Entrevista – D. Maria Teresa de Parma

 

Entrevista

o

Sua Alteza Real a Senhora D. Maria Teresa Cecilia Zita Carlota di Borbone-Parma e Bourbon-Busset,

Princesa de Parma, Princesa de Bourbon.

 

O Instituto D. Isabel I (IDII) e a Comissão Internacional e Associação de Nobreza (Tican) entrevistaram, por correio eletrônico, a Princesa D. Maria Teresa de Parma, professora de Ciências Sociais e Políticas, bacharela em Filosofia e Ciências Econômicas, intelectual ligada à Sorbonne. Ela é especialista em Direito Político islamita.

D. Maria Teresa reside em Paris, mas já viveu na Itália, na Espanha e na Grã-Bretanha.  Por suas orientações políticas, já chegou a ser conhecida em alguns círculos sociais como a “princesa vermelha”. A Casa Ducal de Parma, à qual pertence a princesa, é um ramo da Casa Real da Espanha, que por sua vez é um ramo da Casa Real da França (dinastia Bourbon). Os Borbone-Parma representam, desde 1936, a herança cultural do movimento carlista que dividiu a Espanha no século XIX e teve atuação frequente no século XX.

Em suas respostas, D. Maria Teresa evita polêmicas, mas não deixa de ressaltar que considera o Brasil um país extremamente promissor, e que a obra dos recentes governos à esquerda tem produzido forte progresso em nossa sociedade.

 

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A entrevistada em foto recente. Divulgação.


Introdução

Senhora, antes de tudo, muito obrigados por esta oportunidade. Nós gostaríamos de introduzir nossas organizações.

O IDII é uma instituição cultural cujo objetivo principal é resgatar a história dos líderes abolicionistas brasileiros, além de promover, por meio de projetos educacionais, um resgate histórico-cultural daquele que foi um dos maiores movimentos sociais da História do Brasil. O IDII presta homenagem especial à memória de D. Isabel (1846-1921), a Princesa Imperial Regente do Brasil que assinou a Lei Áurea (1888), a qual aboliu a escravidão. A Abolição, contudo, produziu, um ano e meio depois, em grande medida, o golpe militar que instalou a República e exilou a “Redentora”. Os projetos de reforma agrária e social do fim da monarquia provocaram uma cisão entre parte considerável das aristocracias rurais brasileiras e a realeza. D. Isabel ─ imperatriz exilada desde a morte de D. Pedro II, no Hotel Bedford, em 1891 ─ viveu na França até sua morte, na saudade do Brasil e dos brasileiros; ela era a avó e madrinha da falecida Condessa de Paris (1911-2003), com a qual Vossa Alteza conviveu de perto.

Os historiadores que idealizaram o IDII são os Profs. Otto de Alencar de Sá Pereira e Bruno da Silva Antunes de Cerqueira; este último classificou o resgate histórico do IDII como sendo o “neoabolicionismo”, em 2005.

A Tican é uma associação nobiliárquica europeia, sob o alto patronato do Príncipe Leka, Chefe da Casa Real da Albânia (dinastia muçulmana Zogu), que vive em Tirana, um primo distante de Vossa Alteza. O representante da Tican no Brasil é o Subprocurador-Geral da República Dr. João Pedro de Saboia Bandeira de Mello Filho, Conselheiro do IDII e Barão de Saboia-Bandeira-de-Mello (título concedido pelo soberano exilado de Ruanda, Kigeli V, chefe da dinastia católica Ndahindurwa).

IDII/Tican

Grande parte dos brasileiros é orgulhosa da pessoa e do reinado de Dom João VI (1767-1826), o rei português que enganou Bonaparte (1769-1821), fugindo de Lisboa para o Rio de Janeiro e estabelecendo as bases do que seria o Estado-nação brasileiro. Vossa Alteza é uma descendente direta de Dom João VI, uma vez que é bisneta de Dom Miguel de Bragança (1802-1866) e sobrinha-bisneta de nosso Imperador, Dom Pedro I (1798-1834).

Tem algum tipo de sentimento para com nosso país, por causa dessa relação com o primeiro rei “brasileiro”?

