Artigo – D. Luiz, o Príncipe Perfeito

D. Luiz, o Príncipe Perfeito

 

Luís Severiano Soares Rodrigues*

Uma das imensas vantagens da monarquia constitucional, sobre a república é sem dúvida, a chefia de Estado estar destinada à uma pessoa que será preparada para exercê-la, desde o berço, e também afastar esse elevado posto de aventureiros. O exemplo mais bem acabado desse fato, é sem dúvida D. Pedro II, nosso inolvidável Imperador, cujo patriotismo e dedicação à Pátria, e dentre aqueles que posteriormente usurparam a chefia do Estado, não encontra, nem de longe semelhança. Esse eclipse na chefia do Estado, só se deu em função do acidente de percurso que foi o golpe de Estado de 15 de novembro de 1889. Pois Dona Isabel, era o amor vivo ao Brasil e seu sucessor constitucional, a partir de 1908, D. Luiz, um exemplo de preparo e abnegação para com a missão que a providência lhe reservou.

Em se analisando a evolução política brasileira posteriormente, aos negros tempos da república à ferro e fogo, temos que a ação de D. Luiz foi sem dúvida a maior possibilidade de restauração da monarquia brasileira. Homem de grande valor, construiu, D. Luiz toda uma legião de admiradores no Brasil. Sua ação começa antes mesmo da renúncia de D. Pedro de Alcântara, homem igualmente valoroso, mas que escolheu abdicar ao trono, para realizar um casamento morganático. Com sua viagem à América do Sul em 1907, cuja chegada ao Rio de Janeiro, causou o maior desespero nas autoridades republicanas. Impedido de desembarcar, o jovem príncipe recebe a bordo do Amazone, legiões de amigos e simpatizantes, movimento que teve ampla e farta cobertura da imprensa da capital federal. Numa melhor aproximação do que foi a essa visita, temos as palavras do Marechal Mas carenhas de Moraes, que trata da continuação da viagem de D. Luiz em suas Memórias. “Nos primeiros dias de setembro de 1907 emocionasse a população corumbaense com a notícia de estar em Porto Suarez, povoação boliviana próxima à Corumbá, o príncipe brasileiro d. Luiz de Orleans e Bragança, filho do Conde d`Eu e neto de D. Pedro II. Aquela real pessoa vinha descendo os Andes bolivianos em excursão de turismo e aguardava, na fronteira, um vapor estrangeiro para levá-lo a Buenos Aires, uma vez que a situação de banido do Brasil não lhe permitia entrar em território nacional.””O imprevisto acontecimento preocupava o Almirante Guilhobel, velho amigo da família imperial, e inquietava o general Vespasiano, comandante do Distrito Militar, republicano vermelho e florianista exaltado. Finalmente, a 28 de setembro descia silenciosamente o rio Paraguai o vapor uruguaio Fernando Braga, levando à bordo o herdeiro presuntivo do trono do Brasil , cuja passagem por Corumbá inquietou, algo o povo e as autoridades da heróica cidade”.(pag. 32). Dessa viagem D. Luiz escreveria um livro importantíssimo, intitulado “Sob o Cruzeiro do Sul”, onde expõe ao longo da narrativa muito do seu pensamento político, e sua condição de arguto observador. Esse livro se junta aos outros livros sobre suas viagens, na Europa, África, América do Norte e Ásia, que o credenciaram a ser eleito sócio correspondente ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Sociedade Geográfica Brasileira.

D. Luiz, pretendente a partir de 1908, arregaça as mangas e parte para o trabalho, em comunicados com o Diretório Monárquico, e em correspondência com eminentes brasileiros, seus partidários ou não, que a todos conquista com sua firmeza de princípios e entranhado bem querer ao Brasil. Destacamos entre eles Euclides da Cunha, cuja obra principal. “Os Sertões”, o príncipe pode comentar com o autor, reputando-a como obra de grande valor; mesmo se afirmando republicano, Euclides dispensa grande atenção ao neto de D. Pedro II, a quem reconhece, como escritor de mérito e patriota.

Intelectuais de expressão estavam ao lado de D. Luiz, entre eles Carlos de Laet, Oliveira Lima, conde de Afonso Celso, Afonso Arinos, Câmara Cascudo, entre outros, que denotavam o elevado nível sócio-intelectual dos que apoiavam o pretendente. Já em 1909, lança D. Luiz um manifesto, onde expõe a monarquia que ele encabeça, traçando planos minuciosos da proposta monarquista modernizada, e ponta de lança do Brasil moderno que ele imaginou. Tal proposta, nada mais era do que as bases de uma democracia monárquica, parlamentarista moderna, aos moldes europeus ocidental, que sedimentaria a evolução brasileira aos patamares das suas congêneres, que hoje estão entre os países mais democráticos e desenvolvidos do mundo. Seu manifesto seria renovado e aprofundado em 1913, e ganharia as páginas dos jornais, pela audácia do deputado monarquista Mart im Francisco, que leva o mesmo para discussão no Congresso Nacional, abalando as estruturas da republiqueta sul-americana, mas que com muito esforço, as autoridades conseguem minimizar, mas a propaganda já estava feita. Nos Manifestos encontramos um refinamento, inédito na discussão política brasileira, no tocante a causa operária, e suas preocupações, já naquele momento, denotam que o príncipe cria que o desenvolvimento industrial do Brasil era necessário e desejável, e numa ótica visionária dever-se-ia pensar na minimização dos efeitos adversos que uma industrialização descontrolada traz. Evitando-se assim os conflitos que o príncipe presenciou na Europa e na América do Norte. Esse tema abordado por D. Luiz foi alvo de grande interesse de Gilberto Freyre em “Ordem e Progresso”, colocando nesse trabalho o pretendente brasileiro como um antecipador do problema, que a república ignorava ou tratava como c aso de polícia, e se escutado muito contribuiria para o futuro do Brasil.

