Artigo – Triste episódio da História do Brasil

Triste episódio da História do Brasil

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Pe. Benedito Antonio Jahnel*

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Não resta dúvida de que uma das páginas mais dolorosas e vergonhosas da história nacional deu-se naquele 17/11/1889. Nascendo de mentiras adredemente espalhadas, um pequeno punhado de militares, positivistas e maçons desencadearam o golpe de Estado de 15 de novembro 1889. O velho Imperador D. Pedro II e a Imperatriz D. Thereza Christina descansavam em Petrópolis quando foram informados da rebelião. Um trem foi providenciado às pressas para conduzir SS.MM.II. até o Rio de Janeiro. Dom Pedro sentiu a ausência dos batedores no trajeto da estação ferroviária até o Palácio Imperial, mas previa, que, com sua chegada, as coisas se ajeitariam. Afinal, eram quase cinqüenta anos de tão profícuo e feliz reinado, fazendo do Brasil uma Nação respeitada e admirada, não só aqui dentro, mas pelos povos mais civilizados da época.

Major Solon Ribeiro entrega a Dom Pedro II ordem do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brazil banindo a Família Imperial. Óleo sobre tela de ................... Acervo do Museu da Cidade do Rio de Janeiro.

Major Frederico Solon de Sampaio Ribeiro entrega a Dom Pedro II ordem do Governo Provisório da “República dos Estados Unidos do Brazil” banindo a Família Imperial. Óleo sobre tela de A. Chapon (1892), atualmente no Museu Antonio Parreiras, em Niterói. Acervo da FUNARJ (Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro).

Heitor Moniz, na obra “Segundo Reinado”, nos conta que “um dia, na França, saindo da casa de Victor Hugo, ouviu Dom Pedro estas palavras do grande romancista político: ‘Felizmente não temos na Europa um monarca como Vossa Majestade…’. Volta-se o imperador e pergunta com aquela sua vivacidade habitual: ‘Por quê?’. E Victor Hugo tranquilamente com o sorriso a lhe aflorar nos lábios: ‘Porque, se houvesse, não existiria um só republicano…'”. Diferente do temperamento de seu genitor, o Imperador D. Pedro I, durante tão longo e benfazejo reinado, D. Pedro II era o símbolo da honestidade, da honradez, do democrata, um homem probo, o rei filósofo! É bem verdade que se encontrava alquebrado e senil, sem ter a idade tão avançada, pois as preocupações, os trabalhos, as canseiras naquele meio século de governo lhe haviam roubado a saúde. Encontrava um pouco de paz e sossego nas viagens a Petrópolis.

Ainda Heitor Moniz se refere à figura do excelente Imperador: “Com seu grande espírito de justiça, a sua profunda honestidade e o coração magnânimo, que batia no seu peito, terá sido um rei completo”.

Com a guerra do Paraguai, muito longa, os militares se imiscuíram na esfera civil, com idéias positivistas e maçônicas. A república já nasceria eivada de mentiras, de conchavos e logo teria início o leilão de cargos públicos, os apadrinhamentos, a corrupção que se instalaria endemicamente em todo o canto. Hoje, após seu primeiro centenário, a corrupção é quase uma instituição…

Aquela sentinela sempre vigilante que tudo acompanhava, fiscalizava, orientava e agia com o Poder Moderador, deixou de existir, bem como o famoso “livro preto”, caderninho de anotações que D. Pedro carregava consigo, onde tomava nota de tudo que necessitava de reparo, de punição, de elogio, enfim, de ser observado, por isso era tão temido aquele caderno de notas.

Sua fama no exterior era tão grande e boa que Magalhães de Azevedo nos conta que cansou de ouvir esta pergunta: “Mas por que destronaram o velho  Imperador D. Pedro II, tão bom e tão sábio?”. E de uma feita escutou mesmo: “Pois nós se cá o tivéssemos e ele quisesse deixar-nos, o faríamos prisioneiro para que não se pudesse ir embora!”

A mediocridade logo tomaria conta de tudo, sendo os cargos ocupados, não raro, por elementos de péssimo caráter, índoles baixíssimas, formação precária, ou seja, por uma “gentinha”, duma boçalidade gritante. Os efeitos não tardaram a aparecer: o povo não sabia o que era inflação, pois havia deflação no sábio governo do velho Imperador, impostos foram se multiplicando, que hoje já perdemos a conta de quantos são, as crises foram se sucedendo uma a outra, o povo passou a viver de sobressaltos.

A democracia foi golpeada naquilo que havia de mais sagrado, ou seja, a liberdade de expressão, a continuidade, a paz, a estabilidade. Os golpes de Estado, um após outro, renúncias, “impeachment”, o governo tornou-se instável. A disparidade entre as classes sociais tornou-se vergonhosa, pornográfica, poucos com muito, muitos com quase nada! A cultura e o ensino se deterioram a ponto de hoje existirem universitários “semi-analfabetos”; a escola faz de conta que ensina, o aluno, que aprende, o ensino, um verniz que a nada resiste, pois nem a língua pátria se sabe mais…

Mas voltemos à página triste da partida do velho Imperador. Na calada da noite, feito “escravo fugido”, partiu o pequeno préstito e o povo “a tudo assistiu bestificado”, conta a história.

D. Thereza Christina e D. Isabel cobertas de véus, o Imperador cambaleando, dirigiram-se para o exílio.

A medida autoritária para o embarque prematuro se deu pois os republicanos bem sabiam que, à luz do dia, o clamor popular seria inevitável. Dom Pedro II era respeitado por todos e sua aparência, agora frágil, doente e de velho inspiravam veneração.

A Princesa D. Isabel tornou-se, para a população negra, quase uma santa que havia remido uma raça do cativeiro, mesmo que para isso perdesse o trono e a coroa.

* O Padre Jahnel nasceu em Jundiaí. Ocupou diversos cargos no Magistério Público: Professor, Assistente de Diretor, Diretor de escola, Supervisor de Ensino. Lecionou em boa parte das escolas mais antigas de Jundiaí. Na Igreja, foi Vigário Paroquial e Pároco em diversas cidades da Região. Foi Presidente da Academia Juvenil de Letras e Artes de Jundiaí, é Cidadão Francorrochense, membro do Instituto Genealógico Brasileiro, Amigo do 12º GAC.

E-mail: padrejahnel@gmail.com

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