Artigo – “Gabriela” e o ethos da República Velha no Brasil

“Gabriela” e o ethos da República Velha no Brasil

o

Bruno de Cerqueira*

o

Assisto com prazer e emoção ao capítulo final do remake de “Gabriela, Cravo e Canela”, que a TV Globo acaba de exibir em 2012.

O texto de Jorge Amado (1912-2001) que embasa a versão novelesca da trama é de 1958. Nele, o literato baiano expõe ao leitor a portentosa terra cacaueira de Ilhéus, no Recôncavo Baiano da década de 1920.

A protagonista é a belíssima Gabriela, uma típica sertaneja brasileira, das tantas que nossa história social conheceu: forte, autêntica, sofrida, mas também meiga, afetuosa, verdadeiramente doce. Seu amante e, a um tempo, marido não-legal, é o “turco” Nassib, na pessoa de quem Jorge Amado homenageia os imigrantes sírio-libaneses que tanto povoaram o Brasil da Belle Époque.

Na esfera política, que muito nos interessa aqui, desponta o Coronel Ramiro Bastos e o coronel-a-ser Mundinho Falcão. Como se sabe, a República Velha (1889-1930) foi o período histórico em que o coronelismo e o localismo deram o tom do cotidiano governativo e administrativo do Brasil.

O acadêmico José Murilo de Carvalho, um dos maiores teóricos políticos do Império do Brasil, retomando o grande jurista Victor Nunes Leal (1914-1985), nos ensina as minúcias que diferenciam o coronelismo das práticas clientelistas do antigo Estado Imperial. Havia mandonismo e clientelismo, mas não havia coronelismo, embora os “coronéis”, estes potentados rurais tão conhecidos de nós todos, já existissem aos montes. Tratava-se de patente da Guarda Nacional, uma instituição civil brasileira moldada na francesa que foi imensamente importante para a consolidação do Estado Brasileiro, mas que entrou em franca decadência quando o Exército e a Marinha imperiais começaram a se fortalecer, nas décadas de 1860, 1870, 1880 e 1890.

Após a queda da Monarquia e a militarização do aparelho de Estado brasileiro, em 1889 – o historiador Marco Antonio Villa elucida-o muito bem em suas obras -, sobrou aos antigos senhores de terras e de escravos, para além de dominarem a política local, como sempre fizeram, alimentar-se das benesses que os novos donos do poder no Rio de Janeiro lhes ofereceriam. Milhares dos antigos sinhôs brasileiros, muitos deles filhos, netos, irmãos, sobrinhos ou afilhados das centenas de barões, viscondes e condes do Império, passavam agora, sob a ordem nada “republicana” da República Velha a governar de forma despótica e intransigente os municípios, os estados e a própria presidência do país. O federalismo torto, ou às avessas, praticado no Brasil em que vigeu a Constituição de 1891 era o dos coronéis quase que como “senhores feudais” desconectados do tempo e do espaço europeus em que unicamente existiram.

Conforme salienta Monteiro Lobato (1882-1948) e o próprio Ruy Barbosa (1849-1923) – que de monarquista e parlamentarista passou a republicano e presidencialista, pois almejava ser presidente da República – em seus textos, antes os fazendeiros administravam as câmaras municipais e as assembleias legislativas, mas acima deles havia presidentes de Província e, obviamente, o Imperador do Brasil (Poder Moderador da Constituição de 1824). Dissipada a monarquia, os fazendeiros passaram a reinar e governar o país. Sergio Buarque de Hollanda (1902-1982) aduz em sua HGCB: “A República Velha era o império dos fazendeiros”…

Em resumo, conforme a imensa maioria dos historiadores brasileiros esclarece, a República Velha era uma oligarquia feroz, em que o poder e a voz do povo estavam quase que por completo eliminados. Se utilizássemos a tipologia aristotélica clássica das formas de governo, ressignificada por S. Tomás de Aquino no séc. XIII, diríamos que o Brasil passou de uma monarquia aristodemocrática para uma “tirania oligárquica”. Mas não podemos ver as coisas desse modo.

Se é certo que a República brasileira nasceu de um golpe de estado militarista, racista (anti-negros), machista (anti-III Reinado), positivista e secularista (anti-católico), e que, conforme sempre afirmamos, esse quase “pecado original” ainda delineia suas práticas de Estado, não se pode dizer que muitos dos homens públicos que a compuseram – presidentes, senadores, deputados, governadores, intendentes municipais – deixasse de ter a marca, por assim dizer genética e genealógica dos antigos nhonhôs e iaiás brasileiros. Em grande parte, eram a mesma gente!

Daí que entenda hoje as palavras do historiador monarquista Otto de Alencar de Sá Pereira, quando me falava da probidade de muitos homens de governo da República Velha, por serem, alguns, antigos conselheiros e titulares do Império. No verdor dos meus anos de adolescente militante, eu acreditava que era exagero dele colocar as coisas sob esse prisma, pois me parecia que a República forjara um Brasil nefasto no quesito corrupção. Ao ver “Gabriela” e me lembrar de suas lições, entendo bem melhor o que queria dizer…

De forma que assistir “Gabriela” é se defrontar com um dos períodos históricos mais fascinantes do Brasil – infelizmente, pouco ou nada estudado nas universidades brasileiras. Desde que fundamos o IDII, em 2001, chamamos atenção para o fato de que muitas das mazelas sociais do Brasil são facilmente depreendidas quando se debruça sobre as instituições liberal-oligárquicas de nossa primeira República.

