Artigo – As duas últimas festas do Império do Brasil

O IDII tem enorme satisfação de render homenagem ao casamento de D. Isabel com o Príncipe Gaston de Bourbon-Orleans, o Conde d´Eu, celebrado no Rio de Janeiro, em 15 de outubro de 1864, ou seja, 148 anos atrás.

O artigo que segue é de autoria do Prof. Francisco Marques dos Santos, que dirigiu o Museu Imperial de Petrópolis de 1954 a 1967, e versa sobre as Bodas de Prata de D. Isabel, em 1889. Trata-se de textos que mostram a popularidade do casal, a despeito do crescimento do republicanismo no Rio de Janeiro e em São Paulo, em fins da década de 1880.

O texto foi publicado no anuário do MIP (1941), nas páginas 24 a 47.

Agradecemos a prestimosidade da chefe do Arquivo Histórico do MIP, Profª. Neibe Machado da Costa.

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Chico Xavier eleito “O Maior Brasileiro de Todos os Tempos” e D. Isabel a MAIOR BRASILEIRA

Foi ao ar ontem a “disputa” final do programa O MAIOR BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS, o qual temos comentando frequentemente neste blog.

O IDII está feliz com o fato de que dos três finalistas, só havia uma mulher, sendo ela, portanto, e de qualquer forma, reconhecida A MAIOR BRASILEIRA DE TODOS OS TEMPOS.

Detalhes do programa e os vídeos podem ser acompanhados no site http://www.sbt.com.br/omaiorbrasileiro.

Nas três ocasiões em que a memória da Redentora esteve na “disputa”, defendeu-a seu bisneto, considerado “embaixador” pelo programa, D. João Henrique de Orleans e Bragança e Chrine, proprietário da Pousada do Príncipe, em Paraty (RJ) e famoso fotógrafo carioca. O príncipe falou muito bem, advogando que a grande característica dos homens e mulheres públicos é servir ao País e não se servir dele, e que foi essa uma das principais marcas do reinado de D. Pedro II e das regências de D. Isabel.

O programa, bem brasileiro, teve a participação de uma dupla sertaneja, Fernando e Sorocaba, e, na parte da “plateia” de D. Isabel, contou com a presença de dois trinetos seus, D. Luiz Philippe de Orleans e Bragança e Moraes Barros e D. Gabriel de Orleans e Bragança e Andrada Rocha, residentes em São Paulo.

Artigo – Mais uma etapa vencida

Mais uma etapa vencida

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Laila Vils*

O programa O MAIOR BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS, do SBT, apresentou ontem, 26 de setembro de 2012, a “disputa” entre a Princesa Dona Isabel (1846-1921) e o Presidente Getulio Vargas (1882-1954).

Saiu vencedora nossa querida Redentora! Agora ela “disputará” com Alberto Santos-Dumont (1873-1932) e Chico Xavier (1910-2002).

Segundo esse programa e segundo o que propugna o IDII, Dona Isabel é a MAIOR BRASILEIRA DE TODOS OS TEMPOS. Resta que lhe caiba, agora também, o título de “maior” entre homens e mulheres.

Tudo muito, muito interessante! A História do Brasil sendo revisitada, conhecida, discutida, amplamente popularizada. Nosso Instituto está vibrando com o programa que uma rede televisiva que tem, em seu nome, a palavra BRASILEIRO (o Sistema Brasileiro de Televisão), está promovendo.

Agora entramos na parte final do programa, com sua mais importante votação, seja através do “site” www.sbt.com.br/omaiorbrasileiro, seja através de SMS, por celular.

Votando-se em D. Isabel qualquer brasileiro está homenageando, também, e de forma excelente, os dois grandes homens com quem ela “disputa”. Por quê?

