O DIA – Restos mortais da maior heroína de Três Rios podem não estar na cidade

13/09/2015 23:55:34

Restos mortais da maior heroína de Três Rios podem não estar na cidade

Condessa do Rio Novo é tida como ícone no município por ter, há mais de 130 anos, distribuído terras a mais de 300 escravos

FRANCISCO EDSON ALVES
‘Condessa do Rio Novo’, Marianna Claudina Barroso Pereira de Carvalho

Foto: Reprodução

Rio – Os cerca de 80 mil moradores da pacata Três Rios, no Centro-Sul do estado, estão em polvorosa: os restos mortais da maior representante da História da cidade, Marianna Claudina Barroso de Carvalho, a Condessa do Rio Novo, não estariam sepultados na cripta da família, nos fundos da Capela de Nossa Senhora da Piedade, marco de fundação do município, no bairro Cantagalo, como se é cultuado e propagado há 133 anos.

A constatação de que o povo, historiadores e turistas teriam sido enganados por mais de um século foi feita por integrantes do Colégio Brasileiro de Genealogia (CBG), liderados pela pesquisadora trirriense Cinara Jorge, de 62 anos. Marianna é tida como heroína por ter distribuído, antes de morrer, possivelmente de câncer, aos 66 anos, em 1882, seus bens e terras a mais de 300 escravos que tinha, que também ganharam alforria seis anos antes da Lei Áurea.

“Gelei quando recebi, no dia 3 deste mês, do amigo Hariolo Araújo, da Embaixada do Brasil na Inglaterra, um e-mail com os seguintes dizeres: ‘Ela está aqui’”, conta Cinara. Hariolo se referia à ossada da condessa, que, conforme documentos e fotos, pode estar numa urna de madeira, num jazigo no subsolo da Igreja de St. Mary’s, em Londres, onde ela assistiu a sua última missa. “A meu pedido, ele e outros amigos do grupo checaram o paradeiro da condessa em todos os cemitérios de Londres, chegando a esse templo. Foi um baque enorme, pois todos nós queríamos que os restos mortais dela estivessem em Três Rios”,

Atestado de óbito de 1882, encontrado num cartório de Londres, onde ela morreu

Foto: Divulgação

As investigações foram iniciadas por Cinara ao colher informações reunidas no livro ‘Pioneiros dos Três Rios – A Condessa do Rio Novo e sua Gente’, de sua autoria. A desconfiança de que os despojos da condessa nunca estiveram depositados na Capela de Nossa Senhora da Piedade e o início da montagem do quebra-cabeça para se desvendar o mistério começaram com registros históricos guardados no Arquivo Nacional, no Museu da Justiça, na Biblioteca Nacional, no Itamaraty e no Consulado do Brasil, em Londres.

Segundo documentos e cartas, em 1877, a condessa descobriu um tumor no ovário e, em 1882, partiu para a Inglaterra para se tratar. Ela viajou acompanhada de uma escrava e do médico Randolpho Penna, casado com uma sobrinha dela, mas não resistiu e morreu. Como não teve filhos com o marido, Visconde do Rio Novo, ela deixou testamento doando bens, terras, e libertando seus escravos. No documento, Marianna manifestou ainda o desejo de ser enterrada em sua terra natal, junto aos pais e ao marido.

O caixão de madeira onde pesquisadores garantem estar os verdadeiros restos mortais de Marianna

Foto: Divulgação

Por causa de trâmites burocráticos, um caixão de zinco com os supostos restos mortais da condessa chegou ao Porto do Rio três anos depois. O caixão ficou abandonado por vários dias, até ser levado para a capela em Três Rios, onde foi erguido um jazigo. Dois anos depois, foi sepultada num caixão de cedro. O livro de Cinara relata que reproduções do jornal “Novidades” mostram que, no momento do sepultamento, o caixão foi aberto e, para a surpresa de familiares, foram encontrados apenas alguns ossos envolvidos em serragem, sem a arcada dentária e cabelos, o que levantou suspeitas de possível fraude.

Padre Medoro: ‘Essa dama tem que ser repatriada’

O administrador da Capela de Nossa Senhora da Piedade, Jorge Pereira Nunes, 73, resume o sentimento do povo de Três Rios: “Estou arrasado, decepcionado. Essa história centenária agora terá de ser recontada na forma correta”, diz. O padre Medoro Souza Neto, 60, iniciou um movimento informal para repatriar a ossada da condessa.

“Essa dama tem que vir para sua terra natal. Ela foi um exemplo de mulher, avançada social e culturalmente para sua época. Enquanto a Princesa Isabel fez uma misancene, pois assinou a Lei Áurea por conta do agravamento da crise do café, jogando os escravos sem assistência nas estradas, Marianna integrou os negros ao comércio local e os libertou oito anos antes”, justificou.

Jorge Nunes e a pesquisadora Cinara Jorge em frente ao túmulo da Condessa: ossada suspeita

Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia

A Marianna também é atribuída a criação da primeira reserva ecológica da região, no distrito de Bemposta, numa área em que ela proibiu a plantação de café.

Em nota, o prefeito de Três Rios, Vinicius Farah (PMDB), disse estar “surpreso, assim como todos os cidadãos trirrienses”. “A partir da comprovação oficial por meio de documentos (de que a ossada não é da condessa), a situação será analisada junto à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo para providências”, comentou.

A Câmara de Vereadores aprovou a recuperação do telhado da capela, proposta pela prefeitura, em parceria com o Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan), no valor de R$ 500 mil. As obras devem começar até dezembro e vão proteger não só o túmulo da condessa, mas também de seus pais, o Barão e a Baronesa de Entre-Rios, além de pinturas bíblicas raras, de artistas de São João Del Rey (MG).

“Só quem não ama Três Rios é que não acha importante trazer os restos mortais da condessa para o município”, diz Cinara Jorge, adiantando que uma produtora já estuda transformar a história da condessa em filme.

A ‘Condessa do Rio Novo’, Marianna Claudina Barroso Pereira de Carvalho

Para passar a história da Condessa do Rio Novo a limpo, a arqueóloga Valdirene Ambiel – que fez a exumação de Dom Pedro I – se ofereceu para acompanhar o caso. Um exame de DNA dos ossos de Marianna e de seus pais deverá ser feito nos próximos meses. Outros mistérios precisarão ser solucionados, como a quem pertenceria a ossada que está em Três Rios, no caso de DNA negativo, e por qual motivo os restos mortais de Marianna teriam ficado em Londres.

Na época, esqueletos como o enviado para Três Rios, em 1882, eram estudados em laboratórios e somente médicos tinham acesso. Documentos históricos levantam suspeitas sobre a conduta e personalidade de Randolpho Penna, revelando que ele preencheu cheques assinados pela Condessa e deu calote no aluguel em Londres.

Fonte: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-09-13/restos-mortais-da-maior-heroina-de-tres-rios-podem-nao-estar-na-cidade.html

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