Artigo – O adeus a Fabiola dos Belgas, rainha como poucas

O adeus a Fabiola dos Belgas, rainha como poucas

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Bruno da Silva Antunes de Cerqueira*
José Theodoro Mascarenhas Menck**

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Uma foto de Fabiola dos Belgas. Página oficial da monarquia belga: http://www.monarchie.be

Em 12 de dezembro de 2014 visitamos a Embaixada do Reino da Bélgica em Brasília. O motivo: enviar à Casa Real e ao Povo belgas as sinceras condolências do Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora pelo falecimento de Sua Majestade a Rainha Viúva dos Belgas, ocorrido no pequeno Castelo de Stuyvenberg, no Domínio Real de Laeken (subúrbio de Bruxelas e local de nascimento de seu marido), cinco dias antes.

Fomos recebidos pelo simpático Embaixador Jozef Smets, que também cumprimentava a seus colegas diplomatas, igualmente pesarosos pelo passamento da Rainha Fabiola.

Tem o presente artigo o objetivo de traçar uma pequeníssima biografia da rainha defunta, ao tempo em que se comenta como a Bélgica, país moderno e pujante na União Europeia, sediando inúmeras de suas instituições e tendo participado em grande medida de sua construção, parece não poder prescindir de sua monarquia para continuar existindo, enquanto nação.

Dona Fabiola Fernanda Maria de las Victorias Antonia Adelaida de Mora y Aragón nasceu em 11 de junho de 1928, como a quarta dos sete filhos de Dom Gonzalo de Mora y Fernandez del Olmo (1887-1957), 4º Marquês de Casa Riera e 2º Conde de Mora (título vaticano) e de Dona Blanca de Aragón y Carrilo de Albornoz (1892-1981), da Casa dos Marqueses de Casa Torres, Viscondes de Baiguer e Condes de La Rosa.

D. Fabiola nasceu no Palácio do Zurbano, em Madrid, onde atualmente funciona o Ministério do Fomento da Espanha. Era afilhada de batismo da Rainha D. Victoria Eugénia (1887-1969) — nascida Princesa de Battenberg, neta da Rainha Victoria (1819-1901), esposa de D. Alfonso XIII (1886-1941) e bisavó (e madrinha) do atual Rei D. Felipe VI.

D. Fabiola teve infância atribulada em decorrência da deposição de D. Alfonso XIII em 1931 e da Guerra Civil espanhola (1936-1939). Sua família passou parte desses anos entre o País Basco, a França e a Suíça. Retornaram a Madrid no fim de 1939. Formou-se como enfermeira e trabalhou em hospitais militares madrilenhos durante os anos 1950.

Em 1959, a jovem aristocrata espanhola, ultra-católica e única de seus irmãos ainda não casada, foi abordada por uma religiosa irlandesa, Veronica O´Brien, que juntamente com o então Bispo Auxiliar de Bruxelas, Dom Leo-Jozef Suenens (1904-1996), convenceram-na a conhecer de perto o jovem e ainda solteiro Rei Baudouin dos Belgas (1930-1993). Tendo se encontrado em Bruxelas, de forma secreta, rapidamente se enamoraram e peregrinaram juntos a Lourdes, na França. Noivaram e se casaram meses depois, em 15 de dezembro de 1960, na presença de um sem-número de membros do “Gotha” europeu, haja vista que o rei belga era, pelo pai, Leopold III dos Belgas (1901-1983), um Saxe-Cobourg-Gotha, Wittelsbach, Bragança, Hohenzollern-Sigmaringen, Bourbon-Orléans etc. e, pela mãe, Astrid da Suécia (1905-1935), um Bernadotte, Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg, Hessen-Kassel, Nassau-Weilburg, Oranien-Nassau, Beauharnais-Leuchtenberg, Württenberg etc.

A união de Baudouin e Fabiola dos Belgas parece ter sido a única, no século XX, em que um rei ou príncipe-herdeiro europeu se casou com uma moça por intermédio de clérigos católicos. Eles não eram primos próximos e nunca tinham travado contato antes do “arranjo” do futuro Cardeal Suenens e Veronica O´Brien. Diz-se que Fabiola, cônscia de sua condição de membro da média/alta nobreza espanhola, mas não da realeza europeia, teria inclusive se amofinado com a Irmã Veronica O´Brien, primeiro por não acreditar naquela “missão” e, depois, por desejar para o rei belga uma aliança principesca. O encontro dos dois — ele, com 29 anos, mas rei desde os 21 e ela, com 31 anos — e a recitação do Rosário de Nossa Senhora mudaram suas vidas. A jovem espanhola, que já havia publicado um livro infanto-juvenil em Madrid, Los doce cuentos maravillosos, parece ter, ela mesma, conseguido acreditar no seu “conto de fadas”.