Santos-Dumont foi um dos brasileirinhos que viu, atônito, os acontecimentos de 1889, em que ela foi banida e impedida de reinar, mas nunca se desligou dessa figura magnânima, no exílio. Todos os biógrafos da Princesa, e não são tantos assim, lembram o carinho enorme dela para com esse brilhante inventor, produtor, acrobata, gênio da aviação. Agnóstico convicto, Santos-Dumont usou toda a vida, até morrer, em seu pulso, uma medalhinha de São Bento com a qual ela lhe presenteara.

D. Isabel, D. Gastão e seus filhos, D. Pedro, D. Luiz e D. Antonio sempre acompanharam em Paris e outros cantões da França os sucessos e reveses de nosso campeão dos ares. Atualmente se encontra à venda o livro “A Última Princesa”, em que o escritor Fabio Yabu conta ternamente a história da bela amizade de nossa Redentora e de seu “filho” Alberto Santos-Dumont.

Quanto a Francisco Cândido Xavier, o maior propagador da doutrina de Allan Kardec (1804-1869) entre nós, é indiscutível sua admiração, veneração e, talvez, até devoção, à Princesa D. Isabel. Em seu livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” (1938), ele diz claramente que

Sob a inspiração do grande mensageiro do Divino Mestre, a Princesa Imperial encarrega o Senador João Alfredo de organizar novo ministério, que veio a compor-se de espíritos nobilíssimos do tempo. Os abolicionistas compreendem que lhes chegara a possibilidade maravilhosa e a 13 de maio de 1888 é apresentada à regente a proposta de lei para imediata extinção do cativeiro, lei que D. Isabel, cercada de entidades angélicas e misericordiosas, sanciona sem hesitar, com a nobre serenidade do seu coração de mulher.

Mais à frente Chico Xavier declara que o bem proporcionado pelas mãos de D. Isabel é inigualável — em outras palavras, como dizemos no IDII, ele redime o País de séculos de cativeiro:

Foi por isso que Patrocínio, intuitivamente, no arrebatamento do seu júbilo, se arrastou de joelhos até aos pés da princesa piedosa e cristã. Por toda parte, espalharam-se alegrias contagiosas e comunicativas esperanças. O marco divino da liberdade dos cativos erguia-se na estrada da civilização brasileira, sem a maré incendiária da metralha e do sangue.

Tanto Santos-Dumont quanto Chico Xavier “votariam” em D. Isabel. Por certo, onde eles estão, os três, nada disso importa, cabendo a nós, que ainda nos encontramos aqui, do lado “de cá”, intentar esse tipo de passa-tempo.

Mas uma certeza íntima me leva a crer, e a todos os amigos que comigo labutam no IDII, que esses dois brasileiros extremadamente altruístas têm D. Isabel por maior que eles, por sua soberana, em todos os sentidos. Que do Céu essa tríade excelsa continue a nos abençoar e a conseguir para a Nação Brasileira tudo aquilo por que sempre trabalharam: a grandeza, a honradez, a dignificação e o crescimento do Brasil.

Viva Dona Isabel Primeira e Única!

Viva o Instituto Dona Isabel!

Viva o Sistema Brasileiro de Televisão!

*Laila Vils é historiadora, graduada pela Univ. Candido Mendes,
e preside o conselho de administração do IDII

Artigo – Mas será o benedito: até santa Isabel é?

Mas será o benedito: até santa Isabel é?

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Bruno de Cerqueira*

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A memória polimorfa de Dona Isabel de Bragança (1846-1921) tem demonstrado quanto é rica a História do Brasil.

O Instituto que leva seu nome e que nasceu em 2001 para revificar sua presença no panteão nacional, bem como a de todos os líderes do Abolicionismo dos anos 1880 e dos tempos anteriores à década gloriosa de nossa construção nacional, tem obtido vitórias incontestes nos “planos e metas” a que se propõe.

