Isabel I – Imperatriz do Brasil

Isabel I – Imperatriz do Brasil

Luís Severiano Soares Rodrigues*

O fato de uma mulher ter chegado a presidência da república, que pelo ineditismo, cerca a atual governante da boa vontade da grande maioria das pessoas, apesar de sua eleição ter sido, menos pelos méritos próprios, do que pelo empenho do seu antecessor em eleger, no caso a sua sucessora, que diga-se de passagem só conseguiu essa posição por um problema de percurso, já que o escândalo do mensalão tirou o então todo poderoso, ministro da casa civil José Dirceu de sua super posição de primeiro-ministro de uma república presidencialista, sem contudo perder boa parte do seu poder, haja vista que o camarada Zé Dirceu, hoje é uma eminência parda como “consultor” nas esferas do poder entre Brasília e São Paulo. A então ministra de Minas e Energia, assume a pasta deixada pelo camarada Zé Dirceu, escolh ida curiosamente, entre outras coisas por não ter origem petista e sim brizolista, o que diga-se de passagem tendo em vista os resultados das administrações brizolistas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, não ser grande mérito. Mas temos certeza que a presidente encaminhará muitas resoluções de alguns dos muitos problemas a serem resolvidos, pois o fardo que seus antecessores lhe legaram é muito pesado, bastaria falar na saúde pública em estado de calamidade ou na violência urbana que já ultrapassou as raias do absurdo, ou ainda a falta de infraestrutura física e capital humano capacitado para se poder crescer consistentemente, entre outros dos muitos problemas. Creio que a presidente, se já não percebeu, logo perceberá, que o que falta nas instituições que preside é curiosamente o respeito a Res Pública, o que de fato é um problema paradoxal. Se a presidente se der o trabalho de estudar a evolução das instituições que preside , sentirá um mal estar por chefiar algo que começou tão mal e gerou um passivo social incomensurável, creio também que sua ascendência balcânica deve tê-la preparado caso descubra que recebeu um presente de grego ao se eleger para a presidência da república. Melhor teria sido, se o destino do Brasil não tivesse tido o revez do 15 de novembro e a insígne senhora, fosse a primeira mulher a chefiar o Conselho de Ministro, pois certamente estaria fazendo companhia a Ângela Merkel, chanceler da Alemanha, no Grupo dos 7.

Mas se ter uma presidente, de fato é inédito, mas não o fato do Estado brasileiro ser chefiado por uma mulher. As três regências exercidas pela Princesa Imperial D. Isabel, em nome do seu augusto pai D. Pedro II, conferem-na a condição de ter sido a primeira chefe de Estado do sexo feminino nas Américas, tendo sido a única até o começo da década de noventa do século XX, quando se elege Violeta Chamorro, presidente da Nicarágua.

D. Isabel nascida à 26 de julho de 1846, tem em seu sangue a mistura do sangue da Casa de Bragança e a dos Bourbons das Duas Sicílias. Eu já pude defini-la em outro momento como a soma da inteligência de seu pai e a bondade de sua mãe, e de outra forma não temos como vê-la, pois foi formada por seu pai para chefiar o Estado quando chegasse a hora, e sua mãe não descuidou em formar o senso da caridade e devoção cristã desde cedo na jovem princesa, que com a morte de seus dois irmãos, D. Afonso e D. Pedro, passa a ser a herdeira presuntiva do Império do Brasil. Os primeiros anos dessa carioca de São Cristóvão, são voltados para os estudos preparatórios das altas funções que desempenharia, e já meniana com a irmã mais nova D. Leopoldina desempenhava funções oficiais, como visitas à estabelecimentos oficiais, como escolas. Hospitais, repartições, entre outras como a Casa da M oeda, que registrou o fato numa belíssima medalha comemorativa do evento, retratando as duas irmãs juntas, que honravam aquela instituição com suas augustas presenças. Tendo D. Isabel sempre se apresentado muito bem, quando da visita de personalidades importantes ao Império. Muito inteligente, a jovem princesa destaca-se nos estudos, até pelo influxo da presença animadora do pai, homem de grande cultura e conhecimento, na verdade um dos príncipes mais esclarecidos do século XIX, que diga-se de passagem, herdara a disciplina e o gosto pelos estudos de sua mãe, D. Leopoldina primeira Imperatriz do Brasil, princesa da Casa da Áustria, e uma grande estudiosa das ciências naturais, tendo trazido quando de sua vinda para o Brasil, uma missão científica chefiada por Von Martius e Von Spix, que elaboraram trabalhos ímpares sobre a fauna e a flora, principalmente esta, do Brasil, e também sobre a nossa história até então,. Tendo sido Von Martius pro tegido por D. Pedro II no futuro, pois via nele um grande amigo do nosso país. D. Leopoldina, princesa Habsburgo, estava à altura do papel que o destino lhe reservou, pois foi inflexível no apoio ao marido, exortando-o a proclamar a Independência Nacional.

