Artigo – A proclamação de D. Felipe VI

A proclamação de D. Felipe VI

 

Juliana Bezerra*

 

19 de junho de 2014: Corpus Christi para os católicos. Nem sempre é feriado em Madri, mas este ano, como outras festividades haviam caído em sábados ou domingos, o governo podia decretá-lo como feriado. Dia lindo de primavera madrilenha, céu azul e temperatura subindo. Dia triste, pois foi logo após a Espanha ter sido vergonhosamente eliminada da Copa pelo Chile. Dia histórico: hoje será proclamado Rei de Espanha D. Felipe Juan Pablo Alfonso de Todos los Santos de Borbón y Grécia.

Sei que a imprensa brasileira deu destaque aos descontentes com o atual regime, ao movimento republicano espanhol e, principalmente, aos que desejam convocar um referendo para decidir de uma vez por todas se o país segue como república ou monarquia. Entretanto, apesar dessas vozes em contra, hoje foi um dia daqueles para fazer os cidadãos se unirem em torno desta entidade chamada Nação e desta figura denominada Chefe de Estado.

A proclamação aconteceria exatos dezessete dias após a abdicação de D. Juan Carlos I, anunciada em 02 de junho. Por isso, seria uma cerimônia simples, acorde à crise econômica que a Espanha atravessa. Os edifícios públicos madrilenhos, como a Casa de América e o Banco de Espanha, estavam enfeitados de vermelho e amarelo, assim como o metrô e os ônibus. Teve gente que criticou que a cerimônia foi simples demais, que não houve convidados de outras casas reais e nem festa pelas ruas. Seriam os mesmos que criticariam se houvesse pompa e circunstância.

No dia 18, véspera da proclamação de D. Felipe VI, D. Juan Carlos participou daquele que seria seu último ato oficial: a assinatura do ato de abdicação diante do seu governo no Palácio Real e de membros de sua família. Transmitida ao vivo, percebia-se que o soberano estava visivelmente emocionado.

Como queríamos participar deste momento histórico pensamos ir ao Palácio Real para saudar os novos reis. Infelizmente, acordamos um pouco tarde e assim decidimos somente ver o novo monarca desfilar pelas ruas. Creio que foi melhor, pois enquanto tomávamos café da manhã e nos preparávamos, pudemos assistir ao vivo outras cerimônias relativas à proclamação.

No Palácio de El Pardo, residência oficial da Família Real, houve a imposição da faixa de comandante supremo — o fajín de Capitán-General — das Forças Armadas a D. Felipe VI. Foi emocionante ver D. Juan Carlos passar este símbolo do poder real ao seu filho e depois fazer sua reverência ao novo rei. Presentes somente os membros da família mais próximos: a Rainha D. Letizia e as filhas do casal (Princesa D. Leonor e Infanta D. Sofía), a agora Rainha-Mãe, D. Sofía, a irmã mais velha de D. Felipe VI, Infanta D. Elena, e o filho dela, D. Felipe Juan Froilán de Marichalar y Borbón. De lá seguiram para o Congresso dos Deputados, onde o soberano juraria a Constituição diante dos parlamentares e de alguns convidados.

D. Felipe e D. Letizia foram recebidos pelos Presidentes da Câmara Baixa, da Câmara Alta e membros do Governo. Antes de entrar, entretanto, o hino espanhol — cujo nome oficial é Marcha Real — foi executado e milhares de pessoas puderam aclamar a Família Real. Já no recinto parlamentar começaram os discursos: primeiro o do Deputado-Presidente que agradeceu ao soberano resignatário e à Rainha D. Sofía, nascida princesa da Grécia e da Dinamarca, casal que serviu ao país nas últimas quatro décadas. D. Sofía assistia, emocionada, do balcão principal, ao lado de sua filha, D. Elena. Foi longamente aplaudida.

Em seguida, o Presidente do Congresso tomou o juramento do Rei D. Felipe VI. Ao contrário da proclamação de D. Juan Carlos I, não houve símbolos religiosos e a fórmula jurídica só contemplava a Constituição no juramento, ficando excluídos os Santos Evangelhos. Sinais dos novos tempos, em que a monarquia deve guardar seu legado católico sem deixar de dialogar com outras religiões.

Conseguimos ver uma boa parte do discurso antes de sair de casa. Nas ruas, muitas bandeiras da Espanha. Para chegar perto da Praça de Cibeles passamos pelo controle policial que revistava as bolsas e não deixava ninguém passar com bebida alcoólica. Ficamos lá em frente ao Palácio das Comunicações, onde havia muitas famílias, jovens, idosos, turistas desavisados e curiosos. Todo mundo ali querendo fazer parte deste acontecimento único.

Apesar das recomendações do Ministério do Interior, o novo rei desfilou de carro aberto, em pé, saudando a multidão, com D. Letizia ao seu lado. Mais atrás, em um automóvel fechado, a Princesa de Astúrias, D. Leonor e a Infanta D. Sofía. Agentes de todas as polícias e soldados das três armas faziam a escolta do veículo e zelavam pela segurança.

Quando o carro que trazia D. Felipe VI apareceu pensei que seria testemunha de uma comemoração de gol com gritos e bandeiras. Mas não. Assim como a sucessão foi um ato simples, mas emocionante, as pessoas aplaudiram e agitaram as bandeirinhas e alguns gritaram Viva el Rey!. Da minha parte, consegui ver o rei de costas, embora estivesse preocupada em filmar o momento. Confesso que fiquei comovida com todo o carinho da multidão para com seu soberano.

Este slideshow necessita de JavaScript.

No mais, espero que tudo dê certo, pois o caminho não será fácil. Há referendo na Catalunha em novembro e tem a irmã e o cunhado num imbróglio judicial que acarretou num descrédito das instituições monárquicas. Encerro este relato com esperança em dias melhores para a monarquia espanhola. Como se diz por aqui em atos oficiais onde está presente o soberano: Viva o Rei, Viva a Espanha!

 

*Juliana Bezerra de Menezes Pinto Rodrigues é graduada em História pela PUC-Rio,
pós-graduada em Relações Internacionais pelo Unilasalle-Niterói,

máster em História Contemporânea da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá de Henares.
Mora em Madri, com o marido e o filho, há quatro anos.
Atualmente escreve nos blogs Rumo a Madri e Um ano na Espanha.

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado . Guardar link permanente.