Dia-a-dia – Príncipe à brasileira

 

Fonte: http://www.diaadiarevista.com.br/Noticia/11428/principe-a-brasileira

 

Príncipe à brasileira

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Miriam Gimenes

Dom João é trineto de D. Pedro II e bisneto da princesa Isabel

Habitué nas rodinhas de surfistas cariocas da década de 1970, Dom João de Orleans e Bragança, 60 anos, ficou conhecido como João Príncipe. A alcunha não é mera brincadeira entre amigos – entre eles, o cantor e ator Evandro Mesquita e o famoso Menino do Rio, Petit –, mas sim uma alusão ao seu título real, visto que é trineto de Dom Pedro II e bisneto da princesa Isabel. Apesar da nobre ascendência, ele não ostenta a nomeação honorífica. Usa de seu sobrenome somente para lutar pelo bem do País, descoberto por seus conterrâneos há exatos 514 anos. É um fidalgo ‘tupiniquim’: surfista, fotógrafo, ambientalista, empresário e, principalmente, brasileiro.

Orgulhoso dos ensinamentos herdados da Família Real, como o de servir à nação sem ter regalias – não recebe laudêmio nem possui passaporte diplomático –, João é um ferrenho defensor de mudanças na política nacional. Em palestras que faz pelo País, discute sobre os problemas brasileiros e disseca o conceito de democracia, distorcido aqui, em sua visão. A vontade popular é esmagada pelo Poder Executivo que, para ele, é gerenciado por pessoas que não têm ideais voltados ao bem comum. “Temos quadrilhas nos ministérios e estatais”, dispara.A regra é a busca do poder.

Pai de João Phillipe, 28, e Maria Cristina, 25 – portadora da síndrome de Down –, ele revela ter aprendido muito com o nascimento da filha, que venceu os preconceitos e é autora de dois livros. “Antes de ela nascer, eu sempre fui um pouco alternativo. Com 15 anos, ao invés de ir para clubes de elite, fui à praia pegar onda, e neste meio tinha gente pobre, de classe média e rica. Na praia é todo mundo igual.”

Confira a seguir as fotos e opiniões de um nobre que não titubeia em arregaçar as mangas – como fez para ajudar os desabrigados de Teresópolis e Nova Friburgo, em janeiro de 2011 – para defender aquele que é, de nascimento e coração, o seu País. Com a palavra, o príncipe.

DIA-A-DIA – Há um senso comum de que algumas das mazelas brasileiras são consequência da colonização portuguesa. Mas há também a questão do desenvolvimento que chegou com D. João VI em 1808. Como integrante da Família Real, de que maneira avalia essas percepções acerca da influência que Portugal teve sobre o Brasil, inclusive hoje em dia?
DOM JOÃO DE ORLEANS E BRAGANÇA – José Murilo de Carvalho, grande historiador, disse em algumas entrevistas uma coisa interessante: ‘É fazer muito pouco caso do povo brasileiro botar culpa nos portugueses depois de 500 anos’. A gente adora um bode expiatório. Os ingleses, por exemplo, sugaram a Índia enquanto puderam até Gandhi aparecer e, pacificamente, derrubar o grande império inglês. Cada caso é um caso separado, não tem nada a ver com a colonização portuguesa. Falta determinação nossa para mudarmos. Hoje em dia institucionalizou-se a corrupção e, por isso, ocorreram manifestações no ano passado. Chegou-se a um ponto inacreditável. Preocupa-me a saúde da democracia. Há pesquisas que apontam que a população está insatisfeita. O incrível é que 67% das pessoas querem que mude e 37% querem que mude com ela (Dilma). Estamos sem pai e sem mãe. E mais: com a ditadura surgindo na Venezuela, a Argentina quase igual, com fechamento de jornais, cerceamento de importações de papel, isso tudo me preocupa em relação ao Brasil. Apesar de sermos institucionalmente mais fortes, mesmo assim temos de ficar de orelha em pé.

