O GLOBO – Filhos de D. Isabel na Primeira Guerra Mundial

Filhos de Princesa Isabel, nobres brasileiros participaram da Primeira Guerra Mundial

Dom Luís Maria e Dom Antônio Gastão integraram exército britânico após rejeição da França

POR RAPHAEL KAPA


O grau de envolvimento brasileiro na Primeira Guerra Mundial é pouco conhecido da maioria das pessoas, mas a proximidade do centenário do conflito, que começou no dia 28 de julho de 1914, joga luz sobre essa parte da nossa História. Pouca gente sabe, por exemplo, que, muito antes de o país enviar equipe médica, embarcações e alguns oficiais apenas na reta final do confronto, dois príncipes brasileiros atuaram na guerra e até morreram em consequência disso. Filhos da Princesa Isabel com o francês Conde D’Eu, os nobres D. Luís Maria e D. Antônio Gastão, netos do ex-imperador D. Pedro II, serviram ao lado do Império Britânico.

Mas o caminho até servir na guerra não foi nada simples para os dois. A família viveu no Brasil até a Proclamação da República, em 1889, quando foi para o exílio na França. Antônio tinha, então, 8 anos, enquanto Luís tinha 11. Durante viagens para outros países, Luís e Antônio não eram reconhecidos como membros da nobreza brasileira ou portuguesa, mas, sim, francesa. Porém, quando completaram a idade do alistamento militar, o exército do país se negou a recebê-los.

— A França já era uma república, enquanto eles eram brasileiros e faziam parte de uma família monárquica. Saber disto nos ajuda a entender essa negativa do exército. A França era a pátria que D. Luís e D. Antônio queriam defender. Mas eles não conseguiram, pelo menos, diretamente — explica a historiadora Teresa Malatian, autora do livro “D. Luís de Orleans e Bragança, peregrino de impérios”.

A solução foi alistar-se no Império Austro-Húngaro, então governado pelo tio deles, o imperador Francisco José I. Os dois príncipes cumpriram suas carreiras militares nas fileiras austríacas sem imaginarem que os dois países, a França com a qual se identificavam e a pátria que passaram a defender, entrariam em choque na maior guerra conhecida pelo mundo até então.

Com as constantes insatisfações e disputas entre as nações, o clima bélico já se tornava uma preocupação dos príncipes. Sem vislumbre de assumir um lugar de prestígio em alguma nobreza europeia, o Conde D´Eu, que ao se casar com a Princesa Isabel abriu mão da hereditariedade do trono francês, aconselhava seus filhos a seguir carreira militar.

Anos antes do início do conflito mundial, ao se casar com Maria Pia Bourbon Napoles, D. Luís pediu desligamento do exército para passar a conviver com a família. Já D. Antônio, ao perceber que a guerra era inevitável, saiu das fileiras austríacas pouco antes do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, estopim do grande conflito.

Quando a Primeira Guerra Mundial já tinha iniciado seu curso, os príncipes resolveram se colocar à disposição do exército francês, inimigo dos austro-húngaros, mas viram as portas fechadas outra vez. Só que mesmo assim os irmãos não abandonaram a ideia de lutar junto aos Aliados.

— Desta vez, o exército francês não os aceita exatamente por terem servido ao inimigo. Como eles iriam mudar de lado? Os príncipes acabam sendo aceitos pelas forças britânicas devido a um outro parentesco com a família real de lá — relata Teresa Malatian.

O ‘SIMPÁTICO’ E O ‘COMBATENTE’

Oriundos da família real brasileira, considerados franceses, treinados pelos austríacos e servindo aos britânicos. É com esta trajetória que o simpático D. Luís e o combatente D. Antônio, como foram classificados por seu mordomo, entram na Primeira Guerra Mundial.

— Os príncipes eram pessoas notáveis. O exército britânico avaliou que seria bom tê-los em suas fileiras — diz o embaixador Vasco Mariz, autor do livro “Nos caminhos da história”, que será publicado no final deste ano.

O desembarque de D. Luís no conflito se deu em 23 de agosto de 1914 e teve duração de quase um ano. Como encarregado das comunicações entre os regimentos, ele atuou nos pântanos do Yser, no Norte da França, onde contraiu um tipo de reumatismo que o teria paralisado, como conta sua filha Maria Pia em seu livro de memórias.

De volta à França, passou a se locomover em uma cadeira de rodas e ficou conhecido como um entusiasta do Brasil por sempre contar a história do país e ensinar português para seus filhos e conhecidos.

— D. Luís teve um papel político importante para o Brasil. Era um entusiasta que enaltecia a imagem do país no exterior — afirma o Vasco Mariz.

A doença que o príncipe contraiu na guerra o acompanharia e seria o motivo de sua morte, em 1920.

Já D. Antônio tinha 33 anos quando entrou na guerra que influenciaria amplamente a geopolítica mundial dali em diante. Ele se tornou capitão do regimento Royal Canadian Dragoon, junto com os canadenses que foram defender a bandeira britânica.

— Alguns autores afirmam que D. Antônio participou de batalhas aéreas, extremamente novas naquele período. O que se sabe é que o príncipe era hábil e que muitos o consideravam bastante corajoso — conta Mariz.

Com a guerra já terminada, o príncipe sofreu um acidente de avião nos arredores de Londres. Ele ainda foi levado vivo para um hospital próximo, mas morreu em decorrência dos graves ferimentos sofridos, no dia 29 de novembro de 1918.

CONDECORAÇÕES FRANCESAS

Mesmo sem ter sido aceito pelas forças francesas, D. Luís recebeu condecorações póstumas por sua participação na Primeira Guerra com os Aliados. O governo francês homenageou o príncipe como cavaleiro da Legião de Honra e lhe outorgou a Cruz de Guerra, o que demonstra reconhecimento ao príncipe brasileiro morto.