D. Isabel casa-se por amor em 1864, com Gaston de Orleans, Conde D`Eu, príncipe francês, que somos categóricos em afirmar foi um homem digno e amigo de sua mulher, honrando-a na ventura e na adversidade. O conde D’Eu, provou sua dedicação ao Brasil e a sua esposa infindas vezes, em particular na campanha da Cordilheira, última fase da guerra do Paraguai, onde se empenhou em terminar aquele conflito, não deixando meios daquele país voltar a atacar e invadir o território do Império, e dando o exemplo, abole a escravidão naquele país.

Após o casamento a formação de D. Isabel se volta também para o conhecimento de outros países, e em viagem á Europa conhece outros processos civilizatórios e de desenvolvimento econômico. Além de conhecer pessoalmente parentes seus e do marido espalhados pelas casa reinantes europeias.

Em 1871, com a primeira viagem do Imperador ao exterior, D. Isabel assume pela primeira vez a regência do Império, e lhe é dado por D. Pedro II presidir o primeiro capítulo da abolição efetiva da escravidão, com a gestão e aprovação da lei do ventre livre, sendo a chefia do governo colocada nas mãos de um homem hábil e capaz, que era o visconde do Rio Branco. A gestão de proposição da lei, seria de um homem de grande capacidade e fiel partidário da dinastia, o então ministro do Império, João Alfredo Corrêa de Oliveira. A Regente muito se empenhou para a libertação do ventre escravo, começando assim um movimento irreversível como veremos, chegando a termo sua primeira regência em 30/03/1872, com o retorno do Imperador. Devemos ressaltar que D. Isabel estudou com afinco os apontamentos que seu pai lhe redigiu sob o título de Conselhos a Regente, que são o testemunho da lucide s e abnegação do Imperador.

Temos de fazer um parentese, para um problema pessoal da jovem princesa herdeira, que era não ter conseguido até então gerar um herdeiro, tendo tido vários insucessos, o que temos certeza é um drama pessoal para qualquer mulher, e um drama nacional para aquela que tem que gerar os futuros soberanos de um país, seu problema era um problema de Estado. Após longo tratamento com especialistas, consegue sua alteza gerar e levar a um feliz sucesso três gestações, o primeiro em 1875, com o nascimento de D. Pedro de Alcântara, seguido de D. Luiz e D. Antônio.

A segunda regência se dá de 26/03/1876 à 26/09/1877, tendo como presidente do conselho o Duque de Caxias. Já com experiência D. Isabel mostra-se bem preparada, e desempenha, mais uma vez, muito bem as funções de Chefe do Estado, declarando sua predileção por comutar penas de morte, aqui temos seu piedoso coração a falar. Procura também escolher os indivíduos mais aptos e preparados para os postos chaves no Império.

