Dona Maria da Baviera, R.I.P.

O Instituto D. Isabel I

cumpre o pesaroso dever de informar o falecimento, no dia 13 de maio de 2011, no Rio de Janeiro, de

S.A.I.R. Dona Maria da Baviera, Princesa-Mãe do Brasil,

viúva de D. Pedro Henrique, neto e sucessor da Redentora.

SUA ALTEZA IMPERIAL E REAL A PRINCESA-MÃE DO BRASIL

Bruno de Cerqueira*

  Maria Elisabeth Franziska Theresia Josefa von Wittelsbach und Croy-Solre, Princesa da Baviera, nasceu aos 9 de setembro de 1914, no Castelo de Nymphenburg, em Munique, capital do Reino da Baviera, no Império Alemão. Era a segunda filha de Sua Alteza Real o Príncipe Franz da Baviera (*1875 †1957), filho de Ludwig III, último Rei da Baviera, e de Sua Alteza Sereníssima a Princesa Isabelle de Croy (*1890 †1982). Sua madrinha era sua tia-avó, a Princesa e Duquesa Marie Salvatrix de Arenberg (*1874 †1957), Princesa Étienne de Croy. A Princesa Maria nasceu no início da I Guerra Mundial. Grande parte de seus parentes, inclusive seu próprio pai, o Príncipe Franz, que era General do Exército Real bávaro, lutou nesse terrível fratricídio. Ela teve uma infância e juventude bastante problemática, em virtude dos regimes que se foram estabelecendo na Alemanha, após o desastroso fim da guerra. Em 1918, seu avô, o Rei Ludwig, teve que abdicar ao trono e partir para o exílio, juntamente com a Família Real, em virtude da proclamação da “República Soviética Bávara” pelos comunistas de Munique. O Rei Ludwig III morreu em 1921, na Hungria. A segunda infância e adolescência a Princesa Maria passou toda no Castelo de Sarvar, na Hungria, propriedade herdada por sua avó paterna, a Rainha Maria Theresia, que era nascida Asburgo-Este (Princesa de Módena, Arquiduquesa da Áustria, Princesa da Hungria etc.) A Família Real retornou à Baviera nos anos 1930. Contra a popularidade dos Wittelsbach nada se podia fazer e o governo republicano se viu obrigado a lhes devolver os castelos e bens confiscados ou, pelo menos, grande parte deles. Óbvio que até mesmo na República de Weimar e na administração regional da Baviera havia monarquistas! Os tempos na Alemanha do pós-guerra foram sombrios, sobretudo na Baviera; o famoso putsch dos nazistas ocorreu em Munique. Preocupado com a ascensão dos ideais totalitaristas, pela sua extremada fidelidade aos princípios da Religião Católica, contrária a qualquer regime de exceção — e especialmente no caso do nazismo, anti-judaico —, o Príncipe Rupprecht (*1869 †1955), Chefe da Casa Real (rei de direito, chamado de “Duque da Baviera”) declarou-se publicamente adversário de Adolf Hitler e dos nacional-socialistas. Em 1933, alguns nobres que ainda detinham poder militar e político lhe ofereceram a restauração do trono, mas logo desarticulou-se a operação pelo temor às gigantescas fileiras nazistas que vinham se formando. A bravura de Rupprecht custou caro a ele e aos seus. Os membros da Família Real tiveram de fugir para a Itália; sua segunda esposa, a Princesa Antonia de Luxemburgo (*1899 †1954) foi interceptada por uma milícia nazista, que a aprisionou em Buchenwald e lhe torturou impiedosamente. Em decorrência disso, ela faleceu anos depois. A Princesa Maria recebeu dos pais esmerada educação. Falava fluentemente Alemão e Francês. Após o casamento, aprendeu o Português. De suas preceptoras inglesas, pôde ainda adquirir uma prática invejável nessa língua, a qual infelizmente perdeu-se com o tempo. Das lições principescas obtidas na infância, ficou-lhe a arte da pintura em porcelana, bastante bávara. Em 19 de agosto de 1937 ela foi desposada, na Capela do Castelo de Nymphemburg, por S.A.I.R. o Príncipe Senhor D. Pedro Henrique (*1909 †1981), Chefe da Casa Imperial do Brasil, neto e sucessor dinástico da Redentora. Assim, a jovem e bela princesa bávara tornou-se, na Europa, a imperatriz-consorte do Brasil… O casamento serviu de pretexto ao Duque da Baviera para enfrentar o Governo Nazista; afinal, compareceram dois soberanos e diversos Chefes de Casa da Europa, entre os quais o Rei exilado de Espanha, D. Alfonso XIII, e a Grã-Duquesa de Luxemburgo, Charlotte I; os altos comandantes alemães não foram convidados… O casal foi viver na França, local de morada no exílio dos príncipes brasileiros. Embora o banimento da Família Imperial tivesse ocorrido em 1920, o herdeiro de D. Isabel I era muito jovem e sob a educação e