Artigo – Carolina Nabuco e seu espírito cristão

Carolina Nabuco e seu espírito cristão

 

Pe. João Dias Rezende Filho*

 

Os filhos de Joaquim Nabuco, em foto célebre. Carolina é a mais velha, seguida de seus irmãos Maurício Hilário Nabuco de Araújo (1891-1979), Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo Filho (1894-1968), Marianna Nabuco de Araújo (1895- ) e José Thomaz Nabuco de Araújo (1902-1994). Imagem do sítio http://www.joaquimnabuco.org.br, da Academia Brasileira de Letras.

 

Tenho puxado pela memória como tomei conhecimento pela primeira vez dos Nabuco. Não consigo me lembrar do momento exato em que comecei a admirar o grande líder abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910) e o grande estadista, Senador José Thomaz Nabuco de Araújo (1813-1878), seu pai. Talvez tenha sido através da obra A Mística do Parentesco, do primo de minha avó materna, Edgardo Pires Ferreira, que já em criança tomava da estante de minha avó e folheava, curioso, querendo conhecer os primos espraiados Brasil afora. Os Nabuco estão lá, pois se ligaram, pelo casamento, a alguns primos e em um dos apêndices são tratados, em linhas gerais, desde o patriarca da família no Brasil, o cirurgião-mor Manoel Fernandes Nabuco (1738-1817), português de Figueira do Castelo, emigrado para a Bahia. Ou talvez tenha sido através de algum comentário de meu avô materno, admirador do caráter e das ideias do ilustre defensor da causa da emancipação dos cativos. Enfim, não sei dizer ao certo, mas lembro-me de quando li, em uma edição barata, que comprei aqui mesmo em São Luís, aquela que é considerada a obra magistral de Joaquim Nabuco: Minha Formação. Eu tinha 16 anos, estava às vésperas de fazer meu primeiro vestibular para o curso de Direito e tinha na cabeça a quimera de ser literato, quem sabe até poeta, acreditando nos fados que guiam os destinos dos nascidos nesta terra dita de poetas e escritores, chamada, cada vez com menos razão, de Atenas Brasileira, porém este já é outro assunto, e tudo que me caía às mãos eu devorava, sobretudo os intelectuais nordestinos e Joaquim Nabuco estava entre as leituras a que me obriguei com prazer.

Tornei-me nabucófilo e, desde então, li e tenho lido tudo que posso, apesar de meu tempo de leitura, infelizmente, ser cada vez mais escasso, sobre Joaquim Nabuco, seu pai e sua família de ilustres homens de pensamento e ação que deram sua preciosa contribuição para aquilo que há de bom e relevante nestes nossos Brasis.

Recentemente, deparei-me, em uma de minhas idas à Livraria Poeme-se, aqui em São Luís, do meu bom amigo Riba, com o exemplar da editio princeps de Oito Décadas, livro de memórias da primogênita do abolicionista e político pernambucano, Carolina Nabuco — ou Maria Carolina Nabuco de Araújo (1890-1981) —, e “caí de amores” por mais um membro dessa linhagem beletrista. Eu sabia que ela tinha sido uma escritora de escol e tenho a biografia muito correta e com grande embasamento nas obras e discursos de seu pai que ela escreveu com maestria e que eu li em 2008 numa antiga edição que encontrei junto aos livros que minha tia-avó Neide Pecegueiro me deixou. Entretanto, não tinha ainda travado conhecimento com a pessoa dela mesma, com a própria Carolina. A leitura da Vida de Joaquim Nabuco aumentou minha admiração pelo pai, mas não consegui, quiçá ofuscado pela personalidade fulgurante do pai, dar-me conta do grande valor humano da filha biógrafa.  Grata surpresa a Carolina Nabuco que salta ilustre, sábia, humilde, alegre, feliz e muito, muitíssimo católica das páginas de seu Oito Décadas. Foi, principalmente, seu caráter piedoso, contudo sem pieguices, sua religiosidade madura e, a um só tempo, inocente como a de uma jovem noviça, que me conquistou e me impeliu a escrever estas linhas. Talvez melhor se diga citar a própria Carolina Nabuco, mais do que descrevê-la.

Fica claro, bem no início, na urdidura de suas memórias, escritas sem a mínima afetação, o lugar primordial de Deus na vida de Carolina. Ao narrar uma viagem que fez ainda na juventude para a fazenda de seu avô materno, o Barão de Inoã, José Soares Ribeiro (1836-1906), ela destaca:

Um dos passeios no Pilar que nos deu maior prazer foi num dos carros de bois todo engalanado e forrado de esteiras, que nos conduziu à capela de Nossa Senhora da Saúde, em terras da fazenda. Lá nos pusemos a “trabalhar”, ajudando (com zelo) um grupo de moradores da vila que fazia a limpeza da igreja, preparando-a para a grande festa do dia seguinte. (Nabuco, p. 13).

