Artigo – O casamento de Guillaume de Luxemburgo: êxtase de latinidade

O casamento de Guillaume de Luxemburgo:

êxtase de latinidade

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Bruno de Cerqueira*

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Acaba de se unir à condessa belga Stéphanie de Lannoy, 28 anos, o herdeiro do trono grão-ducal de Luxemburgo, Guillaume, 30 anos. Nosso Instituto enviou à prima-tia de Guillaume[1] uma mensagem de felicitações quando do noivado, como se lê aqui.

Foto de Guy Wolff. Copyright da Corte Grã-Ducal.

Acompanhando o longo cerimonial celebrado em 20 de outubro de 2012, um sábado de céu azul  límpido e claro — raro para os luxemburgueses —, pude notar quão latina se tornou essa realeza.

O noivo, Guillaume Jean Joseph Marie, é o filho mais velho do Grão-Duque Henri I — soberano do estado centro-europeu de 2600 quilômetros quadrados e 500 mil habitantes — e da Grã-Duquesa Maria Teresa, nascida em Cuba.

Pelo pai, Guillaume é um Nassau-Weilburg, Borbone-Parma, Bragança, Löwenstein-Wertheim-Rosenberg, Saxe-Cobourg-Gotha, Bernadotte, Wittelsbach, Hohenzollern-Sigmaringen, Schleswig-Holstein-Sondenburg-Glücksburg, Anhalt-Dessau etc. Pela mãe, Guillaume é um Mestre, Batista, Falla, Álvarez, Ramos-Almeyda, Tabío, Gonzalez de Mendoza, Espinosa de los Monteros, Bonet y Mora etc.

Stéphanie Marie Claudine Christine é, pelo pai, uma Lannoy, Ligne, Beeckman du Vieusart, Cossé-Brissac, Tayllerand-Périgord, Oultremont de Wégimont, Copis, Say, van der Noot d´Asschee, van Voden, Desmanet de Boutonville  etc. e, pela mãe, uma Della Faille de Leverghen, Brouchoven de Bergeyck, Meester, Plantin, Geelhand, Coussemaker, Mignard de la Mouillère etc.

Guillaume é o futuro soberano dos luxemburgueses, um povo que fala um idioma germânico (Lëtzebuergesch) e descende de ribeirinhos do Mosela e do Reno. Luxemburgo, que guarda traços da presença do Império Romano, foi um feudo importante no Medievo. A Casa de Luxemburgo (linhagem Limburg-Arlon) foi uma dinastia famosa dos séculos XIII a XV e deu ao Sacro Império Romano-Germânico quatro imperadores e aos reinos da Bohêmia e da Hungria diversos soberanos.

Do séc. XV até fins do XVIII Luxemburgo foi uma província dos chamados “Países Baixos”, uma possessão da Casa da Áustria (dinastia Habsburg). Durante esse período, sofreu inúmeras invasões estrangeiras e retomadas por parte dos administradores habsbúrgicos.

Em 1815, após o tufão napoleônico, o Congresso de Viena reconheceu a autonomia do país, elevando-o a Grão-Ducado, sob a titularidade do soberano dos Países Baixos, ou seja, o chefe da dinastia Oranje-Nassau. Em 1830, muitos luxemburgueses se uniram aos belgas para exigir a independência do país frente aos neerlandeses, mas não tiveram sucesso. A Bélgica se emancipou, mas o Luxemburgo teve de esperar até 1890, quando morreu sem herdeiros masculinos o Rei Willem III (1817-1890). Um antigo pacto de família dos Nassau estipulava que em caso de extinção da linha masculina nos Países Baixos, o Luxemburgo passaria à outra linha masculina existente. Eram eles os Nassau-Weilburg, que governavam o Ducado de Nassau, anexado pelos prussianos em 1866.

Adolph (1817-1905), o último soberano de Nassau e irmão da Rainha Sophia da Suécia e Noruega (1836-1913), se tornou Adolphe (I) de Luxemburgo em 23 de novembro de 1890.

O filho de Adolphe, Guillaume IV (1852-1912) reinou apenas sete anos. Sendo de origem luterana os Nassau-Weilburg o casamento de Guillaume com a Infanta D. Maria Anna de Portugal (1861-1942), filha do exilado D. Miguel I (irmão de D. Pedro I), foi uma bênção para os luxemburgueses, de maioria católica.

A Grã-Duquesa Marie Anne reinou como regente do Grão-Ducado de novembro de 1908, quando seu marido ficou doente, até junho de 1912, quando sua primogênita, Marie-Adelaïde (1894-1924), foi declarada maior de idade e assumiu o governo. Impopular por ser considerada germanófila extremada, a Grã-Duquesa Marie-Adelaïde foi obrigada a abdicar em favor da irmã, Charlotte I (1896-1985) e retirou-se para um convento, em janeiro de 1919.

A Grã-Duquesa Charlotte é a grande “mãe” da história luxemburguesa. Sua memória é venerada pelo povo. Ela se casou com seu primo-irmão Félix (1893-1970), nascido Príncipe D. Felice de Parma, filho de sua tia D. Maria Antonia de Portugal (1862-1959) e irmão da Imperatriz Zita da Áustria (1892-1989).