Já seu irmão recebeu, em 1917, um título de destaque do exército britânico. Devido a sua participação, considerada de alto nível nos relatos de superiores, D. Antônio mereceu a Military Cross e foi incorporado às forças armadas britânicas oficialmente.

Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/filhos-de-princesa-isabel-nobres-brasileiros-participaram-da-primeira-guerra-mundial-13308833#ixzz387d6o78a

 

90 anos da morte do Conde d´Eu rememorados no IHGB

O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro prestou hoje sua homenagem ao Marechal Conde d´Eu, esposo de D. Isabel I, por ocasião do 90º aniversário de sua morte, ocorrida em Águas Territoriais Brasileiras, a bordo do navio Massilia, em 28 de agosto de 1922, quando retornava ao Brasil para participar do Centenário de nossa Independência Nacional.

D. Gastão morreu recostado nos ombros de sua nora-sobrinha, D. Maria Pia do Brasil (1878-1973), após o jantar.

A participação enviada pelo IDII nas semanas anteriores tinha o teor abaixo.

Presidiu o evento o Prof. Arno Wehling, Presidente do IHGB. Estiveram presentes alguns Sócios do IHGB, a Cons. Maria Cecília Penna e a Cons. Maria Augusta Paula, do IDII, e membros de outras organizações culturais e literárias — fotos abaixo.

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A Presidente do Instituto D. Isabel I,

 Laila Vils,

tem a grata satisfação de divulgar

a homenagem ao 90º aniversário de morte de

Dom Gastão (1842-1922),

Príncipe de Bourbon-Orleans e Conde d´Eu,

Príncipe Imperial consorte do Brasil (1864-1891)

Imperador Consorte do Brasil no exílio (1891-1921),

Marechal do Exército Brasileiro,

Presidente de Honra do IHGB.

 

Palestras

 

Retrato de um jovem príncipe

Professora Mary del Priore

 

Recordações do meu bisavô

Dom João Henrique de Orleans-e-Bragança

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O Conde d´Eu na Guerra do Paraguai

Embaixador Vasco Mariz

 

 

5 de setembro de 2012 – 15h

 

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

 

Av. Augusto Severo, 8

 

Rio de Janeiro – RJ

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IDII entrevista o propositor da beatificação de D. Isabel

Entrevista

Prof. Hermes Rodrigues Nery, propositor da Causa de Beatificação de D. Isabel a Redentora

Jornalistas Maria Cecilia Penna e Thyago Mathias (IDII)

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Hermes Rodrigues Nery foi Presidente da Câmara Municipal de São Bento de Sapucaí, uma estância climática do interior de SP, entre 2009 e 2010.

Recuperou atas antigas do Legislativo, muitas remontando à época do Império. Com as transcrições paleográficas, descobriu que escravos alforriados lutaram na Guerra do Paraguai. Viu também referência a um quilombo, que deu nome a um bairro do município.

Imergindo na história da escravidão negra em seu município, travou conhecimento com Dona Luzia, uma senhora que há 40 anos mora na comunidade e mantém por décadas a festa do 13 de maio. Foi dela quem ouviu pela primeira vez uma referência à santidade de D. Isabel.

Com suas pesquisas pessoais, nas poucas biografias disponíveis sobre a Redentora, descobriu virtudes infindáveis na Princesa que, por seu gênero e seu catolicismo extremado, não pôde reinar no Brasil, da década de 1890 em diante.

Após conversar com Dom Antonio Augusto Dias Duarte, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro que havia sido seu orientador no curso de pós-graduação na PUC-RJ, Hermes Nery foi estimulado a apresentar ao Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, que é sócio honorário do IDII, o pedido de abertura do processo de beatificação de D. Isabel.

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IDII: Quais sãos as evidências de santidade notáveis em Dona Isabel e que fundamentaram ou fundamentarão a abertura desse processo?

HRN: Escritos da Princesa D. Isabel (cartas, diários e apontamentos) dão uma dimensão exata da sua fé católica solidíssima, e de como viveu de modo exemplar a coerência dos princípios e valores do Evangelho, tanto na vida pessoal quanto pública. Suas opções e decisões estavam pautadas no humanismo integral, e deixou a melhor impressão de sua vida virtuosa em todos que conviveram com ela, tendo o respeito inclusive de seus adversários. Escritos de intelectuais e autoridades da época e mesmo durante o século XX (apesar do patrulhamento ideológico e da conspiração do silêncio que sofreu), atestam suas inúmeras qualidades e virtudes, e o quanto a sua firme adesão à fé foi um dos elementos que fizeram tantos temerem o 3º Reinado. Há relatos também do povo, de quem conheceu D. Isabel e recebeu dela acolhida e apoio, e muitos gestos concretos de quem soube exercer com elevada consciência a caridade cristã. Lembro-me, por exemplo, como ex-salesiano que sou, de que o Liceu Coração de Jesus, em São Paulo, foi construído em 1885, com auxílio da Princesa, com objetivo de oferecer aos negros libertos a oportunidade de estudar lá gratuitamente. Houve na Princesa D. Isabel uma grande sintonia com a doutrina moral e social da Igreja, tão bem expressa pelo Papa Leão XIII, com quem ela se correspondia. E como São João Bosco (com quem ela se encontrou pessoalmente em Milão, em 1880), um dos sinais evidentes de sua santidade foi como suas ações estiveram tão de acordo com o que a Igreja expõe em seu Magistério, e como as consequências destas ações foram tão benéficas para toda a sociedade.