Celebrada a boda que a tornou soberana-consorte dos belgas, a Rainha Fabiola, poliglota, logo se tornou querida da pátria de adoção, como sói ocorrer. Aprendeu a falar com desenvoltura o neerlandês dos flamengos e o francês dos valões, os dois principais povos que compõem o Reino da Bélgica, uma federação, oficialmente, desde a Constituição de 1993, mas cujas bases do federalismo datam de décadas anteriores.

O casamento foi muito feliz, mas logo vieram as provações. Durante a primeira década de união — da mesma forma como se deu, no século XIX, com D. Isabel do Brasil (1846-1921) —, a Rainha Fabiola teve cinco gestações, todas elas findadas com abortos naturais. Seus bebês não se mantinham no útero e a gravidez era malograda. Em 1968, na sua quinta e última gravidez, ela foi informada pelos médicos que qualquer gestação futura lhe taria graves riscos de morte. O casal, profundamente triste, renunciou a ter filhos e se voltou particularmente a ajudar o Príncipe de Liège, Albert (futuro Albert II dos Belgas), irmão mais novo de Baudouin, e a Princesa Paola Ruffo de Calábria (atual rainha-mãe), a educar seus filhos, os Príncipes Philippe, Astrid e Laurent. Encontraram na fé religiosa cristã e na devoção aos belgas e aos povos africanos que foram colonizados (congoleses, ruandenses e burundianos) forças para levar adiante o serviço e os trabalhos.

Tinham reconhecimento internacional pela dedicação às pessoas portadoras de deficiência física e mental, crianças desamparadas, estudantes pobres e músicos iniciantes, mormente por meio da Fondation Roi Baudouin e outras, similares. A Fundação Rei Baudouin foi a que premiou, em 1980, o educador Paulo Freire (1921-1997) por sua dedicação e devoção à causa da alfabetização de crianças e adultos brasileiros.

O Cardeal Suenens — um importante padre conciliar no Vaticano II e apoiador do Movimento de Renovação Carismática da Igreja Católica — narra em Le Roi Baudouin, une vie qui nous parle, saído em 1995, como a vida do casal era voltada a ajudar o próximo, em um apego franco, e não apenas formal e devido aos encargos da realeza, às causas humanitárias mais candentes. Certa vez o Rei Baudouin verbalizou a algumas crianças, em um evento, que ele e a mulher haviam finalmente compreendido que Deus quis deles o amor incondicional a qualquer criança, vez que não podiam gerar progênie.

O Rei Baudouin, que realmente não era afeito ao mundanismo, chegou a ser conhecido por muitos anos como “le Roi triste” por belgas e europeus em geral, por seu caráter austero. Não era uma pessoa triste, mas estava longe da expansividade desmedida.

Por fim, em 03 de abril de 1990 uma crise entre as sólidas convicções religiosas do monarca e os tempos modernos se instaurou, colocando em risco a perenidade do próprio trono, a cuja causa o Rei havia dedicado toda sua vida. Naquele dia, o Rei fez saber que sua consciência não lhe permitia subscrever a lei que pretendia regularizar e descriminalizar a prática do aborto no país. O impasse institucional estava criado. A Constituição belga dava ao soberano o direito de veto, o que implicaria em uma nova apreciação da matéria pelo Parlamento. No entanto, uma vez ratificada a votação pelo Senado e a Câmara, nada mais restaria ao Chefe de Estado a não ser promulgar a norma. Uma inusitada crise constitucional que contrapunha o monarca ao parlamento abalava os alicerces do trono.

A solução da crise foi costurada no âmbito do Conselho de Ministros, que, reunido, declarou ser o caso da aplicação da norma constitucional referente à  “impossibilidade de reinar”. As Câmaras foram convocadas, a lei foi aprovada, recebendo chancela do Primeiro-Ministro Wilfried Martens (1936-2013), que, no momento, assumira as funções de Chefe de Estado. Promulgada a lei, considerou-se superada a “impossibilidade de reinar” que pesava sobre o Rei e lhe foi devolvida a plenitude de seus poderes constitucionais, no dia 05 de abril de 1990.

