Artigo – Ivan Wasth Rodrigues, o ilustrador da História do Brasil

IVAN WASTH RODRIGUES

Laila Vils*

Fazia frio, em primeiro de julho de mil novecentos e vinte e sete, na Cidade de São Paulo, quando os primeiros sinais prenunciaram a Cecília Nashara a chegada de Ivan.  A convivência entre mãe e filho foi interrompida quando ela ficou tuberculosa, vindo a falecer quando o rebento estava na casa dos 7.

Naqueles idos da década de 1920, era praticamente impossível um chefe de família criar sozinho 3 filhos menores, levando o Sr. Wasth Rodrigues a casar-se em seguida. Daquele tempo infantil, Ivan recordava-se das brincadeiras dos irmãos, de que ele não gostava de participar. Preferia os desenhos com o irmão mais velho, por quem Ivan nutria grande admiração.  À medida que crescia, seus tios Cid Affonso e José Wasth Rodrigues reconheceram o potencial daquele jovem tímido, introspectivo e calado e o introduziram em agências como Elisa, e editoras como a Delta Larousse, Record, José Olympio, Grant Publicidade.

Ivan não gostava de danças, nem de festas, nem de aglomerações, não praticava esportes e viajou através dos livros, já que deles se alimentava, chegando a ter uma biblioteca de 7 mil volumes, uns adquiridos em sebos e livrarias  e outros herdados dos tios.

Os estudos foram interrompidos no primeiro ano do segundo grau, mas isto não o impediu de tornar-se um autodidata. Para compor seus desenhos e suas histórias aprendeu Alemão, Inglês, Francês, Espanhol e Italiano.  Mais tarde, novos desafios e novas encomendas, deu os primeiros passos no aprendizado de Russo e Japonês. Os amigos ficavam felizes ao vê-lo se expressando naqueles idiomas pouco comuns.

Deixou a fria terra paulistana e veio para o calor do Rio de Janeiro. Pelas mãos dos tios, trabalhou em inúmeros estabelecimentos que reconheciam o potencial do jovem Ivan.  Admirava a cultura inglesa, sua disciplina, sua educação e o estilo de vida. Durante sua longa vida, sempre manifestou a vontade de singrar os mares da Grande Albion e fixar-se na City.  Infelizmente, seu sonho não se concretizou!  Soube, anos mais tarde, que a Linden Artists Agency & Hamlyn Publishing Group enviou uma carta convite para que ele fosse trabalhar em Londres. Naquela época, 1973, muitos prédios residenciais no Rio de Janeiro não tinham porteiros e o carteiro, lá chegando e não encontrando o destinatário, não entregou o convite, que vinha de tão longe. E, assim, Ivan jamais conheceu sua tão sonhada Inglaterra.

Além dos desenhos publicados em inúmeros livros, foi contratado pelos Correios (EBCT) para desenhar os selos e cartões retratando uniformes dos carteiros. Também pintou aquarelas, deu palestras e registrou depoimentos.  Mas era junto à mulher amada que ele sorria e demonstrava alegria pela vida. Para ela contava sobre os seus medos, seu passado e o presente de reconhecimento. Anos se passaram e aos poucos as obras de Ivan ficaram no passado. Mas continuava pesquisando e desenhando.

No Terceiro Salão do Rio de Janeiro, em 1981, recebeu Medalha de Ouro pelos seus quadros em aquarela. E foram muitos os prêmios e as homenagens recebidos. O mais emocionante depoimento está gravado no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

No Rio de Janeiro, Ivan foi residir com o tio José e sua esposa na Rua Bambina, em Botafogo, após o casamento dos primos Raquel e Roberto.  José Wasth Rodrigues era um conceituado desenhista e ilustrador que pretendia fazer de Ivan seu discípulo e sucessor. A biblioteca do tio o fascinava! E foi nesta casa com tantos livros e tantas informações, que viveu por mais de 50 anos até sua morte em  10 de dezembro de 2007.

Aos 50 e poucos anos, conheceu sua companheira, Sueli de Jesus Souza, aquela que o acompanhou por 27 anos, até o desfecho. Sueli cuidou de Ivan, acometido do mal de Alzeimer na década de 2000. A companhia de Suri, como é chamada Sueli, encheu de alegria aquela vida solitária. Tendo por ofício a capoeira, a Mestra Suri San tornava o lar de Ivan repleto de discípulos.  Ela trouxe luz e juventude àquele homem taciturno admirador da cultura africana, com quem se identificava, já que dizia se sentir “negro de alma e de espírito”.

Ivan atuou em diversas áreas, desenhou temas bíblicos e uniformes militares. Como ilustrador e desenhista de atlas geográficos, mapas ilustrados, história das Comunicações no Brasil, além de projetos e plantas para o Departamento de Urbanismo da Prefeitura de São Paulo, participando ainda, de campanhas do MEC, como diagramador. Na Abril Cultural desenhou A Vida dos Morcegos.

Ilustrou “A Princesa dos Escravos: Isabel para a Juventude”, de Dinah Silveira de Queiroz e foi o grande ilustrador de quem se utilizou Gilberto Freyre em sua quadrinização de “Casa Grande & Senzala”.

Gustavo Barroso o contratou para desenhar a História do Brasil em Quadrinhos e depois disso, fez para o SESI a “Primeira História em Quadrinhos de Cenas da Vida Indígena”. Na Revista Tico-Tico fez ilustrações sobre indumentária; para o IBGE ilustrou diversos atlas a bico-de-pena. Até na Barsa (ramo brasileiro da Encyclopaedia Britannica) fez inserções sobre Heráldica Nacional.

A repercussão de Casa Grande & Senzala, em versão quadrinizada, tornou Ivan Wasth Rodrigues reconhecido como o mais importante ilustrador a abordar a história da civilização brasileira.

 “Neste longo caminho de querer conciliar as aspirações com as imperfeições de que somos dotados, sabendo de antemão, como o alquimista, que o caminho é que é o próprio objetivo.”

Rio de Janeiro, outubro de 1971

Ivan Wasth Rodrigues

*Laila Vils é historiadora e preside o conselho de administração do IDII.

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