Artigo – Cemitério: museu a céu aberto?

Artigo de autoria do Conselheiro João Dias Rezende Filho, seminarista, acadêmico de Teologia e pesquisador residente em São Luís do Maranhão, publicado no no Suplemento Literário e Cultural Guesa Errante do Jornal Pequeno (24.03.2012).

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A morte iguala a todos, não importando o nível social, econômico, intelectual ou qualquer outro critério que diferencie as pessoas no decorrer de suas vidas. Entretanto, o modo de tratar o morto e de sepultá-lo, bem como onde e como será sua sepultura, trará à tona as diferenças que a indesejada das gentes parecia anular. Em tempos de novas descobertas médicas, de aumento da expectativa de vida, de busca pela juventude através de cosméticos e tratamentos rejuvenescedores abordar o assunto morte é estar na contramão da cultura pós-moderna que se afirma contra a natural finitude humana revelada nas próprias faces vincadas dos que se deixam envelhecer.

Segundo estudos e pesquisas, sobretudo da escola francesa dos Annales, que se debruça sobre a história da mentalidade de cada época, o tratamento dado aos mortos, desde tempos imemoriais, é sinal de crença no transcendente e indica uma religiosidade. Fustel de Coulanges, historiador francês do século XIX, em sua obra “A Cidade Antiga”, delineia a gênese dos sepultamentos, embalsamamentos e cuidados com os mortos que surgem há milhares de anos com os povos chamados indo-europeus e, mais tarde, entre os etruscos, egípcios, romanos e gregos. Este cuidado com os mortos que originou um verdadeiro culto aos antepassados durante a Antiguidade nos legou monumentos perenes como as pirâmides do Egito. O culto aos mortos, com o fim do paganismo e a propagação do cristianismo foi aos poucos desaparecendo, para, na Idade Média dar lugar a certo indiferentismo quanto aos cuidados do sepultamento e ao local da sepultura. Para o historiador francês Philippe Ariès (2003, 73) “Na Idade Média, os mortos eram confiados, ou antes abandonados à Igreja, e pouco importava o lugar exato de sua sepultura que, na maior parte das vezes, não era indicada nem por um monumento nem mesmo por uma simples inscrição” No fim do Medievo, a situação começa a mudar e, já no século XVIII, com as chamadas Luzes, a sociedade dita esclarecida passa a se importar mais com o destino dos corpos de seus mortos. Os sepultamentos, antes realizados nas igrejas e pelas igrejas, o que em latim se dizia ad sanctos et apud ecclesiam, começam a ser feitos nos cemitérios a céu aberto, em geral afastados das cidades, fora de seus muros. A justificativa dos iluministas e médicos sanitaristas para que os enterros não fossem nas igrejas estava no temor de contaminação que os vivos poderiam sofrer pela proximidade, durante os ofícios religiosos e orações, dos gases e emanações pestilentas que se desprendiam dos cadáveres sepultados em grande quantidade no chão dos templos.

Na São Luís de 400 anos atrás, quando aqui aportaram os homens da Corte do rei-menino Luís XIII, já tínhamos, obviamente, pessoas por cá. Eram os indígenas, que tinham sua religião e, certamente, seu modo de compreensão do fenômeno da finitude humana. Não entraremos na questão do sepultamento indígena a qual antropólogos e historiadores do chamado período pré-cabraliano estarão mais afeitos a falar com mais propriedade.

O nosso primeiro sepultamento após o 08 de setembro de 1612, ao menos o conhecido de todos e registrado na história, será o do missionário capuchinho Ambroise d’Amiens, segundo relato de Frei Claude d’Abbeville em sua obra História da Missão Capuchinha no Maranhão. Frei Ambroise, a quem Abbeville chamou de Apóstolo, faleceu em 09 de outubro de 1612, e foi sepultado “em nossa residência [no convento dos Capuchinhos franceses] de São Francisco, junto ao Forte de São Luís, na Ilha Grande do Maranhão”. (ABBEVILLE, 1945, 34).

O primeiro cemitério de São Luís, segundo o Dicionário de César Marques (2008, 331) data do início do século XVIII, onde hoje está a Rua de Nazaré aos fundos da Igreja da Irmandade da Misericórdia, que administrava o referido campo santo. Contudo, é óbvio, houve sepultamentos antes da criação deste primeiro cemitério. Os enterros eram feitos dentro das igrejas, perto dos altares e nas naves principais quando o morto era da nobreza, do clero, sobretudo bispos e membros do alto clero, ou da alta burguesia comercial e do lado de fora das Igrejas, no adro, quando da pequena burguesia comercial e próxima aos seus muros e oitões, quando escravos, ou negros libertos ou pessoas livres, mas pobres ou com poucas posses. Muitos escravos e pobres eram enterrados nas beiras das estradas e caminhos.