Imediatamente me veio à recordação outra grande dama brasileira: a Princesa Imperial D. Isabel (1846-1921), lavando a então Matriz de São Pedro de Alcântara junto com as mulheres simples da cidade para os festejos em honra do santo frei espanhol — e português de coração.

Mais tarde, falando sobre o esforço dispendido, que lhe comprometeu a saúde, durante a pesquisa na farta documentação de seu pai, para a elaboração de sua biografia, Carolina lamenta ter tido que abandonar por um tempo o catecismo que ministrava juntamente com uma ilustre amiga.

Forçada pelo cansaço crescente e pela tortura da dor de cabeça, embora sem diminuir as horas de trabalho, suspendi todos os compromissos, inclusive as aulas de catecismo que eu dava às crianças pobres do Catete, e às quais me havia dedicado com a maior pontualidade (eram nos jardins do Palácio do Catete, sob a orientação de Laurita Pessoa, filha do Presidente Epitácio Pessoa). (Nabuco, p. 88)

No entre-guerras (1918-1939), lamentando e desabafando contra a violência que se abate sobre um mundo beligerante, ela continua:

Meus anos de vida atravessaram uma época em que os problemas ligados às classes e ao trabalho tomaram lugar preponderante no espírito humano. Após a revolução soviética em 1917, novos horizontes se haviam aberto à consciência dos povos. Vimos o mundo solapado por propósitos muito diferentes dos que influíram no passado. A doçura da caridade cristã substituída pela aspereza da coação. Vimos uma das beatitudes da pregação de Cristo, sem dúvida a mais eloquente de todas — aquela que proclama “bem-aventurados os que têm fome e sede de Justiça porque serão saciados” — tomar a primazia sobre as demais, as de promessa suaves; sobre aquelas, por exemplo, que dizem: “bem-aventurados os misericordiosos  porque conseguirão misericórdia”, ou “bem-aventurados os mansos porque possuirão a Terra”; mas vimos generalizar-se a opinião de que a fome e a sede de Justiça deviam ser saciadas com sangue. (Nabuco, p. 101)

Ainda sobre este mesmo assunto Carolina escreve:

O estrondo da Revolução Russa que, na história moderna, só encontra paralelo no da Francesa, de 1789, não ocupou maior lugar em meu pensamento do que o eco desta última, que eu só podia ver com os olhos das gerações passadas. Em ambas tive a atenção presa, sobretudo, pelo ateísmo e a crueldade que as caracterizavam. Minha Mãe e eu unimo-nos para julgá-las como se fôssemos da mesma idade. Compartilhamos da mesma indignação pela ofensa de negar a Deus. Foi comum o nosso horror pensando nas cabeças caídas na guilhotina e no extermínio da família imperial da Rússia. (p. 101)

Numa viagem que fez a Roma, nossa memorialista escreve a D. Evelina Torres Soares Ribeiro Nabuco (1865-1948), sua mãe, uma espécie de diário de viagem. Destacamos o seguinte:

22 de junho. Hoje estive na Basílica de São Pedro durante quatro horas e meia assistindo à canonização de um santo português, São João de Brito. Não fiquei cansada, adorei a cerimônia. Da música não tenho competência para falar, mas estou certa que contribuiu para eu não sentir cansaço. Aliás houve um momento, no Glória, em que o órgão me empolgou. Traduziu realmente triunfo. Qualquer assistente, crente ou não, poderia ficar certo de que, enquanto realizar cerimônias assim, a Igreja continuará a atravessar os séculos. Além do lado emotivo e simbólico que prende os assistentes, as cerimônias oferecem uma riqueza perto da qual tudo mais fica pobre. (p.126)

Que agudeza de análise faz a grande memorialista! Que espírito católico formado na beleza da Liturgia que encaminha tudo e todos para o Belo Eterno e Supremo! É pena que tenhamos perdido muito destes ricos simbolismos que nos aproximam do verdadeiramente Sagrado!

Carolina Nabuco

D. Carolina e seus irmãos Mons. Joaquim Nabuco e Emb. Maurício Nabuco, no Rio de Janeiro. Foto retirada de “Oito Décadas”.

