Artigo – A sabedoria de Gandhi

A sabedoria de Gandhi

Pedro Afonso Vasquez*

27 de agosto de 2015

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Por que ler Gandhi hoje, decorrido mais de meio século de sua morte?

Por uma simples e poderosa razão: suas ideias continuam tão válidas e indispensáveis quanto antes e sua influência se torna cada vez mais evidente no cenário político internacional. Sem Gandhi os Estados Unidos talvez não tivessem hoje um presidente negro, pois quem pavimentou o caminho para Obama foi Martin Luther King, que norteou seu trabalho pela filosofia da ahimsa (não violência) do Mahatma, tal como ficou claro em seu célebre discurso I Have a Dream!, em 1963. Da mesma forma, sem Gandhi a Índia jamais teria tido um presidente pertencente à casta dos Intocáveis – Kocheril Raman Narayan (que governou o país entre 1997 e 2002) –, e a política de segregação racial do Apartheid não teria sido extinta na África do Sul, por outro seguidor de Gandhi: Nelson Mandela, que durante seu longo período de prisão (27 anos) deixou de preconizar a luta armada e adotou os princípios de não violência.

A influência do princípio de ahimsa de Gandhi também pode ser detectada na atribuição de três Prêmios Nobel da Paz: para Martin Luther King, em 1964, Desmond Tutu, em 1984, e Nelson Mandela [compartilhado com De Klerk], em 1993. Valendo lembrar ainda que ao receber o Prêmio Nobel da Paz de 1989, o Dalai Lama fez questão de frisar em seu discurso de agradecimento que o prêmio representava “em parte um tributo à memória do Mahatma Gandhi”.

Curiosa e significativamente, o próprio Gandhi nunca foi agraciado com o Nobel, muito embora no ano de sua morte, 1948, tenha sido cogitada a concessão especial de um prêmio póstumo. Isso acabou não acontecendo, em parte certamente devido à intervenção britânica, que ainda não havia digerido a Independência da Índia, obtida no ano anterior, em parte em virtude do perfil complexo do próprio Gandhi, misto de líder político e espiritual, conforme espelha a célebre alcunha que lhe foi concedida pelo povo indiano: Mahatma (“grande alma”). Para ele, todos os credos religiosos deveriam conviver de maneira livre e harmônica, razão pela qual se opôs visceralmente à divisão da Índia preconizada por Muhammad Ali Jinnah, chegando a afirmar preferir ser ele próprio cortado ao meio a ver a Índia dividida em dois. Não teve sucesso neste particular, de modo que a Índia acabou sendo seccionada não apenas em duas e sim em três partes, com a criação da República Islâmica do Paquistão, composta pelo Paquistão Ocidental e Paquistão Oriental – que obteve a autonomia em 1971, passando a ser denominado Bangladesh.

A atualidade do pensamento de Gandhi é impressionante. E isso pode ser facilmente constatado ao se percorrer as diferentes seções da coletânea preparada por Homer A. Jack, já que os temas que ele abordou continuam na ordem do dia e, muitos deles, ainda carentes de uma solução adequada, tais como a questão da igualdade efetiva de direitos entre homens e mulheres e entre os párias e as demais castas, assim como a necessidade de absoluta liberdade religiosa.

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Apesar de hindu, Gandhi tinha uma religiosidade profundamente mística e abrangente. Gandhi admirava profundamente o santo seu contemporâneo Ramana Maharshi, o Cristo de O Sermão da Montanha, assim como os textos sagrados indianos como o Mahabharata, os Upanishads e os Vedas, mas não professava de forma exclusiva nenhuma fé, buscando antes de tudo a “verdade” imanente à vida, conforme esclareceu em sua autobiografia, não por acaso intitulada: Minha vida e minhas experiências com a verdade. Contudo, sua ação era eminentemente política, de combate às abusivas leis colonialistas do Império Britânico e, neste particular, se identificou também muito com o pensamento do crítico de arte inglês John Ruskin e do filósofo norte-americano Thoreau, criador do princípio de desobediência civil. Apesar da identidade de pensamento com o sábio do Lago Walden, Gandhi sempre se preocupou em explicar que o princípio que ele preconizava – o da Satyagraha – se distinguia da simples desobediência civil pelo fato de ser uma forma de “resistência passiva” baseada em uma ação direta não violenta amparada pela força da alma e/ou da verdade. De tal forma que não bastava apenas desobedecer ao governo pela inércia, não pagando impostos, por exemplo, e sim de modo ativo e desafiador, como no caso da Marcha do Sal promovida por ele em 1930, e que resultou em violenta repressão policial e a prisão de mais de 50 mil pessoas, entre as quais o próprio Gandhi.