Em ofício à Câmara, em 25 de abril de 1788, o Capitão general Fernando Pereira Leite de Foios diz: “como a todos os corpos se dão sepultura no estreito recinto do adro da matriz da mesma capital, sucedendo encontrar-se ao abrir das sepulturas vestígios de não estarem bem consumido os cadáveres, aconselhava ele que, à vista da presente epidemia de bexigas, em que se tem perdido infinitas pessoas, elegessem um sítio e terreno próprio para um cemitério, e cercá-lo de madeira, ficando em estado de se poder benzer e habilitar para sepultura de católicos” (2008, 331). À esta altura, os sepultamentos eram feitos no largo da matriz (Sé) e no antigo cemitério da Irmandade do Senhor dos Passos no fim da Rua Grande, onde é hoje o Estádio Municipal Nhozinho Santos. Um dos motivos para o fechamento do cemitério dos Passos foi a sua localização próxima à nascente da fonte do Apicum, que estariam sendo prejudicadas pela contaminação proveniente dos cadáveres sepultados naquele cemitério.

Em 1855, o antigo cemitério da Irmandade dos Passos, ao fim da Rua Grande e o chamado cemitério novo da Irmandade da Misericórdia, cujo engenheiro responsável pela planta foi José Joaquim Rodrigues Lopes, futuro Barão de Matoso, e que segundo Jomar Moraes na terceira edição do Dicionário de César Marques, localizava-se onde hoje é o Hospital Socorrão I, entre as ruas do Norte e do Passeio, foram desativados e foi comprado o terreno da antiga Quinta do Gavião, “comprado por 6:400$ réis proveniente da venda de uma casa pertencente a Januário Martins Pereira, que deixou de legado para a Misericórdia e, através de financiamento governamental” (BOGÉA, 2008, 186). A nova necrópole, que por causa da antiga quinta, logo ganhou o apelido de Cemitério do Gavião, começou a funcionar em 06 de setembro de 1855. Quem iniciou a edificação do cemitério do Gavião foi o procurador geral João José Lopes de Sousa, segundo placa no alto do frontão da capela. As outras placas dizem o seguinte: “Instituído em 06 de setembro de 1855 sob a invocação de São José” e “Reedificado pelo mordomo Adriano Duarte Coutinho, nos anos de 1869 a 1873” Por cima da capela, no frontão, há três estátuas de mármore representando as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade, atualmente, todas elas em péssimo estado de conservação.

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Vista Parcial dos Jazigos e Túmulos do Cemitério do Gavião

O cemitério do Gavião é um vasto campo para a investigação e pesquisa constituindo-se em uma fonte multidisciplinar, abrangendo ciências como a História, a Arquitetura, as Artes Plásticas, a Sociologia, a Antropologia Social e muitos outros campos de conhecimento. Em um só jazigo, podemos vislumbrar o estudo da vida do sepultado, as relações sociais dele e de sua família, a arquitetura e as influências artísticas contidas no jazigo dentre outras abordagens possíveis. Já se compararam os cemitérios, muito apropriadamente, a museus a céu aberto. Um túmulo evoca não somente aquele que ali jaz, mas toda a mentalidade a respeito da morte em uma determinada época e lugar. Os símbolos que os ornatos de pedra, mármore, bronze e outros materiais representam são expressões da relação das sociedades com a morte.

No Cemitério mais antigo de São Luís atualmente, o Gavião, as sepulturas nos contam parte da História de nossa urbe. Logo à entrada, duas placas com pitorescas e, para muitos, macabras inscrições, nos recordam a finitude do gênero humano: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos” e “Nós fomos o que tu és e tu serás o que nós somos”, versões de origem portuguesa para o antigo provérbio latino memento moris, lembra-te que morrerás, fazendo eco nas Escrituras judaicas traduzida na Vulgata de Jerônimo como “Memento quia pulvis es et in pulverem reverteris” e que ecoa nas Quartas de cinza após os desregramentos carnavalescos.  No alto do portão de entrada eleva-se um crânio com dois fêmures cruzados, símbolo antiquíssimo da morte.

