Artigo – O casamento de Guillaume de Luxemburgo: êxtase de latinidade

O casamento de Guillaume de Luxemburgo:

êxtase de latinidade

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Bruno de Cerqueira*

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Acaba de se unir à condessa belga Stéphanie de Lannoy, 28 anos, o herdeiro do trono grão-ducal de Luxemburgo, Guillaume, 30 anos. Nosso Instituto enviou à prima-tia de Guillaume[1] uma mensagem de felicitações quando do noivado, como se lê aqui.

Foto de Guy Wolff. Copyright da Corte Grã-Ducal.

Acompanhando o longo cerimonial celebrado em 20 de outubro de 2012, um sábado de céu azul  límpido e claro — raro para os luxemburgueses —, pude notar quão latina se tornou essa realeza.

O noivo, Guillaume Jean Joseph Marie, é o filho mais velho do Grão-Duque Henri — soberano do estado centro-europeu de 2600 quilômetros quadrados e 500 mil habitantes — e da Grã-Duquesa Maria Teresa, nascida em Cuba.

Pelo pai, Guillaume é um Nassau-Weilburg, Borbone-Parma, Bragança, Löwenstein-Wertheim-Rosenberg, Saxe-Cobourg-Gotha, Bernadotte, Wittelsbach, Hohenzollern-Sigmaringen, Schleswig-Holstein-Sondenburg-Glücksburg, Anhalt-Dessau etc. Pela mãe, Guillaume é um Mestre, Batista, Falla, Álvarez, Ramos-Almeyda, Tabío, Gonzalez de Mendoza, Espinosa de los Monteros, Bonet y Mora etc.

Stéphanie Marie Claudine Christine é, pelo pai, uma Lannoy, Ligne, Beeckman du Vieusart, Cossé-Brissac, Tayllerand-Périgord, Oultremont de Wégimont, Copis, Say, van der Noot d´Asschee, van Voden, Desmanet de Boutonville  etc. e, pela mãe, uma Della Faille de Leverghen, Brouchoven de Bergeyck, Meester, Plantin, Geelhand, Coussemaker, Mignard de la Mouillère etc.

Guillaume é o futuro soberano dos luxemburgueses, um povo que fala um idioma germânico (Lëtzebuergesch) e descende de ribeirinhos do Mosela e do Reno. Luxemburgo, que guarda traços da presença do Império Romano, foi um feudo importante no Medievo. A Casa de Luxemburgo (linhagem Limburg-Arlon) foi uma dinastia famosa dos séculos XIII a XV e deu ao Sacro Império Romano-Germânico quatro imperadores e aos reinos da Bohêmia e da Hungria diversos soberanos.

Do séc. XV até fins do XVIII Luxemburgo foi uma província dos chamados “Países Baixos”, uma possessão da Casa da Áustria (dinastia Habsburg). Durante esse período, sofreu inúmeras invasões estrangeiras e retomadas por parte dos administradores habsbúrgicos.

Em 1815, após o tufão napoleônico, o Congresso de Viena reconheceu a autonomia do país, elevando-o a Grão-Ducado, sob a titularidade do soberano dos Países Baixos, ou seja, o chefe da dinastia Oranje-Nassau. Em 1830, muitos luxemburgueses se uniram aos belgas para exigir a independência do país frente aos neerlandeses, mas não tiveram sucesso. A Bélgica se emancipou, mas o Luxemburgo teve de esperar até 1890, quando morreu sem herdeiros masculinos o Rei Willem III (1817-1890). Um antigo pacto de família dos Nassau estipulava que em caso de extinção da linha masculina nos Países Baixos, o Luxemburgo passaria à outra linha masculina existente. Eram eles os Nassau-Weilburg, que governavam o Ducado de Nassau, anexado pelos prussianos em 1866.

Adolph (1817-1905), o último soberano de Nassau e irmão da Rainha Sophia da Suécia e Noruega (1836-1913), se tornou Adolphe (I) de Luxemburgo em 23 de novembro de 1890.

