinidade) –daí o título.

“Comecei a pesquisar jornais de época em busca de fatos políticos e ia vendo os anúncios de estreias de espetáculos, fui vendo como as artes estavam relacionadas ao que acontecia. Muitas vezes os abolicionistas reuniam gente em torno de obras que tinham subtexto que falava da escravidão. Assim, é possível ver como foi ocorrendo uma mudança na sensibilidade”, diz.

Um exemplo foi a apresentação de “Aída”, de Giuseppe Verdi, na interpretação da soprano russa Nadina Bulicioff, em 10 de agosto de 1886. Por obra de Rebouças e José do Patrocínio, a sessão daquela noite da ópera –que conta a história da filha de um rei da Etiópia confinada ao cativeiro no antigo Egito– se transformou numa manifestação antiescravista. Patrocínio subiu ao palco levando moças escravas para abraçar a russa, cantou-se o Hino Nacional e gritava-se “Viva a abolição”.

As artes serviram, portanto, como importante instrumento de persuasão da opinião pública, desde os princípios do movimento, em 1868, auxiliando os abolicionistas em seus contatos com outros países. Fato também com pouco relevo na historiografia tradicional, o caráter internacionalista do movimento manteve os grupos brasileiros extremamente conectados aos europeus e aos norte-americanos, num mundo cujas distâncias encolhiam, pelo telégrafo e pelo vapor, e no qual intelectuais e ativistas viajavam constantemente.

“A ideia de que tínhamos uma elite caipira, isolada, cai por terra quando vemos o quanto viajavam e sabiam do mundo, tanto do lado dos abolicionistas quanto dos escravocratas”, frisa Alonso.

TRAJETÓRIA

A narrativa de “Flores, Votos e Balas” é costurada a partir da trajetória de alguns protagonistas. Do lado dos abolicionistas estão, além de Rebouças, o advogado Luiz Gama (1830-82), o farmacêutico José do Patrocínio (1853-1905), o médico e pedagogo Abílio Borges (1824-91, mais conhecido por ser retratado em “O Ateneu”, de Raul Pompeia, como Aristarco, diretor do internato) e o político e jurista Joaquim Nabuco (1849-1910) –os três primeiros dessa lista, negros.

Do lado dos conservadores, figuram Paulino Soares de Sousa (1834-1901), líder da ala Emperrada do Partido Conservador, e o barão de Cotegipe (1815-89), lendário político do Império.

Elisa Von Randow

“Tradicionalmente se pensa que a abolição foi virando uma espécie de consenso, mas não é o que dizem os documentos. Vi que não era possível que um movimento que lutou por 20 anos o fizesse se não houvesse gente do outro lado que estivesse muito contra. Não dava para ter lutado tanto sem ter quem se opusesse, não haveria mobilização se todos estivessem a favor. E uma das coisas que defendo no livro é que a defesa da escravidão foi algo muito mais expressivo do que parece”, diz a autora. “Os heróis são incompreensíveis sem os seus vilões”, acrescenta.

PONTO FINAL

Ao longo de cerca de três séculos, vieram da África para serem escravizadas no Brasil 5,8 milhões de pessoas. Em 1872, os escravos compunham 15% da população. O país já vinha burlando tratados e leis que determinavam o fim do tráfico negreiro desde a década de 20, até que, em 1860, alterações da conjuntura internacional e do contexto político interno fizeram amadurecer a ideia de que se deveria colocar um ponto final à servidão.

Associavam-se a essa tendência, em primeiro lugar, o ciclo de abolições, que naquela década atingiu EUA e Cuba. Em segundo, a aceleração da urbanização, que propiciava a criação de um espaço para a discussão pública. Nesse cenário, a escravidão passava a ser vista como algo abominável para um país que se queria moderno.

“É controverso se a razão desse dominó foi econômica, com a expansão de formas capitalistas de produção, que consumiam trabalho livre e requisitavam novos mercados consumidores, ou se se deveu à difusão de nova moralidade humanista, a reclamar extensão de cidadania. Indisputável é que a sequência de abolições criou novo ambiente político internacional, no qual a escravidão quadrava mal”, escreve Alonso.

Esse descompasso com relação à realidade em outros países mostrou-se com vigor durante a Guerra do Paraguai (1864-70), em que o Brasil encabeçava uma aliança com Argentina e Uruguai, mas liderava “com pés de barro”, como diz a autora, por ser escravista em meio a “nações de povo livre”.

ATIVISTAS

Além da personalidade singular de André Rebouças, o livro joga luz sobre ativistas menos celebrados nos dias de hoje. É o caso de Abílio Cesar Borges, um educador viajado e conectado à rede abolicionista internacional, membro da British and Foreign Anti-Slavery Society de Londres.

A socióloga o retrata como hábil lobista, que transitava em diferentes esferas e difundia a mensagem da abolição pela panfletagem e por “cerimônias cívicas”, nas quais se encenavam os dramas dos escravos e se faziam apelos emotivos pelo fim daquele tormento.