A soberana que atuou na II Guerra Mundial, quando o III Reich anexou o pequeno país, e estabeleceu um governo luxemburguês no exílio, em Londres, reinou até 1964, quando abdicou para o filho mais velho, Jean I (1921- ).

Jean (I) casara-se em 1953 com a prima Joséphine-Charlotte (1927-2005), princesa da Bélgica. O fato de a Casa Real neerlandesa e a Casa Grã-Ducal luxemburguesa serem ramos da dinastia Nassau e de o futuro Grão-Duque Jean de Luxemburgo ter se casado com a filha do Rei Leopold III dos Belgas (1901-1983) ajudou a fomentar tremendamente o BENELUX, união econômica firmada em fevereiro de 1958 pelos três antigos “Países Baixos”.

O herdeiro de uma longa tradição de enlaces com “Ebenbürtigkeit”[2] era Henri (1955- ). Em 14 de fevereiro de 1981, contudo, o Grão-Duque hereditário Henri de Luxemburgo desposou Doña Maria Teresa Mestre y Batista-Falla (1956- )[3], sua colega na faculdade de Ciências Políticas em Genebra. A Senhorita Mestre era uma cubana emigrada para a Suíça, em decorrência da Revolução de 1959.

Em que pese o fato de Maria Teresa ser de família muito católica e ter um parentesco com a tia do então noivo, a Rainha Fabiola dos Belgas (nascida Doña Fabiola de Mora y Aragón), esposa do Rei Baudouin (1930-1993), a verdade é que sua origem latino-americana e, portanto, “creolla”, instigou os luxemburgueses naquele princípio dos anos 1980[4].

Foto de Lola Velasco. Copyright da Corte Grã-Ducal.

Diz-se que a avó de Henri, a antiga monarca Charlotte, temeu que na mistura étnica de que são compostos todos os latino-americanos, a jovem señorina pudesse ter sangue negro, para além do óbvio sangue ameríndio que possui[5]. Isto em nada diminui a memória da grande soberana, pois que ser racista era um pressuposto educacional e cultural da ampla maioria de seus contemporâneos, ainda mais se se tratasse de membros de sua classe sócio-genealógica.

Henri cumpriu os desejos de seu coração e desposou a mulher amada, dela gerando cinco filhos: Guillaume (1981), Félix (1984), Louis (1986), Alexandra (1991) e Sébastien (1992). Os jovens príncipes, que são morenos em meio a uma população majoritariamente alourada, são considerados belíssimos; os dois mais velhos parecem galãs de cinema.

Foto de Lola Velasco. Copyright da Corte Grã-Ducal.

As duas irmãs do Grão-Duque Henri, as Princesas Marie-Astrid (1954- ) e Margaretha (1957- ) desposaram primos mais germânicos que latinos: Carl Christian da Áustria (1954- ) e Nikolaus de Liechtenstein (1947- ). São felizes com as proles que geraram. Já os dois irmãos de Henri, Príncipes Jean (1957- ) e Guillaume (1963- ) uniram-se a latinas: o primeiro, morganaticamente, à francesa não-nobre Hélène Vestur e o caçula a uma anglo-hispano-ítalo-grega, Sibilla Weiller. A Princesa Sibilla de Luxemburgo (1968- ) é, pela mãe (Donna Olympia Torlonia di Civitelli-Cesi e Borbón), prima-sobrinha de D. Juan Carlos I da Espanha.

A segunda etnia mais presente no Luxemburgo, após os “nacionais”, é a portuguesa, cujos imigrantes buscam há décadas melhores condições de vida. Em nome deles, proferiu uma das “preces da comunidade” na missa de casamento de Guillaume e Stephanie a Duquesa de Bragança, D. Isabel (nascida Dona Isabel de Herédia), esposa de D. Duarte Pio, Chefe da Casa Real de Portugal. Falando em Português, D. Isabel pediu acolhimento e benquerença aos pobres que batem às portas dos mais favorecidos.

Por fim, em explosão de latinidade, os convidados ao casamento principesco homenagearam com uma longa salva de palmas os jovens recém-casados ao término da cerimônia, sendo acompanhados até pelo Arcebispo de Luxemburgo, o jesuíta Dom Jean-Claude Hollerich, cuja homilia havia sido profícua em salientar a importância do papel social que terá um casal como Guillaume e Stéphanie, cujo cristianismo deve ser revigorado diariamente. Por sinal, concelebravam a missa de esponsais dois primos da noiva, membros da Casa de Della Faille de Leverghen. Além de baterem palmas, os convidados tiraram muitas fotos com seus smartphones e iphones

Na sacada do Palácio Grão-Ducal, especialmente preparada para a ocasião, os agora Grão-Duque e Grã-Duquesa hereditários de Luxemburgo[6] responderam a toda essa efusividade do povo e dos familiares com três beijos e abraços calorosos, para delírio dos presentes. Repórteres internacionais comentavam jamais ter visto algo assim…

Não faltou a essa profusão latina, sequer, a modernidade dos tempos. Em uma nação considerada bem conservadora, na véspera do casamento religioso, Guillaume e Stéphanie haviam sido unidos civilmente pelo burgomestre da cidade de Luxemburgo (Luxembourg-Ville), o Deputado Xavier Bettel. Ele é um político sério e respeitado do Partido Democrata (Demokratesch Partei), a agremiação liberal-conservadora que durante décadas tem administrado o Ministério dos Assuntos de Classe Média — sim, Luxemburgo possui um tal ministério… Bettel é assumidamente gay e vive com seu companheiro, Gauthier Destenay; ambos compareceram à missa na Catedral de Nossa Senhora de Luxemburgo.