Tem diminuído consideravelmente nos diversos movimentos negros a aversão ao culto que os antigos escravos e boa parte de seus descendentes nutriam pela “loura flor da Casa de Bragança”, no dizer de José do Patrocínio (1853-1905) e aumentado, por parte de estudiosos dos abolicionismos brasileiros, o interesse na personagem feminina mais importante de nossa História.

Eis o noli me tangere do IDII: comprovar que nesse “altar da Pátria” cabe a ela o primeiro lugar. Independentemente de monarquismos, reacionarismos, catolicismos e outros ismos. Por brasilidade.

Recentemente, no programa popular “O Maior Brasileiro de Todos os Tempos”, do SBT, sua memória venceu a do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que nos governou na redemocratização brasileira por que temos passado, desde o fim do período militar (1964-1985). Em que pese o fato de não haver o necessário distanciamento para julgar a vida e a obra desse político social-democrata brasileiro, é forçoso reconhecer que a figura da eterna “Princesa Isabel” suplanta a maioria de seus concorrentes. Di-lo Joaquim Nabuco (1849-1910), nos inúmeros textos em que descreve o fim da barbárie escravagista entre nós.

O mesmo programa televisivo já demonstrou que nem mesmo a queridíssima Irmã Dulce (1914-1992), de memória bem mais recente que a Redentora, é-lhe superior em apreço popular. Por óbvio, a metodologia da emissora na elaboração dos “shows” seria matéria para dissertações e teses tanto em Comunicação Social, quanto em História da Cultura, mas o que de fato importa, para o IDII, é proclamar a grandeza da mulher que não pôde reinar em nosso País.

Por fim, nasce agora um movimento, no seio da Igreja Católica, que deseja ver D. Isabel do Brasil beatificada e, quiçá, canonizada. Se durante o curso de sua vida terrena seu catolicismo era motivo de repulsa, indignação, estupefação, despeito, ataques e vilipêndios — era chamada de “beata, caturra, fanática” —, imagina-se o que não ocorrerá se a Santa Sé Apostólica, através da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos — estes os nomes técnicos para “Vaticano” e seu ministério de assuntos hagiográficos — proclamá-la “Serva de Deus” no ano que vem, por ocasião do Encontro Mundial da Juventude com o Papa Bento XVI. Será o primeiro passo para sua beatificação, se assim Roma decidir. Todavia, para se chegar ao Roma locuta, causa finita passam-se décadas ou séculos…

“O Vaticano faz seus santos quando quer e bem entende: tudo pura política!”, dizia-me um professor na graduação de História, na PUC-Rio, em reação a uma contraposição minha, no que tange à administração nassoviana em Pernambuco. Indubitável, dizia eu, que o Conde Principesco Soberano de Nassau-Siegen, Johann Moritz (1604-1679), tenha sido um culto e liberal governante do Brasil Holandês, mas indubitável, também, que ele era acompanhado de huguenotes ignaros e boçais, que foram capazes de queimar vivos mais de 40 católicos dentro de uma igreja, no Rio Grande do Norte — João Paulo II os reconheceu como “Mártires da Fé”, em 1998, e o pontífice atual os beatificou em 2008.

Pois bem: uma associação diocesana anti-abortista de Taubaté (SP) resolveu solicitar a abertura do processo de beatificação de D. Isabel na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Foi informada, contudo, que primeiramente a Arquidiocese de Ruão (Rouen), na França, onde D. Isabel faleceu, deverá ser ouvida e o ordinário local (bispo) autorizar o processo. Os restos mortais da “candidata a santa” estão, por sua vez, em Petrópolis, na catedral que ela ergueu, de maneira que outra autoridade eclesiástica, o Bispo de Petrópolis, deverá, em caso de prosseguirem os trâmites, autorizar a abertura do jazigo, se for necessário. A sé de Petrópolis, contudo, está vaga, desde que se foi para a Europa D. Filippo Santoro, um “isabelófilo” convicto, diga-se de passagem.

