Artigo – Marcos Costa e seu “O Reino que não era deste mundo”

Marcos Costa e seu “O Reino que não era deste mundo: crônica de uma república não proclamada”

 

 

Gabriel Carvalho*

 

Livro:

COSTA, Marcos. O reino que não era deste mundo: crônica de uma república não proclamada. 1ª ed. Rio de Janeiro: Valentina, 2015.

 

capareino

 

 

Temos diante de nós a mais recente pesquisa histórica sobre a transição da Monarquia para a República. Seria somente mais um trabalho sobre o tema, já por tantas vezes explorado, não fosse a nova interpretação sugerida pelo autor, Marcos Costa, que é Mestre e Doutor em História Social pela UNESP.

Marcos Costa nos dá uma visão orgânica da história do Império, dotando-o de um sentido de continuidade que só foi interrompido pela experiência “republicana” da Regência (1831-1840), dando maior ênfase para o período do Segundo Reinado, que é para a historiografia nacional o momento crucial da formação da Nação brasileira. Joaquim Nabuco em Minha Formação reforça esse caráter orgânico da nossa Monarquia, quando para ele o Primeiro Reinado tinha sido o reinado do Estado, isto é, da afirmação da soberania do Brasil e da construção de suas instituições públicas; o Segundo Reinado, o reinado da Nação, quando se estabeleceu o sentimento nacional e os laços entre as províncias se estreitaram; a Terceira Regência de D. Isabel, o “gérmen” do Terceiro Reinado nas palavras de Nabuco, o reinado do povo, isto é, da abolição da escravatura e da consequente extensão da cidadania (ao menos, em princípio, formalmente) para todos os antigos escravos. Marcos Costa segue esta linha de raciocínio, mas focando no sentido econômico (se o houve) e modernista imediato da abolição, não no seu sentido propriamente social, isto é, na inclusão do ex-escravo como pleno cidadão, o que já estava sendo ensaiado pela Monarquia em seus últimos anos.

Mais do que uma simples visão orgânica da trajetória do Brasil monárquico, Marcos Costa revela uma tendência francamente conspiracionista, ou, melhor dizendo, a organicidade com que ele reflete sobre a história imperial tem o sentido de conspiração, levando o leitor a crer que D. Pedro II estava no controle mais absoluto do destino nacional e que ele tinha uma meta a cumprir desde 1840, quando subira ao trono: livrar o Brasil do atraso da escravidão e prepara-lo para a modernidade industrial do século XX através do reinado de sua filha. Não negamos de forma alguma que o longo processo abolicionista, iniciado em 1850 com a Lei Eusébio de Queiroz, que abolia definitivamente o tráfico negreiro, foi posto em marcha graças à continuidade que o Trono representava e ao estímulo que ele dava ao movimento abolicionista, dois ingredientes fundamentais nas monarquias, que costumam operar as mudanças mais vitais em um prazo longo de tempo. O ponto de discordância é que o imperador tenha preparado o Brasil para um Terceiro Reinado modernizador, sem a mácula e o entrave da escravidão. Ele educou a Princesa Imperial como havia sido educado, preparou-a para a chefia do Estado, mas, como comprova a historiografia, jamais acreditou que um Terceiro Reinado vingaria, tampouco esforçou-se para que vingasse. No nosso entendimento, se D. Pedro II planejou um futuro sem escravidão, não planejou um Terceiro Reinado que modernizasse o Brasil a partir da abolição.

Temos, ainda, a repetição de velhas crenças já superadas pela historiografia (embora os bancos escolares não tomem conhecimento, que se diga), como a falsa ideia de que os britânicos lutaram para extinguir o tráfico e depois a própria escravidão porque acreditavam que a massa de ex-escravos constituiria, do dia para noite, em consumidora de seus bens industrializados. O que se sabe hoje é que o liberalismo econômico não teve mais peso contra a escravidão do que o liberalismo político, isto é, do que a convicção na plena liberdade individual do homem. O tráfico sempre moveu enormes fortunas e não era um real obstáculo à nascente economia industrial.

O outro equívoco recai sobre o velho entendimento de que livrar o Brasil da escravidão era uma decisão unilateral da Coroa. Costa chega a dizer que D. Isabel fez em 13 de maio de 1888 o que D. Pedro II não tivera coragem de fazer em todo o seu reinado. É como se a sociedade brasileira nunca tivesse sido visceralmente escravista e a economia do país toda não dependesse do braço escravo para funcionar. Abolir a escravidão de uma só vez era não só irreal como verdadeiramente perigoso para a estabilidade econômica e mesmo política. A realidade e a prudência impunham um abolicionismo gradual.

Acrescente-se a tudo isto não mais um antigo postulado historiográfico, mas a informação pouco crível de que o Barão de Cotegipe durante o recolhimento de D. Pedro II por motivo de doença, em 1887, aproveitando-se da ausência da Princesa Imperial, àquela altura na Europa, poderia, no vácuo de poder deixado pela morte do imperador, que parecia aproximar-se, alçar ao trono o Príncipe D. Pedro Augusto, sobrinho de D. Isabel, ou simplesmente proclamar a República. Desconhecemos a fonte da certeza do autor de que Cotegipe tinha como segunda opção a troca de regime, posto que o barão era um monarquista convicto. Quanto a D. Pedro Augusto, ele tinha os seus partidários, mas que não eram garantia de subversão da ordem dinástica estabelecida pela Constituição do Império.

Abordados os aspectos gerais de O reino que não era deste mundo, descontando-se a narrativa conspiracionista, a visão historiográfica tradicional e os pontos obscuros, como o do Cotegipe disposto à república, a obra é recomendável, e principalmente por um aspecto: a interpretação positiva das experiências de D. Isabel como regente do Império e a possibilidade de que poderia ter advindo um Terceiro Reinado progressista, o que diverge de muitas produções historiográficas, que diminuem a importância da princesa para a história nacional.

*Gabriel A. L. Carvalho dos Santos é graduado em
História pela Universidade Estácio de Sá.

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