Com a tradicional festa de fogos de artifícios terminou, à noite, a boda de Guillaume de Luxemburgo e Stéphanie de Lannoy. A nova princesa é loura, mas de uma família de castanhos em que só ela parece ter nascido “blonde, yeux bleux”, uma fórmula tradicionalíssima quando se costumava falar em príncipes europeus…[7]

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*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (33) é historiador, monarcólogo,
especialista em Relações Internacionais, professor de Cerimonial e Protocolo,
indigenista especializado (analista) da FUNAI e gestor do IDII.

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[1] A princesa belga Christine Marie Elisabeth de Ligne (1955- ), filha do Príncipe titular Antoine de Ligne (1925-2005) e da Princesa Alix de Luxemburgo (1929- ), é desde 1981, S.A.I.R. a Princesa D. Antonio João do Brasil, princesa de Orleans-e-Bragança. Ela e o marido geraram D. Pedro Luiz (1983-2009), D. Amélia (1984), D. Rafael Antonio (1986) e D. Maria Gabriela Fernanda (1989), herdeiros dos títulos e direitos dinásticos da Casa Imperial do Brasil.

[2] Ebenbürtigkeit é o nome do princípio de igualdade de nascimento que regia as uniões entre membros das dinastias europeias herdeiras do legitimismo proclamado pelo Congresso de Viena (1815). O  Ebenbürtigkeit  existe entre as linhagens da alta realeza (casas imperiais, reais, grã-ducais, ducais e principescas reinantes) e as da média realeza (composta, sobretudo, das casas principescas e condal-principescas do antigo Sacro Império Romano-Germânico, desapossadas por Napoléon Bonaparte), além de algumas das que chamamos de “baixa realeza” ou “pequena realeza”, que são as casas principescas nacionais da Áustria, da Hungria, da Bohêmia, da Polônia, da Bélgica, da Itália, da França etc.

[3] Nascida na cidade de Marianao, Província de Havana, é a filha de Don José Antonio Mestre y Álvarez (1926- ) e da Senhora, nascida Doña María Teresa Batista y Falla (1928-1988). Membros da alta aristocracia cubana, deixaram a ilha em outubro de 1959, se estabelecendo em Nova York. Em solo norte-americano, Maria Teresa estudou na Marymount School e no Lycée Français de Nova York. Indo residir na Europa, viveram em Santander e em Genebra.

Sobre sua origem cubana, declarou à imprensa tanto de Luxemburgo, quanto da Espanha, em 2002, quando visitou a terra natal, que “Hay algo muy fuerte que he descubierto y se llama cubanía, un sentimiento que cuando uno crece en una familia cubana no se pierde nunca.Me he dado cuenta de que sucede algo muy especial con los cubanos y es que están sumamente unidos. Por eso, aunque no estén viviendo en Cuba, crecen con Cuba, comen cubano, hablan cubano, sienten cubano y el corazón late cubano.”

[4] Os creollos são os colonos latino-americanos; membros das elites rurais do continente, descendem dos espanhois (colonizadores), tanto quanto dos índios (colonizados).

[5] Ela não é a primeira soberana-consorte europeia a ter sangue indígena. A atual rainha sueca, Silvia (1943- ) é nascida Silvia Renate [Soares de Toledo] Sommerlath, filha de Alice Soares de Toledo (1906-1997), paulista de família “quatrocentona”, décima-segunda-neta de Bartyra (Izabel Dias), a filha do Cacique Tibiriçá de Inhampuambuçu (?-1562). Mesmo a antecessora de Silvia no trono sueco, a Rainha Josephine (1807-1876), nascida nobre de Beauharnais, depois princesa de Leuchtenberg, possuía sangue ameríndio, uma vez que sua avó, a Imperatriz Joséphine dos Franceses (1763-1814), nascera na Martinica e era descendente de creollos pela mãe, Rose Claire des Vergers de Sannois (1736-1807). A Rainha Josephine da Suécia é a tetravó do próprio Grão-Duque Henri (I) de Luxemburgo…

[6] Uso aqui a fórmula “Grão-Duque hereditário” como versão imediata do antigo título germânico Erbgrossherzog, mas é de se notar que a imprensa francófona utiliza comumente “Grão-Duque herdeiro” (Grand-Duc héritier). A diferenciação está no fato de que os “Erb” eram herdeiros de principados germânicos (Erbprinz e Erbgrossherzog), enquanto os “Kron” eram herdeiros de impérios e reinos (Kronprinz). Qualquer fórmula está correta.