O glorioso 13 de maio de 1888 foi um dos momentos mais jubilantes da nossa história. Machado de Assis o descreveu como “o único delírio popular que me lembro de ter visto”, tamanho impacto que foi a vitória do abolicionismo. Houve algo de sobrenatural nas explosões de alegria registradas em todas as partes do Brasil, por dias seguidos. Emilia Viotti da Costa explica que o processo que conduziu ao festivo desenlace fora “longo e difícil” e que “atualmente, parece possível atribuir-lhe um sentido, uma direção, uma lógica”. A percepção da problemática e o envolvimento direto da Princesa Imperial no movimento, sua opção e determinação deram o tom decisivo que garantiu o êxito do abolicionismo, sem derramamento de sangue. E bem mais o País ganharia se a República não tivesse interrompido o muito que D. Isabel desejou implementar: as condições efetivas de promoção social que desejava especialmente aos libertos pela Lei Áurea. Sua vida é rica de episódios que dão evidência de virtudes heroicas e de santidade, e de seu comprometimento em defesa dos mais fragilizados da sociedade, buscando a promoção humana, em todos os sentidos.

IDII: Cientes de que, até a beatificação, há um longo processo que inclui a observação à fama de santidade e a comprovação de virtudes e de, em uma última etapa, até um milagre, gostaríamos de saber se há já notícia de algum milagre atribuído à intercessão da Princesa.

HRN: Pela fidelidade à Igreja, a Princesa D. Isabel, com suas virtudes heroicas, manifestou a santidade (que se expressa em graus diversos), comunicando hoje mais intensamente os bens espirituais ao Brasil que tanto amou. “Não choreis! Ser-vos-ei mais útil após a minha morte e ajudar-vos-ei mais eficazmente do que durante a minha vida”, afirmou São Domingos. Uma leitura atenta de sua vida mostra claramente como ela viveu unida a Cristo e se santificou “por causa da sua incomparável devoção pelo seu Rei e Mestre” (Catecismo da Igreja Católica, 957), que é Jesus Cristo. A Ele foi fiel e assumiu as consequências do seguimento a Jesus, com perdas terrenas e ganho espiritual.

Escritos da Princesa, documentos e depoimentos sobre ela, revelam sinais de santidade.  Um fato, por exemplo: quando D. Isabel assinou a Lei Áurea, seu pai estava gravemente enfermo em Milão, muitos já esperavam que não viesse mais recobrar as forças. Quando D. Pedro II soube da notícia da abolição da escravatura, no mesmo momento em que recebeu a mensagem escrita pela filha, obteve uma súbita melhora, cuja recuperação permitiu que ele retornasse ao Brasil.

Conceição Borges Ribeiro Camargo em seu texto “A Passagem da Princesa Isabel por Aparecida” conta que na Sala dos Milagres, ao lado da Basílica, há uma grande corrente na parede, de 1857. Era de um escravo fugido que fora preso e algemado. Estando em Aparecida, pediu para que o seu feitor o deixasse passar pela Capela. Ajoelhado, pediu a Nossa Senhora que o libertasse, ao que a corrente caiu no chão. Em 1868, no mesmo local, quando a Princesa Imperial passava por uma ladeira próxima à Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, outro escravo também algemado havia entrado na capela e rezado na esperança de que se repetisse o milagre. Mas a corrente não se partiu. Muito triste, enquanto descia a antiga rua da calçada, atual ladeira Monte Carmelo, avistou a comitiva da Princesa D. Isabel, ao que, ajoelhando-se pediu a benção e misericórdia. Imediatamente dona Isabel ordenou que o escravo fosse colocado em liberdade. Ela não apenas concedia o bem a tantos (acudiu feridos e enfermos durante a Primeira Guerra Mundial, no Castelo d’Eu, etc.), como também recebeu benefícios espirituais de pessoas santas, como de Nhá Chica, em Caxambu (MG).

Andréa Lúcia da Silva de Paiva, em seu estudo “Espaços sagrados: monarquia, objetos e ‘santos’ na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos” lembra que José do Patrocínio “se ajoelhou nos pés de D. Isabel e a chamou de santa, ‘Santa Isabel’.”  E reconhece que ainda hoje há manifestações de veneração à Princesa D. Isabel, considerada como santa por muitos devotos.  Destaca ainda que para muitos irmãos fiéis a Nossa Senhora do Rosário, “Isabel é ‘santa’ ou ‘quase santa’ (ainda não é ‘totalmente ‘santa’ porque ainda não foi oficializada pela Igreja Católica), por seu papel ‘integrador’, por viver em função do outro”. E acrescenta: “A vida da Princesa Isabel se aproxima de uma leitura bíblica na qual o termo ‘santo’ é utilizado para designar tudo o que está próximo de Deus ou que lhe é consagrado.” E tudo o que ela fez (em família, no governo, no exílio) foi confirmar a consagração a Deus, sendo fidelíssima à Igreja, com “uma vida contemplada pela religiosidade, um exemplo de ‘bondade’, ‘humanidade’ e ‘fé’, a ser seguido pelos fiéis”.

IDII: O senhor fez contato com a Família Imperial brasileira para tratar deste tema? Qual foi a reação de seus membros ou a posição oficial dela a respeito?

HRN: O primeiro contato foi com Dom Bertrand de Orleans e Bragança, em São Paulo. Nos reunimos em dois encontros por mais de três horas cada, em que conversamos muito detalhadamente sobre esta e outras questões. Dom Bertrand recebeu com viva satisfação a iniciativa do pedido de abertura do processo de beatificação e solicitou que seu irmão, Dom Antonio de Orléans e Bragança, pudesse nos acompanhar na audiência com Dom Orani João Tempesta, que ocorreu na manhã do dia 19 de outubro, no Rio de Janeiro. O próprio Dom Orani perguntou a Dom Antonio como a Família Imperial brasileira via aquela iniciativa, ao que Dom Antonio disse que a família recebeu com boa aceitação o pedido vindo de uma comissão da Diocese de Taubaté. Dom Orani explicou então que faria os contatos necessários na França, para viabilizar as licenças que pudessem fazê-lo instituir a comissão especial para dar início aos estudos. No dia 29 de novembro, participamos do evento “A Catolicidade da Princesa Isabel vista por um bisneto”, em São Paulo, em que pudemos fazer uma palestra, juntamente com o Sr. José Carlos Sepúlveda da Fonseca e Dom Bertrand de Orleans e Bragança. Ao cumprimentar Dom Luiz, ele me disse estar de pleno acordo com o aprofundamentos dos estudos para a abertura do processo de beatificação da Princesa D. Isabel.

