Artigo – O III Reinado em dois livros recentes

O III Reinado em dois livros recentes

 

Laércio Becker*

 

 

Na Ilha Fiscal, Rio de Janeiro, o vitral em tríptico que homenageava Dona Isabel em suas bodas de prata e apontava o III Reinado.

Na Ilha Fiscal, Rio de Janeiro, o vitral em “tríptico” que homenageava Dona Isabel em suas bodas de prata e indicava o III Reinado, em 1889.

 

Interessante. Creio que foi uma moda que começou em 2008. O bicentenário da vinda da Família Real portuguesa ao Brasil estimulou uma série de livros comemorativos da efeméride. E outros vieram depois. Pareceu-me a princípio um modismo, mas talvez o sucesso comercial tenha estimulado esse filão editorial.

Tem para todos os gostos. Desde obras com fartas notas de rodapé, mais acadêmicas, até as mais romanceadas. Alguns autores se destacam, como o jornalista Laurentino Gomes e a historiadora Mary Del Priore.

A escolha desse filão, cuja temática gira em torno do século XIX, tem pouco de ideológico e muito de pragmático. Devo deduzir isso a partir de uma confissão da jornalista Regina Echeverria à revista História Viva nº. 135: é para fugir à necessidade de autorização do biografado, regra que já tirou de circulação biografias de Garrincha e Roberto Carlos, e ameaça tirar a de Geraldo Vandré. Biografias de personagens do Brasil-Império não correm esse risco. Por isso, há autores de livros “didáticos” que se sentem autorizados a dizer que a Princesa D. Isabel era “estúpida feito uma leguminosa”.

Na contramão dessa grosseria está a mais recente biografia escrita sobre a Redentora, justamente por Regina Echeverria: “A história da Princesa Isabel: amor, liberdade e exílio” (Ed. Versal, 2014). Uma biografia respeitosa já é um alento. Sobre D. Isabel, melhor ainda, já que os últimos livros sobre ela já tinham alguns anos: “Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX”, de Roderick Barman (Ed. Unesp, 2005) e “D. Isabel I a Redentora: textos e documentos sobre a Imperatriz exilada do Brasil em seus 160 anos de nascimento”, de Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (Instituto Cultural D. Isabel I, 2006).

A autora afirma, em entrevista à citada revista, que teve acesso a várias fontes primárias, por meio de uma auxiliar e um tradutor. É verdade que, ao final de vários capítulos, transcreve cartas da princesa. No entanto, o conteúdo do texto em si se pauta muito em fontes secundárias. Especialmente, nas biografias de Lourenço Lacombe, Barman e Hermes Vieira, além de Del Priore, Doratioto etc. Até as cartas citadas no curso do texto (não no final dos capítulos) foram extraídas desses livros.

Apesar de um ou outro discreto deslize, como chamar a Imperatriz D. Amélia de D. Maria Amélia (pp. 75 e 87), que era o nome de sua filha, trata-se de uma biografia não só respeitosa mas respeitável. Porque faz uma compilação honesta do que já foi escrito sobre D. Isabel. Recomendo.

* * *

Outro livro sobre o mesmo período é o do historiador Marcos Costa, da Unesp: “O reino que não era deste mundo” (Ed. Valentina, 2015). Um livro que, embora dentro do filão editorial, foge ao figurino desse filão. Porque une a história dos fatos a uma análise que atualmente é muito incomum, mas que já teve grandes representantes, como João Camillo de Oliveira Torres (em “A democracia coroada”): a de que o golpe republicano foi movido pelas forças do atraso. Uma interpretação ainda mais surpreendente se lembrarmos que o autor publicara uma coletânea de Sérgio Buarque de Holanda pela Fundação Perseu Abramo.