[7] Quero dedicar este artigo aos meus amigos indigenistas da Funai, que labutam arduamente pela dignificação da causa nobilíssima que é o Indigenismo Brasileiro, ultrajado há décadas. Dedico a todos eles, em especial os “antigos” Guilherme Carrano, Rogério Oliveira, o “semi-novo” Alex Noronha, e os “novos” Martha Montenegro, Elena Guimarães, Nina Almeida, Thaís Bittencourt, Danusa Sabala, Cecília Reigada, Bruna Seixas, Lorena Soares, Filipe Parente, Mauro Meirelles, Amaury Freitas, Pedro Grandi, Manoel Prado Jr. e Jezuíno Almeida.

Vídeo – trasladação dos restos mortais de D. Pedro II e D. Thereza Christina Maria

O IDII divulga, comprazido, o vídeo da Cinemateca Portuguesa que mostra a trasladação dos restos mortais do Imperador e da Imperatriz consorte do Brasil, em dezembro de 1920, da necrópole da Casa de Bragança, na Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa, para o Brasil.

A trasladação foi autorizada por D. Isabel (1846-1921), que não pôde assistir às cerimônias pela idade avançada e o precário estado de saúde.

http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=3512&type=Video

IDII inicia campanha de financiamento aberto de projeto de acervo

O Instituto D. Isabel I (IDII) está em campanha de doação entre seus associados e amigos para o financiamento coletivo (crowdfunding) do projeto cultural ACERVO HISTÓRICO DO IDII, conforme mensagem enviada a seu cadastro, em outubro de 2012.

A Presidente Laila Vils e os conselheiros do IDII acreditam que a campanha poderá fazer com que o projeto, que conta com o incentivo fiscal da Lei Rouanet, inicie sua fase de execução.

Eis a mensagem:

Estimados Sócios Honorários e Efetivos, prezados Amigos do IDII:

Vimos partilhar com todos vocês o início de nossa Campanha de Doação para o projeto cultural ACERVO HISTÓRICO DO IDII, registrado no Ministério da Cultura do Brasil sob o PRONAC nº. 102014.

Em captação de recursos desde abril de 2010, entrou nas seleções públicas (editais) do BNDES e da PETROBRAS, mas não foi contemplado com o patrocínio. Orçado em cerca de R$ 390.000,00 (trezentos e noventa mil reais), o projeto continua em busca de viabilização através do incentivo fiscal concedido via Lei Rouanet (Lei 8.313, de 1991).

O projeto pode ser minimamente conhecido nesta página: http://idisabel.org.br/portugues/acervo.html

Para  iniciar a execução do importante  projeto de manutenção do instituto de memória de D. Isabel I e dos Grandes Abolicionistas, dentro do movimento que o IDII denomina “neoabolicionismo”, recorremos aos associados e amigos.

A Redentora da História do Brasil acaba de ser considerada “A maior Brasileira de todos os tempos” pelo programa televisivo do SBT (http://www.sbt.com.br/omaiorbrasileiro), conforme temos divulgado amplamente em nosso bloginstitucional (www.idisabel.wordpress.com). Uma vez que era a única mulher a “disputar” a fase final do programa com Chico Xavier e Santos-Dumont, ela foi a grande vencedora feminina do programa.

O projeto cultural ACERVO HISTÓRICO DO IDII existe para divulgar à sociedade brasileira a rica documentação doada pelos conselheiros  Juarez do Nascimento Fernandes de Távora (†2009),  Otto de Alencar de Sá Pereira, Bruno da Silva Antunes de Cerqueira  e  Antônio Aprígio Pereira ao Instituto por eles fundado em 13 de maio de 2001, no salão nobre da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos do Rio de Janeiro.

A razão da campanha é devida à expiração das benesses da Lei Rouanet para o projeto, em 31/12/2012. Portanto, apelamos aos sócios e amigos que façam uma doação com qualquer valor para darmos início aos trabalhos de restauração, catalogação e disponibilização do Acervo do IDII na Internet.

Basta fazer um depósito identificado na conta em nome do projeto: 

Banco do Brasil

Agência 0087-6

C/C 30.899-4

Pela Lei Rouanet a doação dá o direito de abater até 6% do IR devido em sua declaração de Imposto de Renda, exercício 2012.  

O arquivo completo com o projeto, o laudo técnico museológico e as tabelas do ACERVO HISTÓRICO DO IDII pode ser solicitado pelo e-mail presidente@idisabel.org.br.

 

Como se dá o incentivo fiscal via Lei Rouanet

Pela Lei Rouanet, qualquer pessoa física pode doar até 6% do valor devido ao imposto de renda por ano. Este valor será abatido automaticamente pelo programa da Receita Federal no momento do cálculo da declaração anual. A declaração deve ser a completa.