Aos abolicionistas contrapunham-se os conservadores, que não aceitavam o fim da escravidão –também eles divididos, mas entre os “moderados” e os “emperrados”. Exemplo máximo desse último grupo era o já citado Paulino Soares de Sousa. Filho do visconde do Uruguai, em seus discursos admitia que a escravidão não poderia ser “perpétua”, mas que seu final corresponderia a uma grande crise social e à possibilidade de distúrbios violentos, como os que haviam ocorrido no Haiti –onde, em 1791, uma revolução liderada por Toussaint-Louverture pôs fim ao regime escravocrata com extrema violência contra brancos de três exércitos imperiais.

O caso é que Soares de Sousa não se encaixava no molde maniqueísta do escravista cruel. De “barba aparada e camisa de casimira bem cortada”, era um homem viajado e fino, culto e agradável no trato. Nas palavras de Alonso, “um rebento fina flor. Nada em si rescendia brutalidade ou ganância, desvio ou maldade. Culto e ilibado, amava o latim e a esposa, acreditava em Deus, no Império e na propriedade dos escravos”.

Sua retórica baseava-se num forte argumento, o do senso comum. A ideia de que a sociedade funcionava bem assim e que acabar com a escravidão, além de graves distúrbios sociais, significaria a ruína de um sistema econômico.

“Paulino foi coerente até o fim; quando a abolição já estava dada, ele ainda lutava pelo ressarcimento dos fazendeiros”, diz Alonso. Tratava-se de uma defesa não da escravidão, porque em termos humanitários dizia concordar com a causa, mas por causa das circunstâncias brasileiras, da situação que ela havia gerado.

Com ele concordava o romancista José de Alencar, que dizia: “um sopro bastará para desencadear a guerra social, […] lançar o Império sobre um vulcão”.

RACHA

O livro se encerra quando outra história começa, a do período pós-abolição. Às festas nas ruas do Rio de Janeiro e de outras cidades, reunindo multidões a céu aberto, contrapõe-se o racha entre os integrantes do movimento. Alguns não aceitavam que, ao final, o término do regime tivesse sido fruto de uma decisão imperial apenas; outros se sentiram traídos porque seus planos não se limitavam à abolição, mas projetavam uma reforma social; por fim, outros achavam que deveriam apoiar a Coroa e o gesto da princesa.

Elisa Von Randow

Nos 18 meses que separaram a Abolição da República, a queda de braço entre escravocratas e os agora rachados abolicionistas levou a um empate de pressões. Nem se indenizaram os ex-proprietários, nem vingaram propostas como as de Rebouças, que previam, por exemplo, leis para educação.

Alonso aí insere uma crítica ao viés paternalista que identifica nos abolicionistas. Se discordavam do modo como deveria ser feita a reinserção social do ex-escravo, concordavam que deveria ser por meio da intervenção do Estado. “Os abolicionistas nunca cogitaram deixá-los gerentes do próprio futuro.”

SEQUELAS

Outros estudos vêm alimentando esse novo momento da historiografia da escravidão e do abolicionismo, que se desloca um pouco da chave marxista e oferece uma visão mais complexa do período, que deixou tantas sequelas, ainda visíveis, na sociedade brasileira.

A historiadora Maria Helena P. T. Machado, da USP, é organizadora, com Celso Thomas Castilho, de “Tornando-se Livre” [Edusp, 480 págs., R$ 64], coletânea de ensaios sobre abolição lançada neste ano. Ela considera que hoje há um movimento para “superar uma história da escravidão e dos escravizados fechada em torno de um sistema escravista onipresente e inescapável”. Por este caminho, diz, historiadores empreendem uma reconstrução mais panorâmica e equilibrada do processo de supressão do regime escravista.

Nesses esforços, a história tem contado com a contribuição de outras áreas de estudos, como a sociologia e a literatura.

Um bom exemplo é o trabalho que vem realizando a professora Lígia Fonseca Ferreira, da Unifesp. Ela se concentra no resgate da produção intelectual do abolicionista baiano Luiz Gama, que foi escravo na adolescência e se tornou advogado, libertando mais de 500 cativos –parte de suas pesquisas originou “Com a Palavra, Luiz Gama” (Imprensa Oficial, 2011).

“Tem havido uma grande colaboração entre as áreas, e estudiosos vindos das letras ou da sociologia trazem novos olhares aos documentos tradicionais e de cartórios, ao mesmo tempo que se valoriza a produção literária, jornalística e de obras de arte”, diz Fonseca.

A professora considera, por exemplo, que a própria discussão sobre as datas da abolição já está em nova fase. Primeiro, celebrava-se apenas o 13 de maio de 1888, data da Lei Áurea, firmada pela princesa Isabel. Depois, com o aumento da relevância do movimento negro e com a influência de novas abordagens historiográficas, passou ao centro das atenções o 20 de novembro, que relembra Zumbi dos Palmares.

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“É hora de ressignificar o 13 de Maio, não por ser uma data da Coroa, mas porque foi um momento de grande participação social e que teve vida própria fora do palácio”, diz Fonseca, citando uma crônica de Lima Barreto na “Gazeta da Tarde” sobre aquele dia:

“Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenços, vivas… Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria.”

SYLVIA COLOMBO, 43, é repórter especial da Folha.

ELISA VON RANDOW, 41, é ilustradora.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/12/1717867-livro-de-angela-alonso-fortalece-nova-historiografia-da-abolicao.shtml

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