IDII: Sabemos que, além de levar anos, um processo de beatificação demanda a formação de equipes compostas por diferentes especialistas, o que o torna também dispendioso. De onde virão os fundos necessários para isso? Há já algum historiador ou especialista em temática isabelista envolvido ou convidado a formar tais equipes?

HRN: Conheci pessoalmente, em fevereiro de 1995, o Pe. Hélio Abranches Viotti, S.J., no colégio São Luís, em São Paulo, autor da biografia “Anchieta, o Apóstolo do Brasil”. Ele falava com entusiasmo da esperança que tinha da canonização de Anchieta, pedido que a própria Princesa chegou a fazer ao Papa em 1877. Decorridos mais de 30 anos de sua beatificação, vemos que realmente há processos demorados. No Brasil temos hoje aproximadamente 40 processos de beatificação sendo analisados. Em outubro de 1998, estive em Roma para a beatificação de Frei Galvão. Pouco depois de conversar com Dom Geraldo Majella Agnelo, vi a Praça de São Pedro tomada por bandeirinhas brasileiras, e de lá fui até o Colégio Pio Brasiliano conversar com a irmã Célia Cadorin, eficientíssima no processo que levou à canonização do primeiro santo nascido no Brasil. Interessante observar que em sua visita à província de São Paulo, em 1884, a Princesa registra em seu diário: “7h da manhã, missa no Convento da Luz!” Em meio a tantas igrejas, ela escolheu aquela construída pelo futuro Santo Antonio de Santana Galvão.

De fato, o processo é dispendioso, exigirá estudo aprofundado, consulta a vasta documentação e a confirmação de milagres em nossos dias. Mas tudo isso é sempre movido pela fé e pelo realismo cristão, e é necessário que seja assim mesmo, pois sabemos que “o mistério de comunhão bem-aventurada com Deus e com todos os que estão em Cristo supera toda compreensão e toda imaginação” (Catecismo, 1027). É o mistério da fé, pois é Deus quem opera todo bem, no tempo devido. Quando for constituída a comissão por Dom Orani, virão os recursos necessários, e seus membros devem perseverar nos estudos, na oração e na confiança d’Aquele que opera, que é Jesus Cristo.

Desde o dia em que foi entregue o pedido de abertura do processo de beatificação, alguns estudiosos e pesquisadores foram contatados e se colocaram à disposição, ao que levaremos as sugestões à Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro: o Prof. Bruno de Cerqueira, do Instituto D. Isabel, o Prof. Armando Alexandre dos Santos, do Instituto Histórico de São Paulo, entre outros. Todos se colocaram à disposição em colaborar e trabalhar na referida comissão.

IDII: Que avaliação o senhor faz das representações da Princesa Imperial D. Isabel no imaginário popular?

HRN: Importante esta pergunta. E cabe respondê-la com precisão: o respeito, o carinho, o sentimento de profunda gratidão, a estima, devoção e veneração do povo brasileiro por D. Isabel, que vem desde o glorioso dia 13 de maio, é expressão de uma manifestação natural que reconhece nela um carisma especial de quem recebeu a graça da santidade. Ao contrário do que uma imprensa ideologizada já em seu tempo, dizendo que tanto ela quanto seu esposo, o Conde d’Eu, não tinham popularidade, não corresponde com o depoimento daqueles que puderam conhecê-los de perto e ver o quanto a Princesa era muito querida pelo povo brasileiro que ela tanto amava. Sempre foi muito bem recebida, acolhida e acarinhada, principalmente pelos negros alforriados. E mesmo no seu exílio, o relato de todos que a procuravam, atesta a bondade com que ela recebia seus visitantes, e como ela era muito respeitada aonde ia. Ela foi hostilizada pelos republicanos positivistas, que lhe impuseram um cruel banimento – o mais longo sofrido por uma autoridade política do Brasil. Mas havia uma aura que eles não conseguiram fazer desaparecer, pelo contrário, até a sua morte ficaram constrangidos de ver o quanto a população queria que ela voltasse ao Brasil.

É certo que depois de sua morte, e por durante muitas décadas os intelectuais modernistas se incomodaram com esta aura que permaneceu, apesar da conspiração do silêncio que fizeram. E sem saber como conter o reconhecimento de sua aura, vinha do povo, especialmente dos que festejavam o 13 de maio, o respeito e a devoção por ela. Seu nome ficou impregnado na alma da nossa nação. Em muitas pesquisas ela sempre é citada como uma das grandes mulheres brasileiras. E várias manifestações, até mesmo entre artistas de diversos segmentos e tendências culturais, confirmam o quanto ela – ainda hoje – representa uma força unitiva e integradora do Brasil. Mas não do Brasil macunaímaco de Mário de Andrade. E mesmo sem ainda entender bem do quanto ela significa, muitos a saúdam efusivamente, a exemplo do que fez Caetano Veloso em sua música 13 de maio (http://www.youtube.com/watch?v=Aje0MrJyyx0).

A exemplo do cristianíssimo São Luís — rei francês do séc. XIII —, ela representa um projeto de Brasil comprometido com os princípios e valores do humanismo integral, que Bento XVI tão bem explicitou em sua encíclica Caritas in Veritate.