Por exemplo: se uma pessoa ganha R$ 100 mil em um ano, ela recolhe R$ 27,5 mil de imposto de renda. Seriam 6% desses R$ 27,5 mil que o contribuinte poderia deduzir doando para um projeto cultural de sua livre escolha, ou seja, R$ 1,65 mil. Para renda de R$ 50 mil, o valor dedutível seria de R$ 825 e, para renda de R$ 1 milhão, o potencial de doação sem custo direto é de R$ 16,5 mil.

Para pessoas jurídicas, com base no lucro real, o limite para patrocínio é 4% do imposto devido e para doação 6% também, como a pessoa física.

A fórmula é simples:  ao preencher a Declaração de Imposto de Renda a ser entregue no ano seguinte a pessoa deve registrar  a doação ou patrocínio ao projeto feito até o dia 31/12 de cada ano mediante crédito em conta corrente bancária. O doador recebe um recibo específico, para guardar durante sete anos, no caso de a Receita pedir comprovação.

 O doador então irá  preencher na rubrica “pagamentos e doações efetuados” o código 41 (incentivo à cultura). Apresentar o  nome do beneficiário da doação, o “CNPJ” e  inserir no campo “valor pago” o valor da doação efetuada; no campo “parcela não dedutível”, deixar sem preencher ou preencher com “0”.  Seguindo esse procedimento, não é necessário fazer mais nada, pois o próprio Programa da Declaração do IR faz automaticamente a dedução dos 6% do IR apurado, que poderá ser conferido na ficha “Cálculo do Imposto”, em “Resumo da Declaração”.

 

 A diferença entre doação e patrocínio é:

- Patrocínio é a transferência gratuita, em caráter definitivo, a pessoa física ou jurídica de natureza cultural, com ou sem fins lucrativos, de numerário para a realização de projetos culturais, com finalidade promocional e institucional de publicidade, cobertura de gastos ou a utilização de bens móveis ou imóveis do patrimônio do patrocinador, sem a transferência de domínio (IN SRF 267/02, art. 18, II);

 – Doação é a transferência gratuita, em caráter definitivo, a pessoa física ou pessoa jurídica de natureza cultural sem fins lucrativos, de numerário, bens ou serviços para a realização de projetos culturais, vedado o seu uso em publicidade para divulgação das atividades objeto do respectivo projeto cultural (IN SRF nº 267, art. 18, I).

Aguardamos sua doação.

Enviando os melhores votos e as mais entusiásticas saudações brasileiras e neoabolicionistas, despedimo-nos.

Os Conselheiros do IDII

Artigo – As duas últimas festas do Império do Brasil

O IDII tem enorme satisfação de render homenagem ao casamento de D. Isabel com o Príncipe Gaston de Bourbon-Orleans, o Conde d´Eu, celebrado no Rio de Janeiro, em 15 de outubro de 1864, ou seja, 148 anos atrás.

O artigo que segue é de autoria do Prof. Francisco Marques dos Santos, que dirigiu o Museu Imperial de Petrópolis de 1954 a 1967, e versa sobre as Bodas de Prata de D. Isabel, em 1889. Trata-se de textos que mostram a popularidade do casal, a despeito do crescimento do republicanismo no Rio de Janeiro e em São Paulo, em fins da década de 1880.

O texto foi publicado no anuário do MIP (1941), nas páginas 24 a 47.

Agradecemos a prestimosidade da chefe do Arquivo Histórico do MIP, Profª. Neibe Machado da Costa.

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Chico Xavier eleito “O Maior Brasileiro de Todos os Tempos” e D. Isabel a MAIOR BRASILEIRA

Foi ao ar ontem a “disputa” final do programa O MAIOR BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS, o qual temos comentando frequentemente neste blog.

O IDII está feliz com o fato de que dos três finalistas, só havia uma mulher, sendo ela, portanto, e de qualquer forma, reconhecida A MAIOR BRASILEIRA DE TODOS OS TEMPOS.

Detalhes do programa e os vídeos podem ser acompanhados no site http://www.sbt.com.br/omaiorbrasileiro.

Nas três ocasiões em que a memória da Redentora esteve na “disputa”, defendeu-a seu bisneto, considerado “embaixador” pelo programa, D. João Henrique de Orleans e Bragança e Chrine, proprietário da Pousada do Príncipe, em Paraty (RJ) e famoso fotógrafo carioca. O príncipe falou muito bem, advogando que a grande característica dos homens e mulheres públicos é servir ao País e não se servir dele, e que foi essa uma das principais marcas do reinado de D. Pedro II e das regências de D. Isabel.

O programa, bem brasileiro, teve a participação de uma dupla sertaneja, Fernando e Sorocaba, e, na parte da “plateia” de D. Isabel, contou com a presença de dois trinetos seus, D. Luiz Philippe de Orleans e Bragança e Moraes Barros e D. Gabriel de Orleans e Bragança e Andrada Rocha, residentes em São Paulo.

Artigo – Mais uma etapa vencida

Mais uma etapa vencida

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Laila Vils*

O programa O MAIOR BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS, do SBT, apresentou ontem, 26 de setembro de 2012, a “disputa” entre a Princesa Dona Isabel (1846-1921) e o Presidente Getulio Vargas (1882-1954).