Sim, o livro também tem alguns deslizes, mas apenas na parte descritiva, não na analítica. P.ex.: às vezes chama de “conde” o Duque de Nemours (p. 114 e ss.) e o Príncipe de Joinville (p. 147); diz que Caxias foi o único a receber o título de duque no Brasil (p. 145); que D. Pedro II sabia retribuir regiamente seus aliados (p. 93). Diz também que D. Pedro II queria que o Conde d’Eu fosse recebido triunfalmente, para colher os frutos da vitória no Paraguai e se legitimar como futuro Imperador Consorte (p. 151) – no entanto, a recepção às tropas foi um fiasco retumbante, como já expliquei em artigo sobre o Conde d´Eu, no site Webartigos. Quanto ao Duque de Penthièvre (1845-1919), de fato devia ser alguém socialmente intratável que não se casou (p. 112), mas consta que juntou escovas de dente — se é que usava — com uma norte-americana.

Assim como o livro da Echeverria, a parte descritiva do livro do Costa é pautada em fontes secundárias. Mas extrai leite de pedra, porque é suficiente para justificar a análise e uma interpretação que vai contra a corrente atual.

Como já antecipei, Costa apresenta ao público um livro diferente, que vai na contramão de muito discurso fácil, de muita ladainha repetida “ad nauseam” nas escolas, pelos “pappagalli lusingatori” que não se dão ao trabalho de pesquisar.

Sua tese principal é a seguinte: D. Pedro II teria um plano de longo prazo para modernizar o Brasil gradualmente. Um processo político e econômico que deveria ser — literalmente — coroado no III Reinado. Consubstanciado pela:

  1. Substituição da mão-de-obra escrava por imigrantes;
  2. Substituição da agricultura de exportação pela indústria e, conseqüentemente;
  3. Substituição da sustentação política da monarquia (que passaria dos ruralistas para a burguesia urbana).

De acordo com a análise do autor, D. Pedro II queria tirar o Brasil do atraso econômico colocando-o nos trilhos da Revolução Industrial, que aumentaria a arrecadação de tributos e, portanto, a própria capacidade de ação do Estado. No entanto, era obrigado, pela conjuntura, a ser mais conservador do que pretendia, porque a própria elite era extremamente atrasada: presa à economia rural e ao tráfico negreiro. Nesse sentido, a escravidão era uma âncora de atraso tanto social, quanto político e econômico.

Para execução de seu plano, D. Pedro II firmou uma parceria de longo prazo com o conservador Duque de Caxias, com o objetivo de pavimentar o caminho que projetava para seus sonhos liberais e reformistas, antecipados nas iniciativas pontuais do precursor Mauá. Sonhos esses que, como disse, haveriam de se concretizar no III Reinado. Mauá era o abre-alas, o quebra-gelo econômico atrás do qual se escondia o Imperador. Mauá, em síntese, era o Caxias da economia.

Mas esses planos do monarca enfrentariam alguns obstáculos sérios. O primeiro deles foi a morte de seus dois herdeiros homens, D. Pedro Afonso e D. Afonso Pedro. Com D. Isabel a tarefa seria muito mais difícil, devido às dificuldades da condição feminina numa sociedade machista e patriarcalista. De fato, D. Isabel teve de superar muitos preconceitos de gênero, como se vê no livro “Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX”, de Roderick Barman (Unesp, 2005).

Daí a necessidade de um consorte liberal. Que impusesse, à mentalidade machista da época, o programa liberal sonhado pelo Imperador. Nesse sentido, a escolha não poderia ter sido melhor: o Conde d’Eu era um liberal de quatro costados. A família Orléans inteira tinha um histórico de liberais, que vinha de Philippe Égalité até seu avô, o Rei Louis Philippe. E o próprio Conde d’Eu, em várias oportunidades, demonstrou ser um autêntico liberal, como é possível ler em suas biografias. O primeiro abolicionista da Família Imperial, como disse Oliveira Vianna em “O ocaso do Império”. Sua mais clara ação comprobatória disso foi um de seus primeiros atos, quando assumiu o comando das tropas aliadas, na Guerra do Paraguai: a libertação dos escravos daquele país.

Mas D. Pedro II, segundo Marcos Costa, fazia questão de colocar sua filha na linha de frente das ações mais liberais de seu reinado. Daí que foi em regências dela que se aprovaram leis como a do Ventre Livre e a Lei Áurea.

Essas atitudes e esse projeto fizeram, ainda segundo o autor, com que a burguesia comercial e industrial, bem como os profissionais liberais aderissem abertamente ao projeto de III Reinado, exposto por ela mesma, enquanto Regente, nas Falas do Trono de 1887 e 1888.