Muitos intelectuais quiseram atribuir a veneração natural à Princesa D. Isabel a representações do imaginário popular. Há teses acadêmicas nesse sentido. Mas há nela “algo mais” que transcende estas tentativas de enquadrá-la em reducionismos e camisas-de-força ideológicas. Uma vida de fé não é um mero dado cultural, mas uma presença vivificante. Ela coroou o movimento da Abolição que ocorreu sem derramamento de sangue justamente por seu posicionamento pautado nos princípios e valores cristãos.  O seu processo de beatificação irá fazer justiça ao muito que ela fez pelo Brasil e pela Igreja.

IDII: Nosso Instituto tem como missão resgatar e retomar o abolicionismo, que encontra em Dona Isabel sua realização maior e se fundamenta nas obras de Joaquim Nabuco, André Rebouças e José do Patrocínio, entre outros grandes abolicionistas. Em que medida o pedido desse processo de beatificação ressalta a necessidade de um neoabolicionismo para o Brasil de hoje?

HRN: Outra questão relevantíssima, que justifica a existência do IDII: promover o neoabolicionismo, que vai ao encontro da proposta de efetiva promoção social desejada pela Princesa D. Isabel, necessária para evitar outras formas de violência e atentados contra a dignidade da pessoa humana, em nosso País. As vozes defensoras da abolição no séc. XIX (Joaquim Nabuco, André Rebouças, José do Patrocínio, entre outras), contaram com o apoio concreto da Princesa Imperial, que entendeu e aceitou a legitimidade da demanda pela libertação dos escravos, que o processo deveria ser gradual e com mobilização e conscientização. E soube ter precisão decisória com a corajosa Lei Áurea (enxutíssima), esperando evidentemente prosseguir com o desafio de garantir a justiça social, mas que não foi possível viabilizar por causa do golpe de 1889. Os governos da República agravaram ainda mais a crise social, porque foi seguida, até hoje por uma grave crise moral, chegando até os nossos dias em que prevalecem outras formas de escravidão, além da aguda crise de credibilidade das instituições públicas, cujo sistema político se tornou plutocrata, populista e demagógico. Nesse sentido, foram acertados os propósitos do IDII já no seu lançamento, em 2001, diagnosticando os males da República Velha que ainda continuam vigentes na Nova República. Justifica-se, portanto, hoje um movimento neoabolicionista, a começar por uma profunda reforma política, que permita o Brasil reencontrar o sentido e a direção, por exemplo, que D. Isabel desejou dar, para o Brasil realmente alcançar com dignidade o seu destino promissor.

IDII: Em uma entrevista sua a um blog monarquista, o senhor disse que coube ao “Movimento Legislação e Vida” da Diocese de Taubaté apresentar o pedido de beatificação. Como esse movimento se relaciona à memória de D. Isabel e por que ele se interessou em abraçar a causa da beatificação?

HRN: O Movimento Legislação e Vida, fundado em 28 de outubro de 2005, pelo Bispo Diocesano de Taubaté, vem trabalhando na defesa da vida e da família, tendo tido êxito junto com outros grupos em todo o país, na luta contra a legalização do aborto. Como presidente da Câmara Municipal de São Bento do Sapucaí, foi possível revisar o texto constitucional local e promulgar, em 16 de abril de 2010, a primeira lei orgânica pró-vida do Brasil, a reconhecer em seu preâmbulo e em diversos artigos, o direito à vida como primeiro e principal de todos os direitos humanos, garantindo a proteção da vida humana, desde a concepção até a morte natural, conforme as diretrizes do humanismo integral. Este foi inclusive o tema da minha monografia de pós-graduação em Bioética, pela PUC-RJ. Quando tomamos conhecimento da biografia da Princesa D. Isabel houve uma profunda identificação de suas ações com as diretrizes do Movimento Legislação e Vida, e do movimento abolicionista com a causa atual da defesa da vida, que é também uma causa da Igreja, na defesa do direito ao ser humano mais fragilizado (especialmente o nascituro) ao direto a vida. Nesse sentido, a beatificação de D. Isabel irá contribuir para reforçar ainda mais o referencial do Evangelho da Vida, para que alcancemos também no âmbito legislativo a proteção e promoção da vida humana, de modo integral, pois Jesus anunciou vida plena para todos (Jo 10,10).

Artigo “O Conde d´Eu, o príncipe injustiçado” – Embaixador Vasco Mariz

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O IDII compartilha o importante artigo “O Conde d´Eu, o príncipe injustiçado”, do Embaixador Vasco Mariz, sócio emérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e nosso antigo representante na Alemanha, Israel, Perú e Equador.

Conforme alertamos desde nossa fundação (2001), descortinar o III Reinado que não veio é dar à luz do conhecimento dos brasileiros personagens que foram obnubilados por décadas de historiografia claramente parcialista.

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Conde dEu o principe injusticado

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Isabel I – Imperatriz do Brasil