Saiu vencedora nossa querida Redentora! Agora ela “disputará” com Alberto Santos-Dumont (1873-1932) e Chico Xavier (1910-2002).

Segundo esse programa e segundo o que propugna o IDII, Dona Isabel é a MAIOR BRASILEIRA DE TODOS OS TEMPOS. Resta que lhe caiba, agora também, o título de “maior” entre homens e mulheres.

Tudo muito, muito interessante! A História do Brasil sendo revisitada, conhecida, discutida, amplamente popularizada. Nosso Instituto está vibrando com o programa que uma rede televisiva que tem, em seu nome, a palavra BRASILEIRO (o Sistema Brasileiro de Televisão), está promovendo.

Agora entramos na parte final do programa, com sua mais importante votação, seja através do “site” www.sbt.com.br/omaiorbrasileiro, seja através de SMS, por celular.

Votando-se em D. Isabel qualquer brasileiro está homenageando, também, e de forma excelente, os dois grandes homens com quem ela “disputa”. Por quê?

Santos-Dumont foi um dos brasileirinhos que viu, atônito, os acontecimentos de 1889, em que ela foi banida e impedida de reinar, mas nunca se desligou dessa figura magnânima, no exílio. Todos os biógrafos da Princesa, e não são tantos assim, lembram o carinho enorme dela para com esse brilhante inventor, produtor, acrobata, gênio da aviação. Agnóstico convicto, Santos-Dumont usou toda a vida, até morrer, em seu pulso, uma medalhinha de São Bento com a qual ela lhe presenteara.

D. Isabel, D. Gastão e seus filhos, D. Pedro, D. Luiz e D. Antonio sempre acompanharam em Paris e outros cantões da França os sucessos e reveses de nosso campeão dos ares. Atualmente se encontra à venda o livro “A Última Princesa”, em que o escritor Fabio Yabu conta ternamente a história da bela amizade de nossa Redentora e de seu “filho” Alberto Santos-Dumont.

Quanto a Francisco Cândido Xavier, o maior propagador da doutrina de Allan Kardec (1804-1869) entre nós, é indiscutível sua admiração, veneração e, talvez, até devoção, à Princesa D. Isabel. Em seu livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” (1938), ele diz claramente que

Sob a inspiração do grande mensageiro do Divino Mestre, a Princesa Imperial encarrega o Senador João Alfredo de organizar novo ministério, que veio a compor-se de espíritos nobilíssimos do tempo. Os abolicionistas compreendem que lhes chegara a possibilidade maravilhosa e a 13 de maio de 1888 é apresentada à regente a proposta de lei para imediata extinção do cativeiro, lei que D. Isabel, cercada de entidades angélicas e misericordiosas, sanciona sem hesitar, com a nobre serenidade do seu coração de mulher.

Mais à frente Chico Xavier declara que o bem proporcionado pelas mãos de D. Isabel é inigualável — em outras palavras, como dizemos no IDII, ele redime o País de séculos de cativeiro:

Foi por isso que Patrocínio, intuitivamente, no arrebatamento do seu júbilo, se arrastou de joelhos até aos pés da princesa piedosa e cristã. Por toda parte, espalharam-se alegrias contagiosas e comunicativas esperanças. O marco divino da liberdade dos cativos erguia-se na estrada da civilização brasileira, sem a maré incendiária da metralha e do sangue.

Tanto Santos-Dumont quanto Chico Xavier “votariam” em D. Isabel. Por certo, onde eles estão, os três, nada disso importa, cabendo a nós, que ainda nos encontramos aqui, do lado “de cá”, intentar esse tipo de passa-tempo.

Mas uma certeza íntima me leva a crer, e a todos os amigos que comigo labutam no IDII, que esses dois brasileiros extremadamente altruístas têm D. Isabel por maior que eles, por sua soberana, em todos os sentidos. Que do Céu essa tríade excelsa continue a nos abençoar e a conseguir para a Nação Brasileira tudo aquilo por que sempre trabalharam: a grandeza, a honradez, a dignificação e o crescimento do Brasil.

Viva Dona Isabel Primeira e Única!

Viva o Instituto Dona Isabel!

Viva o Sistema Brasileiro de Televisão!

*Laila Vils é historiadora, graduada pela Univ. Candido Mendes,
e preside o conselho de administração do IDII

Artigo – Mas será o benedito: até santa Isabel é?

Mas será o benedito: até santa Isabel é?

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Bruno de Cerqueira*

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A memória polimorfa de Dona Isabel de Bragança (1846-1921) tem demonstrado quanto é rica a História do Brasil.

O Instituto que leva seu nome e que nasceu em 2001 para revificar sua presença no panteão nacional, bem como a de todos os líderes do Abolicionismo dos anos 1880 e dos tempos anteriores à década gloriosa de nossa construção nacional, tem obtido vitórias incontestes nos “planos e metas” a que se propõe.

