Artigo – A ciência genealógica

A ciência genealógica*

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Pe. João Dias Rezende Filho**

Ciência auxiliar da História, a Genealogia é, muitas vezes, percebida como excentricidade ou mera vaidade de quem deseja alardear origens nobres. Na apresentação da obra genealógica A Mística do Parentesco (1987), de Edgardo Pires Ferreira, o historiador Laima Mesgravis explica que os estudos genealógicos “foram consignados à vaidade dos seus autores que pretendiam através deles enaltecer-se com a comprovação de ascendentes ilustres e parentela poderosa” (p.13).

A ciência genealógica, todavia, é bastante multifacetada para ser aprisionada no chavão de “presunçoso estudo das origens”. Se ela serve a legitimações dinásticas e nobiliárquicas — está fora de dúvidas que sempre serviu, pelo menos até o século XIX —, ela pode igualmente servir de auxílio, um rico auxílio, à Antropologia, à Sociologia, à Demografia, à Estatística etc. Tanto assim que a quase totalidade dos cientistas sociais mais importantes do séc. XX nunca prescindiram dela para lhes socorrer em suas muitas teses explicativas do fato social.

Aos que empreendem pesquisas genealógicas para exibir uma origem diferenciada, superiorizada, da maioria das pessoas, há, em contraponto, diversos textos satíricos, em todas as línguas. Recorramos, por exemplo, ao Pe. Paulino Antonio Cabral (1719-1789), então vigário de Jazente, em Portugal, conhecido na literatura lusa como “Abade de Jazente”. No poemeto abaixo, ele faz troça do fato de que descendemos todos das mesmas pessoas, tendo gente nobre e célebre dentre os antepassados, tanto quanto indivíduos comuns e desconhecidos:

Qualquer homem como eu tem quatro avós:

Esses quatro por força dezesseis,

Sessenta e quatro a esses contareis,

Em só três gerações que expomos nós.

Se um homem só dá tanto cabedal,

Dos ascendentes seus, que farão mil?

Uma província? Todo o Portugal

Por esta conta, amigo, ou nobre vil,

Sempre és parente do Marquês de Tal,

E também do porteiro Afonso Gil.

O Abade de Jazente esboça em seus versos a chamada teoria do implexo dos ancestrais, formulada no século XIX por Ottokar Lorentz e Oscar Hager, mas já antevista desde a antiguidade clássica grega, em que se estima que Platão teria dito: “Não há príncipes que não descendam de servos e servos que não descendam de príncipes!”. Segundo o implexo dos ancestrais, não há correspondência exata do número real (histórico) de ancestrais que cada um tem com o número teórico (matemático).

Explica-se: todos os humanos têm 1 pai e 1 mãe, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós, 32 tetravós, 64 pentavós, e daí por diante. A cada geração que se recua dobramos nossa linha ancestral numérica projetada. Sendo assim, qualquer humano do início do século XXI teria, no início do século XIV, em sua árvore de costados, mais de 28 milhões de antepassados. Ocorre que no século XIV a população mundial não alcançava nem 25% desta impressionante cifra! A conclusão é óbvia: descendemos, em verdade, várias vezes dos mesmos antepassados por linhas diferentes. E, ao fim e ao cabo, somos todos primos uns dos outros, uns mais longe, outros mais distantes, em graus diversos, claro, mas primos. E é por isto que em todas as famílias haverá sempre antepassados célebres e antepassados não tão célebres, como escreveu o bem humorado padre português: sempre serás parente do Marquês de Tal e também do porteiro Afonso Gil. Ao recuarmos algumas gerações em um estudo genealógico aparecerão avós que tornaram a aparecer repetidas vezes nos costados de determinado indivíduo. Sempre existiram muitos casamentos entre parentes — a endogamia —, o que resulta na diferença entre a quantidade teórica de ancestrais de alguém e a sua quantidade real.

Um exemplo histórico célebre desta diferença entre a quantidade de avós em teoria e na realidade é apontado pelo historiador e genealogista austríaco de origem polonesa Otto Forst de Battaglia (1889-1965), quando analisa diversas genealogias das dinastias europeias e conclui por apontar que o Rei D. Alfonso XIII de Espanha (1886-1941) tinha apenas 111 nonos-avós, e não os 1024 teóricos que teria, em tese, naquela geração.

Árvore de descendência por meio da qual os ingleses ilustram a ancestralidade de sua rainha atual, Elizabeth II, chegando ao Patriarca Abrãao, um dos mais ilustres personagens veterotestamentários.

Árvore de descendência por meio da qual ingleses aficionados em genealogia ilustram a ancestralidade de sua rainha atual, Elizabeth II, chegando ao Patriarca Abrãao, um dos mais ilustres personagens veterotestamentários — o que faz da monarca britânica uma prima distante de Jesus Cristo.

Em artigo que fiz publicar, em 2011, na Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia, escrevi que a genealogia

tem o importantíssimo papel de revelar modos de configuração e compreensão da organização do corpo social. Tendo em vista que a família é um dos grupos sociais básicos e de grande significação que formam a sociedade, sendo uma das primeiras instituições, senão a primeira, a influenciar as pessoas, é necessário estudá-la e conhecê-la para que se possa bem compreender as questões sociais. (Revista da ASBRAP número 17, p. 205)

A genealogia deve, pois, ser considerada uma ciência, na medida em que possui um objeto de estudo definido e um método de estudá-lo, além de fornecer dados muito preciosos para a análise da formação das sociedades, servindo de base para importantes conclusões históricas e sociais.

* Artigo publicado em O Estado do Maranhão, em 28.06.2015.

**João Dias Rezende Filho é sacerdote católico,
bacharel em Teologia, Filosofia e Direito,
pesquisador em História e Genealogia e conselheiro do IDII. 

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