Isabel I – Imperatriz do Brasil

Luís Severiano Soares Rodrigues*

O fato de uma mulher ter chegado a presidência da república, que pelo ineditismo, cerca a atual governante da boa vontade da grande maioria das pessoas, apesar de sua eleição ter sido, menos pelos méritos próprios, do que pelo empenho do seu antecessor em eleger, no caso a sua sucessora, que diga-se de passagem só conseguiu essa posição por um problema de percurso, já que o escândalo do mensalão tirou o então todo poderoso, ministro da casa civil José Dirceu de sua super posição de primeiro-ministro de uma república presidencialista, sem contudo perder boa parte do seu poder, haja vista que o camarada Zé Dirceu, hoje é uma eminência parda como “consultor” nas esferas do poder entre Brasília e São Paulo. A então ministra de Minas e Energia, assume a pasta deixada pelo camarada Zé Dirceu, escolh ida curiosamente, entre outras coisas por não ter origem petista e sim brizolista, o que diga-se de passagem tendo em vista os resultados das administrações brizolistas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, não ser grande mérito. Mas temos certeza que a presidente encaminhará muitas resoluções de alguns dos muitos problemas a serem resolvidos, pois o fardo que seus antecessores lhe legaram é muito pesado, bastaria falar na saúde pública em estado de calamidade ou na violência urbana que já ultrapassou as raias do absurdo, ou ainda a falta de infraestrutura física e capital humano capacitado para se poder crescer consistentemente, entre outros dos muitos problemas. Creio que a presidente, se já não percebeu, logo perceberá, que o que falta nas instituições que preside é curiosamente o respeito a Res Pública, o que de fato é um problema paradoxal. Se a presidente se der o trabalho de estudar a evolução das instituições que preside , sentirá um mal estar por chefiar algo que começou tão mal e gerou um passivo social incomensurável, creio também que sua ascendência balcânica deve tê-la preparado caso descubra que recebeu um presente de grego ao se eleger para a presidência da república. Melhor teria sido, se o destino do Brasil não tivesse tido o revez do 15 de novembro e a insígne senhora, fosse a primeira mulher a chefiar o Conselho de Ministro, pois certamente estaria fazendo companhia a Ângela Merkel, chanceler da Alemanha, no Grupo dos 7.

Mas se ter uma presidente, de fato é inédito, mas não o fato do Estado brasileiro ser chefiado por uma mulher. As três regências exercidas pela Princesa Imperial D. Isabel, em nome do seu augusto pai D. Pedro II, conferem-na a condição de ter sido a primeira chefe de Estado do sexo feminino nas Américas, tendo sido a única até o começo da década de noventa do século XX, quando se elege Violeta Chamorro, presidente da Nicarágua.

D. Isabel nascida à 26 de julho de 1846, tem em seu sangue a mistura do sangue da Casa de Bragança e a dos Bourbons das Duas Sicílias. Eu já pude defini-la em outro momento como a soma da inteligência de seu pai e a bondade de sua mãe, e de outra forma não temos como vê-la, pois foi formada por seu pai para chefiar o Estado quando chegasse a hora, e sua mãe não descuidou em formar o senso da caridade e devoção cristã desde cedo na jovem princesa, que com a morte de seus dois irmãos, D. Afonso e D. Pedro, passa a ser a herdeira presuntiva do Império do Brasil. Os primeiros anos dessa carioca de São Cristóvão, são voltados para os estudos preparatórios das altas funções que desempenharia, e já meniana com a irmã mais nova D. Leopoldina desempenhava funções oficiais, como visitas à estabelecimentos oficiais, como escolas. Hospitais, repartições, entre outras como a Casa da M oeda, que registrou o fato numa belíssima medalha comemorativa do evento, retratando as duas irmãs juntas, que honravam aquela instituição com suas augustas presenças. Tendo D. Isabel sempre se apresentado muito bem, quando da visita de personalidades importantes ao Império. Muito inteligente, a jovem princesa destaca-se nos estudos, até pelo influxo da presença animadora do pai, homem de grande cultura e conhecimento, na verdade um dos príncipes mais esclarecidos do século XIX, que diga-se de passagem, herdara a disciplina e o gosto pelos estudos de sua mãe, D. Leopoldina primeira Imperatriz do Brasil, princesa da Casa da Áustria, e uma grande estudiosa das ciências naturais, tendo trazido quando de sua vinda para o Brasil, uma missão científica chefiada por Von Martius e Von Spix, que elaboraram trabalhos ímpares sobre a fauna e a flora, principalmente esta, do Brasil, e também sobre a nossa história até então,. Tendo sido Von Martius pro tegido por D. Pedro II no futuro, pois via nele um grande amigo do nosso país. D. Leopoldina, princesa Habsburgo, estava à altura do papel que o destino lhe reservou, pois foi inflexível no apoio ao marido, exortando-o a proclamar a Independência Nacional.

D. Isabel casa-se por amor em 1864, com Gaston de Orleans, Conde D`Eu, príncipe francês, que somos categóricos em afirmar foi um homem digno e amigo de sua mulher, honrando-a na ventura e na adversidade. O conde D’Eu, provou sua dedicação ao Brasil e a sua esposa infindas vezes, em particular na campanha da Cordilheira, última fase da guerra do Paraguai, onde se empenhou em terminar aquele conflito, não deixando meios daquele país voltar a atacar e invadir o território do Império, e dando o exemplo, abole a escravidão naquele país.

Após o casamento a formação de D. Isabel se volta também para o conhecimento de outros países, e em viagem á Europa conhece outros processos civilizatórios e de desenvolvimento econômico. Além de conhecer pessoalmente parentes seus e do marido espalhados pelas casa reinantes europeias.

Em 1871, com a primeira viagem do Imperador ao exterior, D. Isabel assume pela primeira vez a regência do Império, e lhe é dado por D. Pedro II presidir o primeiro capítulo da abolição efetiva da escravidão, com a gestão e aprovação da lei do ventre livre, sendo a chefia do governo colocada nas mãos de um homem hábil e capaz, que era o visconde do Rio Branco. A gestão de proposição da lei, seria de um homem de grande capacidade e fiel partidário da dinastia, o então ministro do Império, João Alfredo Corrêa de Oliveira. A Regente muito se empenhou para a libertação do ventre escravo, começando assim um movimento irreversível como veremos, chegando a termo sua primeira regência em 30/03/1872, com o retorno do Imperador. Devemos ressaltar que D. Isabel estudou com afinco os apontamentos que seu pai lhe redigiu sob o título de Conselhos a Regente, que são o testemunho da lucide s e abnegação do Imperador.