DIA-A-DIA – Laurentino Gomes disse que, para justificar a República, a Monarquia teve de ser rechaçada. Concorda com essa afirmação? Acredita que a República foi a melhor escolha para o Brasil?
DOM JOÃO – Não veio uma República para o Brasil. Ela já nasceu torta porque foi um golpe militar apoiado pelos latifundiários. A diferença é que antes era um governo civil e tinha liberdade de imprensa, expressão e política. Ela cortou as liberdades. Foi melhorando, fomos aperfeiçoando, mas estamos perdendo a democracia. (José) Sarney já foi xingado pelo Lula, (Fernando) Collor também. Agora, estão todos amigos. O presidente mais popular do Brasil vai à casa de um sujeito que é preso se sair do País (Paulo Maluf). Vemos hoje a maior decadência que pode haver na política: o PMDB chantageando o governo porque quer cargos. Agora, ela (Dilma) tirou seis ministros há quatro anos e voltou o mesmo grupo, porque não consegue governar sem essa quadrilha. Temos quadrilhas nos ministérios e estatais. Não tenho partido político, não quero a volta da Monarquia, falo isso pela educação que tive de cidadão brasileiro. Estou absolutamente revoltado com o que estão fazendo com o País. E faltam mais vozes para falar alto isso. Vale dizer que não são todos. Há grandes homens públicos, como Cristovam Buarque (PDT), Eduardo Suplicy (PT), Pedro Simon (PMDB), mas a corja tomou conta.

DIA-A-DIA – Nem todo mundo sabe que você é um príncipe real. Quando são avisadas da denominação, como as pessoas reagem? Como você se sente nessas situações? 
DOM JOÃO – A grande diferença (em ser príncipe) talvez seja que fui educado de que o Brasil vem em primeiro lugar, antes da família, de nós próprios, da pessoa, em tudo. Esta é a grande herança que tive e passo para meus filhos. Minha postura é a mesma de 99% da população: queremos o bem do País. Acho que, ultimamente, depois do bicentenário da chegada (da Família Real, em 1808), começaram a sair livros, ter matérias em programas de televisão e muitas pessoas passaram a se interessar pela história e pela nossa identidade.

DIA-A-DIA – A história brasileira é cheia de caricaturas, inclusive da família real. Acredita que elas têm um pouco de verdade ou são uma forma de marcar os personagens importantes da história, como é o caso de D. Pedro I, conhecido popularmente como mulherengo?
DOM JOÃO – Acho que o brasileiro é muito irreverente. Isso vem com a simpatia e hospitalidade. Fez-se essa coisa de Dom Pedro I ser pegador, mas isso acontecia porque na época era proibido se divorciar. Então, tanto a mulher quanto o homem que não estavam satisfeitos tinham amantes. Era uma coisa mais ou menos aceita.

Registro feito durante ensaio fotográfico no Xingu

DIA-A-DIA – Você fez diversos livros fotográficos sobre o Brasil, inclusive um que trata do Piauí. Os nordestinos, assim como os portugueses, ainda hoje convivem com o ranço do preconceito, especialmente no Sudeste e Sul. E isso contraria toda a ideia de nação, inclusive pregada pela Monarquia. De que forma esse ‘separatismo velado’ interfere na realidade brasileira hoje e como lida com isso?
DOM JOÃO – O Brasil tem o tamanho continental graças a Dom Pedro I e a visão de Dom João VI. Se não fosse feita a independência, sem rupturas, sem guerra, o Brasil se dividiria. Hoje há grandes diferenças sociais, de classe e de renda, sempre há o preconceito do rico contra o pobre. Graças a Deus, nos últimos 20 anos, com a estabilidade da moeda, houve distribuição de renda e 45 milhões de pessoas subiram de classe social. O Nordeste mudou, esse preconceito mudou muito. Não tem mais isso. Bom para a igualdade.

