RHBN – Dilemas de um príncipe consorte

Dilemas de um príncipe consorte

Conde d’Eu sofreu com a frustrante campanha no Paraguai e a estressante vida de marido da princesa herdeira

Roderick J. Barman / Tradução: Carolina Ferro

Em maio de 1871, o Imperador D. Pedro II estava prestes a partir numa viagem pela Europa. Durante sua ausência, sua filha D. Isabel atuaria como regente com amplos poderes. As instruções deixadas para sua herdeira diziam “para que qualquer ministério não tenha o menor ciúme da ingerência de minha filha nos negócios públicos, é indispensável que meu genro […] proceda de modo que não se possa ter certeza de que ele influiu, mesmo por seus conselhos, nas opiniões de minha filha”.

Como visto, Luis Filipe Maria Ferdinando Gastão d’Orléans, o conde D’Eu, que se casou com a filha mais velha de Pedro II em 1864, no Rio de Janeiro, viveu na pele o maior problema dos príncipes consortes à época: eles deviam comandar, sem parecer que comandavam.

Nascido no castelo de Neuilly, em abril de 1842, ele era fruto da união de Luis Carlos Filipe Rafael d’Orléans (segundo filho do rei Luis Filipe, da França) e Victoria de Saxe-Coburg-Gotha et Kohary. Em seus seis primeiros anos, o conde aproveitou a vida privilegiada de um príncipe real. A Revolução de 1848 forçou a saída do clã da França para o exílio na Inglaterra, onde a família tinha relações com a família real.

A ligação do conde com o Brasil veio através de seu tio, François, príncipe de Joinville, casado com a irmã de Pedro II, D. Francisca. François fora incumbido de achar maridos vindos de famílias reais europeias à altura das duas filhas do imperador. Ele recomendou Gastão dizendo que “à altura de uma das suas filhas, este seria perfeito. Ele é alto, forte, bem apessoado, bom, gentil, amigável, bem educado, amante dos estudos e, ainda mais, já possui certo renome na área militar. Ele tem 21 anos. Ele é um pouco chato, isso é verdade, mas não o suficiente para que seja uma deficiência”. Embora tenha chegado ao Rio de Janeiro pela primeira vez em setembro de 1864, inteiramente livre de compromisso, Gastão e Isabel casaram apenas seis semanas após seu primeiro encontro. Foi um caso de amor à primeira-vista. Um físico francês chegou a dizer que nunca vira “casal mais afetuoso e mais unido; eles se amam como os burgueses”. Gastão seria um pai devoto e severo se algo acontecesse com seus três filhos. Em suma, o lado pessoal e a conduta privada do príncipe consorte foram louváveis.

Já seus talentos como militar foram exibidos em 1869 quando ele foi chamado para assumir o comando das forças brasileiras que estavam, desde 1864, travando uma guerra territorial com o Paraguai.

Contudo, o conde d’Eu não pode ser visto como um príncipe consorte bem-sucedido. Ele se tornou bastante impopular no Brasil, uma impopularidade que perdura até hoje. A influência que exerceu nos negócios públicos foi ineficaz e sua personapública contribuiu significativamente para a queda do regime monárquico.

No âmbito psicológico, o conde reclamava constantemente de seus “momentos de desânimo”. Qualquer forma de tensão o levava a um ataque de estresse que causava depressão, provocando doenças psicossomáticas, respiratórias ou digestivas.

O incidente mais sério ocorreu no Paraguai, no final de 1869. A campanha levou-o a duas vitórias decisivas, mas ele falhou na captura do presidente do Paraguai, Solano López (1827 -1870). “A tarefa abominável de perseguir López, Deus sabe onde”, para usar a própria frase do conde, tornou-se maior do que aquela com que ele poderia lidar e ele sofreu um colapso físico e psicológico. “A Guerra do Paraguai me forneceu algumas boas lembranças, mas me limou intelectualmente e criou uma repugnância terrível por qualquer negócio ou trabalho prolongado”, escreveu ao pai. Gastão não recuperou seu equilíbrio psicológico e sua saúde física até o início dos anos 1880.

A inabilidade de lidar com momentos tensos explicam a incapacidade do conde para administrar relações sociais. “Eu sei o quão desajeitado eu sou em conversar com pessoas que eu não conheço”, contou ao pai. Não é que ele não fosse caloroso, mas em público era frequentemente brusco, arrogante e mal-humorado.

Parte do problema era físico. Sua surdez crescente o impedia de participar de conversas em grupo. A surdez também significava que, ainda que seu português fosse excelente, manteve seu sotaque que tanto irritava os brasileiros. Não foi à toa que ele ficou conhecido como “o francês”. Além disso, tinha postura desengonçada, era desajeitado e desleixado com as vestimentas. Apesar das afirmações de seu tio Joinville e de sua esposa que o achava “encantador”, ele não podia ser chamado de bonito.

