O GLOBO – Saquaremas petistas e luzias tucanos (artigo)

O GLOBO – Artigo de Christian Edward Cyril Linch*

Saquaremas petistas e luzias tucanos

Desde o Império, os luzias acusam os saquaremas de autoritários, patrimonialistas, corruptos e adoradores do Estado, sendo por eles acusados de elitistas, privatistas, moralistas e entreguistas

Um clichê político sustenta que somos um povo sem tradições e que os partidos brasileiros são farinha do mesmo saco. Esta eleição — a sexta que opõe candidatos do PT e do PSDB — sugere o equívoco desse clichê. Nossa cultura política reconhece duas tradições ideológicas dominantes desde quase a independência do país: de um lado, o nacional-estatismo; de outro, o cosmopolitismo liberal. Essa dicotomia se estabeleceu de modo claro quando se firmou no Império a oposição entre saquaremas e luzias em torno de propostas alternativas de superação do atraso nacional. Desde então, ambas as tradições vieram, de forma quase despercebidas e adaptado às transformações da sociedade brasileira e à sua democratização.

Desde Bernardo de Vasconcelos e o Visconde de Uruguai a tradição saquarema defende um Estado fortalecido, centralizado e orientado dentro e fora do país por ideais nacionalistas, capaz de intervir no domínio socioeconômico. Era o único meio de salvaguardar os interesses da população contra a mesquinhez de nossas egoístas oligarquias e da cobiça das grandes potências estrangeiras. No plano internacional, vê na afirmação da atuação autônoma do Brasil o passaporte para a sua força e hegemonia na América do Sul. Recuperado na década de 1930 na forma de um nacional-desenvolvimentismo atuante, o nacional estatismo recuperou a simpatia de que sempre gozou junto ao funcionalismo público, e ainda dos sindicatos simpáticos ao trabalhismo e quase todos os setores menos favorecidos da população.

Já os luzias desde Diogo Feijó e Tavares Bastos preferem um Estado mínimo, de federativo estadualista, e orientado por um ideal americanista de país. Seu cosmopolitismo liberal acreditava nas virtudes da autorregulação da sociedade e do mercado, atribuindo a fraqueza da sociedade ao peso supostamente excessivo do Estado. Por isso queriam a abertura do país ao capital estrangeiro, a descentralização política e o fim das intervenções do Estado no campo das atividades econômicas. No plano internacional, viam o êxito de Brasil associado à direção nela impressa pela Inglaterra e depois dos Estados Unidos. Esta tem sido a ideologia favorita da “sociedade civil”, isto é, dos senhores de engenho, empresários, juristas e profissionais liberais.

Na história brasileira, representantes das duas mentalidades vêm se revezando regularmente no poder, primeiro pelas mãos da Coroa, depois dos militares e, ultimamente, do eleitorado. Desde 1945, o nacional-estatismo vigorou no formato desenvolvimentista que lhe deram os progressistas do PTB de Getúlio, Jango e Brizola, mas também os conservadores do governo Geisel. Já o cosmopolitismo liberal foi brandido por próceres conservadores da UDN, desde Armando de Sales Oliveira a Carlos Lacerda, e também durante o governo Castelo Branco.

Nas atuais eleições, Dilma representa, no centro-esquerda, a linhagem nacionalista que o PT, uma vez no governo, herdou do velho PTB de Brizola. Na centro-direita, Aécio encarna o liberalismo cosmopolita que o PSDB de Fernando Henrique, quando ocupou o Planalto, herdou da UDN de Lacerda. Orientado pelo valor da igualdade, o nacionalismo estatista dos petistas aposta em um Estado atuante, capaz de reduzir as desigualdades sociais, enquanto o cosmopolitismo liberal dos tucanos, mais inclinado ao valor da liberdade do indivíduo, aposta na auto-organização da sociedade e do mercado. Desde o Império, os luzias acusam os saquaremas de autoritários, patrimonialistas, corruptos e adoradores do Estado, sendo por eles acusados de elitistas, privatistas, moralistas e entreguistas.

No dia 26 de outubro a população decidirá se os atuais saquaremas ficam mais quatro anos, ou se, girando a roda da fortuna, trará os luzias de volta ao poder.

* Professor do IESP-UERJ e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa

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