DIA-A-DIA – Há algum ensaio fotográfico que o tenha tocado mais? 
DOM JOÃO – O livro Olhar de João, coletânea de todo meu trabalho de 35 anos, mostra que minha atuação sempre foi no Brasil. Na Amazônia, na tribo Yanomâmi, no Xingu… No Piauí, rodei 3.000 quilômetros em dez dias e vi uma cultura riquíssima, gente fascinante, correta, honesta, trabalhadora. Sempre tive necessidade, mais do que vontade, de conhecer nosso País, nossa cultura e identidade. Conhecer de dormir em rede com pescador, em tribos indígenas. Dom Pedro II falava tupi-guarani. Ele valorizava o que era nosso. Fico injuriado quando vejo prédio com nome Jardin des Fleurs, uma invasão de nomes estrangeiros. Temos uma cultura riquíssima com libaneses, alemães, espanhóis, portugueses, negros e indígenas. Somos o país mais miscigenado do mundo. Agora vamos ficar imitando Europa e Estados Unidos?

DIA-A-DIA – Sua filha, Maria Cristina, que é escritora, tem síndrome de Down. Após o nascimento dela e a luta que você e sua ex-mulher travaram em prol de sua inclusão, pode dizer que nasceu um novo D. João junto com a sua rebenta?
DOM JOÃO – Nasceu. Eu aprendi muito. Fui discriminado, mesmo com o nome que tenho. Queria colocá-la em escola e eles enrolavam de todas as formas para não aceitar. Mas está melhorando muito. Aprendi e cresci muito. Antes de ela nascer, eu sempre fui um pouco alternativo. Com 15 anos, ao invés de ir para clube de elite, fui à praia pegar onda e, neste meio, tinha gente pobre, de classe média e rica. Na praia, é todo mundo igual. Sempre fui liberal e, mesmo assim, ainda ganhei muito com a Maria Cristina. É a felicidade deles que vale e isso é um aprendizado.

DIA-A-DIA – Recentemente, postou na rede social a declaração do presidente do Uruguai, José Mojica, que vive em uma casa de 45 m² e critica os políticos pela ostentação. Acha que o poder e o dinheiro modificam as pessoas? 
DOM JOÃO – O poder e o dinheiro modificam as pessoas. Só não modificam as muito bem formadas ética e moralmente. Não adianta ser um ‘quatrocentão’ paulista e ficar mostrando na (revista) Caras casas e carros como padrão de valor. Não que eu não goste de um bom carro, mas basear como parâmetro de valor acho totalmente decadente. Tem de estar feliz sempre. O grande patrimônio são os amigos, caminhar em uma praia, ver o pôr do sol e achar aquilo lindo. Os meus parâmetros não são riqueza e beleza como básico para ser feliz.

DIA-A-DIA – Nunca pensou em ocupar um cargo eletivo? Tem engajamento político, mesmo sem ter ocupado algum cargo público?
DOM JOÃO – Tenho uma postura combativa. A partir do momento em que eu concorresse a um cargo eletivo, entraria em um partido político. Não posso entrar. Como pode uma democracia dar certo se no mesmo partido tem Pedro Simon e Sarney? A base de uma sigla é a união de pessoas que pensam igual, agem igual e têm a mesma meta através de um programa de governo. Não existe mais partido. Há mensaleiros e gente correta no PT, que não faz qualquer coisa para ganhar dinheiro. Eu colocaria o dedo dentro da ferida dos partidos. Meu partido é o Brasil, e tenho engajamento político forte.

DIA-A-DIA – Em diversos lugares, é denominado um príncipe ambientalista. Isso se dá por conta da sua paixão pela natureza (é surfista, fotografa a natureza etc) ou tem outras preocupações ecologicamente corretas que possa nos contar?
DOM JOÃO – Tenho carro flex, mas só uso o álcool. Durmo mais tranquilo.