Como se vê, todas essas minudências processuais envolvem Direito Canônico, Eclesiologia, Hagiologia, mas também envolvem História.

Mas será o benedito? Por que ela é santa? Por ter abolido a escravidão com a Lei Áurea e perdido o trono? Por ter sido católica, papista, ultra-montana? Por ter recebido de Leão XIII a Rosa de Ouro? Por ter se negado a permitir a ereção de estátua sua, como Redentora, sugerindo que se erigisse uma estátua ao Cristo, único Redentor? Por ter sido amiga de São João Bosco e São Pio X? Além do mais, que história é essa de santidade? Isto existe? Alguém crê em santidade, ainda mais de personagens políticos, em pleno século XXI?

As respostas são variadas e as perguntas se desdobram.

Para um historiador cristão, contudo, as respostas são positivas. Se a maior parte das escolas historiográficas atuais é composta de ateístas ou agnósticos há os que, como Jacques Le Goff e o jesuíta francês Michel de Certeau (1925-1986), não abandonam o culto do Cristo que o mundo viu nascer 2000 anos atrás.

Karl Rahner (1904-1985), um dos maiores teólogos germânicos de todos os tempos, assim definia em seu Grundkurs des Glaubens (1976) qual a tarefa do historiador cristão:

O historiador cristão das religiões não precisa conceber a história religiosa extracristã e extrabíblica como mera história da atividade religiosa do homem ou ainda como pura deprava­ção da possibilidade humana de fazer religião. Na história reli­giosa extracristã ele pode tranqüilamente observar, descrever, ana­lisar e interpretar em suas últimas intenções também os fenômenos religiosos, e, se também aí vê em ação o Deus da revela­ção vétero e neotestamentária — não obstante toda a primitividade e depravação que naturalmente existem na história religio­sa, não está se opondo absolutamente à pretensão de absolu­to que tem o cristianismo.
(…) Em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado temos um critério para discernir, na história religiosa concreta, entre o que é mal-entendido huma­no da experiência transcendental de Deus e o que é legítima ex­plicação dela. Somente partindo de Jesus, é possível realizar em última análise semelhante discernimento dos espíritos.
(…) Se livremente, co­mo simples historiadores e cientistas da religião — independen­temente de nossa fé em Jesus Cristo —, buscássemos penetrar no Antigo Testamento e em seus fenômenos religiosos histori­camente assegurados, não possuiríamos nenhum critério para distinguir em últimos termos o que é pura e legítima manifesta­ção (derivada da natureza da autocomunicação transcendental de Deus) e objetivação histórica dessa autocomunicação divina e o que constitui depravação redutiva dela; aí deveríamos dis­tinguir ulteriormente com mais precisão (o que uma vez mais seria impossível sem olharmos para Jesus Cristo) entre o que, enquanto objetivação progressiva e epocal da experiência trans­cendental de Deus, pode-se considerar legítimo — ainda que so­mente como explicação provisória, mas permeada de intrínseca dinâmica rumo à revelação plena em Jesus — e o que não pas­sou de depravação, constatável já com referência à situação veterotestamentária então existente.

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De maneira que não nos preocupemos. Se a Divina Onipotência quiser, a Igreja beatificará e canonizará a Redentora da História do Brasil, aquela a quem André Rebouças (1838-1898) e o Povo Brasileiro creditaram o mais glorioso dia de nossa Nacionalidade.

Aquela que, por ser MULHER, foi desprezada e rechaçada. Banida do território nacional em 1889, foi aclamada “Dona Isabel I” apenas pela corte de exilados que a cercava em 1891, quando morreu-lhe o pai, D. Pedro II, no Hotel Bedford, em Paris. Amargando o maior exílio concedido a um brasileiro em toda a História, nunca reviu a Pátria, morrendo saudosa e piedosamente em 1921.

Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968) sempre defendeu, como, aliás, Nabuco antes dele, que o reinado de D. Isabel no exílio foi o que lhe concedeu a coroa de glórias, ainda em vida. Nossa soberana desterrada não passou um dia sequer sem rezar e trabalhar pelo seu povo, recebendo dos governantes da República Velha — velha de coronelismo, velha de racismo, velha de asco pela cultura popular, velha de servilismo aos Estados Unidos, velha de patriarcalismo — total e pleno desdém.

Mas ganhando do Povo, sobretudo dos negros, os mais sofridos dos Brasileiros, o amor incondicional, traduzido na cantiga “Princesa Dona Isabel / mamãe disse que a senhora / perdeu seu trono na terra / mas tem um mais lindo agora / no céu está esse trono / que agora a senhora tem / que além de ser mais bonito / ninguém lho tira, ninguém”

Quem quiser conhecer um pouquinho de história da historiografia sobre nossa personagem pode ler o livro D. Isabel I a Redentora: textos e documentos sobre a imperatriz exilada do Brasil em seus 160 anos de nascimento (2006). Não é um panegírico, mas certamente é um libelo. Defende veementemente, entre outras coisas, que se estude a transição do Oitocentos para o Novecentos brasileiro e, particularmente, convida as historiadoras — mais que os historiadores — a investigarem os projetos para o III Reinado, as biografias dos grandes homens que estavam ao lado da Regente e que não puderam ser ministros e conselheiros de Estado de D. Isabel I porque ela não reinou.

Parafraseando o político e pensador católico brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995) e sem tefepismo nenhum, pois que não sou adepto de nenhum sectarismo religioso, a saída da Princesa Imperial do Brasil, naquela fatídica madrugada de 17 de novembro de 1889 foi, de um ponto de vista histórico, o “entardecer da Pátria”! Ou para Rebouças, ainda mais enfático: “Acabou-se a civilização brasileira!”.

Cabe a nós, isabelófilos e neoabolicionistas, trabalharmos pela grandeza do Brasil, sempre. Se isto inclui congratular o Papa pela iniciativa que nem se sabe se terá, de fazer nascer uma “Santa Isabel do Brasil”, muito bem. Se não inclui, muito bem também! Santos são heróis da fé, segundo a Igreja; D. Isabel já é heroína do Brasil há muito tempo…

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Bruno de Cerqueira (33) é historiador, monarcólogo, especialista em Relações Internacionais, professor de Cerimonial e Protocolo,
indigenista especializado (analista) da FUNAI e gestor do IDII. 

Dissertação prova que a terceira Regência de D. Isabel era o início do III Reinado

O IDII divulga, comprazido, e com a devida autorização da autora, a dissertação de mestrado O “Terceiro Reinado”: Isabel de Bragança, a Imperatriz que não foi, da Professora Maria Luiza de Carvalho Mesquita.

A dissertação de mestrado foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Severino Sombra, em Vassouras (RJ), como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em História Social, em 2009, e recebeu aprovação com louvor. Orientou o trabalho a Prof.ª Dr.ª Cláudia Regina Andrade dos Santos.

Trata-se de um texto excelente, que mostra em detalhes o desenrolar dos eventos que se sucederam ao Treze de Maio e o desfecho do Quinze de Novembro.

Eis o arquivo, em formato DOC: Mestrado MARIA LUIZA.

Ele também se encontra disponível em domínio público, no seguinte endereço:

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=174525

Artigo – Pátria amada: vou apertá-la, mas não vou acender agora

Pátria amada: vou apertá-la, mas não vou acender agora

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Thyago Mathias*

600 mil é o número de jovens dependentes de crack no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Outras estimativas apontam um total de 1,2 milhão de viciados. Em 2011, um dos maiores laboratórios de processamento de crack e cocaína já oficialmente descobertos no país foi desmontado pela polícia paulista numa casa do bairro do Ipiranga, não muito longe de onde, há 190 anos, Dom Pedro declarara o Brasil independente.