Três anos mais tarde, e de forma prematura, o Rei Baudouin teve um infarto em sua Villa Astrida, em Motril, Granada, Espanha. Seus funerais, em agosto de 1993, foram acompanhados por mais de 500.000 belgas (5% da população nacional), além dos milhões que acompanharam por intermédio dos meios de comunicação. Também se fizeram presentes dezenas de monarcas e chefes de Estado, dentre os quais destacou-se a Rainha Elizabeth II da Grã-Bretanha, que não se desloca para exéquias, sendo sempre representada por um filho ou outro familiar. A exceção se dera em virtude de seu especial carinho e profunda admiração pelo primo belga.

A Missa de Réquiem na Catedral de São Miguel e Santa Gúdula, em Bruxelas, emocionou boa parte do mundo. Na ocasião, Fabiola trajou branco, em um luto diverso do tradicional das famílias reais católicas, mas já comum no seio da dinastia reinante dos Países Baixos, desde a Rainha Wilhelmina (1880-1962), a qual determinou que em seus funerais houvesse alegria pela Ressurreição, mais do que dor pela perda.

Apesar de venerados por milhões de belgas, os Reis Baudouin e Fabiola não eram imunes a críticas e particularmente seu comportamento em relação a alguns políticos que se sucederam nos governos das antigas colônias (Congo, Ruanda e Burundi) era constantemente vigiado pelos jornalistas menos simpáticos à monarquia. O número de belgas antipáticos a Baudouin e Fabiola, contudo, nunca ultrapassou, nem de longe, o de súditos fieis.

Com a morte de Baudouin em 1993, a Rainha Viúva Fabiola acompanhou seus cunhados, Albert II e Paola, novo casal real, em todos os passos na difícil administração da Bélgica, que tem embates frequentes entre os valões e os flamengos nas arengas políticas. Para que se tenha ideia, o país passou os anos de 2010 e 2011 sem primeiro-ministro designado pela maioria parlamentar, dadas as desavenças entre as duas comunidades. O Primeiro-Ministro Yves Leterme havia renunciado em abril de 2010, mas somente em dezembro de 2011 o ítalo-belga Elio Di Ruppo, chefe dos socialistas que havia sido indicado pelo Rei Albert para presidir o governo federal, passou a chefiar o gabinete de fato. Di Ruppo foi o primeiro não flamengo a titularizar o governo, desde 1979.

Em 21 de julho de 2013, festa nacional belga, o Rei Albert II abdicou da coroa em favor do primogênito, o Rei Philippe, conforme informou este blog. Desde então, a Rainha Fabiola teve quase nenhuma aparição pública. Exceção foi 31 de julho de 2013, nos vinte anos da morte do marido, em uma missa de ação de graças por sua vida e obra, conforme também veiculamos aqui.

Após anos de sofrimento com artrose, e complicações pulmonares devidas a uma infecção em 2009, ela finou-se em Stuyvenberg, certamente com todo acompanhamento médico e espiritual necessários.

Seu corpo foi velado no Castelo de Laeken e no Palácio Real de Bruxelas. Em 12 de dezembro, o féretro partiu para a catedral bruxelense e o Réquiem foi celebrado por Dom Godfried Cardeal Danneels, Arcebispo Emérito de Bruxelas-Mechelen, e co-celebrado pelo atual Arcebispo, Dom André-Joseph Léonard e demais bispos da Bélgica.

Uma infinidade de sobrinhos e sobrinhos-netos espanhóis da Rainha Fabiola compareceram ao evento, assim como o Rei D. Juan Carlos e a Rainha-mãe D. Sofia da Espanha. Do lado do Rei Baudouin, os príncipes belgas e os de Luxemburgo homenagearam de forma tocante a tia e tia-avó. Em um caixão branco e muito simples, no chão da Catedral, os ritos litúrgicos católicos foram executados e os cânticos, nas diversas línguas faladas por Fabiola, foram entoados. Não faltou sequer a tradicional música andaluz Salve Rociera (homenagem a Nossa Senhora, Virgem do Rocio), cantada pelo coral Vilvoorde, de espanhóis residentes na Bélgica, chefiados pela sobrinha da Rainha Fabiola, a Marquesa de La Ahumada, D. Blanca de Guzmán y Escrivá de Romani y Mora. Realmente tocante.

Com essa cerimônia singela os belgas se despediram de sua quinta rainha. O mundo, de uma mulher formidável.

*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira é historiador,
especialista em Relações Internacionais e bacharelando em Direito.
É fundador e 
gestor do IDII e indigenista especializado (analista) da Funai

**José Theodoro Mascarenhas Menck é advogado,
mestre e doutor em História pela UnB,
consultor legislativo da Câmara dos Deputados e conselheiro do IDII.

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