A terceira regência iniciar-se-á em 1888, dessa vez com o Imperador indo a Europa não a passeio, mas em viagem para tratar a saúde muito debilitada. Assume a chefia do Estado, a Princesa Imperial, tendo como chefe doe governo o barão de Cotegipe, numa conjuntura bastante tensa, pois a propaganda abolicionista havia se intensificado muito, e a Regente era francamente favorável a abolição até ao fim, como de resto era o desejo do próprio Imperador, mas procurando-se uma solução que evitasse a desestruturação da produção agrícola, o que certamente era um condicionante indispensável do problema.

Uma conjuntura difícil, com protagonistas radicalizando suas posições, esse era o cenário daquele momento. Enquanto os abolicionistas chefiados por Joaquim Nabuco, no parlamento, travam batalhas da eloquência e das ideias, incendiando a opinião pública, que era francamente favorável ao término da escravidão, o ministério protelava qualquer solução aceitável, tendo receio da desestruturação da matriz produtiva. E esse era o cerne do problema, um problema estrutural, de variantes econômicas, sociais e jurídicas dentro de um estado de direito.

D. Isabel, cobra uma solução ao ministério e esse targiversa, então cobra do partido conservador uma posição, este aceita a ideia de efetivar o fim da escravidão. D. Isabel não exita e, por moto próprio, como testemunhará Nabuco vinte anos depois, troca o presidente do conselho, usando as prerrogativas do poder moderador, que são de sua exclusiva competência. Troca aceita no ceio do partido no poder, chama sua alteza, João Alfredo, aquele de 1871, para formar novo gabinete, com o fito de acabar com a escravidão, o resultado todos sabemos, é o 13 de maio. Feito este que lhe colocou para sempre num lugar de destaque na história do Brasil. O júbilo que se viu por todo o Império foi algo de grandioso e mágico, pela satisfação gerada nos corações das pessoas de bem.

Retorna o Imperador em agosto de 1889, e é recebido sobre grandes manifestações de satisfação da população da capital do Império. Assume D. Pedro II suas funções, mas sua saúde ainda inspirava cuidados.

A conjuntura passa a ser outra, pois um dos efeitos do 13 de maio, é a geração de uma legião de ex-senhores de escravos transformados em republicanos de 14 de maio, tendo inclusive os retratos da Princesa Imperial sido transferidos para os porões, como conta o Prof. Menezes de Oliva no seu livro “Minhas Recordações de Garoto”. Os efeitos sobre a produção não foram tão grandes mas, houveram algumas regiões cafeeiras que tiveram dificuldades de fazer a colheita da safra. O gabinete de João Alfredo, não consegue se manter no poder, pois a Câmara retira-lhe o apoio. Chama o Imperador, ao senador visconde de Ouro Preto, do partido liberal, para formar novo governo, frente a negativa da Câmara em apoiá-lo, o Chefe do Estado dissolve-a e realiza-se nova eleição, conseguindo Ouro Preto a maioria para o seu programa de governo amplamente reformista, que estava a altura das necessidades d o momento. O momento era delicado pois as aves de rapina republicana, foram sagazes e usaram de estratagemas soezes para perpetrar a alta traição, pois de um incidente menor do Presidente do Conselho, no ministério da fazenda com um oficial subalterno, gera-se pela imprensa uma tempestade em um copo d`água, e reacende-se a questão militar, ao mesmo tempo em que alguns colocavam a questão de gênero em evidência, pois muitos não queriam uma mulher na chefia do Estado, mesmo sendo ela adorada pelo povo simples do seu país e idolatrada em particular pelos negros que a veneravam, quando o Imperador morresse. Assim inicialmente conspiram contra o gabinete, colocando o Mal. Deodoro contra Ouro Preto, através de mentiras e uma vez deposto investem contra a Monarquia, com outras mentiras, e Deodoro, monarquista que inclusive havia escrito em carta ao sobrinho, que no Brasil república e desgraça eram a mesma coisa, foi levado a trair o homem a quem devia não poucos favores, mas o mesmo descobriria logo adiante, que ele estava certo.