Algumas de suas iniciativas pareciam risíveis ou incompreensíveis aos olhos ocidentais, tais como a defesa do vegetarianismo e o uso dos trajes tradicionais com tecido produzido em casa graças à roda de fiar. Hoje, quando temos plena consciência dos malefícios da pecuária extensiva e dos malefícios causados pela ingestão de carne vermelha, ninguém ri das celebridades hollywoodianas que praticam e divulgam o vegetarianismo, tais como Richard Gere, Brad Pitt, Dustin Hoffman, ou do Beatle Paul McCartney. Valendo lembrar ainda que Gandhi antecipou algumas das normas hoje preconizadas pelos adeptos da alimentação orgânica e do movimento Slow Food, no sentido em que buscava sempre consumir alimentos produzidos na região em que se encontrava, nenhum dos quais, obviamente, processados e/ou industrializados. Ao passo que a renúncia aos trajes ocidentais e a adoção do dothi (o tradicional traje composto por uma peça única de tecido, amarrada à cintura) feito com tecido khadi, feito em casa com o auxílio da roda de fiar, não era expressão de um anacrônico regionalismo e sim um gesto de resistência contra o governo inglês que proibia a tecelagem na Índia de modo a garantir o monopólio das indústrias têxteis de Manchester.

A-sabedoria-de-gandhi_pequenaComo todo visionário, Gandhi causava estranheza até mesmo junto aos conterrâneos, granjeando inimizades que culminaram com seu assassinato pelo ativista hindu Nathuran Godse, em 30 de janeiro de 1948. Gandhi foi o primeiro a ousar romper a barreira milenar de preconceito em relação aos dalits, os párias, ou intocáveis, considerados impuros pelas outras castas e, portanto, cruelmente marginalizados. Não somente Gandhi os acolhia em todas as suas iniciativas e em todos os ashrams que criou como se recusava a empregar qualquer uma das diferentes denominações pejorativas existentes. Chamava-os de Harijans, filhos de Hari (outro nome para Krishna ou Vishnu), o que tanto pode ser traduzido como “filhos de Deus” como por: “povo de Deus”. Graças aos esforços de Gandhi, a primeira Constituição da Índia livre, promulgada em 26 de janeiro de 1950, declarou ilegal a existência da casta dos intocáveis, beneficiando assim com plenos direitos civis um contingente de 40 milhões de oprimidos.

Os exemplos do pioneirismo de Gandhi e de sua influência sobre nossa vida cotidiana hoje, em pleno século XXI, são numerosos e expressivos, conforme os leitores de A sabedoria de Gandhi poderão constatar por conta própria, com grande proveito. Até mesmo no universo prisional podemos constatar a permanência de seu exemplo transformador no hábito de os prisioneiros políticos (e mesmo criminosos comuns) reivindicarem seus direitos graças às greves de fome, que nada mais são que a variante contemporânea dos jejuns de Gandhi que tanto contribuíram para sua vitória final. Entre a primeira vez que foi preso, aos 39 anos de idade e a última, já com 75 anos, Gandhi passou ao todo seis anos e dez meses na cadeia, do total dos 11 anos e 19 dias aos quais foi condenado (somadas todas as diferentes penas) e os quais conseguiu abreviar justamente por intermédio dos citados jejuns, já que as autoridades não desejavam que ele morresse preso para não fazer dele o grande mártir da independência indiana. O que Gandhi acabou sendo de qualquer forma, ao receber os três tiros no peito disparados por Nathuran Godse em 30 de janeiro de 1948.

Contudo, seu exemplo continua a inspirar visionários e revolucionários de todos os quadrantes do mundo até hoje. E, oxalá, possa inspirar as novas lideranças políticas brasileiras graças à publicação em português de A sabedoria de Gandhi – excelente trabalho de compilação efetuado pelo ministro unitarista norte-americano Homer A. Jack, ele próprio um destacado ativista em prol da igualdade racial e contra o uso bélico da energia nuclear.

Pedro Afonso Vasquez é escritor, tradutor, fotógrafo e editor de não ficção da Editora Rocco.

Fonte: http://www.rocco.com.br/index.php/blog/a-sabedoria-de-gandhi/

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