Formada pela junção dos antigos becos do Mata-Fome e dos Curros – no Centro da mesma maior cidade do país e distante do rio de “margens plácidas” –, a Avenida Ipiranga, em vez de receber um monumento em homenagem à Independência ou, pelo menos, outro nome, ganhou uma praça: a Praça da República. É exatamente no trecho em frente à praça, na metade de seus 1,3 mil metros, que a Avenida Ipiranga abriga escritório de uma empresa chamada Serviço Nacional de Recuperação de Crédito, nas mesmas imediações onde se encontram nove lojas que oferecem financiamentos e crédito consignado.

Já nas imediações da Praça da República carioca, embora também seja possível fazer um empréstimo ou vender o ouro de família para pagá-lo, chama à atenção a existência de uma cracolândia formada por crianças e adolescentes. Antigo Campo de Santana, aos pés da Central do Brasil – que já foi chamada de Estação Dom Pedro II –, a praça tem até suas razões para a mudança de nome. Foi ali que outro homem a cavalo entrou para a história do país, com ambições muito menores do que as de Dom Pedro I – que aparece num cavalo branco na representação não-ocular, porém mais conhecida, a de Pedro Américo –, por não almejar independência, mas apenas a deposição de um gabinete ministerial, que acabou por tornar-se a “Proclamação da República”.

Ao contrário do que retratou Jacques-Louis David, Napoleão não atravessou os Alpes em um cavalo marrom, de crinas largas. A historiografia conta que a travessia foi feita sobre uma mula. E enquanto no candomblé os orixás manifestam-se incorporados em seres humanos chamados de “cavalos”, no mundo do tráfico, cabe às chamadas “mulas” apenas o transporte de drogas para dentro ou fora do país. Assim como se diz que “o hábito faz o monge”, pode-se, então, afirmar que “o cavalo faz o herói”.

Montados, seja em cavalo ou em mula – como apontam alguns historiadores no caso brasileiro –, tanto Napoleão quanto Dom Pedro teriam conseguido o que queriam: um derrotou a Áustria e outro, com reconhecimento da Áustria, proclamou a independência. A representação da cena é o que menos importa. Valem mais o conceito e a durabilidade de cada feito. Napoleão seria derrotado definitivamente em menos de 15 anos. Já Dom Pedro, não independente em sua subjetividade da matriz ibérica, deixaria a pátria brasileira cerca de nove anos depois.

Os que por aqui ficaram – ou para cá vieram – já somam quase 194 milhões. 62,5% deles têm dívidas no cartão de crédito, nos crediários e financiamentos do carro zero e da casa própria, em prazos que vão de 60 a 420 meses. E como crédito para consumo de drogas não é, aparentemente, um negócio para os balcões de dinheiro “sem consulta ao SPC” da Avenida Ipiranga, vale somar os 1,2 milhões de viciados em crack à conta dos brasileiros dependentes. Isso, sem contar os dependentes de objetos e ações dos mais danosos – como os dependentes de poder político que, em plena república, se reproduzem em linhagens eleitorais – aos mais inofensivos – como os dependentes de sexo, tal qual os que frequentavam a Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, observados pela estátua de Dom Pedro I. Alguns deles já estão incluídos nos números anteriores.

Longe de responder a uma queixa, ele mesmo, Dom Pedro, poderia argumentar, de onde estivesse, que não tornou independentes os brasileiros, mas a pátria. Logo ela, sobre quem o poeta Vinicius de Moraes diria que não sabe o que é, mas que tem vontade de beijar-lhe os olhos, “de niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos”. Talvez até demais para algo de que nunca se viu o rosto, se é que tem algum. Entretanto, para quem não ousa deixá-la, só resta amá-la (a alternativa positivista e militar) ou consumi-la. Em qualquer caso, tornando-se seu dependente.

*Thyago Mathias, conselheiro do IDII, é jornalista, graduado pela PUC-Rio, bacharel em Direito pela UNIRIO e especialista em Relações Internacionais pela PUC-Rio.