Já falando da idade em que se encontrava quando escrevia suas Oito Décadas, mostra sua resignação e seu espírito de amor à Cruz nas entrelinhas deste trecho: A velhice inteligente é a que aceita suas condições sem reclamar contra as misérias e dissabores da idade, e aproveitando as vantagens que possa surgir (p. 183). E continua revelando seu espírito pleno de bondade, de desejo de fazer bem espiritual a alguém, vontade intensa de levar as pessoas até Deus:

O direito de abençoar é um privilégio da velhice de que me valho sempre que posso. Até a desconhecidos na rua me acontece abençoar de longe, apenas com um olhar. As palavras “Deus te abençoe” ditas ou pensadas, estabelecem um contato em forma de triângulo, com Deus por base. No caso de transeuntes na rua elas me vêm como um súbito eflúvio de compreensão, em geral nascido de comiseração. (…) Há dias vi o capelão da igreja que frequento caminhando na rua com ar de extremo cansaço. Gostaria de saber se minha piedade calada lhe comunicou de longe o encorajamento de que estava precisando. (p.185)

Ressuma verdadeira caridade destes episódios narrados por D. Carolina Nabuco, a ilustre filha do “Príncipe dos Abolicionistas”.

Já vão alongadas estas linhas, mas não se pode deixar de transcrever este trecho quase ao fim de sua obra que ela fez questão de intitular — a nenhum outro trecho do livro colocou um subtítulo — como Deus em minha vida e que dará um pouco a dimensão da naturalidade com que ela viveu sua fé; não há em Carolina o prodígio de uma grande santidade. Não se trata de uma senhora perfeita. Nem as há, como sabemos. Assaltaram-lhe, também, dúvidas, ainda que leves, que podem perturbar até mesmo os que se julgam inabaláveis na fé. Alguns momentos de aridez e secura espiritual invadiram o espírito de Carolina. Quem não tem momentos de Tomé antes do encontro com Cristo Ressuscitado, mas chagado? O trecho é longo, mas necessário para a compreensão do que nossa autora percebeu como sendo seu afastamento da perspectiva cristocêntrica:

Aconteceu-me, durante um espaço felizmente curto de minha maturidade, deixar de sentir esta permanente presença de Deus. Foi um período de dúvidas, de isolamento espiritual, de inquietação. Conservei, porém, obstinadamente, a convicção de que minha fé permanecia intacta, precisando apenas de recobrar seu antigo vigor. Procurando o motivo de me ter acontecido isso, cheguei à conclusão de que era porque, desde muito tempo, eu deixara afastar-se de mim a figura de Jesus para concentrar minha religião na percepção do mundo criado, e, portanto, na existência de um Criador Supremo. A exclamação “Meu Deus!” passou a evocar para mim somente a primeira pessoa da Santíssima Trindade, vista no esplendor de sua obra. Eu deixara desvitalizar-se em meu espírito a figura do Cristo e a de sua Mãe que eu havia incluído fielmente nas orações de minha infância, em particular na devoção do terço, que eu continuava a recitar, já agora sem a devoção da meninice. Deixando se distanciarem as figuras familiares de Jesus e Maria, despovoei meu mundo espiritual e perdi a paz de espírito em que se firmava minha fé. Apenas descobri o erro em que caíra, que foi o de antepor o Pai ao Filho, procurei fortalecer meu amor a Cristo por meio das devoções ao Sagrado Coração de Jesus que, durante anos, me acompanhara, especialmente nas primeiras sextas-feiras de cada mês. Em vão. (Nabuco, p. 187)

Narrando seu retorno com muito esforço ao vigor da fé de sua infância, Carolina conclui que não se sentiu extasiada por nenhuma comunicação mística, mas tão-somente retornou ao seio da presença divina. Uma vez mais, faz questão de não se colocar em um alto patamar, mas de deixar claro que não é uma mística, e sim uma mulher crente, senhora de fé.

E repleta de profundo agradecimento, ela encerra sua autobiografia de um modo assustadoramente prosaico, porém belo: Isso dito, não quero me perder mais em vagas imaginações. Deixo que essas minhas memórias se terminem com a simples afirmação de fé católica em que me conservei, graças a Deus. (Nabuco, p. 193).

Espero que este artigo não tenha sido enfandonho. E espero, ainda, que tenha sido possível despertar o interesse sobre a vida e a obra de Carolina Nabuco, uma mulher interessantíssima do século XX brasileiro, pouco estudada até aqui.

Oito Décadas recebeu edição em 2000. Aos que se aventurarem por suas páginas, muito boa leitura!

 

*João Dias Rezende Filho é sacerdote católico,
bacharel em Teologia, Filosofia e Direito,
pesquisador em História e Genealogia e conselheiro do IDII.

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