O filho de Adolphe, Guillaume IV (1852-1912) reinou apenas sete anos. Sendo de origem luterana os Nassau-Weilburg o casamento de Guillaume com a Infanta D. Maria Anna de Portugal (1861-1942), filha do exilado D. Miguel I (irmão de D. Pedro I), foi uma bênção para os luxemburgueses, de maioria católica.

A Grã-Duquesa Marie Anne reinou como regente do Grão-Ducado de novembro de 1908, quando seu marido ficou doente, até junho de 1912, quando sua primogênita, Marie-Adelaïde (1894-1924), foi declarada maior de idade e assumiu o governo. Impopular por ser considerada germanófila extremada, a Grã-Duquesa Marie-Adelaïde foi obrigada a abdicar em favor da irmã, Charlotte I (1896-1985) e retirou-se para um convento, em janeiro de 1919.

A Grã-Duquesa Charlotte é a grande “mãe” da história luxemburguesa. Sua memória é venerada pelo povo. Ela se casou com seu primo-irmão Félix (1893-1970), nascido Príncipe D. Felice de Parma, filho de sua tia D. Maria Antonia de Portugal (1862-1959) e irmão da Imperatriz Zita da Áustria (1892-1989).

A soberana que atuou na II Guerra Mundial, quando o III Reich anexou o pequeno país, e estabeleceu um governo luxemburguês no exílio, em Londres, reinou até 1964, quando abdicou para o filho mais velho, Jean (1921- ).

Jean (I) casara-se em 1953 com a prima Joséphine-Charlotte (1927-2005), princesa da Bélgica. O fato de a Casa Real neerlandesa e a Casa Grã-Ducal luxemburguesa serem ramos da dinastia Nassau e de o futuro Grão-Duque Jean de Luxemburgo ter se casado com a filha do Rei Leopold III dos Belgas (1901-1983) ajudou a fomentar tremendamente o BENELUX, união econômica firmada em fevereiro de 1958 pelos três antigos “Países Baixos”.

O herdeiro de uma longa tradição de enlaces com “Ebenbürtigkeit”[2] era Henri (1955- ). Em 14 de fevereiro de 1981, contudo, o Grão-Duque hereditário Henri de Luxemburgo desposou Doña Maria Teresa Mestre y Batista-Falla (1956- )[3], sua colega na faculdade de Ciências Políticas em Genebra. A Senhorita Mestre era uma cubana emigrada para a Suíça, em decorrência da Revolução de 1959.

Em que pese o fato de Maria Teresa ser de família muito católica e ter um parentesco com a tia do então noivo, a Rainha Fabiola dos Belgas (nascida Doña Fabiola de Mora y Aragón), esposa do Rei Baudouin (1930-1993), a verdade é que sua origem latino-americana e, portanto, “creolla”, instigou os luxemburgueses naquele princípio dos anos 1980[4].

Foto de Lola Velasco. Copyright da Corte Grã-Ducal.

Diz-se que a avó de Henri, a antiga monarca Charlotte, temeu que na mistura étnica de que são compostos todos os latino-americanos, a jovem señorina pudesse ter sangue negro, para além do óbvio sangue ameríndio que possui[5]. Isto em nada diminui a memória da grande soberana, pois que ser racista era um pressuposto educacional e cultural da ampla maioria de seus contemporâneos, ainda mais se se tratasse de membros de sua classe sócio-genealógica.

Henri cumpriu os desejos de seu coração e desposou a mulher amada, dela gerando cinco filhos: Guillaume (1981), Félix (1984), Louis (1986), Alexandra (1991) e Sébastien (1992). Os jovens príncipes, que são morenos em meio a uma população majoritariamente alourada, são considerados belíssimos; os dois mais velhos parecem galãs de cinema.

Foto de Lola Velasco. Copyright da Corte Grã-Ducal.