Tem diminuído consideravelmente nos diversos movimentos negros a aversão ao culto que os antigos escravos e boa parte de seus descendentes nutriam pela “loura flor da Casa de Bragança”, no dizer de José do Patrocínio (1853-1905) e aumentado, por parte de estudiosos dos abolicionismos brasileiros, o interesse na personagem feminina mais importante de nossa História.

Eis o noli me tangere do IDII: comprovar que nesse “altar da Pátria” cabe a ela o primeiro lugar. Independentemente de monarquismos, reacionarismos, catolicismos e outros ismos. Por brasilidade.

Recentemente, no programa popular “O Maior Brasileiro de Todos os Tempos”, do SBT, sua memória venceu a do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que nos governou na redemocratização brasileira por que temos passado, desde o fim do período militar (1964-1985). Em que pese o fato de não haver o necessário distanciamento para julgar a vida e a obra desse político social-democrata brasileiro, é forçoso reconhecer que a figura da eterna “Princesa Isabel” suplanta a maioria de seus concorrentes. Di-lo Joaquim Nabuco (1849-1910), nos inúmeros textos em que descreve o fim da barbárie escravagista entre nós.

O mesmo programa televisivo já demonstrou que nem mesmo a queridíssima Irmã Dulce (1914-1992), de memória bem mais recente que a Redentora, é-lhe superior em apreço popular. Por óbvio, a metodologia da emissora na elaboração dos “shows” seria matéria para dissertações e teses tanto em Comunicação Social, quanto em História da Cultura, mas o que de fato importa, para o IDII, é proclamar a grandeza da mulher que não pôde reinar em nosso País.

Por fim, nasce agora um movimento, no seio da Igreja Católica, que deseja ver D. Isabel do Brasil beatificada e, quiçá, canonizada. Se durante o curso de sua vida terrena seu catolicismo era motivo de repulsa, indignação, estupefação, despeito, ataques e vilipêndios — era chamada de “beata, caturra, fanática” —, imagina-se o que não ocorrerá se a Santa Sé Apostólica, através da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos — estes os nomes técnicos para “Vaticano” e seu ministério de assuntos hagiográficos — proclamá-la “Serva de Deus” no ano que vem, por ocasião do Encontro Mundial da Juventude com o Papa Bento XVI. Será o primeiro passo para sua beatificação, se assim Roma decidir. Todavia, para se chegar ao Roma locuta, causa finita passam-se décadas ou séculos…

“O Vaticano faz seus santos quando quer e bem entende: tudo pura política!”, dizia-me um professor na graduação de História, na PUC-Rio, em reação a uma contraposição minha, no que tange à administração nassoviana em Pernambuco. Indubitável, dizia eu, que o Conde Principesco Soberano de Nassau-Siegen, Johann Moritz (1604-1679), tenha sido um culto e liberal governante do Brasil Holandês, mas indubitável, também, que ele era acompanhado de huguenotes ignaros e boçais, que foram capazes de queimar vivos mais de 40 católicos dentro de uma igreja, no Rio Grande do Norte — João Paulo II os reconheceu como “Mártires da Fé”, em 1998, e o pontífice atual os beatificou em 2008.

Pois bem: uma associação diocesana anti-abortista de Taubaté (SP) resolveu solicitar a abertura do processo de beatificação de D. Isabel na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Foi informada, contudo, que primeiramente a Arquidiocese de Ruão (Rouen), na França, onde D. Isabel faleceu, deverá ser ouvida e o ordinário local (bispo) autorizar o processo. Os restos mortais da “candidata a santa” estão, por sua vez, em Petrópolis, na catedral que ela ergueu, de maneira que outra autoridade eclesiástica, o Bispo de Petrópolis, deverá, em caso de prosseguirem os trâmites, autorizar a abertura do jazigo, se for necessário. A sé de Petrópolis, contudo, está vaga, desde que se foi para a Europa D. Filippo Santoro, um “isabelófilo” convicto, diga-se de passagem.

Como se vê, todas essas minudências processuais envolvem Direito Canônico, Eclesiologia, Hagiologia, mas também envolvem História.

Mas será o benedito? Por que ela é santa? Por ter abolido a escravidão com a Lei Áurea e perdido o trono? Por ter sido católica, papista, ultra-montana? Por ter recebido de Leão XIII a Rosa de Ouro? Por ter se negado a permitir a ereção de estátua sua, como Redentora, sugerindo que se erigisse uma estátua ao Cristo, único Redentor? Por ter sido amiga de São João Bosco e São Pio X? Além do mais, que história é essa de santidade? Isto existe? Alguém crê em santidade, ainda mais de personagens políticos, em pleno século XXI?

As respostas são variadas e as perguntas se desdobram.

Para um historiador cristão, contudo, as respostas são positivas. Se a maior parte das escolas historiográficas atuais é composta de ateístas ou agnósticos há os que, como Jacques Le Goff e o jesuíta francês Michel de Certeau (1925-1986), não abandonam o culto do Cristo que o mundo viu nascer 2000 anos atrás.