Temos de fazer um parentese, para um problema pessoal da jovem princesa herdeira, que era não ter conseguido até então gerar um herdeiro, tendo tido vários insucessos, o que temos certeza é um drama pessoal para qualquer mulher, e um drama nacional para aquela que tem que gerar os futuros soberanos de um país, seu problema era um problema de Estado. Após longo tratamento com especialistas, consegue sua alteza gerar e levar a um feliz sucesso três gestações, o primeiro em 1875, com o nascimento de D. Pedro de Alcântara, seguido de D. Luiz e D. Antônio.

A segunda regência se dá de 26/03/1876 à 26/09/1877, tendo como presidente do conselho o Duque de Caxias. Já com experiência D. Isabel mostra-se bem preparada, e desempenha, mais uma vez, muito bem as funções de Chefe do Estado, declarando sua predileção por comutar penas de morte, aqui temos seu piedoso coração a falar. Procura também escolher os indivíduos mais aptos e preparados para os postos chaves no Império.

A terceira regência iniciar-se-á em 1888, dessa vez com o Imperador indo a Europa não a passeio, mas em viagem para tratar a saúde muito debilitada. Assume a chefia do Estado, a Princesa Imperial, tendo como chefe doe governo o barão de Cotegipe, numa conjuntura bastante tensa, pois a propaganda abolicionista havia se intensificado muito, e a Regente era francamente favorável a abolição até ao fim, como de resto era o desejo do próprio Imperador, mas procurando-se uma solução que evitasse a desestruturação da produção agrícola, o que certamente era um condicionante indispensável do problema.

Uma conjuntura difícil, com protagonistas radicalizando suas posições, esse era o cenário daquele momento. Enquanto os abolicionistas chefiados por Joaquim Nabuco, no parlamento, travam batalhas da eloquência e das ideias, incendiando a opinião pública, que era francamente favorável ao término da escravidão, o ministério protelava qualquer solução aceitável, tendo receio da desestruturação da matriz produtiva. E esse era o cerne do problema, um problema estrutural, de variantes econômicas, sociais e jurídicas dentro de um estado de direito.

D. Isabel, cobra uma solução ao ministério e esse targiversa, então cobra do partido conservador uma posição, este aceita a ideia de efetivar o fim da escravidão. D. Isabel não exita e, por moto próprio, como testemunhará Nabuco vinte anos depois, troca o presidente do conselho, usando as prerrogativas do poder moderador, que são de sua exclusiva competência. Troca aceita no ceio do partido no poder, chama sua alteza, João Alfredo, aquele de 1871, para formar novo gabinete, com o fito de acabar com a escravidão, o resultado todos sabemos, é o 13 de maio. Feito este que lhe colocou para sempre num lugar de destaque na história do Brasil. O júbilo que se viu por todo o Império foi algo de grandioso e mágico, pela satisfação gerada nos corações das pessoas de bem.

Retorna o Imperador em agosto de 1889, e é recebido sobre grandes manifestações de satisfação da população da capital do Império. Assume D. Pedro II suas funções, mas sua saúde ainda inspirava cuidados.

A conjuntura passa a ser outra, pois um dos efeitos do 13 de maio, é a geração de uma legião de ex-senhores de escravos transformados em republicanos de 14 de maio, tendo inclusive os retratos da Princesa Imperial sido transferidos para os porões, como conta o Prof. Menezes de Oliva no seu livro “Minhas Recordações de Garoto”. Os efeitos sobre a produção não foram tão grandes mas, houveram algumas regiões cafeeiras que tiveram dificuldades de fazer a colheita da safra. O gabinete de João Alfredo, não consegue se manter no poder, pois a Câmara retira-lhe o apoio. Chama o Imperador, ao senador visconde de Ouro Preto, do partido liberal, para formar novo governo, frente a negativa da Câmara em apoiá-lo, o Chefe do Estado dissolve-a e realiza-se nova eleição, conseguindo Ouro Preto a maioria para o seu programa de governo amplamente reformista, que estava a altura das necessidades d o momento. O momento era delicado pois as aves de rapina republicana, foram sagazes e usaram de estratagemas soezes para perpetrar a alta traição, pois de um incidente menor do Presidente do Conselho, no ministério da fazenda com um oficial subalterno, gera-se pela imprensa uma tempestade em um copo d`água, e reacende-se a questão militar, ao mesmo tempo em que alguns colocavam a questão de gênero em evidência, pois muitos não queriam uma mulher na chefia do Estado, mesmo sendo ela adorada pelo povo simples do seu país e idolatrada em particular pelos negros que a veneravam, quando o Imperador morresse. Assim inicialmente conspiram contra o gabinete, colocando o Mal. Deodoro contra Ouro Preto, através de mentiras e uma vez deposto investem contra a Monarquia, com outras mentiras, e Deodoro, monarquista que inclusive havia escrito em carta ao sobrinho, que no Brasil república e desgraça eram a mesma coisa, foi levado a trair o homem a quem devia não poucos favores, mas o mesmo descobriria logo adiante, que ele estava certo.

Começam os infortúnios da família Imperial, banidas da terra brasileira. Pouco mais de um mês do desterro, em Portugal a Imperatriz morre do coração, de desgosto, abalando mais ainda a família que passava já por um trauma sem par. Aos poucos a vida vai se acomodando, a família fixa residência na França, mas ainda com grandes problemas financeiros, que só se vão normalizar com o Conde d`Eu recebendo a herança por falecimento de seu pai. O Imperador falece em Paris à 05 de dezembro de 1891, e sua s exéquias, concedidas pela república francesa são as de Chefe de Estado, sob os protestos do representante da república brasileira em Paris. Passando D. Isabel a ser de Jure Imperatriz do Brasil, reconhecida por todos os monarquistas que a acompanharam no exílio, entre eles homens do naipe se André Rebolças, Ouro Preto, Barão de Loreto, entre outros. Viveria D. Isabel grande desgos tos pessoais com a situação da república, ou melhor da republiqueta brasileira, pois nos igualamos aos nossos vizinhos sul-americanos, com a guerra civil no sul e a revolta da armada banhando de sangue o solo do nosso país, e mais adiante o genocídio de Canudos, a república não tinha escrúpulos na hora de matar seus opositores em particular os monarquistas, que não gozaram dos mesmos direitos de opinião que os republicanos tiveram no Império, muitos sendo assassinados, muitos jornais mal saindo o primeiro número eram empastelados, a própria constituição republicana, não permitia se discutir forma de governo, com a cláusula pétrea.