influência da mãe (Princesa D. Maria Pia das Duas Sicílias), ficara retido na Europa. Ao casar, quis logo vir morar no Brasil, mas a eclosão da II Guerra Mundial impediu a concretização de seu desejo. Em território francês, mas formalmente registrados como brasileiros, nasceram o Príncipe Imperial D. Luiz (*1938), o Príncipe D. Eudes (*1939), o Príncipe D. Bertrand (*1941) e a Princesa D. Isabel (*1944). Em 1938, o casal foi recebido em audiência privada pelo Sumo Pontífice Pio XII no Vaticano. O Papa havia sido o núncio apostólico em Munique (Monsenhor Eugenio Pacelli) nos anos de infância de D. Maria e lhe disse que se lembrava perfeitamente dela, entre os pequenos príncipes a quem abençoava… Em 1945, findada a Segunda Grande Guerra, o casal imperial finalmente chegou ao Brasil. Aqui, foram primeiramente instalados no Palácio do Grão-Pará, em Petrópolis. Por desavenças familiares, D. Pedro Henrique deixou a residência dos primos e foi morar em uma casa no bairro petropolitano do Retiro; nesta casa nasceram o quinto e o sexto filhos: o Príncipe D. Pedro de Alcantara (*1945) e o Príncipe D. Fernando Diniz (*1948). Vindo morar por um pequeno período no Rio de Janeiro, aqui nasceu mais um “imperial infante”, o Príncipe D. Antonio João (*1950). Em 1951, D. Pedro Henrique adquiriu uma propriedade agrícola no interior do Paraná, a Fazenda Santa Maria, na cidade de Jacarezinho, aonde tinham ido morar seus tios e primos maternos (príncipes de Bourbon das Duas Sicílias). No Paraná, nascem os últimos cinco filhos de Dom Pedro e Dona Maria: a Princesa D. Eleonora (*1952), o Príncipe D. Francisco (*1955), o Príncipe D. Alberto (*1959) e as Princesas gêmeas D. Maria Thereza e D. Maria Gabriela (*1959). Em 1965, a família imperial se mudou para Vassouras, cidade do Vale do Paraíba fluminense onde o culto à época de ouro do café permanece muito vivo e onde os descendentes dos monarcas brasileiros são muito queridos. Em 5 de julho de 1981, o Augusto Senhor D. Pedro Henrique faleceu em Vassouras. Seus funerais foram bastante concorridos para a pequena cidade; centenas de monarquistas de todo o Brasil compareceram, além de as próprias autoridades da República terem enviado representantes. O filho e sucessor de D. Pedro Henrique, D. Luiz, apelida o pai de “Condestável das Saudades e da Esperança”. Tornando-se D. Luiz o Chefe da Casa Imperial do Brasil (imperador de jure pela tradição monárquica), D. Maria se converteu em Princesa Mãe do Brasil — ou “imperatriz-mãe” para os cultores da monarquia. D. Maria sempre recordou docemente o carinho com que foi recebida pelos brasileiros, ao desembarcar aqui em 1945. Viveu como “brasileira” no dizer de suas irmãs e demais parentes europeus, a quem tentava visitar quando podia. Muito enérgica e sempre fidelíssima à Igreja, foi considerada por muitos bispos e sacerdotes uma “mulher do Evangelho”. Teve uma vida de exílios, revoluções, perseguições e privações de toda ordem, mas nunca se lamuriou. “Dona Maria da Baviera”, como era chamada pela sociedade brasileira, dividiu os últimos anos de sua vida entre o Sítio Santa Maria, em Vassouras, onde seus netos lhe cercavam aos fins de semana, o Castelo de Beloeil, na Bélgica, onde reside D. Eleonora (Princesa titular de Ligne), e os Castelos de Berg e Leutstetten, na Baviera, onde ela revia seus irmãos, sobrinhos e primos. Acometida de problemas cardíacos, fez algumas intervenções cirúrgicas nos últimos anos e faleceu hoje, próximo do meio-dia, em seu apartamento no Jardim Botânico. A leal servidora da Virgem Maria morre em 13 de Maio de 2011, dia de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento; data também em que a Nação Brasileira comemora mais um aniversário da Lei Áurea, que remiu o Brasil da escravidão. D. Maria nasceu no reinado do Papa Bento XV e morre no de Bento XVI, o Papa bávaro Joseph Ratzinger… Para efeitos genealógicos e heráldicos, resta dizer que Sua Alteza era Dama das Veneráveis Ordens de Santa Isabel e Santa Teresa, da Baviera e Dama Grã-Cruz de Justiça de todas as Imperiais Ordens do Brasil e da Ordem Constantiniana de São Jorge, das Duas Sicílias.

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira é historiador

e teve de a honra de servir como secretário titular da Princesa-Mãe entre 1998 e 2002.

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