D. Maria Teresa

Admiro o Brasil, não por causa do meu parentesco com Dom João VI, mas porque é um país grande, dinâmico, generoso, que obteve com o Presidente Lula da Silva progressos incríveis e onde o clero católico tem tido excelentes líderes, como Dom Helder Câmara (1909-1999), que meu irmão conheceu [Dom Carlo Ugo, Duque de Parma (1930-2010)] e Dom Pedro Casaldáliga (*1928). A Igreja no Brasil tem se mostrado uma igreja autêntica, próxima dos pobres.

IDII/Tican

V.A. pertence a uma família grande e muito religiosa, que governou um pequeno ducado italiano (Parma e Piacenza), mas com uma história rica e interessante. Por outro lado, é membro da Casa de Bourbon, uma das dinastias mais importantes do mundo. Até que ponto todo esse passado e todo esse legado a fez feliz? E até que ponto há problemas por causa desse background?

D. Maria Teresa

Bem, eu sempre senti esse background como uma espécie de penhor. Meu pai nos dizia sempre, quando éramos crianças: essa grande tradição que é a nossa, vocês devem valorizá-la onde quer que estejam. Tentem fazer com que as pessoas que lhes admiram sejam responsáveis por elas mesmas. Sejam solidários; a justiça e a solidariedade andam de mãos dadas. Sejam referências, este é o caminho para ser dignos daqueles que lhes precederam.

IDII/Tican

No Ocidente, as mulheres hoje são consideradas iguais aos homens, pelo menos legalmente. Na política, nas relações econômicas, no mundo acadêmico. Quando V.A. decidiu romper com o estereótipo de “princesa de conto de fadas” e resolveu fazer-se conhecida pelos seus estudos e sua carreira acadêmica?

D. Maria Teresa

Isto se dá justamente para tentar ser uma “referência” e levar a cabo nossa tarefa política na Espanha, qual seja a de trabalhar pelo advento de uma democracia progressista.

IDII/Tican

Sabemos que o pai de V.A., Dom Francesco Saverio (1889-1977), Duque de Parma e chefe do carlismo espanhol, foi uma pessoa importante no contexto da I Guerra Mundial, sendo cunhado do imperador austríaco ─ Carlos, beatificado pelo Papa João Paulo II em 2004 ─ e tentando obter a paz. Pode nos explicar o famoso Affair Sixtus?

D. Maria Teresa

Já palestrei bastante sobre o assunto. Meu tio [Dom Sisto di Borbone-Parma e Bragança (1886-1934)] e meu pai tentaram um acordo de paz em separado entre os Aliados e a monarquia dual (Áustria-Hungria), após a ascensão de seu cunhado Karl como imperador e rei. Infelizmente, eles foram completamente frustrados em sua tentativa (que poderia ter salvado a Europa da II Guerra Mundial), pelo egoísmo, a cegueira e a passividade de certas personalidades políticas, tanto na Alemanha, como na Áustria e na França.

IDII/Tican

O carlismo é um movimento social do século XIX que continuou no século XX e que ainda hoje tem seguidores. V.A. pode nos contar um pouco dessa história? Sabemos até que as filhas de Dom João VI (Dona Maria Thereza e Dona Maria Francisca de Assis) tiveram, historicamente, muita relação com o “nascimento” do movimento carlista. A Comunhão Tradicionalista (nome oficial do carlismo) foi originalmente um movimento político dinástico, mas tornou-se socialista e até mesmo favorável à autogestão. O que pensa sobre o carlismo de hoje e esse grande “espectro” de heranças com os quais ele se defronta (catolicismo, legitimismo, socialismo, anarquismo, federalismo etc.)?

D. Maria Teresa

Eu acho que o carlismo social responde a uma projeção na sociedade atual da mensagem dada por Cristo há 2000 anos. Creio, ainda, que o Papa Francisco tem dado um testemunho importante dessa mensagem, o que dá esperança a muitos cristãos.

IDII/Tican

Como especialista no mundo árabe, V.A. acha que uma solução para o conflito judeus X árabes é possível?

D. Maria Teresa

O consenso não é apenas possível, é absolutamente necessário. E o que é necessário é possível na medida em que uma sociedade é, ou quer ser, livre. É necessário fazer justiça ao povo palestino, o que atualmente ainda não se faz, bem como permitir ao povo judeu que viva em paz.

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