Dona Isabel, mantém vivo contato com os monarquistas brasileiros, e acolhe todos os brasileiros que vão vê-la e transmitir notícias da sua amada pátria, fez a Imperatriz Isabel, as suas residências em Eu e Paris verdadeiras casas do Brasil na França.,como testemunha o Almirante Guilhobel nas sua Memórias, apoiando todos os esforços em elevar o nome do seu país, como a proteção a Santos Dumont que visitava-a frequentemente, e não se separava da medalha de São Bento, que D. Isabel o presenteou para sua proteção. Mantinha a Imperatriz vasta correspondência com o Brasil. Se por força de ter sido banida, não podia estar presente fisicamente no seu país mantinha sua presença espiritual, fez questão de presentear o Santuário de Aparecida com a Coroa de Ouro para coroar a imagem da padroeira do Brasil. Enfim, como sua neta , Isabelle Condessa de Paris nos diz em suas memórias, D. Isabel só pensava em duas coisas, no Brasil e na conversão dos ateus, era seu coração que buscava fazer o bem. O contato com o Diretório Monárquico era constante, e a partir de 1908, passa a dividir esse contato com D. Luiz, seu segundo filho, e sucessor com a renúncia de seu irmão D. Pedro de Alcântara, sendo D. Luiz um incansável lutador pela causa da restauração, e não quisesse o destino que ele morresse tão jovem, certamente hoje o Brasil seria outro, diferente da s tristezas e desamparos que vive o nosso povo. Com a perda de dois filhos prematuramente, nossa Imperatriz já idosa se recente da adversidade de viver essa perdas, e já bem debilitada na saúde recebe a notícia da revogação do banimento em 1920, mas já é tarde, seu estado de saúde não permite que ela regresse ao seu país, que por ter ela libertado os escravos premiou-a com o banimento. D. Isabel morre em Eu em 1921, seus restos mortais junto aos do marido seriam resgatado s pela república em 1953, em 1971,cinquenta anos após o seu falecimento seus restos mortais são transladados para o mausoléu da Casa Imperial, na catedral de Petrópolis, com honras de Chefe de Estado, sem perceber a república reconhecia naquele momento que estava sepultando ali, Isabel I, Imperatriz do Brasil.

O autor é economista, artista plástico, pós-graduado em história, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói e conselheiro-secretário do IDII.

Retratos do Império e do Exílio

A exposição Retratos do Império e do Exílio exibiu, no Instituto Moreira Salles, bairro da Gávea, Zona Sul do Rio, uma coleção de 150 fotos pertencentes ao acervo de Dom João Henrique de Orleans e Bragança. A Presidente do IDII realizou uma visita à exposição.

 

Documentário sobre a Redentora na TV BRASIL

O programa DE LÁ PRA CÁ, da TV Brasil, emissora da Empresa Brasil de Comunicação, exibiu hoje o documentário “Princesa Isabel”, conforme notícia veiculada na página do programa (v. abaixo).

Os vídeos já estão disponíveis no Youtube:

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http://tvbrasil.org.br/delapraca/

Dom, 22/05- 18h

Princesa Isabel

A história da redentora dos escravos

O historiador José Murilo de Carvalho fala da história da Princesa Isabel

Neste domingo (22), às 18h, a história da Princesa Isabel, a Redentora. Participam do programa, o historiador e diretor do Instituto Cultural D. Isabel, Bruno de Cerqueira; o historiador e autor dos livros A Redentora dos Escravos: um história da princesa entre olhares negros e brancos e Princesa Isabel: a política do amor entre o trono e o altar, Robert Daibert Junior; a historiadora de importantes livros oitocentistas, Mary Del Priore; e o historiador José Murilo de Carvalho.

Ao longo do século XIX somente nove mulheres estiveram à frente do governo de seus países. Uma dessas mulheres foi a Princesa Isabel, filha do Imperador D. Pedro II, herdeira do trono brasileiro. Ela o substituiu três vezes como chefe de Estado, na condição de Princesa Regente. Seu ato mais importante foi a assinatura da Lei Áurea, que libertou os escravos, em 13 de maio de 1888. Por isso, ela é lembrada na história brasileira como a redentora. A Abolição também precipitou a proclamação da República, que não hesitou em banir a Família Real. A princesa morreu no exílio, em 1921, sem nunca mais ter retornado ao Brasil. Apesar de ter sido uma figura importante da nossa história, não existem estudos suficientes sobre sua atuação como governante e nem a publicação de uma biografia consagradora.

Apresentação Ancelmo Gois e Vera Barroso
Direção geral José Araripe Jr
Direção Carolina Sá

Livre
Horário: 18h

Lançamento de “Dom Luís de Orléans e Bragança, peregrino de Impérios”, de Teresa Malatian

A Editora Alameda e a Livraria Cultura convidam para o lançamento do livro "Dom Luís de Orléans e Bragança, peregrino de Impérios", de Teresa Malatian, no dia 03 de novembro de 2010, às 18h30.


Favor abrir o arquivo do convite em PDF: convite_D._Luiz-_03-11[1]