Artigo – Pátria amada: vou apertá-la, mas não vou acender agora

Pátria amada: vou apertá-la, mas não vou acender agora

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Thyago Mathias*

600 mil é o número de jovens dependentes de crack no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Outras estimativas apontam um total de 1,2 milhão de viciados. Em 2011, um dos maiores laboratórios de processamento de crack e cocaína já oficialmente descobertos no país foi desmontado pela polícia paulista numa casa do bairro do Ipiranga, não muito longe de onde, há 190 anos, Dom Pedro declarara o Brasil independente.

Formada pela junção dos antigos becos do Mata-Fome e dos Curros – no Centro da mesma maior cidade do país e distante do rio de “margens plácidas” –, a Avenida Ipiranga, em vez de receber um monumento em homenagem à Independência ou, pelo menos, outro nome, ganhou uma praça: a Praça da República. É exatamente no trecho em frente à praça, na metade de seus 1,3 mil metros, que a Avenida Ipiranga abriga escritório de uma empresa chamada Serviço Nacional de Recuperação de Crédito, nas mesmas imediações onde se encontram nove lojas que oferecem financiamentos e crédito consignado.

Já nas imediações da Praça da República carioca, embora também seja possível fazer um empréstimo ou vender o ouro de família para pagá-lo, chama à atenção a existência de uma cracolândia formada por crianças e adolescentes. Antigo Campo de Santana, aos pés da Central do Brasil – que já foi chamada de Estação Dom Pedro II –, a praça tem até suas razões para a mudança de nome. Foi ali que outro homem a cavalo entrou para a história do país, com ambições muito menores do que as de Dom Pedro I – que aparece num cavalo branco na representação não-ocular, porém mais conhecida, a de Pedro Américo –, por não almejar independência, mas apenas a deposição de um gabinete ministerial, que acabou por tornar-se a “Proclamação da República”.

Ao contrário do que retratou Jacques-Louis David, Napoleão não atravessou os Alpes em um cavalo marrom, de crinas largas. A historiografia conta que a travessia foi feita sobre uma mula. E enquanto no candomblé os orixás manifestam-se incorporados em seres humanos chamados de “cavalos”, no mundo do tráfico, cabe às chamadas “mulas” apenas o transporte de drogas para dentro ou fora do país. Assim como se diz que “o hábito faz o monge”, pode-se, então, afirmar que “o cavalo faz o herói”.

Montados, seja em cavalo ou em mula – como apontam alguns historiadores no caso brasileiro –, tanto Napoleão quanto Dom Pedro teriam conseguido o que queriam: um derrotou a Áustria e outro, com reconhecimento da Áustria, proclamou a independência. A representação da cena é o que menos importa. Valem mais o conceito e a durabilidade de cada feito. Napoleão seria derrotado definitivamente em menos de 15 anos. Já Dom Pedro, não independente em sua subjetividade da matriz ibérica, deixaria a pátria brasileira cerca de nove anos depois.

Os que por aqui ficaram – ou para cá vieram – já somam quase 194 milhões. 62,5% deles têm dívidas no cartão de crédito, nos crediários e financiamentos do carro zero e da casa própria, em prazos que vão de 60 a 420 meses. E como crédito para consumo de drogas não é, aparentemente, um negócio para os balcões de dinheiro “sem consulta ao SPC” da Avenida Ipiranga, vale somar os 1,2 milhões de viciados em crack à conta dos brasileiros dependentes. Isso, sem contar os dependentes de objetos e ações dos mais danosos – como os dependentes de poder político que, em plena república, se reproduzem em linhagens eleitorais – aos mais inofensivos – como os dependentes de sexo, tal qual os que frequentavam a Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, observados pela estátua de Dom Pedro I. Alguns deles já estão incluídos nos números anteriores.

Longe de responder a uma queixa, ele mesmo, Dom Pedro, poderia argumentar, de onde estivesse, que não tornou independentes os brasileiros, mas a pátria. Logo ela, sobre quem o poeta Vinicius de Moraes diria que não sabe o que é, mas que tem vontade de beijar-lhe os olhos, “de niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos”. Talvez até demais para algo de que nunca se viu o rosto, se é que tem algum. Entretanto, para quem não ousa deixá-la, só resta amá-la (a alternativa positivista e militar) ou consumi-la. Em qualquer caso, tornando-se seu dependente.

*Thyago Mathias, conselheiro do IDII, é jornalista, graduado pela PUC-Rio, bacharel em Direito pela UNIRIO e especialista em Relações Internacionais pela PUC-Rio.

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