Pobre Ruy

 

Luís Severiano Soares Rodrigues*

 

O falecido ex-vice-presidente José Alencar, em 2009, após uma grave operação a que fora submetido então, declarou numa entrevista, que não temia a morte, temia sobretudo a desonra, pois um político desonrado é um homem morto em vida, enquanto um político honrado continua vivo, mesmo depois de morto. Creio que era o único ator da república que pensava assim. Quando se reflete sobre essas sábias palavras, logo nos vem dois exemplos do segundo caso, homens que vivem mesmo depois de mortos, são eles D. Pedro II e Ruy Barbosa.

O primeiro foi muito festejado por todo o Brasil em 2007, quando da edição de mais um estudo biográfico, mais um dos muito que já foram feitos, desta vez da lavra do acadêmico José Murilo de Carvalho. O segundo tão decantado como a Águia de Haia, é igualmente um orgulho nacional brasileiro. Contudo não se pode omitir um fato pouco conhecido da vida de Ruy, que se deu em 1889, quando da formação do gabinete à suceder o governo demissionário de João Alfredo, chefiado pelo senador visconde de Ouro Preto, este o convida para compor o ministério, Ruy impõe como condição a implantação da federação como uma das propostas do gabinete. Ouro Preto oferece uma maior autonomia das províncias, e propõe a Ruy que este fizesse a federação quando ele fosse presidente do Conselho de Ministros, ou seja, chefe do governo. Ruy não aceita, e passa a atacar o novo governo em formação pe la imprensa, artigos esses que seriam publicados nas suas obras completas com título Queda do Império. Medeiros e Albuquerque em suas Memórias, diz que essa atitude de Ruy muito influenciou os ânimos do período que teve por desfecho o 15 de novembro. Curiosamente, Josué Montello conta no seu excelente – Pequeno Anedotário da Academia Brasileira,pag. 160, o relato do major Carlos Nunes Aguiar, que Rui que redigira o decreto de banimento da família imperial, com ele assistira da casa do mesmo no Flamengo (Rui ainda não morava em Botafogo), de binóculos a saída do vapor Alagoas levando a família imperial, na passagem da barra da baía do Rio de Janeiro, e quando Rui lhe passou o binóculo vê-o com os olhos molhados, e daquele dia em diante, nos muitos revezes e injustiças que Ruy sofreu na sua carreira republicana, sempre lhe dizia: “você teve razão ao chorar quando o Imperador partiu”.

Como fruto do golpe de estado que impôs a república aos brasileiros, temos que Ruy Barbosa passa tranquilamente de membro do partido liberal a ministro da fazenda do governo provisório, na sua gestão, coloca em prática suas concepções teóricas de moeda fiduciária, que levam a jovem republiqueta ao completo descontrole monetário e inflacionário. Ruy renuncia com todo o ministério, após uma crise com o marechal presidente, nesse momento Ruy deve ter sentido que algo havia de errado com o produto que sem perguntar impuseram ao povo brasileiro. No governo de fuzilamentos do mal. Floriano, Ruy teve sorte, pois apenas amargou o exílio na Europa, mais precisamente em Londres, curiosamente numa monarquia, entre set/1893 e jul/1895. Em 1914 o conselheiro Ruy Barbosa, estranhamente Ruy não abriu mão do honroso título que o imperador lhe deu,faz a mea culpa, quando em discurso no senado d eclara: “(…) de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a ter vergonha de ser honesto. Essa é a obra da república nos últimos anos. No outro regime(a monarquia) o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam a que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade gerais”.Outra frase muito lembrada de Ruy é a de que “o parlamento no Império era uma escola de estadistas, na república uma praça de negócios”. Amargas e atuais palavras. A sentinela qual um farol, de que nos fala Ruy, era justamente D. Pedro II. Pobre Ruy, depois destas palavras, podemos ter certeza, que q uando morreu o visconde de Ouro Preto em 1912, Ruy deve ter se lembrado que se extinguira o único homem que sabia que ele viria a ter o seu governo, mas era tarde, na república Ruy não teve o seu governo, perdera três eleições para presidente da república, da qual fora elemento fundamental para a implantação. Isabel Lustosa, no seu “Histórias de Presidentes”, nos relata que em 1919, Ruy e um jornalista foram ao Palácio do Catete, para falar com o presidente Delfim Moreira, e este dá um chá de cadeira nos dois, e de vez em quando uma fresta se abria na porta e eles percebiam que era Delfim Moreira espiando, e quando eles olhavam, a porta se fechava suavemente. Ruy teria dito :”estranho país é o Brasil, onde até um louco pode ser presidente da república e eu não posso”.

No ano seguinte Ruy, daria novo testemunho, de que a sua opção pela república foi por ter a classe política dominante nos partidos de então se negado a fazerem a federação, mesmo tendo entre seus entusiastas, além dele, Joaquim Nabuco e um grande pensador político ter muito teorizado sobre o tema, este foi o já falecido então, Tavares Bastos, falando inclusive que o Imperador era favorável à federação, que o Conselheiro Saraiva a propusera no seio do partido liberal, mas a maioria dentro deste, não comungava com essa idéia para já, em palestra na Liga da Defesa Nacional, ecomentando a revogação do banimento da Família Imperial,  aproveita para mais uma vez para falar das instituições que ajudara a derrubar: “nunca deixei de acatar respeito ao príncipe reinante, nunca neguei ao imperador as suas virtudes pessoais … social e nacionalmente, foi um alto padrão de moralid ade, um fanal penetrante, que brilhava dos cimos do poder, exercendo com a vigilância da sua luz, quer sobre o governo, quer sobre a administração, quer sobre o estado geral dos costumes, uma ação incalculavelmente saneadora. Sem algumas virtudes notáveis, não seria possível exercitar função tão útil;e, para medir o bem que deveria ter causado, pelo mal que a sua falta causaria, basta calcular em que estado se acharia o Brasil, ao cabo daqueles sessenta anos, se durante eles se houvesse regido o Império com o mesmo gênero de moralidade e idoneidade com que se tem dirigido a república nos seus trinta de mal simulado governo constitucional e nominal democracia”.(Obras completas- Tomo I pag.236/237 – Discursos, Orações e Conferências. Editora Iracema – Bahia s/d). Por essas palavras lamentamos que Ruy não tenha esperado, o seu governo para fazer a federação com a monarquia, teria sido algo pensado e estudado e implantado com segurança e exper imentação, para funcionar direito, ao invés daquilo que nasceu em 1889, que foi o ninho das oligarquias, e hoje a despeito do erros do passado, ainda funciona mal. Pelas palavras de Ruy, também entendemos por que ele chorou quando o Imperador partiu.

O autor é economista, artista plástico, pós-graduado em história, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói e conselheiro-secretário do IDII.
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.