Combinadas com estas desvantagens estavam a educação e o aspecto cultural do conde. Ele não era um reacionário no sentido político – até se identificava com o Liberalismo e com reformas – mas nunca assimilou as normas culturais brasileiras. O conde era um aristocrata europeu – e isto foi percebido pelos brasileiros.

Este senso de superioridade envolveu o conde em consideráveis dificuldades com seu sogro. Gastão chegou ao Brasil esperando, claramente, uma grande parte do governo do país. Pedro II não estava acostumado a dividir o poder com ninguém, e certamente não tinha intenção de fazê-lo. A incompatibilidade entre os dois homens tornou-se clara quando, no início da Guerra do Paraguai, os dois passaram três meses juntos no Rio Grande do Sul. A questão que os dividiu foi o desejo do conde de voltar a servir às forças brasileiras no Paraguai. Após o retorno de ambos, Gastão apresentou suas demandas de forma tão desajeitada que fez com que o imperador, hábil em resolver todos os problemas com sua autoridade, impedisse as solicitações sem parecer fazê-lo. Este fato deixou os líderes políticos desapontados com a capacidade política do conde.

No início de 1869, a súbita necessidade de encontrar um novo comandante das forças brasileiras no Paraguai fez com que o imperador mudasse de tática, praticamente suplicando que seu genro aceitasse o posto. Mesmo que o conde tenha tido algumas vitórias decisivas como comandante, sua inércia e o desespero de não cumprir sua missão lhe valeram o desprezo de seus oficiais, que caçaram e mataram López, para grande surpresa do conde, confirmando seu senso de inadequação. Ele chegou a escrever para o imperador pedindo “perdão por minhas descrenças e outras criançadas”.

A partir de então, o conde evitou qualquer participação no governo do Brasil, pelo menos até maio de 1889, quando procurou o imperador para oferecer seu conselho, observando que era “a primeira vez que eu falei com ele sobre política”.

A passividade e o afastamento do conde tiveram um considerável impacto no império. Para aumentar a personalização do regime na figura de Pedro II, na primeira regência (1871-72), ele e Isabel copiaram o estilo de governo do imperador, usando inclusive as mesmas terminologias em discursos oficiais.

Na segunda regência (1876-77), os dois se tornaram, por vários motivos, altamente impopulares. O conde chegou a ser denunciado, um pouco injustamente, como o dono de propriedades em cortiços do Rio de Janeiro, como um explorador dos pobres. O casal ignorou as acusações e se retirou deliberadamente da arena pública – em 1878 seguiram para a Europa, onde passaram cerca de quatro anos.

A terceira regência (1887-88) da Princesa Isabel se diferenciou significativamente das outras duas. Ela assumiu o lugar de seu pai quando ele foi forçado a ir para a Europa para tratar uma doença grave. A regente teve um papel decisivo na abolição da escravidão e chegou a gozar de uma considerável, mas transitória, popularidade – da qual seu marido não se beneficiou.

Em meados de 1889, o conde empreendeu uma excursão de três meses sem sua esposa pelo norte do Brasil. Sua jornada o fez ver as diferenças entre a elite, que o ignorava, e as classes baixas, que lhe davam boas-vindas, e o levou a vaticinar: “nenhum regime que depende somente do proletariado pode sobreviver”.

A previsão do conde foi posta xeque no dia 15 de novembro de 1889, três meses após seu retorno do norte, quando um golpe substituiu o Império pela República. A família imperial foi exilada na Europa, o que fez com que a vida de príncipe consorte do conde terminasse. Somente em 1921 ele retornaria ao Brasil para acompanhar os caixões do imperador e da imperatriz para que fossem enterrados aqui. Um ano depois, em agosto de 1922, ele navegou novamente para o Brasil para participar das celebrações do centenário da Independência. Sentado para jantar, a bordo do navio, ele se inclinou na direção de sua nora e suavemente passou desta para outra vida. A morte silenciosa no meio do Atlântico foi um final apropriado para um homem que, apesar de sua posição por nascimento, de sua inteligência, grande cultura e boas intenções, não possuía ou não conseguia desenvolver os talentos necessários para se tornar um príncipe consorte.

Roderick Barman é professor catedrático aposentado da University of British Columbia (Canadá) e autor de Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX (Unesp, 2005) e de Imperador cidadão (Unesp, 2012).

Saiba Mais – Bibliografia

RANGEL, Alberto: Gastão de Orléans (o último Conde d’Eu). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935.

DEL PRIORE, Mary. O castelo de papel. Rio de Janeiro: Rocco, 2013

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/dilemas-de-um-principe-consorte

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