Artigo – A batalha e o milagre de Guaxenduba


A Batalha e o Milagre de Guaxenduba*

 

Pe. João Dias Rezende Filho**

 

Tive a honra de participar, no último dia 19, de um fato de grande relevância histórica e espiritual, na Igreja da Sé de São Luís do Maranhão, dedicada à Virgem Maria, Senhora da Vitória. Celebrei uma Santa Missa em memória da aparição de Nossa Senhora junto às tropas comandadas por Jerônimo de Albuquerque (1548-1618), filho do fidalgo português de mesmo nome com a índia tabajara M´Uirá Ubi (filha do Cacique Arcoverde, dos Tabajara de Pernambuco, e batizada cristã como D. Maria do Espírito Santo Arcoverde). O sacrifício eucarístico de 19 de novembro de 2014 se deu pelo sufrágio da alma de todos que tombaram durante aquele combate e os que nele tomaram parte.

Foi a primeira vez, desde a reforma litúrgica de 1968, que a Santa Missa foi celebrada conforme os ritos codificados pelo Concílio de Trento, no século XVI, portanto em latim e com cantos gregorianos, na Catedral do Maranhão. Foi assim celebrada a pedido de um descendente direto do Capitão Jerônimo de Albuquerque Maranhão — o topônimo Maranhão foi adicionado a seu nome por uma ordem de El-Rei D. Filipe II de Portugal, ou D. Felipe III de Espanha (1578-1621) ratificando a forma como Jerônimo assinou-se no Armistício de 27 de novembro de 1614, segundo historia o genealogista Borges da Fonseca, em sua obra setecentista Nobiliarchia Pernambucana.

O Dr. Paulo Fernando Arcoverde de Albuquerque Maranhão, nono-neto do Capitão-Mor do Maranhão — e antigo assessor político de D. Pedro Henrique (1909-1981), Chefe da Casa Imperial do Brasil, neto da Redentora — julgou pertinente que o rito utilizado no ato religioso fosse o mesmo da época do evento histórico, ao que anuiu nosso Arcebispo Metropolitano, D. Frei José Belisário da Silva, OFM.

A batalha que há quatrocentos anos selou a posse do território que vai do que hoje é o Ceará até mais ou menos o atual Amazonas como pertencente à Coroa portuguesa, na época unida à Coroa de Espanha (União Ibérica), conta com um evento inusitado. Trata-se de uma aparição da Mãe de Jesus, a Virgem Maria, que segundo o relato seiscentista do padre jesuíta José de Moraes e de outros antigos cronistas e historiadores, apareceu em meio às tropas do mameluco Jerônimo, em desvantagem numérica e de munições. Os relatos dão conta de que, ao pegarem em areias e seixos, estes se transformavam em pólvora e balas, que eram entregues aos soldados. Seria, portanto, esta ocorrência milagrosa o fator decisivo para a vitória de Albuquerque e suas tropas sobre os invasores franceses.

À parte o espírito de cristandade que envolvia ainda aquela quadra histórica, mesmo já tendo findado, cronologicamente, o medievo, é interessante fazer uma reflexão sobre o real sentido de uma aparição mariana. Para os católicos, e não somente, mas para o cristão em geral, Deus tem a faculdade de intervir na História, não para manipulá-la, mas para chamar o homem aos trilhos da retidão e da justiça dos quais ele teima em descarrilhar. Maria Santíssima costuma aparecer em épocas de crise, basta lembrar uma das mais recentes aparições, em Fátima, Portugal, no conturbado início do século XX. E Nossa Senhora costuma trazer uma mensagem simples e, ao mesmo tempo, profunda: pede-nos que rezemos, que procuremos evitar conflitos fratricidas, em última instância, que volvamos os nossos corações para Deus.

Na homilia da Missa do último 19, disse eu que Nossa Senhora não aparece em Guaxenduba para favorecer uns em detrimento de outros, afinal de contas, se Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière (1570-1631) era protestante huguenote, a maioria de seus companheiros oficiais e soldados abraçava a fé católica. Teria a Mãe de Jesus querido que irmãos se digladiassem e fossem massacrados uns pelos outros? Certamente que não! Maria aparece para abreviar uma guerra sangrenta e que caso se alongasse traria grande morticínio inclusive para os naturais da terra, os índios. Maria vem para pedir e propor a Paz. De fato, parece inexplicável que tenha havido uma rápida capitulação das tropas francesas, ainda mais porque bem maiores e mais armadas e munidas que as do mameluco, mesmo diante da morte de 150 soldados das tropas francesas. Atribui-se, de imediato, a debandada do restante das tropas ao milagre.

Abreviar aquele conflito e fazer triunfar a paz foi, de um ponto de vista espiritual, o fito com que Deus, através de Maria, interveio no conflito de Guaxenduba. Nossa Senhora da Vitória vem aos homens para fazer vencer não um lado ou outro, mas para que vença a Paz. Negá-lo é enxergar o homem de forma fragmentada e não integral. Somos seres culturais e sociais e todas as realidades circundantes nos dizem respeito, não somente as econômicas e políticas.

Evidentemente, há questões políticas muito aparentes nos acontecimentos que envolvem Guaxenduba, como o casamento arranjado do rei francês Louis XIII (1601-1643) com a infanta espanhola D. Ana (1601-1666), filha daquele que então detinha a dupla coroa ibérica, o já citado D. Felipe III. Uma das cláusulas do contrato matrimonial era o retorno do território invadido por La Ravardière à Coroa Ibérica. O lugar-tenente de La Ravardière, François de Rasilly, católico, foi informado do noivado real e teria apressado seu superior a assinar o armistício do dia 27 de novembro, pondo fim definitivo à ocupação francesa da ilha de Upaon-Açu.

A miraculosidade atribuída a alguns dos fatos da Jornada de Guaxenduba por seus contemporâneos é um fato histórico que não pode passar em brancas nuvens para o maranhense. E não passou. Houve o já citado serviço religioso e um profícuo simpósio de nosso Instituto Histórico e Geográfico no qual várias palestras e debates sobre essa memorável batalha tiveram lugar — fotos abaixo, cortesia do IHGMA.

Renovemos nosso culto aos que nos precederam, na Fé, nos combates, nas ideias, nas obras.

O Brasil, o Maranhão e São Luís são frutos de História(s), que, como se sabe, é ciência multifatorial e polissêmica.

 

*Artigo publicado em O Estado do Maranhão em 26.11.2014.

** João Dias Rezende Filho é sacerdote católico,
bacharel em Teologia, Filosofia e Direito,
pesquisador em História e Genealogia e conselheiro do IDII.

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