Ramiro Bastos, magistralmente interpretado pelo ator Antonio Fagundes na filmagem de 2012, é quase o arquétipo dos administradores regionais e locais daquelas décadas coronelísticas. Homem rústico, sobranceiro, orgulhoso, autoritaríssimo, tinha no amor paternal-maternal que nutria pela neta Gerusa, no amor carnal pela bella donna e caftina Maria Machadão e no respeito e afeição pela desprezada Gabriela o seu quinhão de humanidade.

Para manter-se como césar municipal eram-lhe necessários sacrifícios afetivos incomensuráveis. A aridez de uma política em que as instituições teimavam em não aceitar a diversidade de opiniões e de posturas e uma moral social (pseudo-cristã) restritiva e mesquinha conformavam os espíritos dos machos que tinham de comandar as unidades nada “federadas” daquele Brasil. O mesmo falso moralismo e desamor que faziam com que o Coronel Jezuíno Mendonça se corroesse em sua saudade da Sinhazinha que matara; ou que ensejavam em Dona Dorotheia uma autoafirmação puritana constante, devida ao passado de quenga na juventude; ou que insuflavam no jovem sinhozinho Berto a avidez pelo domínio e o apossamento da pequena Lindinalva, amada do irmão, o quase-padre Juvenal; ou que impediam o amor entre o Coronel Amâncio e sua Miss Pirangi; ou, ainda, que forçavam Nassib a não perdoar Gabriela do único ato de traição que havia praticado nos tempos em que coabitaram.

Pois bem, o grande Jorge Leal Amado de Faria quer, ele mesmo filho dessas elites rurais hirtas, nos ensinar com seu texto delicioso que o fardo da repressão afetivo-sexual dos homens e da repressão físico-sexual das mulheres era pesado demais e que libertar-se desse jugo também proporcionava uma melhora, ou uma “evolução”, na sociedade.

Indivíduos libertos tendem a ser cidadãos ativos, conscientes e justos.

Jorge Amado foi comunista, como centenas de intelectuais no século XX o foram. Souberam enxergar com uma clareza cristalina os defeitos dos homens e das mulheres governantes e governados. Atribuíram às formas antigas do religare, em especial o cristianismo católico e os protestantes, muito da responsabilidade pelos males sociais que acabavam por legitimar com sua inação e parceria com o poder público. Por outro lado, filho, neto e bisneto de “varões católicos” e “santas senhoras” ele e dezenas desses escritores que simpatizaram com o socialismo foram sensíveis às válvulas de escape que o próprio viver religioso daquelas sociedades engendrava.

O bisneto do Coronel Ramiro Bastos é um novo “Ramiro”, que acabará por redimir a atormentada alma do tirânico bisavô. Gabriela e Nassib serão felizes, sem as amarras que a  institucionalidade matrimonial pode proporcionar àqueles que dela não necessitem.

Só lamento, vendo “Gabriela”, a perda e a decadência gradual dos valores aristocráticos entre as classes dirigentes de nosso país. Alexis de Tocqueville (1805-1859) nos alerta em sua obra politológica que a tendência das democracias contemporâneas é enfatizarem a Justiça e a Igualdade, em detrimento da Honra e da Glória. Na guerra intelectual que se trava diariamente nos parlamentos e altas esferas de administração pública é visível a falta de lhaneza, de gentileza e de nobreza que as antigas classes dirigentes da economia e da política mantinham.

Se durante séculos, determinadas famílias conduziram povos e nações, o Novecentos fez emergir o fenômeno do aburguesamento social, em que todos são chamados não a serem melhores, isto é, não a se “aristocratizarem”, mas sim a serem mais espertos, mais ricos, mais hábeis. Desnecessário dizer que isso conduz ao aumento da corrupção governamental e que o Brasil é uma espécie de laboratório histórico desse instigante processo.

Nicolau Sevcenko ressalta o ambiente de arrivismo e esnobismo da República Velha em seu clássico Literatura como missão (1983), no qual mostra eficazmente que a inserção social e o enriquecimento ilícito de “scrocks” e “smarts” foi sem precedentes. Ele analisa Lima Barreto (1881-1922) e Euclides da Cunha (1866-1909) como estudos de caso para apontar a forma pela qual se deu o necessário alijamento dos intelectuais mais críticos e reformistas (ou “revolucionários” para a visão reacionária da época) da vida política republicana.

Relendo suas páginas, tendo a confirmar minha teoria de que a República Velha é a responsável pela estapafúrdia situação de conceder aos brasileiros negros, índios, mulatos e caboclos a não-cidadania e a estrangeiros brancos imigrantes europeus as oportunidades para se tornarem cidadãos. Sempre comento com meus amigos de Ciências Sociais que ao ler os jornais e revistas, mormente as de veleidades e “fuxicos”, e observar os nomes de centenas de políticos, latifundiários, industriais, megaempresários, ou seja, os atuais “ricos” do país, identifico muito mais ítalodescendentes,  germanodescendentes ou árabodescendentes do que afrodescendentes ou ameríndiodescendentes. Isto significa muita coisa…

o

Bruno de Cerqueira (33) é historiador, monarcólogo, especialista em Relações Internacionais, professor de Cerimonial e Protocolo,
indigenista especializado (analista) da FUNAI e gestor do IDII. 

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , , . Guardar link permanente.