As duas irmãs do Grão-Duque Henri, as Princesas Marie-Astrid (1954- ) e Margaretha (1957- ) desposaram primos mais germânicos que latinos: Carl Christian da Áustria (1954- ) e Nikolaus de Liechtenstein (1947- ). São felizes com as proles que geraram. Já os dois irmãos de Henri, Príncipes Jean (1957- ) e Guillaume (1963- ) uniram-se a latinas: o primeiro, morganaticamente, à francesa não-nobre Hélène Vestur e o caçula a uma anglo-hispano-ítalo-grega, Sibilla Weiller. A Princesa Sibilla de Luxemburgo (1968- ) é, pela mãe (Donna Olympia Torlonia di Civitelli-Cesi e Borbón), prima-sobrinha de D. Juan Carlos I da Espanha.

A segunda etnia mais presente no Luxemburgo, após os “nacionais”, é a portuguesa, cujos imigrantes buscam há décadas melhores condições de vida. Em nome deles, proferiu uma das “preces da comunidade” na missa de casamento de Guillaume e Stephanie a Duquesa de Bragança, D. Isabel (nascida Dona Isabel de Herédia), esposa de D. Duarte Pio, Chefe da Casa Real de Portugal. Falando em Português, D. Isabel pediu acolhimento e benquerença aos pobres que batem às portas dos mais favorecidos.

Por fim, em explosão de latinidade, os convidados ao casamento principesco homenagearam com uma longa salva de palmas os jovens recém-casados ao término da cerimônia, sendo acompanhados até pelo Arcebispo de Luxemburgo, o jesuíta Dom Jean-Claude Hollerich, cuja homilia havia sido profícua em salientar a importância do papel social que terá um casal como Guillaume e Stéphanie, cujo cristianismo deve ser revigorado diariamente. Por sinal, concelebravam a missa de esponsais dois primos da noiva, membros da Casa de Della Faille de Leverghen. Além de baterem palmas, os convidados tiraram muitas fotos com seus smartphones e iphones

Na sacada do Palácio Grão-Ducal, especialmente preparada para a ocasião, os agora Grão-Duque e Grã-Duquesa hereditários de Luxemburgo[6] responderam a toda essa efusividade do povo e dos familiares com três beijos e abraços calorosos, para delírio dos presentes. Repórteres internacionais comentavam jamais ter visto algo assim…

Não faltou a essa profusão latina, sequer, a modernidade dos tempos. Em uma nação considerada bem conservadora, na véspera do casamento religioso, Guillaume e Stéphanie haviam sido unidos civilmente pelo burgomestre da cidade de Luxemburgo (Luxembourg-Ville), o Deputado Xavier Bettel. Ele é um político sério e respeitado do Partido Democrata (Demokratesch Partei), a agremiação liberal-conservadora que durante décadas tem administrado o Ministério dos Assuntos de Classe Média — sim, Luxemburgo possui um tal ministério… Bettel é assumidamente gay e vive com seu companheiro, Gauthier Destenay; ambos compareceram à missa na Catedral de Nossa Senhora de Luxemburgo.

Com a tradicional festa de fogos de artifícios terminou, à noite, a boda de Guillaume de Luxemburgo e Stéphanie de Lannoy. A nova princesa é loura, mas de uma família de castanhos em que só ela parece ter nascido “blonde, yeux bleux”, uma fórmula tradicionalíssima quando se costumava falar em príncipes europeus…[7]

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*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (33) é historiador, monarcólogo,
especialista em Relações Internacionais, professor de Cerimonial e Protocolo,
indigenista especializado (analista) da Funai e gestor do IDII.

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[1] A princesa belga Christine Marie Elisabeth de Ligne (1955- ), filha do Príncipe titular Antoine de Ligne (1925-2005) e da Princesa Alix de Luxemburgo (1929- ), é desde 1981, S.A.I.R. a Princesa D. Antonio João do Brasil, princesa de Orleans-e-Bragança. Ela e o marido geraram D. Pedro Luiz (1983-2009), D. Amélia (1984), D. Rafael Antonio (1986) e D. Maria Gabriela Fernanda (1989), herdeiros dos títulos e direitos dinásticos da Casa Imperial do Brasil.