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Jazigo do Governador Luís Domingues

Arrolaremos agora, sucintamente, alguns ilustres moradores do velho Gavião e seus jazigos. Dentre os políticos destacamos os jazigos do Governador Luís Antônio Domingues da Silva nascido em Turiaçu, em 11 de junho de 1862 e falecido em São Luís, em 10 de julho de 1922. Imponente sobre seu jazigo, abrigado por um baldaquino de mármore branco encimado por uma cruz, está o busto de bronze de Luís Domingues e logo abaixo as armas do estado esculpidas em mármore. Outro túmulo que se destaca é o do político e também comerciante, Saturnino Belo, conhecido como Satú Belo, que dorme o sono eterno em um grande jazigo de granito escuro encimado por uma escultura de grandes proporções do artista plástico maranhense, natural de Vargem Grande, Flory Gama.

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Jazigo do Comerciante e Político Saturnino Belo

Governadores sepultados no Gavião, além de Luís Domingues, estão Benedito Pereira Leite, do partido federalista, em um rico jazigo adornado por um grande anjo, vasos funerários de onde saem pequenas tochas, que representam a separação da alma do corpo e tochas invertidas que simbolizam a morte, o desembargador Manoel Lopes da Cunha que não concluiu o mandato passando ao seu vice, Alexandre Colares Moreira Júnior que assumiu o governo de 1902 a 1906 e também jaz no Gavião, Pedro Neiva de Santana, o jornalista e político João Pires Ferreira, o J. Pires, que foi deputado estadual constituinte em 1947 e na qualidade de presidente da Assembleia assumiu interinamente o governo, dentre outros. Infelizmente, a despeito da posição que estes homens ocuparam e de como atuaram na História de nossa Cidade e nosso Estado, suas sepulturas, em sua maioria, estão em estado de abandono, o que não é surpresa, pois, em comentário ao Dicionário de César Marques, Antônio Lopes ao se referir ao velho cemitério dos Passos diz: Nada mais resta deste cemitério. No correr dos tempos os túmulos, muitos de pedra de cantaria ou mármore trabalhado a primor, foram violados, para a retirada de pedras, cruzes e ornatos. Custa a crer que uma cidade desprezasse a tal ponto um campo santo, onde havia em inscrições lapidares mais de um século de história do Maranhão e foram sepultados os restos mortais de ilustres maranhenses. Vê-se que o descaso com esses monumentos fúnebres não é de hoje. Ao fundo do mausoléu de Benedito Leite, encontra-se o de seu filho, Dr. Antônio Pires Ferreira Leite, que era médico recém-formado, falecido precocemente, em 26 de março de 1918, aos 28 anos. No seu túmulo ergue-se uma coluna quebrada ou partida, símbolo antigo que representa a morte durante a juventude ou até os 30 anos. É também um símbolo associado à maçonaria.

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Jazigo do Dr. Antônio Pires Ferreira Leite, filho do Governador Benedito Leite

Da nobreza maranhense, destacamos o jazigo do médico e político Dr. Carlos Fernando Ribeiro, o célebre Barão de Grajaú, que governou o Maranhão na época do Império, falecido em 10 de setembro de 1889 e sepultado envolto na opa da Irmandade do Senhor dos Passos, e de seu filho Carlos Fernando Vianna Ribeiro, falecido em 25 de abril de 1895, e também de Dona Ana Rosa, a malvada baronesa de Grajaú que, tresloucada e cruelmente, matou um escravinho seu à garfada, o túmulo da Baronesa de São Bento e juntamente, o seu neto historiador Jerônimo de Viveiros, em uma carneira ou carneiro, sepultura que se localiza na parede, coberta por uma pedra mármore branca onde estão esculpidos os nomes de vários membros da Família Viveiros ali sepultados. Há, ainda, o jazigo de mármore branco encimado por uma imagem de Nossa Senhora da Conceição da família de José Joaquim Seguins de Oliveira, que, titulado barão de Itapary em 1888, no ocaso do Império, incorporou o título ao nome de família.

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Jazigo da Família Viveiros onde está sepultada a Baronesa de São Bento

Muitos epitáfios interessantes podem ser encontrados no Gavião, inclusive alguns escritos em línguas estrangeiras, como este em inglês:To the Dear Memory of Wilfrid James Hampton only son of James and Maude Hampton, Southfields, London. Born February 17th 1901. Died February 15th 1928. (À querida memória de Wilfrid James Hampton filho único de James e Maude Hampton, Southfields, Londres. Nascido em 17 de fevereiro de 1901 e faleceu em 15 de fevereiro de 1928). Recorrendo ao Jornal a Pacotilha, temos a notícia do falecimento do jovem bretão que nos esclarece a sua identidade e o que fazia em São Luís:

Luto – W. J. Hampton – Faleceu hontem às 18 horas, no Olho d’Água para onde fora, há pouco transferido, o telegrafista da Western Telegraphic Co. Ltd. W. J. Hampton. O extincto, que era de nacionalidade inglesa, dispunha de largo círculo de amizades nesta capital, onde se impusera pelas suas qualidades de espírito e coração. Era filho do sr. James George Hampton, residente em Kent ( Inglaterra). Contava apenas 27 anos de idade. O enterro do malogrado cavalheiro realisou-se hoje às 8 horas, tendo sido o féretro transportado do logar onde se deu o óbito até a estação de bondes, em caminhão. Dahi em deante, mudado para a carreta, os colegas e inúmeros amigos do inditoso jovem acompanharam-lhe os restos mortaes ao Cemitério Municipal. Enviamos aos seus parentes os nossos sinceros pezares, extensivos aos seus colegas da Western e à distinta colonial inglesa aqui domiciliada(mantida grafia da época)

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Jazigo de Wilfrid James Hampton

Eis um exemplo onde se colhem dados históricos quanto à presença de uma colônia ativa de ingleses mesmo depois do século XIX, período do apogeu da presença dos anglos no Maranhão em razão do comércio, quando São Luís teve um cemitério só para eles, o Cemitério dos Ingleses construído por volta de 1815, e localizado em frente à Igreja de São Pantaleão, onde hoje funciona uma escola pública. No início do século XX, a presença inglesa e americana devia-se, sobretudo, à Companhia de Telégrafos comandadas pelos ingleses e à Ullen Company, responsável pela iluminação e pelos bondes de nossa provinciana capital.

Sendo uma cidade de intenso comércio, uma das praças mais movimentadas do Brasil em fins do século XIX e início do XX, não é de estranhar o grande número de comerciantes sepultados no Gavião. Na alameda principal, está o jazigo do comerciante português Luiz Manoel Fernandes e sua Família, erguido como capela de mármore de Carrara em estilo neogótico, obra do escultor português António Moreira Rato. Luiz Manoel foi importante comerciante em meados e fins do século XIX e faleceu de beribéri, quando em viagem, na Bahia, sendo seu corpo transferido para São Luís, onde foi sepultado em seu jazigo. Sua filha, a maranhense Isabel Fernandes, veio a casar-se com o cônsul português e intelectual, um dos 12 apóstolos das letras fundadores da Academia Maranhense, Fran Paxeco. Do casal Fran-Isabel descende ilustre prole dentre as quais se destacam a sua filha Dra. Elza Paxeco Machado, primeira mulher a doutorar-se em Letras pela Universidade de Lisboa e sua neta Maria Rosa Pacheco Machado, Mestra em arquivo e documentação, que ocupa atualmente uma cadeira de membro correspondente da Academia Maranhense, cadeira que foi ocupada por sua Mãe, a Dra. Elza. Registre-se que, Maria Rosa, bisneta de Luís Manoel Fernandes e neta de Fran Paxeco, é também filha do grande filólogo, dicionarista e arabista português Dr. José Pedro Machado, falecido em 2005.

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Jazigo do Comerciante Luiz Manoel Fernandes e sua Família

Outros comerciantes e industriais sepultados no Gavião: Crispim Alves dos Santos, nascido em 1851 e falecido em 1905, Orfila Cavalcanti (1881-1922), que está em um jazigo adornado com um grande anjo de mármore branco esculpido pela afamada Marmoraria Carrara de São Paulo, Manoel Mathias das Neves, falecido em 20 de agosto de 1925, Joaquim Júlio Corrêa, nascido em 1857, em Portugal e falecido, em São Luís, em 1937, quando era o decano do comércio maranhense em um imponente jazigo de granito escuro, o industrial Cândido José Ribeiro, cujo jazigo é ornado com seu busto e Marcelino Gomes de Almeida.

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Jazigo do Comerciante Orfila Cavalcanti

Há, ainda, sepulturas de religiosos, como a do Monsenhor João dos Santos Chaves, falecido em 1948, antigo pároco da velha Igreja de Nossa Senhora da Conceição, localizada na Rua Grande, onde está atualmente o Edifício Caiçara, de Monsenhor Lemercier, falecido no mesmo ano de 1948, de Padre João Mohana, sepultado no túmulo de sua família e muitos outros clérigos e também religiosas, como as Irmãs Dorotéias de Santa Paula Frassinetti e as Irmãs Capuchinhas.