Karl Rahner (1904-1985), um dos maiores teólogos germânicos de todos os tempos, assim definia em seu Grundkurs des Glaubens (1976) qual a tarefa do historiador cristão:

O historiador cristão das religiões não precisa conceber a história religiosa extracristã e extrabíblica como mera história da atividade religiosa do homem ou ainda como pura deprava­ção da possibilidade humana de fazer religião. Na história reli­giosa extracristã ele pode tranqüilamente observar, descrever, ana­lisar e interpretar em suas últimas intenções também os fenômenos religiosos, e, se também aí vê em ação o Deus da revela­ção vétero e neotestamentária — não obstante toda a primitividade e depravação que naturalmente existem na história religio­sa, não está se opondo absolutamente à pretensão de absolu­to que tem o cristianismo.
(…) Em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado temos um critério para discernir, na história religiosa concreta, entre o que é mal-entendido huma­no da experiência transcendental de Deus e o que é legítima ex­plicação dela. Somente partindo de Jesus, é possível realizar em última análise semelhante discernimento dos espíritos.
(…) Se livremente, co­mo simples historiadores e cientistas da religião — independen­temente de nossa fé em Jesus Cristo —, buscássemos penetrar no Antigo Testamento e em seus fenômenos religiosos histori­camente assegurados, não possuiríamos nenhum critério para distinguir em últimos termos o que é pura e legítima manifesta­ção (derivada da natureza da autocomunicação transcendental de Deus) e objetivação histórica dessa autocomunicação divina e o que constitui depravação redutiva dela; aí deveríamos dis­tinguir ulteriormente com mais precisão (o que uma vez mais seria impossível sem olharmos para Jesus Cristo) entre o que, enquanto objetivação progressiva e epocal da experiência trans­cendental de Deus, pode-se considerar legítimo — ainda que so­mente como explicação provisória, mas permeada de intrínseca dinâmica rumo à revelação plena em Jesus — e o que não pas­sou de depravação, constatável já com referência à situação veterotestamentária então existente.

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De maneira que não nos preocupemos. Se a Divina Onipotência quiser, a Igreja beatificará e canonizará a Redentora da História do Brasil, aquela a quem André Rebouças (1838-1898) e o Povo Brasileiro creditaram o mais glorioso dia de nossa Nacionalidade.

Aquela que, por ser MULHER, foi desprezada e rechaçada. Banida do território nacional em 1889, foi aclamada “Dona Isabel I” apenas pela corte de exilados que a cercava em 1891, quando morreu-lhe o pai, D. Pedro II, no Hotel Bedford, em Paris. Amargando o maior exílio concedido a um brasileiro em toda a História, nunca reviu a Pátria, morrendo saudosa e piedosamente em 1921.

Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968) sempre defendeu, como, aliás, Nabuco antes dele, que o reinado de D. Isabel no exílio foi o que lhe concedeu a coroa de glórias, ainda em vida. Nossa soberana desterrada não passou um dia sequer sem rezar e trabalhar pelo seu povo, recebendo dos governantes da República Velha — velha de coronelismo, velha de racismo, velha de asco pela cultura popular, velha de servilismo aos Estados Unidos, velha de patriarcalismo — total e pleno desdém.

Mas ganhando do Povo, sobretudo dos negros, os mais sofridos dos Brasileiros, o amor incondicional, traduzido na cantiga “Princesa Dona Isabel / mamãe disse que a senhora / perdeu seu trono na terra / mas tem um mais lindo agora / no céu está esse trono / que agora a senhora tem / que além de ser mais bonito / ninguém lho tira, ninguém”

Quem quiser conhecer um pouquinho de história da historiografia sobre nossa personagem pode ler o livro D. Isabel I a Redentora: textos e documentos sobre a imperatriz exilada do Brasil em seus 160 anos de nascimento (2006). Não é um panegírico, mas certamente é um libelo. Defende veementemente, entre outras coisas, que se estude a transição do Oitocentos para o Novecentos brasileiro e, particularmente, convida as historiadoras — mais que os historiadores — a investigarem os projetos para o III Reinado, as biografias dos grandes homens que estavam ao lado da Regente e que não puderam ser ministros e conselheiros de Estado de D. Isabel I porque ela não reinou.

Parafraseando o político e pensador católico brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995) e sem tefepismo nenhum, pois que não sou adepto de nenhum sectarismo religioso, a saída da Princesa Imperial do Brasil, naquela fatídica madrugada de 17 de novembro de 1889 foi, de um ponto de vista histórico, o “entardecer da Pátria”! Ou para Rebouças, ainda mais enfático: “Acabou-se a civilização brasileira!”.

Cabe a nós, isabelófilos e neoabolicionistas, trabalharmos pela grandeza do Brasil, sempre. Se isto inclui congratular o Papa pela iniciativa que nem se sabe se terá, de fazer nascer uma “Santa Isabel do Brasil”, muito bem. Se não inclui, muito bem também! Santos são heróis da fé, segundo a Igreja; D. Isabel já é heroína do Brasil há muito tempo…

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Bruno de Cerqueira (33) é historiador, monarcólogo, especialista em Relações Internacionais, professor de Cerimonial e Protocolo,
indigenista especializado (analista) da FUNAI e gestor do IDII.