Outra audácia de D. Luiz, baseado nos seus livros de viagens, foi a candidatura à Academia Brasileira de Letras em 1914/15, à qual faz campanha por cartas aos acadêmicos, e é ajudado por acadêmicos partidários seus, como Afonso Arinos e Afonso Celso. Tal audácia não passaria em branco, e o senador Pinheiro Machado, eminência parda e governante de fato no governo do marechal Hermes, se mobilizou para neutralizar a candidatura do príncipe que perderia com 9 votos contra 20 de Goulart de Andrade. Em carta a Rui Barbosa, então presidente da ABL, D. Luiz reconhece a sua derrota, e mostra a Ruy que acompanhou com vivo interesse sua participação em Haia em 1907. Em resposta Ruy, confessa-lhe ter nele votado, pois conhecia toda a sua obra, e bastaria só “Sob o Cruzeiro do Sul”, para gabaritá-lo a estar entre os membros da ABL, o que muito honraria e prestigiari a a instituição, e se despede como admirador e amigo.

Mas no mundo tenebroso, surge a guerra, e D. Luiz bisneto também do último rei francês, lutará em defesa da França que era sua terra de exílio. Como oficial de ligação no exército britânico, dá D.Luiz, provas de sua coragem e denodo na defesa da pátria de seus ancestrais paternos. Seu valor seria reconhecido nas várias medalhas que recebeu. Sua saúde fica abalada e enfermo deixa o teatro de guerra, mas a Casa Imperial brasileira continuará na luta com D. Antônio, filho caçula da Redentora, que ficará mobilizado até o fim do conflito.

Os problemas de saúde do pretendente brasileiro, irão se agravar, e em 1920 com apenas 42 anos, se extingue tão valoroso príncipe, que não duvido teria transformado o Brasil num país descente, digno e respeitado; desfazendo as partes sórdidas da república e ampliando os méritos do Império dos seus avós. Sua perda precoce, foi em minha opinião o mais duro golpe, que o movimento monarquista sofreu. Heitor Lyra, no seu “Minha Vida Diplomática”, vol. II pag. 351, sintetiza bem a figura de D. Luiz, quando diz sobre ele, que “era um homem de valor, mesmo uma grande personalidade, de vistas largas e ambiciosas, e sumamente mexedor. Era voz corrente que tinha o propósito deliberado de chegar um dia a governar o Brasil. Com as qualidades que possuía, com seus predicados de decisão e a força de vontade bem aplicada que o caracterizava, além de sua condição de príncipe brasileiro e profunda aspiração que alimentava, não seria impossível que alcançasse a realização desse desejo”.”Sua habilidade estava em não querer fazer nada de afogadilho, nem sob pressão ou ameaças suas ou de seus partidários. Aguardava pacientemente a sua ocasião, resolvido a conquistar aos poucos a simpatia dos brasileiros na esperança de que estes acabassem por tomar a iniciativa de o chamar. Longe dele a intenção de impor-se. O que cobiçava era ser reputado um homem necessário à sua pátria e à sua gente. Não direi que chegasse a ser aclamado imperador, como seu bisavô Pedro I, mas talvez lhe fosse viável atingir a coroa por caminhos indiretos (…). Numa das crises periódicas de sucessão presidencial pelas quais passava o Brasil, algo impediria D. Luiz de ser eleito chefe da nação? Daí a imperador seria um passo, tudo dependendo do grau de desmoralização ou descrença em que se encontrassem as instituições republicanas. Tenho motivos para acreditar que alentava esse plano, e o teria pelo menos experimentado se a morte não o ceifasse tão cedo”.

O momento era propício, como se viu depois da morte do príncipe, no seu “A Chave de Salomão e outros escritos”, Gilberto Amado nos diz, “Alguns republicanos históricos , ainda que procurem dissimular seus verdadeiros sentimentos, estão apreensivos com a revogação do banimento da família imperial, a trasladação dos ossos de D. Pedro II, a vinda ao Brasil do Conde d`Eu e do príncipe herdeiro”.”É nas conversas sobretudo, que se podem sentir os sintomas de zelo que ferve nos seus corações de fiéis ao regime, diante do movimento sentimental que ora se opera no país, em honra do glorioso monarca e seus descendentes. Tremem eles, num mal contido vexame, pela sorte das instituições republicanas, receando que por uma dessas reviravoltas inesperadas, mas possíveis, venha o nosso povo tomar-se de um súbito entusiasmo pela monarquia”. Ruy Barbosa, a meu ver sarcástico, perguntava aos assustados republicanos, nesse momento, “Ora quem mais faz pelo regime atual entre nós? Os que o reputam consolidado, há muito? Ou os que o têm por tão destituído, até hoje, de solidez, segurança, estabilidade, que ainda olham com sobressalto a volta das cinzas imperiais e dos restos da antiga dinastia, extinto o imperador, entrada sobremaneira em anos para os encargos do trono a herdeira presuntiva, e recolhido ao túmulo do avô o único dos seus netos capaz do cetro, o espírito peregrino, em quem tanto se acumulavam talentos, virtudes e obras de primor?” (Obras completas, Discursos, Orações e Conferências. Vol.I Tomo I pag.231).

Enfim, o momento foi perdido com a falta do pretendente viável e apto; seu sucessor era ainda um menino, que seria criado sem a influência paterna, e embora tendo sido um príncipe de valor como o pai, não reproduziu a mesma estratégia paterna, que cremos é válida até para o momento atual do movimento monarquista, que inclusive já defendi em artigo nesse mesmo jornal dez anos atrás.

O autor é economista, artista plástico, pós-graduado em história, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói e conselheiro-secretário do IDII.
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