DIA-A-DIA – Qual é o maior orgulho que a sua família lhe deu historicamente? 
DOM JOÃO – O maior orgulho é de eles terem cumprido o papel que um homem público tem de ter. Fui defender a Princesa Isabel (no programa O Maior Brasileiro de Todos os Tempos, do SBT) e cada um tinha um embaixador. Participei três vezes (chegou à final). Ela tinha dedicação total ao País sem querer nada em troca. Quando me perguntam por que Dom Pedro II morreu pobre no exílio, eu digo: ‘O certo é um homem público não ganhar um tostão enquanto está na vida pública e, mesmo saindo, não pode ganhar pelos ‘contatos’ que fez. É roubo.’ E não tenho orgulho disso. Não se deve ter orgulho por agir corretamente. Deve-se ter vergonha de trair o País. Quem não age com total transparência e correção está traindo o Brasil e os brasileiros.

DIA-A-DIA – E a sua maior decepção?
DOM JOÃO – Dom Pedro I fez a Constituição Federal mais liberal que o Brasil já teve, baseada na constituição norte-americana. Depois, ele voltou-se contra as liberdades que tinha criado e fechou a assembleia. Foi uma pisada de bola. Mas fez depois uma coisa que só os estadistas fazem: viu que o momento dele tinha passado e o Brasil vinha em primeiro lugar. Foi embora para nunca mais voltar e deixou o filho (Dom Pedro II) aqui, com 5 anos, para continuar seu projeto para a Nação, mesmo sabendo que nunca mais ia vê-lo. E nunca mais viu. Nós não temos estadistas no País hoje.

DIA-A-DIA – Você fez parte de uma juventude do Rio de Janeiro que marcou época, que tinha nomes conhecidos como o Evandro Mesquita e o Menino do Rio, o Petit. Vê alguma diferença daqueles jovens com os de hoje? 
DOM JOÃO – Naquela época, não ficávamos nas festas olhando mais para o iPhone do que para a cara dos outros. Hoje, se você vai a um jantar com pessoas da minha idade e tem sete na mesa, três estão olhando no celular. É uma neurose absurda. Tenho deixado meu celular em casa quando saio à noite.

DIA-A-DIA – Você tem casa no Rio, em Paraty e em Petrópolis. Tem algum lugar onde se sinta mais pleno? 
DOM JOÃO – Tenho um apartamento alugado no Rio, uma casa em Paraty e me sinto mais pleno no Brasil. É meu País, minha paixão.

DIA-A-DIA – Acha que a Flip ajudou a alavancar Paraty ou ainda há muito o que fazer na cidade?
DOM JOÃO – Ainda há muito o que fazer, mas Paraty se confirmou culturalmente muito viva. A Flip ajudou a caracterizar essa vocação da cidade, intensificada pelos festivais de jazz e de música latina. É um polo de formação de ideias e discussão, isso é bom.

DIA-A-DIA – Como é sua rotina? 
DOM JOÃO – Eu me divido entre meu trabalho em Paraty, onde tenho hotel e empreendimento imobiliário, fotografia e muitas palestras, em que aproveito para dizer o que penso e quero para o Brasil. Não tem nada de diferente dos outros. Meu pai sempre disse: ‘Meu filho, todos nascemos iguais e morremos iguais’.

DIA-A-DIA – É religioso? 
DOM JOÃO – Tenho admiração pelo budismo, Dalai Lama, por sua filosofia, pela questão do bem, do aqui e agora, de não ficar com as angústias do amanhã e do passado, viver o momento. A minha religião é o bem. Fui educado na Igreja Católica, mas nunca fui praticante.

DIA-A-DIA – Você tem algum ídolo? 
DOM JOÃO – Meus ídolos são todos os que lutaram por liberdade, contra ditaduras: Mandela, Gandhi, Aung (San Suu Kyi). Ela liderou a resistência contra a ditadura na Birmânia e tem uma linda história de luta. Peitou os generais lá e ficou em prisão domiciliar. Deixou de ver o marido morrer em Londres de câncer para não sair, porque não teria o visto de entrada. Ganhou Prêmio Nobel da Paz em 1991. Gosto das pessoas que lutam contra a corrupção e pelo seu país.

 


 

 

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