Artigo – Sete de Setembro de 1822: o dia em que nasceu o Brasil

Sete de Setembro de 1822: o dia em que nasceu o Brasil

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Carlos Roberto Bastos Pereira*

O dia 07 de setembro é uma das datas significativas da construção do patriotismo e do sentimento de orgulho para o Brasil e para os brasileiros. Porém, o comportamento de grande parte dos brasileiros atuais tem sido de algum descaso para com a efeméride. Trata-se de um processo de esquecimento e vergonha de sermos o que somos, destruindo o sentimento de patriotismo.

O 07 de setembro é a data em que se comemora[1] o dia da Independência do Brasil, que outrora era colônia de Portugal. A historiografia atual nos fornece elementos para melhor descortinar as condições e os fatores que levaram ao processo de emancipação do Brasil. Contudo, o Grito de Independência dado às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo, por D. Pedro, em 1822, se tornou um ato simbólico dentro deste processo. Nossa Independência Nacional, por mais sinuosa tenha sido, tornou-nos livre para criar e erguer um novo país, uma nova pátria, um novo Estado, nas Américas.

Embora seja considerado como um ato simbólico, tal atitude indicou a ruptura que se processava desde a saída da família real portuguesa do Brasil, em 1821, após a eclosão da Revolução do Porto de 1820. O gesto do então Príncipe Regente D. Pedro, no qual declarou a independência do Brasil, pode ser visto como a força do modus operandi de uma época; as estruturas mentais da sociedade se baseavam, fortemente, nas forças das palavras e ações dos homens, em virtude das reminiscências do cavalheirismo medieval e dos diversos militarismos ancestrais. Os homens buscavam cumprir com suas palavras e manter as ações de acordo com suas convicções, nas quais a ética e a moral vigentes representavam o norte.

Os príncipes e os nobres eram movidos por valores ainda bastante eivados dos ideais de virtude, honra e glória, sendo inconteste que a personalidade de D. Pedro de Bragança (1798-1834) trazia essas marcas e que sua adesão ao processo emancipatório forjado por José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) se deveu em grande parte a esse pesanteur des origines, parafraseando o grande Marc Bloch.

De maneira que somos herdeiros dessa grande tradição de heróis nacionais e que negar isso é, por óbvio, deixar de ser Cidadãos…

Infelizmente, um dos males do Brasil republicano foi legitimar a República através do olvidamento, do desprezo e da reescrita da história de nossa Monarquia. Na didática do ensino de História, faz-se importante ressaltar a ação de pessoas que se destacaram no processo da Independência, assim como é interessante explicar os símbolos da nacionalidade. A problematização deve ser uma constante, mas a iconoclastia deve ser bem elaborada e bastante cuidadosa.

A antiga matéria da grade curricular “Educação Moral e Cívica”, tão associada à ditadura militar brasileira (1964-1985), tinha aspectos evidentemente positivos e uma nova versão desse estudo deveria ser implementada pelo Poder Público.

As datas históricas têm fundo místico; as mudanças e as permanências que elas engendram são carregadas de energias e forças. Isto não pode ser relegado.

O ser humano precisa de heróis. Eles são arquétipos. Em sua humanidade, nunca deixaram de agir por interesses, ora excelentes e santos, ora mesquinhos e diabólicos, mas deixar de valorizar sua heroicidade não ajuda em nada o processo, que deve ser cotidiano e continuado, de exercer a cidadania. De construir uma Nação includente e justa para todos.

Viva o Sete de Setembro!

Viva o Brasil!

 

* O autor é conselheiro do IDII. Graduado em História pela Univ. Cândido Mendes, é professor da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro.


[1] Devemos compreender que o verdadeiro sentido da palavra “comemorar” significa colocar na memória, mesmo que de forma festiva, um fenômeno histórico.