Artigo – São Luís, Rei de França

São Luís, Rei de França

*João Dias Rezende Filho

Artigo publicado no Jornal “O Estado do Maranhão”, de 25 de agosto de 2012, dia da solenidade de São Luís de França, patrono da Arquidiocese ludovicense.

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Aproxima-se o 08 de setembro, quando será comemorada a efeméride da presença francesa em Upaon-Açu e, para os católicos, os 400 anos da chegada do Evangelho pela missão capuchinha composta de 4 frades do convento parisiense de Saint-Honoré. Polêmicas à parte quanto a uma fundação francesa ou uma invasão francesa e fundação portuguesa por obra de Jerônimo de Albuquerque, o fato é que os franceses cá estiveram e cá deixaram algumas marcas. Poucas? Talvez sim, porém a mais significativa e que permanece está no nome da cidade que fora tomado do forte erguido pelos franceses. São Luís foi o nome escolhido para homenagear o pequeno Luís XIII e seu ilustre antecessor, o Rei Luís IX, àquela altura já elevado à honra dos altares com o nome de São Luís, Rei de França.
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Retábulo-mor da Igreja da Sé (Catedral) onde ao centro vê-se a imagem de Nossa Senhora da Vitória, titular da Catedral,  à esquerda São Pedro em vestes pontificais e com a tiara papal e à direita São Luís, Rei de França.
Entretanto, o que muita gente desconhece é que São Luís é o padroeiro da cidade e da Arquidiocese de São Luís do Maranhão. Atribui-se equivocadamente a Nossa Senhora da Vitória o patronato de nossa capital. Nossa Senhora da Vitória é a padroeira da paróquia da Igreja da Sé, a nossa catedral, Ela é, portanto, a titular da Catedral, mas não a padroeira da cidade e da Arquidiocese. Em 25 de agosto de 1882, no Jornal “Diário do Maranhão” recolhemos a seguinte nota: “ Dia de gala por ser hoje dia de São Luiz, padroeiro desta capital estiveram embandeirados os fortes salvando o de São Luiz à 1 da tarde”. Mais próximo a nós, em 26 de agosto de 1934, no Jornal “A Pacotilha”, em coluna intitulada Vida Religiosa está a notícia, da qual transcrevemos alguns trechos: “ É hoje (sic) que se realiza na Sé Cathedral Metropolitana a festividade de São Luiz, padroeiro da cidade e da Arquidiocese do Maranhão. (…) Serão celebradas duas Missas: a primeira, às 7 horas (…); a segunda, às 8 e meia, cantada solenemente, fazendo o panegírico do padroeiro o Revmo. Sr. Cônego Arias Cruz.” Outra fonte que atesta São Luís como patrono da cidade é a obra História Eclesiástica do Maranhão, de Dom Felipe Condurú Pacheco: “São Luís – cidade ilustre, de 2000 habitantes, sede do bispado, estendido do Ceará ao Cabo Norte – teria o mesmo ex-soberano francês por Patrono” (1968, 16). Obviamente, não esgotamos as várias fontes que validam nossa informação.
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E quem foi São Luís? Filho do Rei Luís VIII e da infanta espanhola Branca de Castela, Luís nasceu em 1215 e recebeu uma educação profundamente católica de seus pais. É famosa a frase que sua mãe, mulher forte e determinada, talhada pelo tradicional catolicismo espanhol, sempre repetia a Luís: “Meu bom filho, saiba que eu prefiro ver-vos morto que saber que vós cometestes voluntariamente um só pecado mortal”. Quando morreu seu pai, Luís tinha apenas 12 anos e assumiu o governo sua mãe até sua maioridade. São Luís cedo se destacou como um governante bom e justo, granjeando a admiração e o respeito de todos. Extremamente piedoso, cercou-se de conselheiros franciscanos e dominicanos e era sempre visto em oração, diante das relíquias da Paixão: a Coroa de espinhos de Cristo e um pedaço da Cruz, que ele mandara buscar no Oriente. Foi esposo amantíssimo e pai zeloso de 11 filhos. Promoveu uma profunda reforma administrativa que visava o fim dos apadrinhamentos, da corrupção e de julgamentos eivados de vícios que só promoviam injustiças.  Proibiu duelos e ordálios, tão comuns na Idade Média. Sua sabedoria e prudência fizeram com que ele fosse árbitro de conflitos importantes entre senhores e reis. Amigo dos pobres, muitas vezes deu de comer aos famintos com suas próprias mãos e, sentado diante do Castelo de Vincennes, limpava e aplicava remédios nas escrófulas dos doentes, o que lhe deu a fama de taumaturgo ainda em vida, quando muitos se curavam. São Luís concebia a função de rei como um mandato divino que não devia jamais ser exercido para o seu próprio benefício, mas para o bem do povo que lhe fora confiado por Deus.
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Envolvido pelo espírito de cruzada, organizou duas expedições para libertar os lugares santos em Jerusalém e arredores das mãos dos infiéis, os mulçumanos. Na primeira delas, caiu prisioneiro dos sarracenos, mas conseguiu libertar-se. Na segunda, faleceu, em 25 de agosto de 1270, vítima de tifo e disenteria que dizimou parte de seu exército. Deixou um testamento espiritual para seu filho mais velho do qual destacamos um trecho: “Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todas as forças; pois sem isto não há salvação. (…) Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e ação de graças. (…) Guarda o coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos, e quanto puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até ao extremo da justiça, sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda; põe-te sempre de preferência da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade.” São Luís foi sem dúvida um cristão modelar, exemplo para pais, esposos,  governantes e para todos nós. Não foi, pois, por acaso que o século XIII passou à história como “O Século de São Luís”.
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*João Dias Rezende Filho, conselheiro de administração do IDII, é bacharel em Direito, seminarista da Arquidiocese de São Luís, acadêmico do quarto ano de Teologia e pesquisador em História, Genealogia etc.

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