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Jazigo do comerciante português Joaquim Júlio Corrêa e seus descendentes

Dentre os intelectuais sepultados no Gavião estão o grande poeta do Guesa Errante, Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, o escritor e fundador da Academia Maranhense Antônio Lobo, o professor e historiador Domingos Vieira Filho, nascido em 1923 e falecido em 1981 e o jazigo de mármore branco com uma bela escultura de um anjo, um pergaminho e uma cruz onde jaz o escritor Aluísio Azevedo.

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Jazigo do Escritor Aluísio Azevedo, autor do polêmico Romance O Mulato

Não apenas personalidades célebres e importantes dormem o sono eterno no Gavião. Na parte da frente, antes da Capela do Cemitério e nos seus arredores estão os jazigos mais nobres, em sua maioria de mármore branco, granito escuro, ornados com estátuas de anjos, de santos da devoção do defunto ou da família e à medida que se vai adentrando o cemitério aparecem os jazigos simples onde pessoas menos abastadas, pobres, jazem em seus túmulos de alvenaria, caiados de cal branco, encimados com singelas cruzes de ferro ou madeira. Há, ainda, os que jazem enterrados diretamente no chão, às vezes em covas rasas… Como já dissemos, a morte iguala todos, mas o local onde os corpos permanecerão, bem como os materiais e ornamentos de um jazigo revelam muito da condição social do morto e de sua família.

Na Igreja de São Pantaleão, de mármore de Carrara, circundado de folhas de acanto e encimado com as esculturas de um crânio humano, uma ampulheta e um pequeno anjo, tem-se um dos túmulos mais bonitos que encontramos em Igrejas de São Luís. Transcrevo aqui o epitáfio deste túmulo: Aqui jaz Manoel João Corrêa de Souza, natural da Villa de Monção na Província do Minho, em Portugal. Filho legítimo de Izidro Domingues e Izabel Caetana Corrêa de Souza Montenegro. Falleceo nesta Cidade aos 17 de julho de 1937 de idade de 65 annos onde rezidio desde o ano de 1788, e nella exerceu a profissão de comerciante.  O crânio simboliza a própria personificação da morte, a ampulheta representa o fim do tempo humano e o recomeço de um novo tempo, a vida eterna e o anjo, o desejo de que a alma do morto vá para o paraíso.

Em várias outras Igrejas há túmulos, jazigos e ossuários, como na Capela do Senhor dos Navegantes, anexa à Igreja de Santo Antônio onde estão sepultados os membros das antigas Irmandades do Senhor do Passos e do Senhor dos Navegantes. Dentre as figuras mais conhecidas está o Barão de Anajatuba, doutor José Maria Barreto, que era médico, militar e político. Também na Sé, na sacristia, jazem muitos clérigos e alguns leigos e no chão diante do retábulo-mor, próximo à Cátedra arquiepiscopal, muitos bispos que governaram a Igreja Católica de São Luís, dormem debaixo de artísticas pedras tumulares com inscrições e elogios fúnebres e brasões eclesiásticos.

 

Esperamos despertar a atenção, sobretudo neste ano em que se celebram os 400 anos da chegada dos franceses (para muitos, fundação, para outros, invasão), sobre importância histórica e social dos cemitérios, sejam eles a céu aberto, como o velho Gavião, ou dentro dos templos, como é o caso da capela mortuária ao lado da Igreja do Senhor dos Navegantes. Os cemitérios são espaço de pesquisa, fonte de conhecimento e cultura e até lugar de lazer, como, por exemplo, em Paris, no famoso Cemitério de Père- Lachaise e em outras cidades onde há passeios turísticos. Redescubramos a nossa História lá onde ela parece ter acabado.

 

Autor: João Dias Rezende Filho é pesquisador, acadêmico de Teologia e bacharel em Direito. Membro da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia (ASBRAP), sediada em São Paulo e do Colégio Brasileiro de Genealogia (CBG), sediado no Rio de Janeiro. Conselheiro do IDII. É, também, tesoureiro da Associação de Amigos do Arquivo Público do Estado do Maranhão (AAMAPEM).

Referências Bibliográficas:

ABBEVILLE, Claude d’. História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1945.

ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Tradução de Priscila Viana de Siqueira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. São Paulo: Edirora Hemus, 1975.

BOGÉA, Kátia Santos et alii. Arquitetura e Arte Religiosa no Maranhão. São Luís: 3ª Superintendência Regional/IPHAN, 2008.

MARQUES, César Augusto. Dicionário Histórico Geográfico da Província do Maranhão. 3ª edição. São Luís: Edições AML, 2008.

Fonte Primária:

Jornal “A Pacotilha” de 16 de fevereiro de 1928. Acervo da Biblioteca Benedito Leite.

Crédito das fotografias: João Dias Rezende Filho

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