O famoso Baile da Ilha Fiscal, Marcos Costa interpreta como sendo uma demonstração de força desses setores progressistas da economia e da política, congregados na ainda nascente sociedade urbana.

Os conservadores perceberam essa tendência e começaram a sabotar o advento do III Reinado. O barão de Cotegipe, líder conservador, espalhou boatos e envenenou a opinião pública contra D. Isabel, especialmente durante sua Regência. De acordo com o autor, sua intenção era favorecer: ou um golpe republicano, ou um III Reinado de D. Pedro Augusto (sobrinho de D. Isabel, que tem uma biografia publicada por Mary Del Priore, “O príncipe maldito”, ed. Objetiva, 2006). De um modo ou de outro, com os conservadores no poder.

Então, para os conservadores, um III Reinado com D. Isabel e o Conde d’Eu era um grande perigo para o “status quo”. Por isso, para garantir a persistência do atraso, juntaram-se aos republicanos — que eram um fracasso eleitoral.

Li alhures que D. Isabel nunca pretendeu defender monarquia a qualquer custo. Achava que, se os republicanos tivessem maioria na Assembléia Geral (o nome do Congresso Nacional, na época), teria que ceder o trono. Que estava preparada para a hipótese e o faria, tranquilamente, em atendimento à vontade popular.

Só que não foi isso o que aconteceu. Na última eleição do Império, não tenho os números aqui comigo, mas salvo engano não elegeram nem um deputado sequer, ou apenas um, não tenho certeza. Ou seja, do ponto de vista eleitoral, os republicanos eram um fiasco retumbante.

Bem, se não podiam chegar ao poder democraticamente, restou aos republicanos o caminho do golpe. Apoiado pelos conservadores, pelos motivos acima mencionados. Um golpe das forças do atraso, da elite do atraso. Segundo Costa, teria sido a primeira vez na História em que uma “revolução” (aspas propositais) foi realizada não para mudar, mas para manter as coisas exatamente como estavam, com medo do novo (p. 264).

Por que não foi revolução, sem aspas, mas golpe? Porque, ainda segundo Costa, “a população da corte mal sabia o que estava se passando” (p. 263). Como reconheceu o próprio líder republicano Aristides Lobo, o povo assistiu a tudo bestializado…

Por que foi um golpe do atraso? Porque, do ponto de vista político e institucional, os primeiros anos de república foram de ditadura. Sobre o assunto, já escreveram suficientemente o Visconde de Ouro Preto, Conde de Affonso Celso, Eduardo Prado, Carlos de Laet e outros monarquistas da época. Um retrocesso em várias liberdades, a começar pela de imprensa, como reconheceu o republicano Rui Barbosa.

Não obstante, o que temos, ainda hoje, são logradouros com nomes de golpistas como Deodoro, com nomes de ditadores como Floriano. Para completar, um feriado para comemorar o golpe do atraso. Como um país que faz isso não quer ser chamado de república de bananas ou republiqueta? Como um país que faz isso se revolta quando De Gaulle (ou Carlos Alves de Souza) diz que “não é um país sério”?

Mas não foi só isso — como se fosse pouco, e não é. O federalismo republicano, observa Marcos Costa, permitiu que os cafeicultores paulistas aparelhassem o Estado sem as amarras do poder central. Um avanço para as oligarquias locais, mas um retrocesso evidente em termos de cultura política nacional. Que se estendeu por décadas, com vestígios até os dias de hoje.

E, para retribuir o apoio dos ruralistas, a república conseguiu a façanha de manter o país predominantemente agrícola até Vargas — e exportador de commodities até hoje. É o legado de atraso político e econômico apontado pelo autor.

Considerando tudo isso, Marcos Costa conclui que “a elite brasileira — até os dias de hoje, diga-se de passagem — jamais aceitou um projeto social que passasse ao largo de seus interesses imediatos” (p. 262).

 

* Resenha elaborada com base nas notas preparadas para entrevista no programa “Nossa História”, da Rádio Educativa do Paraná, comandado pela jornalista Zélia Sell, em 10.05.2015.

 

 

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