[2] Ebenbürtigkeit é o nome do princípio de igualdade de nascimento que regia as uniões entre membros das dinastias europeias herdeiras do legitimismo proclamado pelo Congresso de Viena (1815). O  Ebenbürtigkeit  existe entre as linhagens da alta realeza (casas imperiais, reais, grã-ducais, ducais e principescas reinantes) e as da média realeza (composta, sobretudo, das casas principescas e condal-principescas do antigo Sacro Império Romano-Germânico, desapossadas por Napoléon Bonaparte), além de algumas das que chamamos de “baixa realeza” ou “pequena realeza”, que são as casas principescas nacionais da Áustria, da Hungria, da Bohêmia, da Polônia, da Bélgica, da Itália, da França etc.

[3] Nascida na cidade de Marianao, Província de Havana, é a filha de Don José Antonio Mestre y Álvarez (1926- ) e da Senhora, nascida Doña María Teresa Batista y Falla (1928-1988). Membros da alta aristocracia cubana, deixaram a ilha em outubro de 1959, se estabelecendo em Nova York. Em solo norte-americano, Maria Teresa estudou na Marymount School e no Lycée Français de Nova York. Indo residir na Europa, viveram em Santander e em Genebra.

Sobre sua origem cubana, declarou à imprensa tanto de Luxemburgo, quanto da Espanha, em 2002, quando visitou a terra natal, que “Hay algo muy fuerte que he descubierto y se llama cubanía, un sentimiento que cuando uno crece en una familia cubana no se pierde nunca. Me he dado cuenta de que sucede algo muy especial con los cubanos y es que están sumamente unidos. Por eso, aunque no estén viviendo en Cuba, crecen con Cuba, comen cubano, hablan cubano, sienten cubano y el corazón late cubano.”

[4] Os creollos são os colonos latino-americanos; membros das elites rurais do continente, descendem dos espanhois (colonizadores), tanto quanto dos índios (colonizados).

[5] Ela não é a primeira soberana-consorte europeia a ter sangue indígena. A atual rainha sueca, Silvia (1943- ) é nascida Silvia Renate [Soares de Toledo] Sommerlath, filha de Alice Soares de Toledo (1906-1997), paulista de família “quatrocentona”, décima-segunda-neta de Bartyra (Izabel Dias), a filha do Cacique Tibiriçá de Inhampuambuçu (?-1562). Mesmo a antecessora de Silvia no trono sueco, a Rainha Josephine (1807-1876), nascida nobre de Beauharnais, depois princesa de Leuchtenberg, possuía sangue ameríndio, uma vez que sua avó, a Imperatriz Joséphine dos Franceses (1763-1814), nascera na Martinica e era descendente de creollos pela mãe, Rose Claire des Vergers de Sannois (1736-1807). A Rainha Josephine da Suécia é a tetravó do próprio Grão-Duque Henri de Luxemburgo…

[6] Uso aqui a fórmula “Grão-Duque hereditário” como versão imediata do antigo título germânico Erbgrossherzog, mas é de se notar que a imprensa francófona utiliza comumente “Grão-Duque herdeiro” (Grand-Duc héritier). A diferenciação está no fato de que os “Erb” eram herdeiros de principados germânicos (Erbprinz e Erbgrossherzog), enquanto os “Kron” eram herdeiros de impérios e reinos (Kronprinz). Qualquer fórmula está correta.

[7] Quero dedicar este artigo aos meus amigos indigenistas da Funai, que labutam arduamente pela dignificação da causa nobilíssima que é o indigenismo brasileiro, ultrajado há décadas. Dedico a todos eles, em especial, os “antigos” Guilherme Carrano, Rogério Oliveira, o “semi-novo” Alex Noronha, e os “novos” Martha Montenegro, Elena Guimarães, Nina Almeida, Thaís Bittencourt, Danusa Sabala, Cecília Reigada, Bruna Seixas, Lorena Soares, Filipe Parente, Mauro Meirelles, Amaury Freitas, Pedro Grandi, Manoel Prado Jr. e Jezuíno Almeida.

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