Começam os infortúnios da família Imperial, banidas da terra brasileira. Pouco mais de um mês do desterro, em Portugal a Imperatriz morre do coração, de desgosto, abalando mais ainda a família que passava já por um trauma sem par. Aos poucos a vida vai se acomodando, a família fixa residência na França, mas ainda com grandes problemas financeiros, que só se vão normalizar com o Conde d`Eu recebendo a herança por falecimento de seu pai. O Imperador falece em Paris à 05 de dezembro de 1891, e sua s exéquias, concedidas pela república francesa são as de Chefe de Estado, sob os protestos do representante da república brasileira em Paris. Passando D. Isabel a ser de Jure Imperatriz do Brasil, reconhecida por todos os monarquistas que a acompanharam no exílio, entre eles homens do naipe se André Rebolças, Ouro Preto, Barão de Loreto, entre outros. Viveria D. Isabel grande desgos tos pessoais com a situação da república, ou melhor da republiqueta brasileira, pois nos igualamos aos nossos vizinhos sul-americanos, com a guerra civil no sul e a revolta da armada banhando de sangue o solo do nosso país, e mais adiante o genocídio de Canudos, a república não tinha escrúpulos na hora de matar seus opositores em particular os monarquistas, que não gozaram dos mesmos direitos de opinião que os republicanos tiveram no Império, muitos sendo assassinados, muitos jornais mal saindo o primeiro número eram empastelados, a própria constituição republicana, não permitia se discutir forma de governo, com a cláusula pétrea.

Dona Isabel, mantém vivo contato com os monarquistas brasileiros, e acolhe todos os brasileiros que vão vê-la e transmitir notícias da sua amada pátria, fez a Imperatriz Isabel, as suas residências em Eu e Paris verdadeiras casas do Brasil na França.,como testemunha o Almirante Guilhobel nas sua Memórias, apoiando todos os esforços em elevar o nome do seu país, como a proteção a Santos Dumont que visitava-a frequentemente, e não se separava da medalha de São Bento, que D. Isabel o presenteou para sua proteção. Mantinha a Imperatriz vasta correspondência com o Brasil. Se por força de ter sido banida, não podia estar presente fisicamente no seu país mantinha sua presença espiritual, fez questão de presentear o Santuário de Aparecida com a Coroa de Ouro para coroar a imagem da padroeira do Brasil. Enfim, como sua neta , Isabelle Condessa de Paris nos diz em suas memórias, D. Isabel só pensava em duas coisas, no Brasil e na conversão dos ateus, era seu coração que buscava fazer o bem. O contato com o Diretório Monárquico era constante, e a partir de 1908, passa a dividir esse contato com D. Luiz, seu segundo filho, e sucessor com a renúncia de seu irmão D. Pedro de Alcântara, sendo D. Luiz um incansável lutador pela causa da restauração, e não quisesse o destino que ele morresse tão jovem, certamente hoje o Brasil seria outro, diferente da s tristezas e desamparos que vive o nosso povo. Com a perda de dois filhos prematuramente, nossa Imperatriz já idosa se recente da adversidade de viver essa perdas, e já bem debilitada na saúde recebe a notícia da revogação do banimento em 1920, mas já é tarde, seu estado de saúde não permite que ela regresse ao seu país, que por ter ela libertado os escravos premiou-a com o banimento. D. Isabel morre em Eu em 1921, seus restos mortais junto aos do marido seriam resgatado s pela república em 1953, em 1971,cinquenta anos após o seu falecimento seus restos mortais são transladados para o mausoléu da Casa Imperial, na catedral de Petrópolis, com honras de Chefe de Estado, sem perceber a república reconhecia naquele momento que estava sepultando ali, Isabel I, Imperatriz do Brasil.

O autor é economista, artista plástico, pós-graduado em história, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói e conselheiro-secretário do IDII.
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